Histrias do cacique baiano Antonio Carlos Magalhes que deixaram de ser contadas

Roberto Marinho e ACM eram amigos fraternos

Sebastio Nery

Em 1952, Antonio Carlos Magalhes, mdico sem medicina, funcionrio sem funo da Assembleia Legislativa da Bahia (redator de debates) e reprter poltico do jornal O Estado da Bahia na Assembleia, ficou furioso com um discurso do lder do PSD criticando o ex-interventor e lder da UDN no Estado, Juracy Magalhes, e gritou:

Cala a boca, idiota!

Perdeu o emprego e ganhou a proteo de Juracy, amigo de seu pai, o mdico e ex-deputado Francisco Magalhes, e de seu padrinho, o reitor da Universidade Federal Edgard Santos. Em 1954, Juracy o ps na chapa para deputado estadual. No se elegeu, ficou como primeiro suplente.

ELEIO SUPLEMENTAR – Mas naquele tempo havia eleio suplementar sempre que, por algum motivo, no se realizava em algum municpio. Antonio Balbino, o governador eleito pelo PTB, com a UDN e uma dissidncia do PSD, forou a barra e garantiu a eleio de Antonio Carlos na eleio suplementar.

Antonio Carlos chegou Assembleia e virou lder da oposio de mentirinha ao governo de Balbino. O lder do governo era Waldir Pires, do PTB-PSD. Em 1958, Antonio Carlos e Waldir se elegeram deputados federais. Antonio Carlos pela UDN, Waldir pelo PSD. Waldir eleito por Balbino. Antonio Carlos por Juracy e por Balbino, a quem sempre chamou de patro.

LACERDA COBROU – Na Cmara, embora da bancada da UDN, liderada por Carlos Lacerda, que agressivamente combatia Juscelino, logo Antonio Carlos se tornou amigo de infncia de JK, com direito a poderes federais na Bahia. Lacerda cobrou:

Soube que voc esteve ontem em segredo com o Juscelino.

Estive com ele, sim, s 11 horas. E o Magalhes Pinto esteve s 7:30.

Em 1961, na Cmara, o deputado Tenrio Cavalcanti, seu colega da UDN do Rio, atacava o ex-ministro da Educao de Dutra e ministro da Fazenda de Jnio, o baiano Clemente Mariani, dono do Banco da Bahia. ACM o aparteou: V. Excia pode dizer o que quiser, mas na verdade o que V. Excia mesmo um protetor do jogo e do lenocnio, porque um ladro.

VAI MORRER AGORA – Tenrio sacou um revolver:

Vai morrer agora mesmo!

Atira!

Nem Tenrio atirou nem Antonio Carlos morreu.

Dez anos depois, em 1972, Antonio Carlos, governador nomeado da Bahia, soube que o banqueiro Clemente Mariani, pressionado por Delfim Neto, ia vender o Banco da Bahia ao Bradesco. Chamou Mariani ao palcio:

Doutor Mariani, isso ruim para a Bahia. Se o senhor quer vender o banco, o Estado compra pelo preo que o senhor vai vender.

No, Antonio Carlos. No vou vender. Voc acha que eu teria condies de vender o Banco da Bahia e me enterrar na Bahia?

VINGANA DE ACM – No dia 2 de julho de 1973, Antonio Carlos voltava da parada da Independncia da Bahia, o advogado Prisco Paraso lhe telefonou do Rio comunicando que o Banco da Bahia tinha sido vendido ao Bradesco. O governador chegou ao palcio, fez um decreto desapropriando a casa de Clemente Mariani e transformando-a numa escola para excepcionais.

No era uma casa qualquer. Era um belo latifndio urbano, no alto do morro da Barra, por cima da praia da Barra. O mundo quase veio abaixo. Mariani era o dono da Bahia. Recorreu justia, que manteve a desapropriao, por interesse e utilidade publica.

NO COMETA O ERRO – Em 1967, presidente estadual da Arena, Antonio Carlos foi nomeado prefeito de Salvador. Eu cassado, encontrei-o no hotel Califrnia, no Rio:

Antonio Carlos, voc jovem (40 anos), no cometa o erro de Juracy, que quis fazer da Bahia uma Capitania Hereditria e no fez nem o sucessor.

Pois vou fazer mais do que ele fez. Juracy mandou 30 anos na Bahia, de 1932 a 1962. Vou mandar 40 anos. (Mandou de 1967 a 2007).

Murilo Melo Filho conta como Juscelino conseguiu o primeiro milagre de Braslia

TRIBUNA DA INTERNET | O primeiro milagre de Brasilia foi uma chuva ...

JK e Adolpho Bloch, um de seus melhores e mais fiis amigos

Sebastio Nery

Trs dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luzinia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Braslia. Estava triste e deprimido por tantas injustias e perseguies, e fez a esse seu primo e meu xar a seguinte confisso que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

Meu tempo, aqui na terra, est acabado. Tenho o qu, de vida? Mais dois, trs ou cinco anos? O que eu mais quero agora morrer. No tenho mais idade para esperar. Meu nico desejo era ver o Brasil retornar normalidade democrtica. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora.

JK ESTAVA SEM DINHEIRO – Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimares e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para So Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em So Paulo.

No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

Ele deu-me um abrao to forte e to prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ltimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Braslia.

E morreu dormindo. Mas, desde a vspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a So Paulo busc-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

PERGUNTA-SE HOJE Por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real inteno de no ir para Braslia e sim de retornar ao Rio? No queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso? E era.

Esta uma das muitas, numerosas histrias contadas pelo veterano jornalista e acadmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revoluo de 30), com mais de meio sculo de redaes, em seu livro, Tempo Diferente, primorosa edio da Topbooks, sobre 20 personalidades da poltica, da literatura e do jornalismo brasileiro:

Aqui esto contadas histrias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literrio e poltico do pas, que viveram num tempo diferente: Getlio, JK, Jnio, Caf Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristo de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregsilo de Athayde, Guimares Rosa, Jorge Amado, Jos Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.

NA TRIBUNA DA IMPRENSA Conta Murilo Melo Filho: Eu era ento (em 1956) chefe da seo poltica da Tribuna da Imprensa, jornal de oposio, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, ele sempre me distinguiu com especial ateno e, na sua segunda viagem a Braslia, me convidou para acompanh-lo.

Samos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho. s quatro horas da madrugada do dia 2 de outubro, ainda noite escura, JK j estava de palet esporte, camisa de gola role, chapu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as futuras obras. Braslia era um imenso descampado:

Aqui ser o Senado, ao lado da Cmara, mais adiante os Ministrios. No outro lado, o Supremo e o Palcio do Planalto, onde irei despachar.

Naquela nossa primeira noite em Braslia, aps um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de usque, que era bebido ao natural, isto , quente, porque em Braslia no havia ainda energia eltrica e, portanto, no havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou:

Vocs sabem que eu no gosto de usque. Mas que uma pedrinha de gelo, a nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o cu se enfarruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele Planalto, levando os bomios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar usque com gelo.

Era o primeiro milagre de Braslia.

BILHETE DE ADOLPHO – E este bilhete de Adolfph Bloch a Murilo Melo Filho, que ia ser o primeiro diretor da sucursal da Manchete em Braslia:

“Murilo, ai vai esta lancha para voc fazer relaes pblicas no lago de Braslia. No faa economia em relaes publicas. Ns, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relaes pblicas. E fizemos um mau negcio, porque um homem como aquele no se perde.

Quando Salvador era a “Bahia” e Sebastio Nery era um piedoso seminarista…

O professor de grego'' - Blog Marcos Frahm

Aos 15 anos, Nery chegou a Salvador no carnaval

Sebastio Nery

Em 1948 Salvador no existia. Era a Bahia. O interior inteiro, quando ia para a capital, dizia que estava indo para a Bahia. E a Bahia foi minha primeira grande aventura externa. Sa de Jaguaquara para a Bahia.

E chegou o mar. Nunca tinha visto o mar. Sabia que era grande e ameaador. E ia ter que tomar o navio da Bahiana, da Companhia Navegao Baiana, que fazia Salvador e os outros portos da baa de Todos os Santos. De repente, numa curva, vi ao longe aquela coisa azul, enorme, espichada, como um imenso animal deitado. Era o mar.

BELO ANIMAL AZUL – O corao disparou. O trem foi se aproximando, parou perto. Fui comer meu camaro com chuchu, mas de olho no belo animal azul.

O trem parava em So Roque, havia uma meia hora para o pequeno navio sair. Corramos em disparada para as barracas das baianas do camaro com chuchu, a maior contribuio culinria dos africanos cozinha brasileira. Maior do que a feijoada, porque a feijoada complexa. Camaro com chuchu simples, come-se com colher.

Entrei no navio, fui para a varanda, ele comeou a balanar. No muito, mas tambm no pouco. Todo navio balana. No adianta propaganda. O homem jamais vai domar o animal azul.

AS LUZES ERAM PROLAS – Mas eu queria ver Salvador nascer de dentro do animal azul. medida que o navio andava, um infinito cordo de prolas comeou a brilhar l ao longe, no comeo midas, depois crescendo, aumentando, at que viraram luzes, as luzes de Salvador, da ponta da Barra at Itapagipe.

Viso magnfica, inesquecvel, para quem, como eu, via pela primeira vez. Uma cidade saindo do ventre das guas, como um parto no cu.

Com minha malinha de seminarista pobre, que estava se mudando do Seminrio de Amargosa, onde estudei quatro anos, para o grandioso e glorioso Seminrio Central de Santa Tereza, hoje Museu de Arte Sacra, era uma aventura. Entrei no elevador Lacerda metade com medo metade encantado. E l de cima, abertas as portas, o animal azul l embaixo e a ilha de Itaparica piscando luzes como se fosse um prespio de Deus.

TRS DIAS DE CARNAVAL – Mas o seminrio s comeava no primeiro dia til de fevereiro. E aquele fim de semana era Carnaval. De batina preta, chapu preto, 15 anos, ca nos braos da enlouquecida rua Chile, com seus carros alegricos e cordes de fantasias, mulheres lindas desfilando suas longas coxas mgicas.

No havia outro caminho, era atravessar de ponta a ponta. E o povo surpreso com aquele padreco todo de preto, perdido no meio da folia. Meu roteiro era passar o fim de semana, sexta, sbado e domingo, em um pequeno hotel na rua Rui Barbosa, ao lado da Chile, e segunda-feira ir para o Santa Tereza. At l, noites inteiras na janela, vendo os carros desfilando, os blocos passando, homens e mulheres sambando e o povo cantando.

Diziam-me que Carnaval era coisa do Diabo. No achei. Gostei muito.

REPETINDO CAMINHO – Sair do Seminrio para fazer qualquer coisa na rua era antes de tudo repetir o belo e voluptuoso caminho do primeiro dia: subir a ladeira de Santa Tereza, virar a Carlos Gomes esquerda, atravessar a praa Castro Alves, passar toda a rua Chile, entrar na praa Municipal, seguir pela Misericrdia, chegar praa da S e ao Terreiro de Jesus.

Em 1948 no era uma caminhada. Era um desfile. No fim da tarde, na rua Chile, os homens de um lado, ternos de linho branco, chapu e gravata, lencinho branco no bolso do palet. Do outro, as mulheres, elegantes, cheirosas, vestidos longos, chapus largos.

A Semana Santa, para o Cristo, era um sofrimento. Para ns seminaristas, uma festa. Quase todos os dias, s vezes de manh, s vezes de tarde, amos todos monumental catedral, no Terreiro de Jesus. Do seminrio at l, uma estirada. Na Castro Alves, rua Chile, praa Municipal, Misericrdia, Praa da S, os engraadinhos se divertiam: Formigo! Formigo!

CANTANDO NO CORO – No podamos responder nada. Nas cerimnias, pomposos sermes barrocos de Dom Augusto, cnego Curvelo, padre Gaspar Sadoc, padre Guerreiro, monsenhor Trabuco. E o coro do Seminrio cantando solene.

Eu fazia parte do coro. Achava-me desentoado, pedia para sair, mas monsenhor Amlcar, de Feira de Santana, professor de musica, dizia que era s mudana de voz. Logo estaria cantando bem. Errou. No aconteceu.

Mesmo assim, um dia me escalou para fazer um solo em canto gregoriano. Entrei l pela frente, o Missal aberto, cantando a plenos pulmes. A catedral era longa, o texto grande. Fui at o altar, deixei o Missal e minha carreira de cantor. E ainda ganhei os aplausos de monsenhor Amlcar. Desconfio que ele era meio surdo.

Memrias de um tempo em que Braslia ainda era apenas um sonho de JK

Construo de Braslia custou US$ 1,5 bilho em valor de 1960 ...

Kubitschek e Lcio Costa, o urbanista que projetou a nova capital

Sebastio Nery

No dia 18 de abril de 1956, um ano depois do comcio de Jata, em Gois, em que prometeu fazer Braslia e transferir a capital para o centro do pas, Juscelino, presidente, ia para Manaus com mais de 70 pessoas em dois avies. Estavam o presidente, o marechal Lott ministro da Guerra, e outros ministros. Ele anunciou que ia descer em Goinia para assinar a mensagem ao Congresso propondo a construo da capital.

No aeroporto, o governador Juca Ludovico e uma multido. O avio no conseguiu descer. Rodou uma hora e no desceu. Contou nas memrias: De repente apareceu uma nuvem branca, densa,com cara de ameaa.

ASSINOU NO BOTEQUIM – Desceram em Anpolis, ali perto. A nica coisa aberta era um botequim. E s 4h30 da madrugada, no botequim, presentes 25 pessoas, Juscelino assinou a mensagem propondo a criao de Braslia.

Diz-se por a, inclusive na TV Senado, que a aprovao foi unnime. Nada disso. Uma pauleira. De 5 de abril a 16 de setembro de 56 cinco meses a imprensa do Rio fez uma campanha brutal contra. O Globo, o Correio da Manh, o Dirio de Notcias, at o Jornal do Brasil, que a apoiou na constituinte de 1891, e o Estado de S. Paulo, combateram muito. E a Light, o polvo canadense, financiando a campanha.

A votao no Congresso foi dura. Nas comisses da Cmara, nunca houve mais de trs votos de diferena. No plenrio, quem desempatou a favor de Braslia foi o PSP de Adhemar de Barros, graas ao trabalho de seu lder, o bravo e universal deputado Neiva Moreira, depois do PDT do Maranho.

ENCHEU DOIS AVIES – Aprovada a construo no Congresso em 19 de setembro de 56, JK no perdeu tempo. No dia 2 de outubro, encheu dois avies da FAB com Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, o ministro da Guerra marechal Lott, o chefe da Casa Militar Nelson de Mello, o ministro de Obras Pblicas Lcio Meira, outros, desceram no aeroporto improvisado do marechal Jos Pessoa, onde hoje a rodoferroviria.

E Juscelino fez o histrico discurso, escrito pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, cujo comeo est gravado em mrmore na praa dos Trs Poderes:

Deste Planalto Central, nesta solido que em breve ser o crebro das decises nacionais Estamos aqui para construir a capital administrativa do pas e o novo plo de desenvolvimento do Planalto Central e do Centro-Oeste.

EM CIMA DO NADA – Perdi a cena. O Jornal do Povo, por pobreza, no me mandou. Mas, duas semanas depois, no dia 18, fui com outros jornalistas em um aviozinho do governo de Minas. Juscelino comeava a plantar Braslia em cima do nada. Apenas o cerrado verde sem fim e o horizonte infinito. O marechal Lott ficava de braos cruzados olhando o planalto imenso:

Como que vai ser, general?

No sei.

Juscelino, Lcio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, sabiam.

Nos meses de outubro, novembro, dezembro, no mnimo cinquenta voos saram do Rio ou de Belo Horizonte levando senadores, deputados, jornalistas, empresrios. Queriam ver para crer. A maioria, para no crer.

UISQUE NA CABANA – Quando cheguei no dia 18, Niemeyer estava l. Tinha ido no dia 2, cheio de medo. No gostava de avio. Trabalhavam como mouros. noite bebiam usque numa cabana do Ncleo Bandeirantes, que depois virou o Hotel Rio de Janeiro, onde tantas vezes nos hospedvamos.

Niemeyer e Juca Chaves, dono do lendrio Jucas Bar, no hotel Ambassador, no centro do Rio, do pai do saudoso Mrcio Moreira Alves, fizeram um emprstimo de 500 contos no Banco Minas Gerais, com Maurcio Chagas Bicalho, e construram o Catetinho, para hospedar JK.

Em novembro, Juscelino voava com um grupo de jornalistas e falava sobre o lago Parano, a ser represado. Um jornalista mineiro no acreditou:

Presidente, no h gua para encher esse lago de que o senhor fala.

No tem importncia. Se no houver gua, encheremos com cuspe.

FRASE DE BALBINO – Alguns iam, se empolgavam. O governador da Bahia Antonio Balbino foi nos primeiros dias e fez uma frase manchete da ltima Hora:

Braslia vai ser construda porque Juscelino quer e porque o povo brasileiro quer, apesar dos que no querem.

Outros no iam, no viam e no gostavam. O Jornal do Brasil dizia que no ia acontecer nada, que era uma parania de Juscelino. Roberto Campos deu entrevista ao Globo dizendo que era uma irresponsabilidade e que os americanos eram contra.

O RICO CERRADO – O resto a nao sabe. Braslia est a e o Brasil Central, o Brasil do Norte-Centro-Oeste, conquistado e unificado por Braslia, o responsvel hoje pela produo e exportao agro pecuria nacional. E Juscelino est l, de p, mo direita para o infinito, vendo a capital que h 60 anos nasceu de seu sonho e da utopia e grandeza de tantos.

A Historia isso. Quem abre caminhos corre o risco das cobras, mas aos ps dos que vo na frente que as borboletas se levantam.

Fazendo justia a Calabar, um patriota que foi desonrado, como tantos outros

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Assim como Tiradentes, Calabra foi morto e esquartejado

Sebastio Nery

A me era ndia da tribo Tupi, tinha nome bonito, ngela lvares, e possua fartos haveres. O pai, ningum nunca soube. Certamente um padre. Caboclinho mestio, mulato, no tinha boa presena e possua feies grosseiras. Educado pelos jesutas de Olinda, dominava outras lnguas. Culto, ambicioso, inteligente, prospero senhor de engenho, possua trs grandes engenhos cobertos de cana de acar.

Domingos Fernandes Calabar, jovem, valente, primeiro heri brasileiro (nasceu em 1600 e morreu em 1635), entrou para a Histria do Brasil pela porta dos fundos. Como traidor. Uma brutal mentira da Histria oficial. Napoleo j dizia que a Histria a crnica dos vencedores.

FAZENDO JUSTIA – Mas sua terra comeou a lhe fazer justia. O prefeito Carlos Eurico Leo e Lima oficializou o orgulho dos conterrneos, na entrada da cidade: Porto Calvo, terra de Calabar.

Os poetas sabiam. Jos Bonifcio, o Moo (1827-1886), tinha avisado: Oh, no vendeu-se, no! / Ele era escravo / do jugo portugus. / Queria a vingana. / Abriu sua alma s ambies de um bravo.

O tambm alagoano Jorge de Lima (1895-1953) confirmou: Domingos Fernandes Calabar / eu te perdo! / Tu no sabias / decerto o que fazias, / filho cafuz / de Sinh ngela do Arraial do Bom Jesus. / Combateu. Pelejou. Entre a batalha / viu essas vidas que no p se somem. / Enrolou-se da Ptria na mortalha, / ergueu-se inda era um homem!

ELOGIO DA TRAIO – E, apesar da censura da ditadura, que vetou a pea Calabar, O Elogio da Traio, as msicas e versos de Chico Buarque e Ruy Guerra continuam ai, belssimos, imortais, em um dos mais fortes instantes da msica e do teatro do pas.

Subir os 20 quilmetros de rio que ligam o mar de Alagoas, em Porto de Pedras, a Porto Calvo, define a loucura das naes, com a Holanda invadindo e Portugal e Espanha, que chegaram antes, defendendo um mundo, vasto mundo, que era s mato e ndio, mas com ricas terras para cana de acar.

CERCO A SALVADOR Em abril de 1624, 26 navios com 3.500 holandeses cercam e invadem Salvador, na Bahia, encontram apenas o governador Diogo de Mendona Furtado e familiares, mas no foram alem dos muros da cidade, encurralados pelos guerrilheiros do arraial do Rio Vermelho, sob a chefia do bispo Dom Marcos Teixeira. O almirante Willekens voltou Holanda, o coronel Van Dorth morreu vitima de emboscada, o comandante Schouten faleceu por excesso de bebida, substitudo pelo irmo Willem, igualmente dado embriaguez. Em abril de 1625, poderosa armada luso-espanhola reconquistou a Bahia. Em fevereiro de 1630, os holandeses voltaram com 67 navios e 7 mil homens, mas para Olinda e Recife. O governador Matias de Albuquerque no pde resistir, construiu o Arraial do Bom Jesus, onde, recorrendo a guerrilhas, ficou at 1635 e se retirou para as Alagoas (EB).

MELHORAR A TERRA Calabar durante anos foi um comandado de Matias Albuquerque. Quando o general espanhol Bagnuolo veio inesperadamente da Espanha para substituir Matias de Albuquerque, Calabar mandou uma carta para Matias de Albuquerque, voltou para Porto Calvo e se aliou aos holandeses sem querer recompensa nem coisa alguma, mas para melhorar minha terra, que no tem liberdade de espcie alguma, e com a mesma sinceridade e o mesmo ardor com que me bati pela vossa bandeira, me baterei pela bandeira da liberdade do Brasil, que agora a holandesa; tomo Deus por testemunha de que meu procedimento o da minha conscincia de verdadeiro patriota; como homem tenho o direito de derramar meu sangue pelo ideal que quiser escolher.

ESCOLAS E TEATRO Porto Calvo na poca possua at escolas e teatro. Os holandeses j haviam ocupado o povoado, subindo o rio por Porto de Pedras, com 25 navios e 4 mil homens. Em julho de 1635, chegaram os espanhis e portugueses e, na batalha de Porto Calvo, derrotaram os holandeses, tomaram o forte do Alto da Fora, enforcaram Calabar, esquartejaram-no, colocaram seus pedaos nas arvores das principais ruas do centro do povoado e foram embora. Os holandeses voltaram por Barra Grande, em Maragogi, recolheram os pedaos de Calabar, o enterraram na Igreja Nova, hoje Matriz de Nossa Senhora da Apresentao e obrigaram a populao a lavar as ruas por onde ele passou.

Mas no s Calabar orgulha esta histrica cidade. Aqui nasceu e lutou, ao lado dos portugueses e espanhis, a primeira Anita Garibaldi, Clara Camaro, que aos 16 anos se casou com o guerrilheiro Felipe Camaro, nascido no Rio Grande do Norte, sempre montada no seu cavalo branco.

ZUMBI DOS PALMARES – Tambm aqui nasceu Zumbi, o heri negro de Palmares, para onde fugiu frente de 40 escravos negros vindos da Guin. Como Calabar, criado por um padre, entre a casa paroquial e a sacristia.

E acabou vivendo no quilombo com Maria, que se acredita filha de uma irm do fundador da cidade, capito Cristvo, com o padre Gurgel, proco de Porto Calvo.

a Histria do Brasil que no se conhece.

A orelha mordida na hora do casamento e as histrias de D. Joo VI no Brasil

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D. Joao Vi e Carlota Joaquina fizeram a diferena no Brasil colonial

Sebastio Nery

Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom Joo. No cerne dos problemas da famlia real portuguesa, estava um casamento to desastroso que, em alguns momentos, suas consequncias transbordariam para o domnio pblico.

Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do prncipe das Astrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom Joo (prncipe de Portugal), ento com 18 anos, em 1785, quando contava apenas 10 anos (o casamento s se consumou em 1790, quando ela fez 15 anos). Selada por razes de Estado, a unio deu continuidade a uma tradio de casamentos entre as cortes espanhola e portuguesa. O casal teve nove filhos

NA PRAA XV – E foi assim, de uma mordida na orelha do noivo na hora do casamento, da demncia da rainha-me louca e fugindo de Napoleo que invadia Portugal, que o prncipe do Brasil, Dom Joo (a partir de 1815, Dom Joo VI), desembarcou na Praa XV, no Rio de Janeiro, em 8 de maro de 1808, e o Rio se transformou na capital do Imprio Portugus.

Foi uma aventura para humilhar qualquer Manoel Carlos ou Gloria Perez. Essa histria recheada de personagens extravagantes contada, dia a dia, com notvel maestria, pelo jornalista australiano, radicado em Londres, Patrick Wilcken, que se baseou em documentos brasileiros e portugueses, alm de pesquisas no ministrio de relaes exteriores britnico: Empire Adrift The Portuguese Court in Rio de Janeiro 1808-1821 (Imprio Deriva A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821).

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ALGUNS TRECHOS DA OBRA DE WILCKEN

A famlia real dividiu-se entre quatro navios. O Alfonso de Albuquerque trouxe dona Carlota e quatro de suas seis filhas. As duas filhas do meio viajaram no Rainha de Portugal, enquanto os membros inferiores do cortejo real a tia e a cunhada idosas de Dom Joo, ficaram a bordo do Prncipe do Brasil. Na nau capitnea, a Prncipe Real, embarcaram Dom Joo, a Rainha Maria I, a Louca, e os herdeiros vares Pedro e Miguel.

Dona Carlota era minscula, baixa, menos de um metro e meio, de feies andaluzas morenas e usando um curioso turbante para cobrir a cabea raspada. Dom Joo, um homem baixo e corpulento, de cabea grande e braos e pernas troncudos. A famlia real passou um ms descansando em Salvador. Em 8 de maro, desembarcaram no Rio. Durante um curto perodo, dom Joo e Dona Carlota dormiam em quartos situados no mesmo corredor, um em frente ao outro. Mas esse arranjo no durou muito. Os dois no tardaram a morar em extremos opostos da cidade, com os familiares divididos entre eles.

O Rio era menor do que Salvador: 60 mil habitantes na chegada da famlia real. O vice-rei invocou uma lei impopular que dava coroa o direito de confiscar casas particulares. Funcionrios percorriam a cidade, escolhendo arbitrariamente as residncias adequadas e escrevendo a giz, em suas portas de entrada : PR (Prncipe Regente). O sinal indicava que os moradores deveriam desocupar prontamente as propriedades. Essas iniciais tornaram-se popularmente conhecidas pelos cariocas exasperados como Ponha-se na Rua.

Dom Joo saia com um cortejo de autoridades. Com pouco tempo, passou a cumprimentar muitos sditos pelo nome. Criou um sistema de concesso de honrarias, do qual nasceu a nobreza brasileira: fazendeiros, senhores de escravos e comerciantes ricos receberam ttulos de marqus, conde, baro e cavaleiro, o que consolidou ainda mais a popularidade de Dom Joo.

O prncipe regente era venerado. Dona Carlota galopava pela zona rural. As excentricidades de dona Carlota viraram temas de mexerico na cidade: o habito pouco feminino de montar como um cavaleiro, com um rifle pendurado no ombro, suas expedies de caa pelas montanhas e o obvio afastamento do marido chocaram a sociedade colonial conservadora.

Joaquim Jos de Azevedo, o funcionrio da corte que havia supervisionado o embarque da famlia real, enriqueceu tanto no Brasil que acabou por se tornar o banqueiro da corte. (E nasceu o Banco Central).

O que Dom Joo VI fez, administrativa e politicamente, ficou na Histria. No foi um gordinho gluto e alienado, comedor de frangos. Foi um estadista.

Afinal, o que a verdade, quando se sabe que a poesia o Genesis da Humanidade?

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Pncio Pilatos perguntou a Jesus: “O que a verdade?”

Sebastio Nery

A Grcia filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilada e da Odissia. Scrates, Plato, Aristteles germinaram a filosofia. squilo, Sfocles, Eurpides sangraram a tragdia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grcia.

Roma foi de Csar, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horcio, as Metamorfoses de Ovdio, Roma teria sido um Imprio mas no teria sido uma Civilizao.

A Itlia Dante e o depois dele. A Inglaterra Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha sobretudo Goethe; Portugal Cames.

Por que? Porque a poesia o Genesis. In principio erat verbum. No princpio era a palavra. No incio era a poesia. E o poeta um pequeno Deus.

O QUE ELES DIZIAM – Plato sabia disso : O poeta um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus.

Shakespeare tambm: O olhar do poeta, girando em delrio, vai do cu para a terra, da terra para o cu. Quando a imaginao toma corpo, captura a essncia das coisas.

E Goethe: Poetas no podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas.

E Victor Hugo: Um poeta o mundo dentro de um homem.

A VERDADE POTICA – Impalpvel, intangvel, s ela, a poesia, a verdade. Etrea. A verdade alada de Plato, a verdade ensanguentada do Cristo.

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmo de Herodes, o antiptico Antipas, que deu a Salom o pescoo de Joo Batista.

Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporneos de Pilatus, disseram que ele era rspido e intratvel. Mas no queria matar Jesus. Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palcio, trazendo na cabea a coroa sarcstica Jesus Nazarenus Rex Judeorum , Pilatos lhe perguntou quem ele era :

Eu sou o caminho, a verdade e a vida.

O QUE A VERDADE? – O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, tambm. Mas a verdade, no. Pilatos outra vez lhe perguntou:

O que a verdade?

Jesus no respondeu. E foi levado para morrer.

Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus no respondeu porque a resposta j estava na pergunta, em latim:

Quid est veritas? (O que a verdade?).

Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta :

Est vir qui adest. ( o homem que est aqui).

INDEFINVEL – Nem a verdade disse o que a verdade, porque indefinvel. Como a poesia. Ningum a definir. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizvel. Nasce e morre no mistrio. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia o mgico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte.

Na impossvel busca da verdade, s a poesia a verdade. Um pequeno, belo, talvez annimo poema traduz magnificamente o que vai pela alma dos homens em cada Natal, cada virar de Ano Novo, cada comeo de novo ano.

Consta, embora jamais comprovado, que de Che Guevara. No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolvia, nas derradeiras trincheiras da invivel guerrilha, cercado de solido e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:

Cristo, te amo!
No porque desceste de uma estrela,
Mas porque me revelaste
Que o homem tem lgrimas, angstias
E chaves para abrir as portas fechadas da luz.

Tu me ensinaste que o homem deus,
Um pobre deus crucificado como tu.
E aquele que est tua direita no Glgota,
O bom ladro, tambm um deus.

Banqueiro de Deus e do Diabo pegou 19 anos na Operao Mos Limpas

Conde Ortolani perdeu o passaporte brasileiro e foi preso

Sebastio Nery

O carro preto, com motorista de libr, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na mtica Piazza Navona. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata preta, bigodes francesa e brilhantina no cabelo, um dos homens mais poderosos da Itlia. Conde do Papa, ia buscar-me quando eu era adido cultural, para almoar.

amos aos mais discretos e refinados restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itlia. s vezes, o almoo foi no palacete dele, na Via Archimede, no alto do Giancolo, ou, em um domingo de sol, na sua casa na serra, em Grottaferrata. Simptico, Umberto Ortolani era uma figura ambgua, misteriosa. Mal falava, s perguntava. A cada duas frases, uma pergunta.

QUERIA O BRASIL – Dele sabia que era conde da Santa S, Gentiluomo di Sua Santit, banqueiro do Vaticano. Eu o tinha conhecido em uma exposio no Masp, em So Paulo, apresentado pelo jornalista Jos Numanne, do Estado de S. Paulo

O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar, e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano tomara ao descer em Roma, depois de vrios anos asilado no Brasil.

Impossvel. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha a fazer. Logo de comeo lhe comuniquei a opinio do embaixador e do Itamaraty. Mas ele acreditava que, insistindo, talvez conseguisse, sobretudo depois daqueles irresistveis Brunellos di Montalcino. Queria fugir de novo.

EM CIMA DA BULGARI – Levou-me a seu histrico escritrio na Via Candotti, 9, sobre a bela loja Bulgari: Desta sala saram sete primeiros-ministros, Andreotti, Craxi, todos.

O conde Ortolani uma historia exemplar do satnico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro do Papa, vice-presidente do Banco Ambrosiano, do Vaticano. Um livro imperdvel, Poteri Forti (Fortes Poderes, o Escndalo do Banco Ambrosiano, Editora Futuro Passato), do jornalista Ferruccio Pinotti, abriu as entranhas do poder de corrupo do sistema financeiro, de braos dados com governos, partidos, empresrios, mfia, maonaria, cardeais, grupos religiosos, Opus Dei, etc.

1 Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da Blackfriars Bridge, a Ponte dos Irmos Negros, o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar e tinha como vice-presidente o cardeal Marcinkus e diretores o conde Ortolani e o chefe da P2 italiana (maonaria), Licio Gelli.

2 Gelli foi logo apontado como mandante. Nos dias seguintes, na Itlia e na Inglaterra, apareceram assassinados vrios outros ligados a Calvi (no s na Santo Andr do PT paulista que testemunhas de crimes morrem em serie). E no meio da confuso, Ortolani, um dos cavaleiros do Apocalipse.

3 Ortolani comeou trabalhando com Bill Mazocco, agente da CIA na Itlia depois da guerra, que controlava a poltica e os sindicatos italianos. Logo Ortolani criou uma Agencia de Imprensa, tornou-se um trao de unio entre o Vaticano e a Maonaria e diretor do poderoso Corriere de la Sera.

4 Entrou para o Ambrosiano, um pequeno banco de padres que, tendo atrs o IOR (Instituto para as Obras da Religio), o banco oficial do Vaticano, dirigido pelo cardeal americano Marcinkus, logo fica poderoso e se instala em toda a Amrica Latina: Mxico, Nicargua, Panam, Venezuela, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, de braos dados com as ditaduras civis e militares: Pern e o chefe de seu Esquadro da Morte Lopes Rega e generais sulamericanos.

5 Tornou-se intimo dos mais poderosos cardeais. Quando Joo XXIII morreu, ele reuniu em sua casa de campo, l na bela Grotaferrata onde almocei, um punhado de cardeais com o cardeal Montini, que dali saiu candidato e virou Papa Paulo VI, que depois o fez conde da Santa S.

6 Ortolani tambm criou no Uruguai seu banco: o Bafisud (Banco Financeiro Sul Americano) e se instalou em So Paulo, onde se ligou aos governos militares, ficou intimo dos Mesquita do Estado, continuou atuando junto CIA e ganhou cidadania brasileira, com passaporte e tudo.

7 Estourado o Ambrosiano, assassinado o presidente Calvi, preso o Gelli da P2 e o cardeal Marcinkus fugido nos Estados Unidos, a Itlia pediu ao Brasil a extradio de Ortolani, mas, em 25 de setembro de 84, o Supremo Tribunal negou. Tempos depois, voltou Itlia para defender-se.

8 A Operao Mos Limpas apertou o cerco, ele decidiu sair mas era tarde. No tinha os passaportes. Em abril de 1992, Ortolani foi condenado a 19 anos, Gelli a 18 e outros 20 envolvidos pegaram de 5 a 15 anos. Em 1998, o Tribunal diminuiu as penas. Em 17 de janeiro de 2002, aos 90 anos, morreu em Roma meu amigo conde.

Quando baixaram o AI-5, a Polcia prendeu o lder estudantil errado no Recife

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Base eleitoral de Barreto era Cajazeiras

Sebastio Nery

s 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditrio da Universidade Catlica, o estudante de Direito Bosco Barreto (Joo Bosco Braga Barreto), paraibano, orador da turma, comeava o discurso de formatura fazendo comovida e entusistica saudao ao grande comandante revolucionrio Ernesto Che Guevara, que morrera um ano antes.

Muito azar. Naquele exato momento, em todas as rdios e TVs, Costa e Silva apavorava o pais, lanando o AI-5 (Ato Institucional n 5), jogando a nao no mais fundo poro da ditadura. De manh cedo, o Exercito mandou buscar em casa o Bosco da PUC. Erraram de Bosco. Em vez do Bosco Barreto, o orador da turma de Direito, levaram o Bosco Tenrio, tambm Bosco da PUC, aluno da PUC, jovem vereador recm-eleito de Recife.

INTERROGATRIO – No quartel, foi recebido pelo major Raimundo S Peixoto. Desafiante, com o discurso na mo, o major lia uma frase e interrogava:

Senhor Bosco, o senhor confirma este elogio desbragado a Che Guevara que o senhor fez ontem no seu discurso?

No confirmo no, major.

Como no confirma? O senhor est louco? O senhor falou ontem noite e hoje de manh j no confirma? E este trecho aqui, o senhor confirma?

E o major Peixoto leu mais um longo pedao do discurso e perguntou:

E isso, confirma ou no confirma? No sustenta o que disse ontem?

Major, eu at concordo com o discurso que o senhor est lendo. Mas no confirmo nem sustento, porque no fui eu que disse isso. Quem falou foi o orador da formatura. Como que eu podia ser orador de formatura, se no me formei e ainda sou estudante? Esse Bosco a outro Bosco, major.

O major quase esganou o Bosco Barreto, o nmero 2. Quanto ao Bosco Tenrio, valente vereador do MDB de Recife, hoje advogado, foi cassado em outubro de 1969.

DE VOLTA CASA – O Bosco Barreto, formado, voltou para sua terra, Cajazeiras, na Paraba. Advogado dos camponeses fugidos da seca e do povo das periferias, ganhou enorme popularidade. Em 1972, saiu candidato a prefeito pelo MDB, quase ganhou. Logo em seguida, organizou uma romaria a Juazeiro do Norte para agradecer os votos ao Padre Ccero. 30 mil romeiros atrs dele, todos a p.

Em 1974, Bosco Barreto se elegeu deputado estadual pelo MDB, com 9.326 votos, quase todos em Cajazeiras. Mas havia algum muito importante que no gostava nada dele, e que ele tambm detestava e se combatiam: era o bispo de Cajazeiras por 40 anos, dom Zacarias Rolim de Moura.

BISPO CONSERVADOR – Culto, dedicado ao ensino, diretor de colgios e do seminrio, criador da Faculdade de Filosofia, Dom Zacarias era um poo de conservadorismo e reacionarismo, inimigo da Teologia da Libertao, crtico de dom Helder Cmara e dom Jos Maria Pires, o dom Pel, arcebispo de Joo Pessoa.

De repente, em 2 de julho de 75, s 21 horas, durante a exibio do filme Sublime Renncia, que contava a historia de um assalto a banco com bomba-relgio, uma bomba poderosa explodiu no cinema de Cajazeiras, abalando a cidade de 30 mil habitantes, matando duas pessoas, ferindo muitos.

Escndalo nacional, em plena ditadura. A bomba explodiu exatamente ao lado da cadeira cativa do bispo, apaixonado por cinema, que escolhia os filmes em Recife e levava para l. Naquela noite, por sorte, estava em Recife.

MAIOR SUSPEITO Atentado terrorista, gritaram os jornais. O primeiro suspeito de organizar o atentado tinha que ser ele, o subversivo deputado Bosco Barreto.

Outros suspeitos foram a linha-dura militar, para desestabilizar a abertura do general Geisel, como mais tarde fizeram no Riocentro e na OAB, no Rio.

Dez anos depois, j morando em Braslia, como advogado do CNPq e suplente de senador, Bosco Braga tentou reabrir o caso, mas nada se apurou.

VIROU LIVRO– Essa historia est toda em um livro muito bem documentado sobre a poltica da Paraba e do Nordeste (Do Bico de Pena Urna Eletrnica Editora Bagao, Recife, 2006), de Francisco Cartaxo Rolim, paraibano de Cajazeiras, advogado, economista, escritor, secretario de Planejamento do Estado, chefe de gabinete da Sudene e parente de Dom Zacarias Rolim.

A metralhadora do embaixador Gilberto Amado e a insistncia do professor em Minas

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Gilberto Amado, gnio da raa, foi embaixador do Brasil no Chile. Houve uma crise diplomtica, ele voltou, ficou no Rio em disponibilidade. O ministro do Exterior, Macedo Soares, no o indicava para novo posto. Gilberto Amado perdeu a pacincia, avisou:

Qualquer dia desses, entro no Itamaraty com uma metralhadora embaixo do brao, vou ao gabinete do ministro e disparo: tatatatatatatatatat: Macedo para um lado, Soares para o outro.

DONOS DO LUGAR – Desde o Imprio, os Andradas e os Bias Fortes foram donos de Barbacena, em Minas Gerias. Mandavam e desmandavam. s vezes, desmandavam mais do que mandavam. Sculos de poder poltico.

At que chegou a Barbacena, por concurso pblico, um professor de Matemtica, para ensinar na histrica Escola Preparatria de Cadetes do Ar, da Aeronutica. Vinha de longe, de Bananeiras, perto de Campina Grande, na Paraba, nas fraldas da Serra da Borborema, que o saudoso Jos Amrico jurava que produz os melhores abacaxis do mundo.

O professor at que era amigo dos Andradas e dos Bias, mais dos Bias do que dos Andradas, mas achava que era Andradas e Bias demais para sculos demais. E decidiu pegar a metralhadora do voto do povo e tatatatatatatatat, jogar os Andradas para um lado e os Bias para o outro. E foi o que fez.

PARTICIPATIVO – Tinha o saber camoneano de experincia feito. Chegado da Paraba em 1951, como eu da Bahia, em 52, fez vestibular para Matemtica na FAFI (Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras) da Universidade Federal, como tambm fiz para Filosofia. E fizemos o que um estudante consciente (e nordestinos, imaginem!) faz numa Universidade, em um pais em tempos de crise poltica. Participamos de tudo.

Ele foi diretor do jornal do Diretrio Acadmico (Filosofia), tesoureiro do DCE (Diretrio Central dos Estudantes), membro do Parlamento dos Estudantes Mineiros, nosso representante junto UEE (Unio Estadual dos Estudantes) e UNE (Unio Nacional dos Estudantes).

At que veio o golpe de 64 e encontrou o professor ensinando matemtica no Colgio da Aeronutica de Barbacena. Foi logo preso e logo solto. Continuou ensinando. Preso de novo, solto de novo. Continuou ensinando. Em 66, ajudou a fundar em Minas o MDB, partido da oposio.

SEM GRAVAO… – Um dia, o professor saia da aula e encontrou no corredor o sargento Jos Morais, do Departamento de Ensino da Escola de Cadetes:

Fui bem hoje, sargento?

Hoje eu no estava gravando.

O sargento, alm de outras tarefas no Departamento de Ensino, comandava o sistema de gravao das aulas de todos os professores. Anos mais tarde, era da Casa Militar de Itamar Franco, no governo de Minas.

Em Barbacena, os Andradas e os Bias, acocorados compulsoriamente no ninho da Arena, foram obrigados a unir-se. A cada eleio, municipal ou estadual, em 70, 72, 74, 78, o professor lanava um candidato ou se candidatava ele mesmo. Ganhava mas no levava, porque os Andradas e os Bias somavam as sublegendas e ficavam com a vitria.

Mas veio e 1982 e tatatatatatatatat, foi Andradas para um lado e Bias para o outro. O MDB (j PMDB) do professor Manoel Conegundes ganhou todas em Barbacena: elegeu o prefeito Ldio Nusca, fez maioria na Cmara, Conegundes se elegeu deputado estadual com uma grande votao e deu mais de 20 mil votos a Jos Aparecido para deputado federal.

Era a primeira vez, em sculos, que os Andradas e os Bias perdiam.

A TELEVISO – Nessa campanha de 82, Aparecido, sbio e diablico, e Conegundes, sbio e santo, candidatos a federal e estadual, andavam em dobradinha pelo interior, visitando amigos e correligionrios. Em Caranda, l pelas bandas de Barbacena, foram visitar Jamerson Rodrigues Pereira, mais de 70 anos, velho aliado dos Andradas e curtido de finrias malcias. Recebeu-os na sala modesta, encantado com a visita:

Estou muito satisfeito de ter os doutores em minha casa. Vejo que so dois nomes muito bons para representarem Minas. Mas quero dizer aos senhores que o lder maior da oposio, em todo o Brasil, no est nos partidos, nem na Cmara e no Senado. Est ali, atrs dos senhores. aquela coisa quadradinha ali, a televiso. Ela, o lder maior da oposio. s ligar que vem notcia de aumento. E aumento voto contra o governo.

ACM, o poltico que conseguiu mandar mais na Bahia do que Juracy Magalhes

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O caudilho ACM, quando brigava, era mesmo para valer

Sebastio Nery

Em 1952, Antonio Carlos Magalhes, mdico sem medicina, funcionrio sem funo da Assembleia Legislativa da Bahia (redator de debates) e reprter poltico do jornal O Estado da Bahia na Assembleia, ficou furioso com um discurso do lder do PSD criticando o ex-interventor e lder da UDN no Estado, Juracy Magalhes, e gritou: Cala a boca, idiota!

Perdeu o emprego e ganhou a proteo de Juracy, amigo de seu pai, o mdico e ex-deputado Francisco Magalhes, e de seu padrinho, o reitor da Universidade Federal Edgard Santos. Em 1954, Juracy o ps na chapa para deputado estadual. No se elegeu, ficou como primeiro suplente.

SUPLEMENTAR – Mas naquele tempo havia eleio suplementar sempre que, por algum motivo, o pleito no se realizava em algum municpio. Antonio Balbino (o governador eleito pelo PTB, a UDN e uma dissidncia do PSD) forou a barra e garantiu a eleio de Antonio Carlos na eleio suplementar.

Antonio Carlos chegou Assembleia e virou lder da oposio de mentirinha ao governo de Balbino. O lder do governo era Waldir Pires, do PTB-PSD. Em 1958, Antonio Carlos e Waldir se elegeram deputados federais. Antonio Carlos pela UDN, Waldir pelo PSD. Waldir eleito por Balbino. Antonio Carlos por Juracy e por Balbino, a quem sempre chamou de patro.

AMIGO DE JK – Na Cmara, embora da bancada da UDN, liderada por Carlos Lacerda, que agressivamente combatia Juscelino, logo Antonio Carlos se tornou amigo de infncia de JK, com direito a poderes federais na Bahia. Lacerda cobrou:

Soube que voc esteve ontem em segredo com o Juscelino.

Estive com ele, sim, s 11 horas. E o Magalhes Pinto esteve s 7:30.

Outra passagem: em 1961, na Cmara, o deputado Tenrio Cavalcanti, seu colega da UDN do Rio, atacava o ex-ministro da Educao de Dutra e ministro da Fazenda de Jnio, o baiano Clemente Mariani, dono do Banco da Bahia. ACM o aparteou:

V. Excia pode dizer o que quiser, mas na verdade o que V. Excia mesmo um protetor do jogo e do lenocnio, porque um ladro.

Tenrio sacou um revolver:

Vai morrer agora mesmo!

Atira!

Nem Tenrio atirou nem Antonio Carlos morreu.

BANCO DA BAHIA – Dez anos depois, em 1972, Antonio Carlos, governador nomeado da Bahia, soube que o banqueiro Clemente Mariani, pressionado por Delfim Neto, ia vender o Banco da Bahia ao Bradesco. Chamou Mariani ao palcio:

Doutor Mariani, isso ruim para a Bahia. Se o senhor quer vender o banco, o Estado compra pelo preo que o senhor vai vender.

No, Antonio Carlos. No vou vender. Voc acha que eu teria condies de vender o Banco da Bahia e me enterrar na Bahia?

DESAPROPRIAO – No dia 2 de julho de 1973, Antonio Carlos voltava da parada da Independncia da Bahia, o advogado Prisco Paraso lhe telefonou do Rio comunicando que o Banco da Bahia tinha sido vendido ao Bradesco. O governador chegou ao palcio, fez um decreto desapropriando a casa de Clemente Mariani e transformando-a numa escola para excepcionais.

No era uma casa qualquer. Era um belo latifndio urbano, no alto do morro da Barra, por cima da praia da Barra. O mundo quase veio abaixo. Mariani era o dono da Bahia. Recorreu justia, que manteve a desapropriao, por interesse e utilidade pblica.

PREFEITO DE SALVADOR – Em 1967, presidente estadual da Arena, Antonio Carlos foi nomeado prefeito de Salvador. Eu, cassado, encontrei-o no hotel Califrnia, no Rio:

Antonio Carlos, voc jovem (40 anos), no cometa o erro de Juracy, que quis fazer da Bahia uma Capitania Hereditria e no fez nem o sucessor.

Pois vou fazer mais do que ele fez. Juracy mandou 30 anos na Bahia, de 1932 a 1962. Vou mandar 40 anos. (Mandou de 1967 a 2007).

Se o nvel do mar sobe e Veneza afunda, como salvar a histrica cidade?

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Veneza acaba de sofrer a pior inundao dos ltimos 50 anos

Sebastio Nery

No dia 3 de novembro de 1966, Veneza acordou debaixo dgua. Uma violenta mareggiata (ressaca com ventos fortes), vinda do Adritico, caiu sobre a cidade, jogando em seu labirinto de canais uma quantidade de gua dois metros acima do nvel do mar. A gua invadiu tudo, destruiu a rede eltrica, encheu os canais de lixo, ratos e pombos mortos.

O desastre ps dramaticamente a nu uma dolorosa realidade: a frgil cidade estava lenta mas inexoravelmente afundando nas guas da prpria lagoa que a fez nascer e a mantinha viva. Era uma gndola afogada. E todos se lembraram do belo e proftico poema de Byron, que nela morou:

DIZIA BYRON Veneza, oh, Veneza!, quando teus muros de mrmore forem cobertos pelas guas, levantar-se- um lamento das naes sobre tuas praas submersas, um alto lamento longo como o mar devastador.

Veneza no bem uma cidade. um museu universal, cercado de gua por todos os lados, todas as praas, todas as casas. So 18 ilhas, 400 pontes, 117 canais. No por acaso, no sculo 18 ela transformou-se no maior centro de diverses da Europa, com um carnaval que humilhava o da Bahia: 6 meses.

O primeiro grande teatro fechado do mundo est aqui: o Grande Teatro Fenice, de 1792. O palcio dos Doges, em estilo gtico renascentista, tem mestres da pintura como Carpaccio, Veronese, Tintoretto. A basilica de So Marcos, com suas peas em dourado, seus mosaicos e cpulas, no mais puro estilo bizantino, no parece com nenhuma igreja ocidental. Todo ano, em junho, eles tm a Bienal de Artes e em setembro o Festival de Cinema.

CRAVADA NA HISTRIA – A Republica de Veneza uma das mais curiosas, surpreendentes e duradouras experincias polticas da histria humana. Durou de 697 a 1797. Mil e cem anos. O historiador Antonio Carlos de Amaral Azevedo conta:

– Os Doges eram eleitos. E havia uma Assembleia Popular, um Conselho de Sbios, o Grande Conselho. Do sculo 7 ao 12, esses magistrados foram os verdadeiros dirigentes da sociedade, da economia e da poltica, dotados de plenos poderes. Suas tentativas visando a hereditariedade do cargo ocasionaram mudanas no sentido de ser limitada a sua autoridade.

A partir do sculo 12, a aristocracia veneziana criou rgos constitucionais que se encarregaram de algumas funes administrativas antes centralizadas nas mos do doge. Este, porm, continuaria a ser escolhido entre as famlias mais influentes da cidade, ocupando o posto at a morte. A ele competia solucionar todas as divergncias internas, bem como proteger a cidade contra qualquer ameaa externa, diz o historiador.

SALVAR VENEZA – As centenas de milhares de turistas do mundo inteiro, espremendo-se pelas praas e passeando nos barcos e gondolas, nem desconfiam como esta maravilha est ameaada. Mas o mundo vai acordando: preciso salvar Veneza. Se os gelos polares derreterem, os tornados e nevascas se despejarem, as guas se rebelarem, os mares enlouquecerem, Veneza ser a primeira grande vtima.

Depois de 66, muita coisa foi feita. Mas os cientistas esto com medo e com pressa. A The Venice in Peril Fund (Fundao Veneza em Perigo), da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicou estudo magnfico de 130 cientistas de todo o mundo, advertindo e apresentando solues, que esto no livro La Scienza per Venezia,de Caroline Fletcher e Jane da Mosto.

DIAS CONTADOS Os cientistas avisam: 16 milhes de pessoas que todo ano vm a Veneza vem as restauraes sendo feitas. Mas a realidade menos rsea do que parece. A cidade mais bela do mundo tem os dias contados. A frequncia da gua alta aumenta e hoje Veneza no est em condies de defender-se de uma catstrofe maior do que o grande aluvio que sofreu em 66.

O alarmismo dos ecologistas tem fundamento. Veneza no poder ser salva sem investir tanto nas barreiras mveis como na lagoa. As mudanas climticas provocadas pelo homem ameaam Veneza: em 2100, o nvel do mar pode estar aumentado de 12 para 72 centmetros.

A lagoa de Veneza geralmente pouco profunda : o nvel mdio da gua de um metro. Nos fundos da lagoa, foram escavados canais de navegao, alguns com at 20 metros de profundidade. Cerca de 60% da lagoa perenemente submersa. 25% emergem periodicamente com as baixas mars. O resto (15%) constitudo de ilhas teoricamente sempre elevadas (acima do nvel do mar), mas hoje ameaadas pela gua alta.

AFUNDANDO – A cidade desce, o mar sobe. Veneza abaixa 0,5 milimetros por ano. Estudos arqueolgicos, sobretudo na baslica de So Marcos, calculam uma perda de altitude de 1 a 1,5 milimetros todo ano, prevendo uma reduo da diferena altimtrica, entre a terra e o mar, de 14 centimetros cada sculo.

Em menos de 50 anos, dos anos 20 aos anos 70, Veneza afundou 10 centmetros mais do que Trieste (ali ao lado, tambm no mar Adritico).

E no dia 12 de novembro de 2019, h menos de um ms, Veneza acordou assustada com uma histrica acqua alta.

Convidada por Itamar, dona Sarah voltou ao Palcio da Alvorada 32 anos depois

Mrcia e dona Sarah, com Itamar e Silvestre Gorgulho

Sebastio Nery

Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar, como o jornalista Silvestre Gorgulho, autor deste relato:

Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma tera-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal Correio Braziliense, quando a secretria da redao me chama:

Silvestre Gorgulho, do Palcio do Planalto.

Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, ento secretrio-geral da Presidncia da Repblica. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Braslia. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa da filha Mrcia na vspera.

timo! Ento aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.

ITAMAR NA LINHA – Foram dois ou trs longussimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da Repblica? Uma nota no jornal? O que ser, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranas passadas, diz:

Silvestre, tomei uma deciso. Estou morando aqui numa casa da Pennsula dos Ministros, mas o Henrique (Hargreaves), a Ruth (Hargreaves) e o pessoal da segurana, todos esto pressionando muito para eu me mudar para o Palcio da Alvorada. O que voc acha?

Presidente

Presidente no! Itamar.

Sim, sim Presidente Itamar Acho uma sbia deciso. O senhor j devia ter feito isso h mais tempo. L a residncia oficial do Presidente da Repblica. Vai lhe dar mais tranquilidade

o que todos falam. Mas eu s vou numa condio. No quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residncia de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar l no Alvorada assim sem mais nem menos.

ARGUMENTO Como sem mais ou menos, Presidente Itamar! O Palcio a residncia oficial

Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistrio. A urea do Presidente Juscelino domina o Palcio da Alvorada. No que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada at o piano toca sozinho noite.

Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: A dona Sarah est em Braslia?

Presidente Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua inteno de ir para o Alvorada? Vou pedir para ela ligar para o senhor.

Fale com ela. Se ela quiser me ligar um prazer. Voc sabe de minha admirao pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleio para o Senado em 1974. Quem sabe ela e Mrcia passam toda a manh comigo l no Alvorada.

COM DONA SARAH – Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda histria. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palcio da Alvorada. Depois de alguns outros comentrios, concluiu:

Silvestre, conheo bem o presidente Itamar Franco. Ele uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele no quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou l receb-lo com honras de Chefe de Estado e esprito de Minas Gerais.

Diante da aprovao e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

– Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a deciso do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.

Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Mrcia irem ao Palcio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

NO ALVORADA – Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da Repblica, Itamar Franco se muda para o Palcio da Alvorada. Alm de receber as Honras de Estado e o esprito de Minas, Itamar proporcionou uma das maiores emoes dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palcio da Alvorada pela ltima vez em 30 de janeiro de 1961. H 32 anos ela no voltava sua primeira residncia em Braslia.

Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para o jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma reprter de tev:

Dona Sarah, verdade que aqui no Palcio da Alvorada o piano toca sozinho?

Olha, minha filha respondeu dona Sarah este Palcio traz energias extras aos presidentes. Se noite o piano toca sozinho, est provado o alto astral do Palcio da Alvorada. H coisa melhor do que uma boa msica neste ermo encantado do Cerrado?

Aplausos! E antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

Vivi um sonho, Presidente. So 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na Capelinha do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abenoado.

A verdadeira histria de Jnio Quadros e seu famoso “Fi-lo porque qui-lo”

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Charge do Otelo (Arquivo O Globo)

Sebastio Nery

Em 1958, Juracy Magalhes, presidente da UDN, Carlos Lacerda, lder na Cmara, e Jnio Quadros, governador de So Paulo, prepararam a conveno nacional da UDN para fazer Herbert Levy o sucessor de Juracy. Magalhes Pinto chegou l na vspera com Jos Aparecido, entrou na conveno, derrotou Herbert Levy. Jnio ficou Furioso.

No dia seguinte, Magalhes chamou Aparecido e foram os dois fazer uma visita de cortesia a Jnio. Anunciados, foram levados ao gabinete. Jnio estava sentado, cabea baixa, escrevendo. Nem levantou os olhos. Os dois, de p, esperando. Jnio escrevendo. De repente, levanta-se, estende a mo para Magalhes:

Como vai o senhor, doutor Bilac Pinto?

Muito bem, doutor Adhemar.

Jnio deu uma gargalhada, Magalhes sorriu. Ficaram amigos.

ATRS DO POVO – Candidato a presidente, Jnio foi a Caxias, no Rio Grande do Sul. A convite do padre Giordani, vereador do PDC e coordenador da campanha na cidade. O padre tinha convidado o povo para saudar Jnio nas ruas, quando chegasse, s 6 da tarde, e para o comcio noite.

No aeroporto, um carro aberto esperava o candidato para um desfile triunfal pela cidade. Jnio chamou o padre:

Nada disso. Quero um carro fechado, bem fechado. Vou direto para o hotel e por ruas nvias, sem passar pelo centro. Tu-do mui-to r-pi-do.

E o povo, presidente?

– O povo? Quem conhece o povo sou eu, senhor padre. Conheo nas faces e na alma. O povo quer mais me ver do que me ouvir. Pois se quiser me ver que v tambm me ouvir no comcio. Ver-me- e ouvir-me-.

s 8 da noite, Caxias estava toda na Praa. Vendo e ouvindo Jnio.

Confinado em Corumb, Mato Grosso, em julho de 1968, por causa de uma declarao contra Costa e Silva (responsvel por sua cassao: Esse zarolho meu, e escreveu a mo o nome de Jnio no alto do primeiro listo), Jnio soube que um amigo chegara para visit-lo. Ligou para a portaria, pediu o nmero do apartamento, foi l. Desceu furioso para a recepo:

Meus queridos, que estpidos, que parvos so vocs. Deram-me o nmero errado. Toco a campainha. Aparece algum, que no o meu amigo, e nu, inteiramente nu. Saibam, no tenho nada contra homem nu. Mas nu e de culos? Pelado, sim. Mas de culos?

FI-LO PORQUE QUI-LO – A verdadeira histria do fi-lo porque qui-lo esta. Como Presidente, Jnio instituiu reunies mensais, presididas por ele, entre as autoridades federais e os governadores das vrias regies do pais. No sul, Jnio estava reunido com os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande, Ney Braga, do Paran, e Celso Ramos, de Santa Catarina. E anunciou algumas reformas educacionais.

O ministro da Educao, Brgido Tinoco, pego de surpresa, ficou uma fera. Depois do almoo, procurou Jnio:

Presidente, permita-me dizer-lhe que discordo de algumas dessas propostas. E nem fui avisado. F-lo por que?

Ministro, fi-lo por algumas razes que me parecem relevantes. Primeiro, fi-lo porque estou convencido de que a melhor soluo. Segundo, fi-lo porque esta nao tem pressa. Terceiro, fi-lo porque sou presidente. Como v, senhor ministro, fi-lo porque qui-lo.

E papo encerrado. Papo e pronomes.

Jnio no quis acordo com Amador Aguiar, do Bradesco, e perdeu a eleio de 1962

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Charge do Nssara, na eleio de 1962 em So Paulo

Sebastio Nery

Voltando de Londres, depois da renncia Presidncia da Repblica em agosto de 1961, Jnio surpreendeu mais uma vez o pas lanando-se candidato ao governo de So Paulo contra Adhemar de Barros e Jos Bonifcio Nogueira, candidato de Carvalho Pinto.

Jnio saiu numa campanha forte, responsabilizando as foras terrveis que haviam levantado um muro diante de seu plano de governo. O slogan do publicitrio Joo Dria, depois deputado, era a sntese do esquema da campanha: A renncia foi uma denuncia.

MUDOU O TOM – Adhemar, contido a duras penas pela sua assessoria poltica e publicitria, mudou o velho tom, bonacho mas duro. No atacava Jnio, no falava na renncia, pregava a paz e a tranquilidade para um Estado ainda traumatizado pelo gesto do ex-presidente, que deixara o pas e sobretudo So Paulo deserdados pela renncia.

A campanha ia chegando ao fim. Jnio crescendo nas prvias eleitorais, Adhemar impaciente, mas obedecendo ao staff. No comcio de encerramento, em So Carlos, explodiu. Deixou de lado os conselhos e o projeto de discurso discutido com a assessoria e voltou ao velho tom, direto, irreverente, aberto, cara a cara com o povo. Foi um sucesso: Povo de So Paulo, eu no aguento mais. Esse homem maluco. Ele vai botar o professor Carvalho Pinto na cadeia. Ele vai me botar na cadeia. Outra vez! Meu Deus, l vou eu de novo para a Bolvia!

Estava em lgrimas. Ganhou por 30 mil votos. Com aquele discurso.

No meio dessa campanha de 1962, em que se candidatou pela segunda vez ao governo de So Paulo contra Adhemar, o vice de Jnio era o brigadeiro Faria Lima. Laudo Natel saiu candidato sozinho, em faixa prpria. Parecia clara a vitria de Jnio e de Faria Lima.

LAUDO NATEL – Amador Aguiar, o homem do Bradesco, telefonou para o ex-presidente e marcou encontro na casa de um funcionrio do banco. Queria que Jnio retirasse a candidatura Faria Lima para apoiar Laudo Natel, diretor do Bradesco e presidente do So Paulo Futebol Clube:

Dr. Jnio, sei que sua campanha est com muitas dificuldades financeiras. Poderamos resolver o assunto e assim seriam eleitos o senhor e o Laudo, que eu trouxe comigo para o senhor conhecer pessoalmente.

Meu caro, j estou eleito. O povo j manifestou sua preferncia. Mais uma vez, Dr. Amador. Vou ganhar em So Paulo e em todas as grandes cidades. Nem vou mais s pequenas, porque no precisa. Est na hora de ver quem ou no meu amigo, para no haver queixas depois, replicou Jnio.

AMADOR INSISTE Mas, presidente, o Laudo est mais forte do que o Faria Lima. Juntos, daremos uma surra no Ademar.

No posso, meu caro. No posso trair o Faria, que meu amigo dileto. Di-le-to, entendido?

Na ponta da mesa, baixinho, caladinho, ao lado de Jos Aparecido, Laudo no tugia nem mugia. Jnio chamou-o para sentar-se mais perto: Doutor Laudo, o senhor j foi candidato antes a alguma coisa?

No, presidente. No gosto de poltica. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, o pai que eu conheci.

JNIO PERDEU – Mas de futebol o senhor gosta, insistiu Jnio, acrescentando: presidente do So Paulo.

Tambm no gosto de futebol, presidente. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, foi o pai que conheci. O senhor no imagina o homem bom que ele .

O acordo no foi feito. Jnio perdeu por 30 mil votos (das pequenas cidades que no visitou). Laudo (quer dizer, seu Amador, o pai que ele conheceu) ganhou para vice. E Adhemar se elegeu governador.

De repente, querem mudar a Histria sobre 1955 e o revlver do almirante…

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O ridculo da Histria parece estar querendo se repetir

Sebastio Nery

Alto, desengonado, mal ajeitado, um dos melhores reprteres da histria da imprensa mineira, Felipe Henriot Drummond chegou porta da sute presidencial do Hotel Financial, em Belo Horizonte. Dois seguranas de preto e mal encarados pediram os documentos. Felipe mostrou a carteira do Estado de Minas. Aprovada. Tocou a campainha.

A porta abriu e l de dentro uma voz esganiada gritou: Entre!

Felipe entrou. No viu ningum. Atrs da porta, um homem baixinho, fardado, apontava um revolver para as costas dele:

Sente-se ali. Por que chegou antes, se a entrevista s 12 horas?

Felipe no sabia se dava uma risada ou ia embora. Da a pouco, fomos chegando ns, outros jornalistas, para a entrevista coletiva do almirante Penna Botto, presidente da Cruzada Brasileira Anticomunista, que foi a Minas fazer campanha contra a posse de Juscelino e Joo Goulart na presidncia da Repblica, eleitos dias antes, em 3 de outubro de 55.

PALHAADA – Logo no dia 5, Penna Boto tinha dado entrevista ao Globo: indispensvel impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos.

A entrevista a ns foi uma palhaada. O atarracado almirante queria nos convencer de que o Partido Comunista estava criando um Soviet no Triangulo Mineiro, que iria instalar-se logo que JK tomasse posse.

No houve soviet mas por pouco no houve a posse. Nas redaes, passvamos madrugadas agarrados s rdios do Rio, que transmitiam a crise ininterruptamente. At que o presidente Caf Filho teve (ou fingiu) um infarto, passou o governo para o presidente da Cmara, Carlos Luz, vbora gorda do PSD mineiro que, no dia 10 de novembro, demitiu do ministrio da Guerra o marechal Lott, vermelho, olho azul, mais Caxias do que Caxias, e o substituiu pelo general udenista-golpista Fiza de Castro, numa ao articulada para impedir a posse de Juscelino e Jango.

TANQUES NA RUA – De madrugada, Lott e Denis, comandante do I Exercito, fizeram o 11 de novembro (tera-feira faz 53 anos), retorno aos quadros constitucionais vigentes: puseram os tanques na rua, a Cmara votou o impeachment de Carlos Luz e entregou o governo ao presidente do Senado, Nereu Ramos.

Em Minas, quando a notcia chegou ao amanhecer, corremos para o palcio da Liberdade. Juscelino, presidente eleito, j estava l, trancado com seu vice, o governador Clovis Salgado, e o comandante da regio, general Jaime de Almeida. Os dois tentaram de todo jeito segurar Juscelino, mas ele resolveu ir de qualquer forma para o Rio. Abre-se a porta e ele sai:

Bom dia, vocs j aqui? Vou agora mesmo para o Rio.

UMA PERGUNTA… Mas, presidente, h notcias de que a Aeronutica est ao lado de Carlos Luz, que foi para Santos com Lacerda no Tamandar, comandado pelo Penna Boto, e o brigadeiro Eduardo Gomes j chegou l para tentar a resistncia com a cobertura do governador Jnio Quadros. Como que o senhor vai descer no Santos Dumont ou no Galeo? Derrubam o avio…

J discutimos tudo, eu, o governador e o general. Eles esto contra, mas a deciso minha e j a tomei. Vou a qualquer risco.

Entrou em um carro e disparou para o aeroporto. Fomos atrs, reprteres e fotgrafos. L, uma cena dramtica. Juscelino dava ordens, aos gritos, a Joo Milton Prates e outro piloto, queridos amigos seus, para levantarem voo em um pequeno avio particular. Mas havia uma ordem definitiva da Aeronutica: ningum podia decolar.

CHORO DA AUDCIA – Impedido, encostou os dois cotovelos no balco do aeroporto, cobriu o rosto com as mos trmulas e chorou de sacudir. Era o choro da audcia impotente: Meu Deus, isso no pode acontecer. Preciso assumir!

Foi no dia seguinte. Em 31 de janeiro, o presidente era JK. Assumiu, mas s depois de Caf Filho sumir, tambm impichado. O cruzador Tamandar, comandado pelo pequenininho Penna Boto, levou trs tiros de festim do Forte de Copacabana e seguiu para So Paulo, onde Jnio no quis nada com eles e voltou de rabo (popa e proa) entre as pernas.

Lacerda foi direto para a embaixada de Cuba, asilado pelo ditador Fulgncio Batista.

GOLPE ADIADO – A tentativa de golpe no conseguira apagar os milhes de votos de Juscelino. Mais uma vez o golpe de 50, 54 e 55 fora adiado para 64.

H alguns dias, O Globo informava que o Instituto Histrico e Geogrfico homenageou (sic) o almirante Penna Boto pelos 53 anos do bombardeio (sic) sofrido pelo cruzador Tamandar, em 55, ao tentar sair da baia da Guanabara…

Ao que parece, querem mudar a histria.

A Bahia canta sua santa, a Santa Dulce dos pobrezinhos de So Salvador

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A Bahia sempre foi mltipla. Mas desta vez se superou. De um jantar no Hotel Fasano em Salvador, onde estavam Durval Lelys, Lcia Fbio, Nizan Guanaes e outros produtores musicais, nasceu a ideia de gravar uma cano em homenagem Irm Dulce cujo processo de canonizao o Vaticano acaba de consagrar.

A msica excelente, a letra criativa. Comea como se fosse adotar um tom marcial e no entanto uma doura do princpio ao fim:

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A BAHIA CANTA A SUA SANTA

A Bahia inteira canta
Para celebrar nossa santa
Que cuidou de ns

Tocam sinos e atabaques
De um povo que viu seus milagres
Foste a voz daqueles que no tem voz

Pequena e to gigante
Me desses Filhos de Gandhy
Que entram em Roma
Soltando as pombas
Pombas da paz

Ouve teu povo cantando
Nas portas do Vaticano
Ele tem f, ele tem ax
Ele veio a p

a Bahia que canta
Santa Dulce, a nossa santa
Que est no cu
Cuidando da gente
Diariamente

Pequena e to gigante
Ouve teu povo cantando

TODOS UNIDOS – Cantores baianos ligaram as suas trombetas: Margareth Meneses, Preta Gil, Lo Santana, Mrcia Freire, Vanesca Pinheiro, Vina Calmon, Eber Lima e Miguel, Will Carvalho, tila Lima e a luminosa Ivete Sangalo.

s sete da manh ela passava l, toda magrinha, seguindo para sua jornada, suas obras de caridade. Durante anos pegou caronas de amigos. Ningum acreditava que chegaria ao fim da tarde. Sempre chegou, com seus olhinhos midos, em qualquer canto da cidade baixa de Salvador, como se fosse uma pomba ferida. E era. Era a pomba da paz da Bahia.

Faz bem Salvador celebr-la e cant-la. Neste mundo de doideiras, ainda bem que a Bahia d esta lio de ternura, de bondade. Sabe bem seu parceiro de tantos anos, doutor Taciano Campos.

Santa Dulce dos Pobres da Bahia.

J cansado de governar, o porteiro entregou as chaves do palcio a Aluzio Alves

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Em Natal, Aluizio Alves foi “empossado” pelo porteiro

Sebastio Nery

Cabea chata, inteligente, brilhante, rbula, advogado de estivadores, pescadores, teceles e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro, nascido em Natal (em 3 de fevereiro de 1899, h 110 anos), Caf Filho fez uma biografia poltica contnua: de vereador e vrias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou at um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidncia com o suicdio de Vargas e logo trocou de lado, para os braos golpistas da UDN (mas essa outra historia).

RUBEM BRAGA – Presidente, Caf Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sbio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

Rubem, preciso de voc.

De mim? Voc est louco. Olhe, Caf, h um equvoco nisso. Quem precisa de voc sou eu. Voc virou presidente da Repblica, est bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um servio qualquer.

Um ms depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graas a Caf, escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

DIO AO POTIGUAR – No segundo ano da escola primria, l em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com dio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me ps de p e comeou a perguntar, de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gacho para acima, ia acertando todos. At capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para ltimo. Empaquei. No me lembrei do potiguar de jeito nenhum. Perdi meu 10. Durante anos, tive dio dos potiguares: isso l nome? E um nome to bonito.

Aprendi que potiguar quer dizer comedor de camaro (vem do tupi guarani poti = camaro e war = o que come). H coisa melhor?

GRANDE LDER – Jos Augusto Bezerra de Medeiros foi sinnimo do Rio Grande do Norte como Ruy Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Cmara em 47, federal at 55, presidente da Associao Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas, ficou na resistncia e escreveu livros de direito, poltica e educao.

Quando presidente da Associao Comercial do Rio, algum comeou a desancar os polticos. Todos os males nacionais eram da corrupo e da incompetncia dos polticos. O velho Jos Augusto interrompeu:

Um momento. Passei 50 anos na vida pblica e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui j vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

DE PARAQUEDAS – Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Chateaubriand chegou ao Senado e comeou a dar show. E o chamava de senador tupiniquim. Kerginaldo no lhe dava trgua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), lder do governo, procurou Kerginaldo:

Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele um grande jornalista e voc no o deixa falar sossegado.

Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rdios, tem televises. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu no tenho jornal, no tenho radio, no tenho TV. Minha jogada descer de paraquedas nos discursos dele.

O PORTEIRO – Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. Em 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluizio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que no passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palcio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, palet e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palcio e ficou de p no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, trs, o novo governador no chegava.

A mulher mandou cham-lo para o almoo, no foi. Ele ali de p, cumprindo patrioticamente seu dever cvico. De repente, frente da multido, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

Ainda bem que ele chegou. No aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

Histrias polticas de Minas Gerais, que so sempre cheias de folclore

Benedito Valadares era um dos mas folclricos

Sebastio Nery

No dia 5 de setembro de 1933, ele apareceu morto dentro da banheira do palcio da Liberdade, em Belo Horizonte. Era celibatrio (78 anos, nasceu em 1855), diz o Dicionrio Biogrfico de Minas Gerais, edio da Universidade Federal e da Assembleia Legislativa de Minas.

Olegrio Maciel o patrono dos vices. Dos vices que do certo. Deputado de 1880 a 1911, abandonou a poltica e voltou a ser fazendeiro. Em 1922, foi chamado para vice-presidente do Estado, com o presidente (governador) Raul Soares. Raul Soares adoeceu de 1923 a 1924, ele assumiu. Raul Soares morreu em 1924, ele assumiu de novo.

Fernando de Mello Viana foi eleito para completar o quatrinio, mas foi escolhido vice de Washington Luiz e Maciel cumpriu o resto do mandato. Em 30, torna-se presidente (governador) de Minas, vem a revoluo de 30, Getlio o confirma interventor e ele morre na banheira, em 33.

O SUCESSOR – Gustavo Capanema, poderoso secretrio do Interior, achava que ia ser o sucessor. Virglio de Melo Franco tambm. Getlio deu uma rasteira nos dois e nomeou o jovem Benedito Valadares, que chamou Juscelino Kubitschek para chefe de gabinete.

Foram inaugurar um retrato de Maciel. Acabada a solenidade, saram no mesmo carro Benedito, Juscelino e Capanema. Capanema, intelectual, culto, vaidoso, irado por no ter sido nomeado, comeou a agredir Benedito com uma aula de como governar:

Olha, Benedito, governo cultura. Voc tem que esquecer Par de Minas e ver que agora voc o chefe poltico de Minas. Tem que cercar-se de intelectuais, ler, estudar, para poder estar altura de governar Minas.

Benedito foi ficando vermelho, furioso, perdeu a pacincia:

Olha, Capanema, nada disso. Se suas lies prestassem, voc quem teria sido nomeado pelo presidente Vargas. Governar no nada disso que voc disse. Esse negcio de cultura para intelectual. Governar ao, trabalho. E isso o que vou fazer. No vou ler nem estudar coisa nenhuma. Alis, tenho l em casa uns cinco ou seis livros e vou jogar tudo fora.

GARGALHADAS – Anos depois, Juscelino relembrava essa histria para seu oficial de gabinete na Presidncia, Antnio Carlos S, e dava gargalhadas. Alis, Benedito fez exatamente o que Capanema recomendou: cercou-se da maioria das melhores cabeas de Minas (Orosimbo Nonato, Mario Casassanta, Cristiano Martins, Ciro dos Anjos, outros) e at deixou alguns bons livros : Esperidio, A Lua Caiu, Tempos Idos e Vividos.

E mandou em Minas exatamente doze anos: de 33 a 45.

O DISCURSO – Benedito chegou a Curvelo, Minas Gerais, para visitar a exposio de gado do municpio. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que j determinei Caixa Econmica e aos bancos do Estado a concesso de emprstimo agrcolas a prazos curtos e juros longos.

L do povo, algum corrigiu:

o contrrio, governador!

Desde que o dinheiro venha, os pronomes no tm importncia.

E continuou. Estava conversando com Ciro dos Anjos, deu sono:

Ciro, vou dormir. Vou entregar-me aos braos de Orfeu.

Faltou um M, doutor Benedito.

No faltou, no, Ciro, Orfeom um instrumento musical. Eu estou com sono mesmo.

E foi dormir.

LTIMO VAGO – Pesquisa ferroviria em Minas, na antiga Rede Mineira de Viao, apurou que o vago mais atingido nos desastres era sempre o ltimo. Benedito, interventor, recebeu o estudo, leu, chamou Ciro dos Anjos:

Prepare um decreto suprimindo o ltimo vago.

Gustavo Capanema, ministro da Educao d Getlio, encontra-se com Benedito Valadares, interventor de Minas, na ante sala do gabinete do presidente. Benedito estava com os olhos inflamados:

O que isso, Benedito, nos seus olhos?

O mdico me disse que conjuntivite na vista.

Conjuntivite na vista no, Benedito. Isso pleonasmo.

Getlio chamou, Benedito entrou:

O que isso nos seus olhos, governador?

Agora estou na dvida, presidente. O mdico, l em Belo Horizonte, tinha dito que era conjuntivite na vista. Mas o Capanema, que muito inteligente, acaba de me dizer, a fora, que no no; que pleonasmo.

JORNALISMO – Cada tempo tem suas histrias, cheias de sutilezas e lies. O competente jornalista e professor Rosental Calmon Alves, dizia em um seminrio no Globo sobre o futuro do jornalismo:

Agora, o jornal no vai mais ser apenas jornal. Pode se expandir para outras formas de comunicao com o leitor, desde que perceba que seu negocio contar historias. Sempre fomos contadores de histrias. S que agora, com a internet e os blogs, podemos fazer isso de forma mais ampla.

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histrias. Exatamente pela razo do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.

Assim caminha a humanidade, em meio ao politicamente incorreto

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Meneses Pimentel, professor de Direito Romano e Filosofia do Direito, governador (1935 a 37), interventor (37 a 45), deputado (51 a 55), ministro da Justia (55 a 56), senador (59 a 71), foi tudo no Cear.

Era interventor, chegou ao palcio do Catete a notcia de que tinha sido baleado em Fortaleza. Lourival Fontes, Chefe da Casa Civil de Getulio, telegrafou a Brasil Pinheiro, chefe da Casa Civil de Pimentel:

Informe urgente se governador Meneses Pimentel foi alvejado.

Brasil Pinheiro informou urgente:

No. Continua preto.

Meneses Pimentel era mulato retinto.

NOME DE ARTISTA – Ageu de Castro, coronel de muitas terras e importncias, era deputado estadual pela regio de Sousa, na Paraba. O coronel era inteligente e rude, grosso e racista. Em Joo Pessoa, foi ao palcio falar com o governador Pedro Gondim. O oficial de gabinete, negro, no o conhecia, perguntou qual era o assunto. O coronel explodiu:

Como sua graa?

Marilake Toscano.

Negro, Marilake nome de artista de cinema. De hoje em diante seu nome Benedito. Be-ne-di-to, ouviu?

Meteu a mo na porta e entrou.

NEGRO DE LIMA – O poeta portugus Julio Dantas (A Ceia dos Cardeais) veio ao Brasil, foi a Belo Horizonte. O prefeito (1947 a 1951) era Otaclio Negro de Lima, irmo de Francisco Negro de Lima. Estavam l as autoridades. No conhecia ningum. Sabia apenas o nome do prefeito, doutor Negro.

Olhou para um lado, olhou para o outro, abriu os braos e foi em direo ao cordo das autoridades:

Doutor Negro, meu abrao.

E abraou o senador Melo Viana, mulato queimado, quase negro.

DISCURSO RACISTA – Milton Santos, o saudoso jornalista, professor, poderoso intelectual (ganhou o Nobel de Geografia), morava no mesmo edifcio e andar em que eu morava (o Napoli,na Barra, em Salvador).No golpe de 64, fomos presos.

Editorialista de A Tarde, o jornal mandou o veterano e respeitado secretario da redao ao quartel. O coronel, de p, fez um discurso racista:

Alm de subversivo, um negro importador de putas francesas.

Abriu uma gaveta, puxou uma foto:

Olhe ele aqui, jantando com duas putas francesas importadas.

Uma das louras era a mulher do Milton. A outra era a mulher do secretario do jornal, que reagiu aos berros. O coronel quase leva um tabefe. O jantar tinha sido na casa do secretario, no aniversario dele.

Mesmo assim, Milton continuou preso. S foi solto e exilado por interferncia do general De Gaulle, presidente da Frana, junto a Castelo Branco, porque o Milton era professor da Universidade de Estrasburgo.

NOS STATES H meio sculo, em 1960, acompanhando a campanha de Nixon e Kennedy nos Estados Unidos, eu no compreendia como, em pleno sculo XX,na maior potncia econmica e militar do mundo,os negros no podiam sentar junto dos brancos no metr, nibus, trens, restaurantes, at nos bares.

Na minha Bahia, e no Brasil todo, negros e brancos nos sentvamos juntos nos mesmos bancos dos bondes, nibus, trens, bares e restaurantes.

Tambm me chocaram os principais argumentos contra John Kennedy: era catlico, liberal e mulherengo. Ganhou por menos de 1%.

Nos mesmos Estados Unidos, o negro Barack Obama, filho de africano muulmano do Qunia, criado por um muulmano, casado com uma negra, com duas filhas negras, candidato do partido de Kennedy, foi eleito presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo.

um acontecimento extraordinrio na historia da humanidade. Jamais o bicho homem caminhou tanto em to pouco tempo. A Idade Mdia e a Inquisio da Igreja Catlica duraram mil anos. A escravido, milhares de anos, desde a China e o Egito. O racismo ainda ronda por a, mas envergonhado e cada dia mais desmoralizado e rejeitado.

AMIGO CAYMMI -Todo mundo j contou uma do inesquecvel Caymmi. Tambm vou contar a minha. Helio Fernandes lembrou que ele nasceu no mesmo dia, ms e ano de Carlos Lacerda: 30 de abril de 1914. A mesma genialidade.

Numa tarde de 1990, em Agrigento, na Siclia, diante do cu azul e do mar azul do Mediterrneo, Jorge Amado comeou a lembrar-se da Bahia e me contou uma historia dele, de Caymmi e Lacerda, muito interessante.

Muito amigos nos anos 30, depois que Caymmi e Jorge chegaram ao Rio, foram passar um domingo em Paquet. Com seu inseparvel violo, Caymmi comeou a dedilhar uma nova musica. Lacerda pegou um papel e escreveu dois versos. Jorge tambm escreveu mais uns. E pararam a.

Caymmi concluiu depois. Creio que foi Doce Morrer no Mar.