Até agora, uma campanha sem candidatos a vice-presidente, apesar da extraordinária importância dos vices na História do Brasil

Armando Prado:
Jornalista, a candidata é Dilma e ponto. O vice tem a importância de uma nota de 3 reais. O Brasil só sabe que o vice é José Alencar, pela má notícia da sua doença.”

Comentário de Helio Fernandes:
Desculpe, Armando, apesar das inúmeras e até repetidas mudanças de moedas, o Brasil foi muitas e muitas vezes dominado por esses “vices notas de 3 reais”. (Royalties para você mesmo). Vejamos a constatação dessa realidade, num “passeio” rápido pela “história dos vices”, desde o começo da República.

1 – Floriano Peixoto era VICE de Deodoro, eleito indiretamente em 25 de fevereiro de 1891. Deodoro governou apenas até 3 de novembro do mesmo ano, menos de 9 meses. A Constituição de 1891 determinava: “Se o presidente morrer, renunciar ou ficar incapacitado até a metade do mandato, o vice assume e realiza eleição em 60 dias. Depois da primeira metade, assume e completa o mandato”. Floriano tinha ainda 3 anos e 3 meses, ficou até o fim. Não fez eleição, desafiou o Senado e o Supremo.

2 – Prudente de Moraes, eleito em 1894, o “consolidador da República”. Candidato único e invencível, em 1896 teve que ser operado às pressas, diziam que “não se salvaria”. Assumiu o VICE Manuel Vitorino. Demitiu todos os ministros de Prudente e se estarreçam à vontade: mudou a sede do governo.

Era no belíssimo Palácio Itamaraty, passou a ser no “Palácio das Águias”, logo identificado como Palácio do Catete. Ficou quase 6 meses, surpreendentemente Prudente se salvou, reassumiu, o VICE baiano desapareceu.

3 –Em 15 de junho de 1909, morreu o presidente Afonso Pena. Como já havia cumprido mais da metade do mandato, deixou exatamente 17 meses para o VICE Nilo Peçanha. Como era inimigo irrevogável de Rui Barbosa, já candidato a presidente, começou a tragédia do grande baiano. (Mas isso já é outra história, embora tenha mudado o trajeto da República, para o bem ou para o mal).

4 – Hermes da Fonseca (sobrinho do primeiro presidente) e Wenceslau Brás, governaram os 4 anos. Mais do que governos, verdadeiras tragédias. Hermes derrotou Rui em 1910, em 1914 o baiano retirou a candidatura, voltou a disputar em 1918. Os grandes estados e o Partido Republicano (único), decidiram: “Para derrotar Rui, só Rodrigues Alves, que já havia sido presidente.

5 – Rodrigues Alves ganhou mesmo, sem campanha e sem sair de sua chácara em Guaratinguetá. Estava morrendo, nem tomaria posse. (Só morreria em janeiro de 1919). Assumiria então o VICE Delfim Moreira, que sofria das “faculdades mentais”. (Hoje seria chamado de maluco).

Teve que fazer eleições (o que Floriano não quis fazer), mas não tinha condições de governar. Com a escolha muito complicada, quem governou durante 9 meses foi o ministro da Viação de Wenceslau, já confirmado por Rodrigues Alves, Afrânio de Mello Franco. (Esse período é conhecido como “regência Mello Franco, Delfim só assinava, feliz da vida).

6 – Epitácio Pessoa (que estava no exterior) foi eleito sem vir ao Brasil (a Constituição de 1891 permitia, hoje não é mais possível). Depois, Arthur Bernardes, que ficou os 4 anos, apesar da formidável oposição dos militares, que não queriam empossá-lo nem deixar que governasse por causa das famosas “cartas falsas” injuriando militares. E Washington Luiz, governou quase o tempo inteiro. Faltaram 62 dias, até começar a ditadura Vargas, 15 anos criminosos.

7 –Vargas assumiu como “chefe do governo provisório”, depois mais 4 anos INDIRETOS por causa da traição do Congresso, com os “pelegos”, nomeados por ele mesmo. E finalmente, a partir do “Estado Novo” de 1937, ditadura ampla, geral e irrestrita. Naturalmente sem VICE.

8 –Derrubado Vargas, foi eleito (eleito?) o marechal Dutra, o FHC fardado. Passou o cargo ao próprio Vargas, que fez campanha e se elegeu, com a modificação infeliz da Constituição de 1946: os VICES também disputavam eleições, não se elegiam junto com o presidente, na mesma chapa.

9 – Como só sabia agir e governar DITATORIALMENTE, apesar da eleição ser separada, Vargas ofereceu a VICE a Ademar de Barros. Este, péssimo analista, chamado pelo Correio da Manhã (um dos grandes jornais da época) duas vezes de LADRÃO, (assim mesmo, sem disfarce vernacular) indicou Café Filho.

10 – Este, participou da Revolução Comunista de 1935, era grande ‘mitingueiro”. Se destacou na Câmara falando diariamente e terminado os discursos sempre desta forma: “Lembrai-vos de 37”. Como esse “37” era o “Estado Novo” de Vragas, não podia ser VICE.

11 – Eleito, Café assumiu, conspirou, ajudou a derrubar o presidente; Foram 3 anos, 7 meses e 24 dias até 24 de agosto de 1954, a mudança de tudo, com o golpe genial do suicídio de Vargas. Nesse 24 de agosto de 1954, assumiu mais um VICE, o grande conspirador Café Filho.

12 – Só que Café Filho foi um dos raros presidentes honestíssimos, não se interessava por negócios ou negociatas. Também não tinha filhos ou parentes a nomear. Jamais tratou de dinheiro, não tinha como viver. VICE, morava na Avenida Copacabana, esquina de Joaquim Nabuco, num apartamento mínimo de 1º andar, em cima de um restaurante e de um barbeiro. Depois de presidente, voltou a morar ali, mas não tinha como viver. Lacerda governador, nomeou-o ministro (se chamava assim) do Tribunal de Contas do Estado.

13 – Veio Juscelino, que completou o mandato. (Então de 5 anos, ótimo, o presidente se elegia sozinho, os outros mandatos eram todos preenchidos em anos pares). De 20 em 20 anos, as eleições “coincidiam”, 4 e 5 são múltiplos de 20. Mas quem, no Brasil, ousaria pensar numa democracia com 20 anos de estabilidade?

14 – Antes da nova ditadura, JK foi o único a exercer o mandato inteiro. Depois dele apareceu o “trêfego peralta” (Jânio Quadros, quem não sabe?) que pretendia transformar o mandato de prazo certo numa “eternidade” incerta. Não conseguiu, assumiu mais um VICE, João Goulart. Que não terminaria.

15 – Nos 21 anos da segunda ditadura, os VICES não assumiam, civis ou militares (almirante Rademaker). O único que escapou foi Aureliano Chaves, pelo prestígio pessoal, e por já estarmos em 1981. O “presidente” era Figueiredo, que depois do “prendo e arrebendo”, estava num hospital de Cleveland.

16 – Terminada a ditadura, os dois primeiros presidentes não assumiram ou não completaram o mandato, um indireto, o outro direto. Tancredo ficou no hospital, assumiu Sarney o tempo inteiro, de acordo com a Constituição. (Como VICE, no cargo, Sarney não será ultrapassado). A seguir, Collor sofreu o impeachment, assumiu o VICE Itamar.

17 – A partir daí, e completando 16 anos no final deste 2010, dois presidentes que cumpriram o mandato inteiro. Mesmo FHC rasgando a Constituição com a força do dinheiro e violentando a cláusula pétrea da não reeeleição.

***

PS – Esperamos que, ganhe quem ganhar, complete o mandato. E se possível, governando para a coletividade majoritária mas amordaçada, em vez de favorecer a elite minoritária mas dominadora.

PS2 – Um abraço, Armando Prado. Examine com atenção o VICE do seu presidenciável, e constate por estas recordações simples e singelas, a importância que os VICES têm na nossa História.

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