Abuso de popularidade

Carlos Chagas

Há que começar pelo óbvio, ou seja, reconhecer a imensa popularidade do presidente Lula. Tanto faz se pelo bolsa-família, por suas origens operárias, seus improvisos, sua presença permanente nos estados, a máquina espetacular de propaganda posta a  serviço do governo, as benesses espalhadas à máquina partidária que o apóia, com os companheiros à frente,  sua política econômica neoliberal, a boa vontade dos banqueiros…

A verdade é que o homem ultrapassa todos os limites, nas pesquisas. Importa, porém, atentar para o reverso da medalha. O saco de bondades tem sido tão grande que pouca gente se dá conta do crescimento do saco de maldades.

Só nos últimos dias o presidente Lula decidiu negar o reajuste de 7.7% aos aposentados que recebem pouco mais do que o salário mínimo. Fincou pé e o Congresso só aprovará 6%. Insurgiu-se também o primeiro-companheiro contra o projeto extinguindo o fator previdenciário, única forma de evitar que em poucos anos todos os aposentados sejam nivelados por baixo, isto é, pelo salário mínimo. Menos alguns privilegiados das “carreiras de estado”. Negou-se a suprimir o desconto para a Previdência Social pago pelos aposentados que continuam trabalhando. Sem esquecer sua intransigência em manter o corte de parcelas dos vencimentos de professores universitários, como no caso da UNB, em Brasília.

Em paralelo, ainda por conta da popularidade olímpica, comporta-se o chefe do governo como monarca absoluto, em matéria política. Impôs Dilma Rousseff ao próprio partido, exige a candidatura única, jogou Ciro Gomes às feras e estimula o PT a quebrar acordos nos  estados  onde a prevalência seria para outros partidos.

Todo esse comportamento exprime abuso de popularidade. Há quem preveja um furo no balão.

Deu cedo demais

Corre o Partido Socialista o risco daquelas meninas que dão cedo demais,  logo nos primeiros dias de namoro. Tornando-se fáceis, dificilmente chegam ao noivado, menos ainda ao casamento. Tudo bem, trata-se de uma opção dos tempos modernos, mas é bom tomar cuidado com os resultados. Depois, vão passando de mão em mão, para ficarmos numa fisiologia educada, perdendo as condições de realizar o sonho hoje  meio capenga de casar na Igreja e constituir família.

Os socialistas cederam  muito fácil à exigência de sacrificar Ciro Gomes. Querem o apoio do governo e do PT nas campanhas de governador em pelo menos oito estados.  Se conseguirem um, devem dar-se por satisfeitos.

Barro no ventilador

Por falar em Ciro Gomes, sua imprevisibilidade permanece a todo vapor. Na mais recente entrevista, concedida a uma rede de televisão até a madrugada de segunda-feira, jogou barro no ventilador. Chamou o PMDB de quadrilha, o PT e o PSDB de golpistas e o Lula, apesar de honesto, republicano e decente, de haver errado ao impor uma candidatura única à sua base aliada. Desfez os elogios anteriormente dedicados a José Serra quando exaltou  a competência de Dilma Rousseff. Não esqueceu de alfinetar Fernando Henrique Cardoso, para ele ligado a bandidos, sujos e  inescrupulosos.  Também enfeitou suas diatribes ao investir contra os institutos de pesquisa, salvando apenas o Datafolha, referindo-se ao dono do Ibope como vendedor de resultados, capaz de vender a própria mãe.

Trata-se da reação destemperada de quem se viu traído e alijado da sucessão presidencial por golpes e artimanhas variadas, mas a pergunta continua a mesma: para onde irão os votos de pelo menos 10% dos eleitores que apoiavam Ciro? Pelas pesquisas que ele agora abomina, em maioria para José Serra…

Para aviolência, nada?

Pisam em ovos os candidatos à presidência da República, aos governos estaduais e ao Congresso, evitando falar em profundidade de um dos maiores males que assolam o país, no caso, a multiplicação da violência. Os governistas, porque seria reconhecer o fracasso  de suas administrações no trato da questão. Os oposicionistas, porque bandidos também votam, em especial  quando seu número aumenta.

No âmbito estadual ou nacional, poderá afirmar-se o primeiro que se dispuser a enfrentar para valer o aumento da criminalidade. A pregar que lugar de bandido é na cadeia, e sem benefícios de espécie alguma. Porque quem vota  em número bem superior aos animais é  a maioria silenciosa,  exposta todos os dias à ação das feras postas fora da jaula, na maior parte dos casos  por desídia e incompetência das autoridades.

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