Banalidade do mal e a desobedincia s leis

Frederico Duboc
No mesmo dia em que pesquisadores da Escola de Direito da Fundao Getlio Vargas revelavam que 82% dos brasileiros consideram fcil desobedecer s leis, em outro canto de So Paulo, o delegado aposentado Cludio Guerra relatava que grupos de repressores permanecem ativos como espies ou seguranas privados quase 30 anos aps o fim da ditadura. O que une essas duas notcias no a coincidncia de data ou de cidade, mas a constatao de que a banalizao do mal no ficou no passado.
Em seu depoimento para parlamentares que investigam o regime militar, Guerra afirma que um grupo chamado “Irmandade” influenciaria at hoje decises de rgos oficiais em troca de favores. Seus integrantes seriam ex-membros das Foras Armadas, das polcias e do extinto Servio Nacional de Informaes (SNI), que executavam militantes nos anos 60 e levavam os corpos para ser incinerados em usinas de acar, pois enterrar as vtimas no estava mais dando certo. O delegado explica os fatos do passado com clareza e racionalidade constrangedoras. “Foi errado? Foi, mas ns fizemos. Ns acreditvamos no que estvamos fazendo”.

PATOLOGIA CRIMINAL
Tambm no h patologia explcita na transgresso cometida pelo brasileiro do estudo da FGV. Em 99% dos casos, ele sabe que condenvel dirigir bbado, furtar quinquilharias das lojas ou jogar lixo nas ruas, mas comete esses atos mesmo assim, pois o desejo do indivduo soberano. O homem, e somente ele, sabe o que bom para si e acredita estar fazendo o melhor e o mais certo.Seja estacionando o carro numa vaga para deficientes, seja tentando afastar a “ameaa comunista”, as aes so julgadas pela eficincia, e no por noes, cada vez menos distinguveis, de bem ou de mal. So esses elementos, tanto quanto a distncia no tempo, que permitem at mesmo jovens de 20 anos dizerem: “Na poca da ditadura que era bom” ou “Hitler estava certo”. Uma sociedade que valoriza a obteno de resultados imediatos e deprecia valores torna o autoritarismo, ao mesmo tempo, tentador e invisvel.

No devemos menosprezar esses sinais e fechar os olhos como se no agssemos assim tambm. Talvez devssemos virar a luz do interrogatrio para nossos rostos e instaurarmos nossa prpria comisso da verdade. Identificarmos que, por trs das pequenas transgresses, age o mesmo mecanismo dos grandes crimes. Reconhecermos que o individualismo nos cega para a necessidade do outro. E, principalmente, admitirmos que a nossa omisso – ainda mais que as nossas aes – nos torna cmplices da perpetuao de ditaduras.

(transcrito de O Tempo)
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One thought on “Banalidade do mal e a desobedincia s leis

  1. Bem, o indvduo realmente soberano. O problema que ele mal educado desde as bases, partindo da casa at dar seus primeiros passos na escola. Nesta, ele deveria ser orientado (e no doutrinado) a agir em favor do bem comum, sem que este bem comum signifique a genuflexo a regimes que, na sua essncia, anseiam por uma forma, ainda que suave em um primeiro momento, de totalitarismo.

    No se pode, por conta de especificidades culturais ,propor nas entrelinhas uma supraconscincia poltica repressora. No. O caminho outro. Se o brasileiro, de modo geral, reservasse suas energias para causas REALMENTE relevantes, em vez de ir s ruas erguer bandeiras na hora do rush e escolher judas de ocasio , as coisas gradativamente poderiam se encaixar. Mas como este no o projeto, resta insuflar o povo e mold-lo gradualmente para que, sem que se d conta, se torne nada mais do que uma ovelhinha a dizer, sempre , “sim, senhor!”…

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