Eis a questão: Deus criou o bem, mas ao mesmo tempo também criou o mal

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Luiz Felipe Pondé
Folha

Sensibilidade gnóstica implica um drama moral na criação e no criador

Ideia passa pela revelação de que uma crise atravessa ambos

Tese é de que o mal está enraizado na dimensão divina

A espiritualidade gnóstica é marcada, desde a Antiguidade, pela tese de que o mal está enraizado em alguma dimensão divina. O termo está ligado à heresia gnóstica cristã histórica, mas o adjetivo ganhou autonomia analítica. Toda sensibilidade gnóstica passa pela revelação —gnose— de que uma crise atravessa a criação e o criador, atribuindo-lhes um componente trágico.

Segundo o historiador David Flusser, no seu “Judaism of the Second Temple Period: Qumran and Apocalypticism, Vol. 1”, há elementos gnósticos nos escritos do mar Morto. Os qumranitas acreditavam numa predestinação divina para a existência dos filhos da luz e os filhos das trevas. Há um conflito ontológico e espiritual, causado pela própria divindade. Elemento gnóstico.

NA CABALA – O historiador da mística judaica Gershom Scholem, no seu “Kabbalah”, identificará elementos gnósticos no dualismo interno ao “Ein Sof” — o infinito divino anterior ao Deus propriamente criador. Conceito eminentemente cabalístico que desempenhará um papel importante na leitura que o “profeta” Nathan de Gaza fará do personagem conhecido como Sabatai Tzvi, o falso messias do século 17.

Essa dualidade divina era vista por Nathan de Gaza como sendo a causa do que hoje poderia ser chamado de bipolaridade do falso messias: numa hora, ele assumia esse papel, noutra o recusava sob crises depressivas. Quando Sabatai integrasse esses dois polos, a criação repousaria em paz.

Essa leitura do “Ein Sof” pressupunha dois polos internos à mesma divindade, em que um era a luz criadora e o outro, as trevas, sendo este resistente às formas criadas pelo princípio da luz criadora, gerando uma inércia interna ao princípio divino, materializada nas agonias e imperfeições da criação. Elemento gnóstico.

O ARCANJO CAÍDO – A literatura especializada também debate a presença de elementos gnósticos no yazidismo. Meses atrás, passei por esse tema e um leitor apontou uma inconsistência na identificação sumária entre Melek Ta’us, o arcanjo caído e redimido yazidi, e o mal.

O arcanjo representaria a potência tanto para o bem quanto para o mal, tanto para a luz como para as trevas, que habita o coração humano.

A fácil assimilação do arcanjo a figuras demoníacas, nas críticas islâmicas e cristãs, seria fruto de interpretações que não fazem jus à complexidade da mitologia oral yazidi, que atravessa a história religiosa, política e social desse povo, vítima de massacres, o último deles nas mãos do Estado Islâmico.

PLANO DIVINO – Nas palavras do historiador e anarquista Peter L. Wilson, no seu fascinante “Peacock Angel: The Esoteric Tradition of the Yezidis”, “de fato eles se afastam do islã e já no século 15 a seita era conhecida por cultuar o anjo pavão Melek Ta’us, uma figura frequentemente identificada com ‘o Diabo’ ou Satanás — daí a seita ser conhecida como ‘adoradores do Diabo’.

Como veremos, entretanto, a real situação é bem mais complexa do que isso”. Se o arcanjo yazidi cai em desgraça, num dado momento, como o anjo Lucífer, à diferença deste, ele se arrepende e volta a Deus — esse enredo acaba sendo um plano divino.

Mas, ao mesmo tempo, os yazidis creem que o mal é fruto do coração humano e não “culpa” do seu arcanjo, líder dos sete anjos que cuidam de uma criação abandonada por Deus, que perdeu o interesse na sua obra —esse desinteresse marca outro elemento gnóstico.

NO ALCORÃO – Outro nome do arcanjo é Shaytan, apontado por Wilson como o nome dado ao Satanás no Alcorão. Outra pista possível para a acusação falsa de que eles adorariam Satanás.

Mais uma referência importante sobre a religião yazidi, que a aproxima do gnosticismo, é a obra de 2010 da acadêmica húngara especialista em religião yazidi Eszter Spät, da Universidade Centro-Europeia, em Budapeste, “Late Antique Motifs in Yezidi Oral Tradition”.

Portanto, segundo a autora Eszter Spat, é possível se pensar numa origem gnóstica para a religião yazidi.

PRÉ-ISLAMISMO – No artigo “The Song of the Commoner: The Gnostic Call in the Yezidi Oral Tradition”, a pesquisadora húngara diz, ao apontar as influências pré-islâmicas na tradição yazidi, que “tais influências pré-islâmicas incluem o gnosticismo e o maniqueísmo”. Sendo o maniqueísmo, por sua vez, uma forma de gnosticismo com forte influência do zoroastrismo persa, que carrega na sua concepção cósmica um dualismo entre bem e mal no plano divino.

Satanás e Melek Ta’us não são a mesma entidade. Mas as relações entre gnosticismo e yazidismo permanecem como objeto consistente de debate entre especialistas. A criação abandonada por Deus e o drama moral do arcanjo marcam essa espiritualidade gnóstica.

3 thoughts on “Eis a questão: Deus criou o bem, mas ao mesmo tempo também criou o mal

  1. Abrólhos!
    Lêde tudo e retende o que é bom!
    “O que realmente significa comunhão?”

    “A definição da palavra comunhão é bastante intuitiva, uma vez que se deriva da palavra “comum”. Ter comunhão é, simplesmente, ter coisas em comum com alguém, seja em ideais, crenças, desejos, planos, gostos, torcida, trabalho, profissão, e a lista é bastante grande onde as pessoas podem ter coisas em comum, terem comunhão.

    Todos os grupos e facções, formados entre os homens, de alguma forma desfrutam de alguma comunhão. Os seguidores de determinada religião tem comunhão com outras pessoas que também seguem a mesma religião. Os profissionais de medicina desfrutam de uma comunhão no âmbito de sua profissão, dentro do conceito de “ter coisas em comum”. Podemos dizer que as pessoas que torcem por um time de futebol também desfrutam de comunhão, especialmente quando estão num estádio, unânimes, torcendo pela vitória do seu time. Elas tem algo em comum.

    Se deixarmos de lado os aspectos naturais de qualquer comunhão, e passarmos a considerar somente os aspectos espirituais da comunhão, que é o que realmente interessa, podemos entender que, em termos de comunhão espiritual, “ter coisas em comum” refere-se a coisas como “em que se crê”, “o que se pratica”, “onde se vai”, “que lugar se frequenta”, “que princípios se segue”, etc.

    Dentro do conceito de “ter coisas em comum”, podemos de imediato perceber a primeira importante realidade quanto à comunhão: comunhão nada tem a ver com estar junto ou proximidade. Estar reunidos num mesmo lugar, em nenhuma hipótese significa ter coisas em comum. Esta reunião de pessoas que não tem comunhão alguma é a base do que se chama “ecumenismo”. É a reunião sem comunhão. Proximidade física sem que se desfrute de qualquer coisa em comum. Pessoas que compartilham o espaço físico de um lar, numerosas vezes não desfrutam de coisas em comum em termos espirituais. Apesar de estarem “juntas” fisicamente, espiritualmente se encontram distantes e sem coisas em comum, sem comunhão.

    A segunda importante realidade que devemos perceber quanto à comunhão é que as pessoas buscam intensamente ter comunhão umas com as outras, dentro de suas crenças. Os seguidores de cada religião conversam entre si com vistas a estabelecer cada vez mais pontos comuns de concordância, a despeito destes pontos poderem estar totalmente equivocados. Neste caso eles vão adquirindo cada vez mais comunhão: comunhão no equívoco. Me parece claro que, comunhão, em si mesma, pode ser muito boa ou pode ser muito má, dependendo apenas de “quais coisas” as pessoas tem em comum.

    Como, pois, podemos saber se a comunhão que temos é boa ou é má? As Sagradas Escrituras nos dão claramente o padrão de comunhão pelo qual devemos nos guiar e entender com clareza.

    Em primeiro lugar, jamais devemos buscar ter comunhão uns com os outros. Parece estranha esta afirmativa? Deixe-me explicar: As Sagradas Escrituras nos afirmam que “A nossa comunhão é com o Pai”. Elas não dizem “uma de nossas comunhões”, nem dizem “a mais importante de todas as comunhões”. Ela é direta, clara e objetiva: “a nossa comunhão” – singular, única, exclusiva. Confira em 1 Yaohukhánan (corrompido como ‘João’) 1:3

    As escrituras falam de uma única e exclusiva comunhão em nossa vida e especifica que esta única comunhão é com o Pai.

    Ora, é errado que tenhamos comunhão uns com os outros? Certamente que não. É muito bom desfrutar de comunhão espiritual com outras pessoas e devemos realmente desejar isso de coração. Contudo, todo nosso esforço, dedicação, diligência, ânimo e zelo devem estar voltados para buscarmos ter mais e mais “coisas em comum” com o Pai, e não com os homens. Quanto mais “coisas em comum” eu tiver com o Pai, YAOHUH UL (IÁORRU UL), e quanto mais coisas você tiver em comum também com o Pai, CONSEQUENTEMENTE mais coisas nós dois teremos em comum, e consequentemente, maior comunhão. É aumentando a nossa comunhão com o Pai, YAOHUH UL (IÁORRU UL), que aumentaremos a comunhão entre nós, porque a nossa comunhão é com o Pai, não com os homens. Nossa comunhão com as pessoas aumenta somente em decorrência do aumento da comunhão de cada um com o Pai, YAOHUH UL (IÁORRU UL). Portanto, podemos entender nossa comunhão com as pessoas como “efeito” e nunca como “causa”.

    Porque é tão importante que a nossa única e exclusiva comunhão seja com o Pai?

    Existem diversos problemas decorrentes de uma busca de comunhão interpessoal independente da comunhão com o Pai. Um destes sérios problemas é o “efeito camaleão”: a pessoa que toma a cor do lugar onde se encontra para sempre ficar “de bem” com tudo e com todos. Este tipo de pessoa tende a ser sempre um “seguidor das massas”. Onde todos forem, é por ali que ele vai; afinal, ter comunhão com as pessoas ali é para ele muito importante, mais do que ter comunhão com o Pai. Este tipo de pessoa dificilmente poderá ser usado como um agente de mudanças e correção de rumo em qualquer lugar que frequente. Seu alvo não é ter coisas em comum com o Pai, que é o Padrão a ser seguido, mas sim, ter comunhão com as pessoas. Ele prefere estar no êrro e com falta de comunhão com o Pai, contanto que esteja bem com todos e seja bem considerado por todos. Geralmente ele evita confrontos e faz qualquer concessão com a verdade, se este for o preço de estar “em comunhão” com todos. Ele não é uma estaca firme e ponto de referência para os demais pela grande comunhão que desfrute com o Pai; pelo contrário, gosta de crer no que a maioria crê e fazer o que a maioria faz, independentemente de ser verdadeiro ou não, justo ou injusto.

    A maioria torna-se também, para este tipo de pessoa, uma referência constantemente citada em suas conversas ou quando porventura é questionado. Tomar uma posição que seja favorável à verdade e justiça, que porém vá contra a maioria, é muito difícil, senão impossível, para este tipo de pessoa. Há uma pergunta que tenho recebido muito frequentemente nestes últimos tempos que é um exemplo claro deste tipo de pessoa. A pergunta é a seguinte: “Você quer me dizer então que milhões de pessoas estão erradas no mundo”? Eu sempre respondo: “Desde quando números podem mudar a mentira em verdade, ou a injustiça em justiça”? Se dentro de minha comunhão com o Pai eu tiver de ser o único ser humano sobre a terra a crer em algo ou afirmar algo, certamente serei, pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? São muitas as passagens bíblicas onde se vê uma pessoa solitária afirmando coisas totalmente diferentes das crenças e práticas de toda a nação, inclusive com o risco de morrer, indo porém adiante sem esmorecer, valorizando sobremaneira sua comunhão com o Pai, em detrimento de sua comunhão com os homens.

    Se considerarmos os fatos e ensinamentos bíblicos, existe uma clara relação de POUCOS para MUITOS, dos que são salvos para os que se perdem. De toda uma geração que saiu do Egito, somente DOIS entraram na terra prometida. De toda uma geração antediluviana, somente uma única família foi salva. De Sedom (corrompido como “Sodoma’) e Amorah (corrompido como ‘Gomorra’) somente uma família escapou, e mesmo assim com a perda da mulher que olhou para trás. Este é o segundo grande perigo de se buscar comunhão direta com as pessoas e não uma comunhão que seja “efeito” de uma comunhão com o Pai, YAOHUH UL (IÁORRU UL).

    Dentro do contexto em que Yaohukhánan (corrompido como ‘João’) começa sua epístola, notamos claramente que ele está desejoso, muito desejoso, de ter comunhão com aqueles a quem suas palavras estavam sendo dirigidas naquela época, e até nós nos dias de hoje quando lemos. E ele deixa bem claro a qual comunhão ele está convidando. “Ora, a nossa comunhão é com o Pai…”. Nos versos seguintes, em especial os versos 6 e 7, visualizamos com extrema clareza a questão da comunhão com o “ter coisas em comum”. Yaohukhánan diz: “Se dissermos que mantemos comunhão com Ele (o Pai) e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade”. No verso 7 ele diz: “Se porém andarmos na luz, como Ele (o Pai) está na luz, mantemos comunhão uns com os outros…”. Ora, no verso 6, Yaohukhánan mostra com clareza que YAOHUH UL (IÁORRU UL) não tem trevas; logo aquele que andar em trevas não tem “coisas em comum” com Ele, não tem comunhão. E o mais maravilhoso ele diz a seguir, afirmando que se andarmos na luz, do mesmo jeito que YAOHUH UL (IÁORRU UL) está na luz (isto é comunhão com o Pai), então, e tão somente, mantemos comunhão uns com os outros. Se observarmos estas palavras com atenção e extrairmos tudo que elas realmente nos dizem, podemos concluir com paz que:
    Só há comunhão direta, dentro do conceito bíblico, com o Pai.
    Só há comunhão indireta, dentro do conceito bíblico, entre pessoas que estejam desfrutando de comunhão com o Pai.
    Não há comunhão alguma, no sentido escritural, entre pessoas que não desfrutam de comunhão com o Pai.
    Não há comunhão alguma entre duas pessoas, se uma desfrutar de comunhão com o Pai, e a outra não.”

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