A tragdia do retirante nordestino, no linguajar rude e verdadeiro do poeta Patativa do Assar

 melhor escrever errado a coisa certa... Patativa do Assar - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canes

Patativa do Assar, nome artstico de Antnio Gonalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assar, no Cear, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples e potica, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista, poeta e letrista, conforme podemos perceber na letra de Triste Partida, que relata fielmente a histria do sertanejo nordestino, que por falta de condies para sobreviver em meio seca, migra para o Sudeste procura de melhores condies de vida.

Em 1964, pela RCA Victor, Luiz Gonzaga lanou o LP que se tornaria clssico, com a toada A Triste Partida, que deu nome ao disco, verdadeiro manifesto sertanejo.

A TRISTE PARTIDA
Patativa do Assar

Meu Deus, meu Deus. . .
Setembro passou
Outubro e Novembro
J tamo em Dezembro
Meu Deus, que de ns,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai


A treze do ms
Ele fez experincia
Perdeu sua crena
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperana
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natal
Porm barra no veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito alm
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ningum v a barra
Pois a barra no tem
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo vero
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: isso castigo
no chove mais no
Ai, ai, ai, ai

Apela pra Maro
Que o ms preferido
Do santo querido
Senhor So Jos
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
T tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da f
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Comea a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Ns vamos a So Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai

Ns vamos a So Paulo
Que a coisa t feia
Por terras alheia
Ns vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
No for to mesquinho
C e pro mesmo cantinho
Ns torna a voltar
Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Int mesmo o galo
Venderam tambm
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

Em um caminho
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
J vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrvel
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra nat
Ai, ai, ai, ai

O carro j corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu bero, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte
J tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
To triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem d de comer?
Meu Deus, meu Deus
J outro pergunta
Mezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena
Tremendo de medo
Mame, meus brinquedo
Meu p de ful?
Meu Deus, meu Deus
Meu p de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Tambm l ficou
Ai, ai, ai, ai

E assim vo deixando
Com choro e gemido
Do bero querido
Cu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai

Chegaram em So Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patro
Meu Deus, meu Deus
S v cara estranha
De estranha gente
Tudo diferente
Do caro torro
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
Trs ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
S vive devendo
E assim vai sofrendo
sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notcia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as gua nos io
Comea a cair
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patro
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
No vorta mais no
Ai, ai, ai, ai

Distante da terra
To seca mas boa
Exposto garoa
lama e o paul
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
To forte, to bravo
Viver como escravo

5 thoughts on “A tragdia do retirante nordestino, no linguajar rude e verdadeiro do poeta Patativa do Assar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.