Aumento de preços será o maior adversário de Jair Bolsonaro nas urnas de outubro

Charge do Cazo (blogdoaftm.com.br)

Pedro do Coutto

Enquanto partidos articulam candidaturas para governos estaduais que se enquadrem nas disputas presidenciais, os dirigentes partidários esquecem que o maior adversário do governo nas eleições de outubro será o aumento de preços que vem disparando de maneira ininterrupta. Uma pesquisa do Ipea destaca o fato, inclusive, de a inflação atingir muito mais os grupos de renda baixa e média do que os segmentos de renda mais alta.

E olha que são considerados os de renda mais alta aqueles cujos vencimentos são no mínimo de R$ 10 mil por mês. Portanto, há um certo exagero em considerar renda elevada esse limite no fundo mediano.

CLASSIFICAÇÃO – Mas como tudo é relativo dentro da realidade brasileira, não deixa de ser verdadeira a classificação. Isso porque um terço dos que trabalham ganham até um salário mínimo e os que recebem mensalmente até dois salários mínimos e meio são 55% da população ativa. Considera-se população ativa a que se encontra trabalhando, incluindo a parcela dos que deveriam estar no emprego mas perderam-no , somando praticamente 100 milhões de pessoas, quase metade da população do país.

Relativamente ao levantamento do Ipea, a pesquisadora do Instituto, Maria Andréia Lameiras, sustenta que houve em 2021 um crescimento da inflação para todos, conforme o IBGE,  da ordem de 10%. Mas a incidência mais forte, como era esperado, atingiu os grupos de renda menor. A explicação é simples; quanto menor for a renda, maior será o percentual de gastos com a aquisição possível de alimentos.

O Ipea, de acordo com reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de S.Paulo, dividiu a sociedade em grupos de renda definidos. A renda superior a R$ 8.950 abrange apenas 3,1% da população. Acima de R$ 17 mil encontra-se apenas 2,7%. As escalas restantes englobam as parcelas mais atingidas em seu poder de compra. A pesquisa do Ipea foi realizada antes do mais recente aumento da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha. Quanto a esse último, o governo iniciou a distribuição de um vale de R$ 52. Mas o botijão no mercado custa praticamente o dobro desse valor.

ENVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS –  Em consequência da elevação de preços não ser acompanhada por reajustes salariais, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 70,9% de acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio, reportagem de Júlia Noia, O Globo desta quarta-feira.

Desse total, praticamente a metade das famílias encontra-se com dívidas vencidas e de acordo com a pesquisa da CNC a maior parte das pessoas endividadas possui uma renda mensal menor do que o endividamento contraído, o que leva a um espiral na realidade impossível de reverter, principalmente, como é notório, no caso das dívidas dos cartões de crédito cujos juros são absolutamente fantásticos, tanto assim que os próprios credores aceitam renegociar as dívidas em condições minimamente viáveis.

REAJUSTE – Jussara Soares, Dimitrius Dantas, Fernanda Trisotto e Gabriel Shinohara, de O Globo, publicaram afirmações do vice-presidente Hamilton Mourão sustentando ser impossível o reajuste geral de vencimentos dos servidores públicos, reivindicação transformada em ato público na tarde de terça-feira, em Brasília, diante do Banco Central e do Ministério da Economia.

Os funcionários do sindicato do BC informaram que 55% dos servidores do banco paralisaram o trabalho das 10h às 12h de anteontem. Vale a pena acentuar que tanto os funcionários do Banco Central quanto os do Ministério da Economia são aqueles de salários mais altos. Portanto, verifica-se por aí, como se encontra à disposição, funcionários civis da União, de modo geral, desde 2017 sem uma reposição inflacionária sequer.

Sérgio Ronaldo da Silva, coordenador na Confederação dos Trabalhadores do Serviço Público, disse que as manifestações de terça-feira em Brasília marcaram o início de uma mobilização legítima para cobrir perdas causadas pela inflação.

Jair Bolsonaro muda de tom para impedir a vitória de Lula no primeiro turno

Charge do Aroeira (Portal O Dia/RJ)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro mudou o tom de sua campanha eleitoral e passou a desfechar ataques contra o ex-presidente Lula estendendo-os aos ministros do Supremo Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, e tendo como alvo também o Movimento Sem Terra.

Da Folha de S. Paulo, reportagens de Ricardo Della Colleta e de Matheus Vargas focalizam a nova postura, e no O Globo escrevem Daniel Gullino, Jussara Soares e Dimitrius Dantas. Bolsonaro dirige sempre os seus pronunciamentos também aos grupos conservadores e liberais da economia tentando sustentar que Lula representa uma ameaça à estabilidade do país e dos grupos conservadores que apoiam o seu governo.

RADICALIZAÇÃO – O presidente Jair Bolsonaro, como se constata, partiu para radicalizar o confronto eleitoral afastando-se de sua posição até então adotada certamente em decorrência do fato de sua assessoria, analisando as pesquisas do Datafolha e do Ipec, ter concluído que a terceira via na medida em que fosse capaz de assegurar o segundo turno deixaria Bolsonaro e Lula para um confronto final. A terceira via principalmente agora com a nova ofensiva de Bolsonaro ficou ainda mais distante do que se encontrava, na minha opinião.

Dentro da radicalização, Bolsonaro atacou também os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso por suas posições contrárias  às manifestações nas redes da internet, uma vez que está patente que a fábrica das fake news localiza-se no Palácio do Planalto.

Bolsonaro classificou o posicionamento de Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso como contrários à liberdade de expressão. E também citou o exemplo da prisão determinada por Moraes ao deputado Daniel Silveira pelos ataques que este dirigiu a ministros da Corte Suprema.

MONETIZAÇÃO – Dentro da ofensiva que passou a adotar, Bolsonaro condenou também as decisões dos dois ministros contra o que chamou de monetização das mensagens nas redes sociais, incluindo o Facebook, Twitter,  Instagram e Whatsapp.

Os ministros do Supremo condenaram a atividade profissional na internet, mas ao que se refere às fake news, não incluindo trabalhos profissionais de divulgação dentro da lei. Esse panorama representa o início de uma nova etapa da campanha pela Presidência da República.

O pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira sobre a vacinação contrariou o presidente na medida em que Bolsonaro deve ter identificado o alvo da mensagem , destacando a necessidade da vacina, mas transmitindo um outro recado, este de defesa da democracia e do resultado das urnas de outubro.

ATAQUES A LULA – A reportagem de O Globo focaliza também ataques de Jair Bolsonaro numa entrevista à uma emissora de rádio do Espírito Santo na tarde de segunda-feira dirigidos ao ex-presidente Lula pela prática de corrupção na Petrobras.

O posicionamento do chefe do Executivo, a meu ver, elimina totalmente qualquer hipótese de surgimento de um terceiro candidato, como escreveu Eliane Cantanhêde no Estado de S. Paulo de ontem, para se opor à atual polarização entre o presidente da República e o ex-presidente nas urnas de outubro. Ela admite a hipótese, mas creio que o seu artigo foi escrito na terça-feira e publicado na quarta, dia também em que O Globo e a Folha de S.Paulo deram destaque às declarações de Jair Bolsonaro.

OFENSIVA – Bolsonaro deve continuar na ofensiva, uma vez que sentiu finalmente o peso das pesquisas do Datafolha e do Ipec, talvez até informado por novos levantamentos  que se encontram em preparação pelos dois institutos.

A radicalização de Bolsonaro visando direta e singularmente Lula da Silva não deixa campo para qualquer avanço das candidaturas de Sergio Moro, Ciro Gomes e João Dória. Inclusive porque em outubro serão realizadas eleições também para a Câmara Federal, Senado e Assembleias Legislativas, além de para os governos estaduais.

OPÇÕES – Diante do quadro atual que não deverá sofrer alteração até a semana das urnas, dificilmente candidatos a governador poderão partir para as suas campanhas ao lado de Sergio Moro, Ciro Gomes e João Doria. Terão que optar ou por Lula da Silva ou por Jair Bolsonaro no caso de o presidente da República interromper a queda que está se verificando entre o seu eleitorado.

O problema da vacina infantil acrescenta mais um fator de desgaste, sobretudo porque os casos de contaminação pela ômicron têm atingido percentuais muito altos. Assim o caminho das urnas também passa pelas vacinas.

Vacinação será um dos temas principais na campanha eleitoral para outubro

Charge do JCaesar (veja.abril.com.br)

Pedro do Coutto

O debate sobre a vacinação de modo geral e das crianças de 5 a 11 anos, em particular, deverá ser um dos temas principais da campanha eleitoral deste ano pela Presidência da República, conforme revela a pesquisa do Datafolha publicada na edição de ontem da Folha de S. Paulo, reportagem de Patrícia Pasquini, acentuando que 79% defendem a vacinação infantil contra 17% que a rejeitam.

Portanto, como se observa, o resultado do levantamento afeta tanto a candidatura de Jair Bolsonaro quanto as articulações estaduais acerca dela, uma vez que ficou comprovada a alta popularidade da imunização. Do total de pais e responsáveis, 76% revelaram que levarão os seus filhos e netos para os postos de vacinação.

IMPORTÂNCIA DO TEMA – O tema é bastante amplo e de forma inevitável será usado pela oposição ao governo Bolsonaro. A diferença entre os que aprovam e os que não aprovam coloca em destaque a importância do tema a ser adotado pelos candidatos que estão de acordo com a maioria da população, portanto a maioria dos eleitores e eleitoras do país.

Inclusive, diante de uma pergunta, se Bolsonaro atrapalha ou ajuda a vacinação, 58% responderam que atrapalham e 25% se fixaram na hipótese contrária. Comparando-se essa pesquisa que foi também veiculada pela TV Globo na tarde de ontem com os números de aprovação e desaprovação do governo, verifica-se uma proximidade entre os 58% de agora com os 53% da desaprovação registrada pelo levantamento anterior.

Na minha opinião, os 25% que consideram positiva a atuação de Bolsonaro encontram-se na faixa dos que estão dispostos  a votar nele no primeiro turno de outubro. O posicionamento do bolsonarismo parece ser uniforme e difícil de ser reduzido, salvo surpresa, ao longo da campanha que começará em abril, oficialmente.

FLEXIBILIDADE  – A campanha envolve a disputa pela Presidência da República e por governos estaduais e senadores. Relativamente às eleições dos deputados, a questão torna-se mais flexível porque há a existência de redutos de votos comandados por parlamentares que além de outros fatores contam com a distribuição de verbas em suas áreas de influência.

O aspecto essencial entre a eleição federal e as eleições para os governos dos estados situa-se entre os pontos fundamentais das campanhas que temas como os da vacinação, do congelamento salarial, da estagnação dos vencimentos do funcionalismo e da liberação de preços, se de um lado dificultam, de outro facilitam composições eleitorais.

Isso porque é muito difícil serem firmados acordos regionais em torno de temas conflitantes, como é o caso da vacinação e dos salários. Enquanto os salários perdem da inflação registrada pelo IBGE, os preços derrotam disparado o mesmo limite, bastando citar o novo aumento que passou a vigorar ontem da gasolina e do óleo diesel. Quanto ao gás de cozinha, o próprio governo destinará um vale de R$ 50 por mês para que as camadas mais pobres da população possam pelo menos cozinhar.

PREÇOS E SALÁRIOS – Reportagem de Idiana Tomazelli, Folha de S. Paulo de ontem, focaliza a posição do Ministério da Economia contrária ao projeto de recuperação fiscal do Estado do Rio de Janeiro com base principalmente na reposição inflacionária dos vencimentos dos servidores. São previstos 10% neste mês de janeiro e mais 14% ao longo dos próximos dois anos. O Tribunal de Contas da União, entretanto, posiciona-se favorável ao plano do governo estadual.

Da mesma forma que o representante do Tesouro federal, a posição do Ministério da Economia é curiosa, pois ela fixa no combate ao aumento de despesas quando se trata do funcionalismo, mas assume uma posição favorável, por exemplo, ao aumento das despesas com a aquisição de gasolina e óleo diesel.

Neste caso, o Ministério da Economia não vê obstáculos. Não vê obstáculos também ao reajuste de preços de obras públicas, o que conduz à certeza de que para a equipe de Paulo Guedes o problema situa-se somente nos valores do trabalho humano.

Após ataques de Bolsonaro, Lula diz que todos terão que aceitar o resultado da eleição

Lula lidera pesquisas e diz que maioria rejeita autoritarismo

Pedro do Coutto

Numa resposta tão indireta quanto direta ao presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Lula colocou na tarde de sábado nas redes sociais da internet que a população do país rejeita o autoritarismo e que todo mundo terá que respeitar os resultados das eleições de 2022.

A matéria está na edição de domingo da Folha de S.Paulo. A declaração sucede afirmações do presidente Jair Bolsonaro publicadas na mesma Folha de S. Paulo no sábado atacando novamente os ministros do Supremo Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moares e também voltando a levantar dúvidas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, posição que assumira há alguns meses mas que deixara de lado na fase final de 2021 a partir do momento em que o Exército passou a participar do sistema de apuração dos votos no país.

LACERDISMO – As declarações a favor do respeito às urnas remete ao passado, especialmente às eleições de 1955 vencidas por Juscelino Kubitschek. Na ocasião o deputado Carlos Lacerda, que depois elegeu-se governador da Guanabara em 1960, comandou forte campanha com programas diários em emissoras de rádio contra a posse dos eleitos JK e seu vice João Goulart. Penso que o lacerdismo foi um vírus inoculado contra a democracia, uma vez que Lacerda cada vez que perdia uma disputa eleitoral voltava-se contra a posse do vencedor ou dos vencedores.

O vírus parece manter o seu ciclo como comprovam os episódios que contaram com a sua presença no primeiro plano dos embates políticos. Em 1950, foi contra a posse de Getúlio Vargas, Em 1955, contra a posse de Juscelino Kubitschek. Em 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, empenhou-se contra a posse de João Goulart. Finalmente, em 1965, quando o seu candidato ao governo da Guanabara , Flexa Ribeiro, foi derrotado por Negrão de Lima.

Negrão talvez não poderia tomar posse e se recusou a transmitir o cargo de governador. Agora o ex-presidente Lula da Silva pronunciou-se contra o vírus do lacerdismo, de acordo com reportagem de Igor Gielow, Folha de S. Paulo, quando militares afastam-se de Bolsonaro e sinalizam a aceitação, como é próprio da democracia, da posse do vitorioso nas urnas para o Palácio do Planalto.

ESTADO NOVO – Os exemplos ficam na história e não foi só Lacerda que se voltou contra o regime democrático. Há o exemplo de Getúlio Vargas que em novembro de 1937 fechou o Congresso Nacional caçando o mandato de senadores e deputados e implantou o Estado Novo, uma ditadura que só acabou oito anos depois, em 1945. O caminho das urnas, portanto, não é das etapas mais fáceis no Brasil.

E até nos Estados Unidos houve a tentativa de janeiro de 2021 quando correntes vinculadas ao ex-presidente Donald Trump invadiram o Capitólio em Washington e tentaram impedir a confirmação pelo Congresso da incontestável vitória de Joe Biden nas eleições de novembro de 2020. A democracia, na opinião de um antigo político brasileiro, Otávio Mangabeira, é uma planta que tem que ser regada diariamente.

DIAGNÓSTICO – Reportagem de Isabela Palhares e Cláudia Collucci, Folha de São Paulo, revela, com base em pesquisa do Datafolha que 42 milhões de pessoas com mais de 16 anos receberam diagnóstico que apontou terem contraído Covid-19. As cifras oficiais fornecidas ao consórcio de imprensa formado pelo O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. paulo, Valor  e o canal Uol, assinalam praticamente a metade apontando uma contaminação na ordem de 23 milhões de homens e mulheres.

A diferença é muito grande, mas acredito que não influencie na vacinação que é altamente popular. Tanto assim que passa de 165 milhões de pessoas, correspondendo a 65% da população. Mas observa-se com base na pesquisa do Datafolha que há uma dificuldade de se obter teste que revele a contaminação. Tanto que apenas 17% conseguiram realizá-lo. Uma parte porque não encontrou local. Outra, acredito, por falta de recursos financeiros para poder realizá-lo e pela dificuldade de atendimento na rede pública.

De qualquer forma, a vacinação, como se observa pelos números, é altamente popular e com isso a posição negacionista do governo Bolsonaro só pode contribuir para a perda de votos nas próximas eleições. Duas reportagens da Folha de S. Paulo focalizam nitidamente a dimensão da pandemia e o fato das estatísticas oficiais ficarem aquém dos números revelados pelo Datafolha.

RENDA MÉDIA – Reportagem de Fernanda Trisotto, O Globo de domingo, a partir de um levantamento do centro de liderança pública mostra que exceto os integrantes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária e dos militares, a renda média ao longo dos últimos dez anos encolheu 5%.

No Poder Judiciário a queda foi de 11%, incluindo, portanto , os ministros do STF e do STJ. Fernanda Trisotto focaliza o aspecto do reflexo político na queda do poder aquisitivo, uma vez, acrescento, que os salários estão congelados, mas os preços liberados a começar pelos da gasolina, óleo diesel e etanol.  

São dois pesos e duas medidas. Por este aspecto, segundo acentua Lauro Jardim em seu espaço no O Globo, a negativa de Paulo Guedes em aceitar o aumento de salários do funcionalismo federal está irritando o presidente Jair Bolsonaro.

Distribuidoras de energia fazem empréstimos nos bancos, mas nós é que pagamos a conta

(Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro através de decreto assinado autorizou, na última semana, as distribuidoras de energia a contratarem empréstimos bancários até o limite de R$ 14,8 bilhões para cobrir as perdas que as atingiram em consequência da crise hídrica que levou à Aneel a acionar termelétricas, cuja energia é mais cara do que a hidrelétrica.

Acontece que os empréstimos vão ser pagos por todos nós, consumidores e não pela Aneel ou pelas próprias distribuidoras de energia. Reportagem, aliás excelente, de Marianna Holanda, Folha de S. Paulo deste sábado, expõe claramente o assunto, e revela que os créditos serão lançados nas contas mensais de consumo das indústrias, do comércio e dos domicílios residenciais.

CÁLCULO – O Tribunal de Contas da União está pedindo informações sobre o cálculo projetado pela Aneel, lembrando inclusive que nos encontramos em ano eleitoral e que o débito decorrente dos empréstimos poderá ser transferido para o próximo governo.

Mas a questão, digo, não é somente essa. Principalmente, trata-se de uma intermediação, caso dos bancos, que seria desnecessária se o alegado prejuízo  fosse diretamente pago pelos consumidores. Neste caso, ao contrário dos créditos bancários, não arcaríamos com os juros que incidem sobre os créditos, no mínimo da ordem de 27% ao ano.

O decreto do presidente Jair Bolsonaro está publicado no Diário Oficial de sexta-feira. Justificando o decreto, o Planalto diz em nota que a iniciativa é para garantir a firmeza do sistema elétrico de forma a assegurar a injeção de recursos financeiros necessários ao sistema e que decorre do tempo em que as despesas incidiram nos custos das distribuidoras.

PAGAMENTO DA CONTA – Mas o governo esquece que os consumidores, todos nós já pagamos as contas de energia com acréscimo exatamente em função de as termelétricas terem sido acionadas. Dessa forma, estamos pagando a conta duas vezes e no caso da segunda vez acredita dos juros cobrados pelos bancos.

Talvez não fosse o caso da Caixa Econômica Federal e do BNDES que não possuem ações na Bovespa. Mas seria o caso do Banco do Brasil. Entretanto, devemos contar com a perspectiva de os créditos serem contratados junto ao Itaú, Bradesco e Santander, os maiores bancos privados do país.

URNAS ELETRÔNICAS – No segundo semestre do ano passado, o presidente Bolsonaro chegou a assinalar que as urnas eletrônicas não eram confiáveis e que defendia a volta do voto impresso. E se tal volta não ocorresse disse que poderia não haver eleições em 2022. Além disso, dirigiu ataques aos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso. Depois recuou e passou a acreditar nas urnas eletrônicas quando o Exército foi escalado para participar da organização do pleito geral de outubro.

Chegou a afirmar que não cumpriria mais as decisões do ministro Alexandre de Moraes. Recuou e leu na televisão uma carta de desculpas redigida pelo ex-presidente Michel Temer. Mas isso já pertence ao passado. No presente – reportagem de Dyepeson Martins Fabiano Maisonnave Marianna Holanda, Folha de S. Paulo, revela que no Amapá, o presidente Bolsonaro voltou a se pronunciar preocupado com as fraudes eletrônicas, repetindo que em 2018 deveria ter vencido as eleições no primeiro turno. Mas a fraude remeteu o desfecho final para um segundo turno contra Fernando Haddad.

FAVORECIMENTO –  Além disso, passou a acusar novamente os ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso de ameaçarem a liberdade democrática para beneficiarem a candidatura do ex-presidente Lula da Silva. Com isso, acredito, os apoiadores de Bolsonaro surpreenderam-se novamente, pois o presidente havia retificado essas opiniões e agora voltou a publicá-las.

Bolsonaro também, acrescenta a reportagem, recuperou uma fake news dizendo que pessoas estariam comendo cães e gatos para não passar fome durante as restrições na pandemia da Covid em Araraquara (SP) no ano passado. Ele disse não entender como o prefeito petista Edinho Silva foi reeleito e colocou em dúvida o processo eleitoral. O presidente faz menção a um áudio apócrifo que circulou nas redes sociais, no ano passado, de uma mulher que chora, dizendo que uma vizinha chegou a comer um gato.

Como se constata, as alternâncias de comportamento do presidente da República são frequentes e surpreendentes para os seus apoiadores que têm que fazer esforço para acreditarem na importância para o voto popular em tais avanços e recuos.

PAUTA ECONÔMICA  – O ex-presidente Lula da Silva afirmou a Catia Seabra e Ana Luiza Tieghi, Folha de S. Paulo de ontem, que o mercado penso que o financeiro, não pode ditar a pauta econômica do candidato ou a pauta econômica de um governo. O ex-presidente tem razão. O chamado mercado é uma espécie de mão de tigre da qual  a população trabalhadora não pode depender, pois ninguém pode ser ao mesmo tempo juiz e parte de questão alguma.

No caso do mercado econômico e financeiro, para mim há a necessidade fundamental de uma harmonia entre capital e trabalho capaz de garantir um novo sistema de distribuição de renda e não de concentração cada vez maior, se mantida a política traçada pelo ministro Paulo Guedes.

Após Bolsonaro dar mais poder à Casa Civil, equipe de Guedes deve forçá-lo a sair da pasta

Charge do Aziz (Charge Online)

Pedro do Coutto

Com o decreto transferindo para o chefe da Casa Civil a execução do orçamento, o presidente Jair Bolsonaro, sem dúvida alguma, esvaziou fortemente a posição política e administrativa de Paulo Guedes. Afinal de contas, é fato inédito que a execução do orçamento fique a critério do chefe da Casa Civil e não de acordo com as diretrizes do ministro da Economia, que, aliás, acumula as funções de ministro da Fazenda e do Planejamento.

O presidente da República sustenta que a base parlamentar do Planalto precisa ser atendida e que a liberação de recursos para bases eleitorais de adversários políticos ficavam com muito dinheiro. A crítica, portanto, foi direta a Paulo Guedes que não pode, na minha opinião, simular que não ouviu.  O ponto nevrálgico da questão está na sua atuação política, uma vez que pelo o que se entende da fala do presidente estava fortalecendo adversários do governo nas eleições de outubro deste ano.

ESTRUTURA ABALDA – No O Globo, Manuel Ventura, Daniel Gullino e Daniel Shinohara focalizam a decisão que, sem dúvida alguma, abala a estrutura do governo, sobretudo na medida em que força a substituição do titular da Economia. Na Folha de S. Paulo, Idiana Tomazelli e Marianna Holanda, também na edição de ontem, destacam que Bolsonaro tirou o poder de Paulo Guedes no sentido de fazer com que a Casa Civil transfira recursos previstos nas emendas dos deputados que formam o Centrão, sua base parlamentar.

A matéria ainda assinala que Guedes ficou mal no episódio. Diante desse panorama é provável que integrantes da equipe deixem os cargos. Existe também a questão que deputados e senadores do Centrão realizaram acertos paralelos para a liberação de emendas parlamentares para obras em redutos eleitorais.

Com o decreto, o titular da Casa Civil, Ciro Nogueira, deverá liberar as mudanças em cada linha de despesa, acentuam também Idiana Tomazelli e  Marianna Holanda. Como se constata, mais uma crise abala o governo com reflexo no quadro político eleitoral. Tenho dúvida se a saída de Paulo Guedes acrescenta alguns votos a Bolsonaro ou acarretará perdas com reflexos nas urnas.

CADA UM POR SI– Seja qual for o reflexo, teria sido melhor para o governo que essa nova crise não tivesse ocorrido, mas ela acentua a força irresistível do fisiologismo, sobretudo quando se aproximam as eleições. Não se trata apenas, Bolsonaro talvez não tenha entendido, de uma posição de deputados e senadores em favor da reeleição do presidente. Trata-se sobretudo do empenho de parlamentares para que eles próprios se reelejam, independentemente do destino do presidente da República.

Em matéria de Centrão, precedentes não faltam. O bloco apoiou Fernando Henrique Cardoso, apoiou Lula da Silva, apoiou Dilma Rousseff até o seu segundo mandato, apoiou Temer e apoia Jair Bolsonaro. Mas a vinculação nas urnas de outubro dependerá do fato de se Bolsonaro lhes acrescenta votos ou lhes retira sufrágios.

Na segunda hipótese, partirão para alianças estaduais que sejam mais vantajosas do que a aplicação dos recursos financeiros de suas emendas orçamentárias. Afinal de contas estamos tratando de política. Portanto, liberados os recursos das emendas, cessam os motivos fisiológicos para que parlamentares continuem ao lado do governo e da campanha do presidente.

REFLEXO NO EXÉRCITO –  A reportagem de Daniel Della Coletta e Vinicius Sassine revela que logo após a divulgação da mensagem do general Paulo Sergio Nogueira, comandante do Exército, em favor da vacinação e proibindo as fake news na Força, uma nova tempestade ameaçou atingir o governo.

Bolsonaro, acentua a matéria, reuniu-se com o comandante do Exército quando o presidente manifestou receio de que as diretrizes do general gerassem uma nova crise. Logo, Bolsonaro revelou de fato estar contra as determinações do comandante do Exército ao que se refere às vacinas e também às fake news. O encontro foi no Palácio da Alvorada e sua motivação,segundo informaram, foi tratar de projetos estratégicos das Forças Militares.

Bolsonaro negou a existência de recomendação, acentuando que a matéria é uma questão de interpretação. Entretanto, os que combatem a obrigatoriedade da vacina sob a alegação da liberdade de aceitá-la ou não, esquecem uma outra obrigação determinada pelo Estado às famílias que é a de matricularem os seus filhos e filhas acima de 6 anos de idade na rede de ensino. A matrícula não é facultativa, dada a sua importância social e educativa. Portanto, digo, a vacinação também deve ser obrigatória.

Qual a reação dos apoiadores de Jair Bolsonaro diante de seus ataques às vacinas?

Charge do Zé Dassilva (nsctotal.com.br)

Pedro do Coutto

A pergunta que está no título deste artigo, espero, deve ser respondida nas próximas pesquisas do Datafolha e do Ipec, pois se trata de uma situação de inegáveis reflexos políticos e eleitorais, e portanto objeto de destaque nos levantamentos de opinião pública. O presidente Jair Bolsonaro tem se caracterizado por suas posições contrárias à vacinação e agora, mais recentemente,  contra a vacinação infantil e à Anvisa.

Como a vacinação é algo extremamente popular, conforme a adesão de pessoas demonstra, é natural que o posicionamento do chefe do executivo gere oposição na opinião pública. Pode-se presumir que as reações dos eleitores e eleitoras seja contrária, porém é preciso confirmar e essa confirmação coletiva só pode ser alcançada por intermédio do Datafolha e do Ipec.

REFLEXO – Importante também é medir o reflexo da nova ofensiva de Bolsonaro contra ministros do Supremo Tribunal Federal, especificamente Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e agora Edson Fachin.

Fachin por um despacho sobre o registro de uma criança em Santa Catarina que desperta dúvidas quanto ao sexo. Numa entrevista ao canal Gazeta Brasil no Youtube, o presidente da República acusou Moraes e Barroso  de interferências políticas. “Quem pensa que são ?”, indagou Bolsonaro. “Vão apurar medidas drásticas sobre as redes sociais, ameaçando as liberdades democráticas e a liberdade de expressão?”, acrescentou.

ARSENAL DE ATAQUES – Bolsonaro disse ainda que os dois ministros são defensores da candidatura de Lula. O presidente da República reabriu assim, como acentua Daniel Gullino, O Globo de ontem, seu arsenal de ataques aos integrantes da Corte Suprema. “Que país é esse? Que ministro é esse Alexandre de Moraes, o que ele tem na cabeça?”, questionou.

Bolsonaro voltou a atacar a Anvisa por sua decisão a favor da vacinação infantil e demonstra assim ou um descontrole emocional ou o desejo de radicalizar em profundidade a campanha eleitoral, visando deslocar o desfecho, penso, das urnas para as armas. Mas a posição do Exército, refletida nas recentes palavras do general Paulo Sergio Nogueira ,indicam a existência de forte obstáculo.

FUNDO ELEITORAL –  O ministro André Mendonça, do STF, em seu primeiro despacho,  pediu informações ao presidente da República e ao Congresso Nacional sobre o valor do fundo eleitoral, que subiu de R$ 2 bilhões em 2020, nas eleições municipais, para R$ 7,5 bilhões, nas eleições gerais deste ano. Nos últimos dois anos a inflação está em cerca de 20%, mas o fundo eleitoral cresceu 270%. Como se vê, doze vezes mais do que o índice inflacionário do IBGE.

Essa importância foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da República, representando uma despesa orçamentária adicional exatamente no momento em que o ministro Paulo Guedes aparentemente defende a contenção de gastos públicos e manutenção do teto orçamentário para este ano, lembro novamente, de R$ 4,8 trilhões.

VOOS DE LUXO –  No O Globo de ontem, Daniel Gullino comenta o decreto do presidente da República autorizando os ministros de Estado, assessores e titulares de cargos em comissão,quando em viagens internacionais, a marcarem os seus assentos na classe executiva, cujos preços são duas vezes e meia maiores dos que os da classe comum.

Como as passagens são pagas pelo governo e os ministros e servidores de destaque não pagam as passagens e também recebem diárias proporcionais aos dias em que permanecem no exterior, verifica-se que o decreto de Bolsonaro eleva as despesas do Tesouro. E numa escala elevada, pois o decreto que acaba de entrar em vigor abrange 500 servidores, entre ministros, titulares de cargos em comissão, assessores especiais, entre outros. A medida tem que se ajustar ao orçamento. Um acréscimo desnecessário às despesas públicas.

CUSTO DOS AUTOTESTES –  O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, referindo-se à perspectiva de que a população alarmada com os casos de ômicron, inclusive atingindo os vacinados, sugeriu que a população realize autotestes, uma vez que a procura por testes tem sido muito intensa, como era esperado nas redes públicas de Saúde. Porém, estão faltando insumos para os testes de forma geral.

A escassez é objeto de excelente reportagem de Mariana Rosário e Adriana Mendes, O Globo de ontem. Mas mesmo que houvesse insumos no mercado, é indispensável que o Ministério da Saúde explique qual o procedimento e a interpretação sobre o resultado. Mas o problema não termina aí. É preciso considerar o custo dos insumos. Quem pagaria a conta da aquisição do contraste necessário para diagnosticar o resultado e das hastes com algodão na ponta que testam a reação nasal?

Os testes em farmácia têm preço, em laboratórios são mais caros ainda. Os postos de Saúde estão sobrecarregados. A grande maioria da população, cerca de dois terços, não tem condições financeiras para arcar com mais essas despesas.

PROMESSAS DE CAMPANHA –  Os cinco principais candidatos à Presidência da República nas urnas de outubro, Lula da Silva, Jair Bolsonaro,  Sergio Moro, Ciro Gomes e João Doria – reportagem de Gustavo Schmitt e Bianca Gomes, O Globo, apresentaram seus planos sintéticos para a Economia do país caso sejam eleitos.

Os planos são sempre importantes e promissores, é claro, pois precisam dizer aquilo o que os eleitores e os empresários precisam ouvir. Como se diz há alguns séculos, o papel aceita tudo. Mas a teoria na prática é diferente e as promessas o vento leva. Vejam o exemplo de candidatos vitoriosos que no poder agiram ao contrário do que disseram em suas campanhas.

Joaquim Barbosa coloca um freio na decolagem do candidato Sergio Moro

Barbosa disse a aliados que vê com desconfiança a candidatura de Moro 

Pedro do Coutto

O ex-ministro Sergio Moro visitou segunda-feira, no Rio, o ministro aposentado do Supremo, Joaquim Barbosa, em busca de apoio para a sua candidatura à Presidência da República, mas, revela a reportagem de Julia Chaib e Catia Seabra, Folha de S.Paulo desta quarta-feira, que não obteve o êxito esperado.

Joaquim Barbosa disse a pessoas próximas que recebeu Moro por cortesia, mas que tem restrições à sua aproximação com procuradores e agora também com militares descontentes com o governo Bolsonaro.

FREIO – A posição de Joaquim Barbosa representou, na minha visão, um freio na candidatura daquele que na esteira aberta por Barbosa enfrentou e condenou ladrões de casaca. Entretanto, Joaquim Barbosa, como revela a reportagem, disse que Sergio Moro cometeu um erro crasso aceitando ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro.

A restrição de Joaquim Barbosa surgiu num momento muito sensível para a candidatura de Sergio Moro na medida em que este encontra-se num esforço para decolar e com isso tentar transformar-se numa terceira opção, visando sobretudo enfraquecer Bolsonaro. Ele consegue parcialmente isso porque seu potencial de eleitores, localizados nos segmentos de renda mais alta, são justamente aqueles que juntos aos quais Bolsonaro tem melhor colocação.

Junto aos eleitores e eleitoras de renda menor a penetração tanto de Bolsonaro quanto de Sergio Moro é muito pequena, com o agravante para Bolsonaro de o fenômeno resistir às suas ações administrativas, como é o caso do Auxílio Brasil. O Auxilio Brasil é uma concessão, mas não uma interação social entre o concessionário e os que recebem auxílio.

EFEITOS INFLACIONÁRIOS – Conforme começou a ser noticiado nos jornais de terça-feira e ontem na Folha de S. Paulo e no O Globo, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, dirigiu carta ao ministro Paulo Guedes tentando explicar a explosão da meta inflacionária de 2021 como consequência da economia mundial.

Como focalizamos ontem, a carta é a sexta edição de explicações transcorridas ao longo de 12 meses. A meta inflacionária era de 5% e acabou fechando em 10%. Roberto Campo Neto procura explicações que não convencem, é claro. Mas mesmo que convencessem,  falta uma consequência fundamental: os efeitos inflacionários no custo de vida brasileiro e no consumo de nossa população, inclusive as compras nos supermercados. Isso é um problema grave. Qual a solução que Roberto Campos Neto propõe para os efeitos inflacionários? Nenhum.

Quais as medidas esboçadas por Paulo Guedes para conter ou suavizar os efeitos do aumento do custo de vida? Nenhum. Qual a providência do presidente Jair Bolsonaro? Nenhuma. Então a explicação interessa menos do que os efeitos do processo, sobretudo porque refere-se à integridade e à própria vida humana dos brasileiros e brasileiras. Entre os efeitos não compensados da inflação, encontra-se o avanço da fome.

POPULARIDADE DIGITAL –  Reportagem de Carolina Linhares, Folha de S.Paulo de ontem, destaca que segundo pesquisa do Instituto Quaest,  a presença digital de Lula e de Bolsonaro neste ano passou a ser próxima uma da outra, inclusive até o final do ano passado houve um avanço de Lula. O Instituto chama índice de popularidade digital. Lula atinge 60 pontos contra 52 de Bolsonaro. Ciro Gomes é o terceiro e Sergio Moro é o quarto.

A proximidade entre Lula e Bolsonaro é uma consequência do avanço do petista junto ao eleitorado. Ele sempre perdeu a batalha digital para Bolsonaro, mas agora até o supera por pequena margem, consequência de sua popularidade e decorre também da medida em que se aproximam as eleições de outubro deste ano.

RECUO DE RONALDO –  Numa extensa entrevista à Folha de S.Paulo, na edição desta quarta-feira, Ronaldo Fenômeno disse que a cada dia que ele e o seu grupo abrem uma gaveta do Cruzeiro encontram uma surpresa negativa. Na terça-feira surgiu o endividamento do clube da ordem de R$ 1 bilhão. A dívida, disse Ronaldo, é maior do que ele esperava. “Não quer dizer que eu vá desistir, embora no pré-contrato exista tecnicamente a possibilidade de uma desistência”, afirmou.

No processo, estão em processo de análise. Mas na minha opinião, Ronaldo Fenômeno não separou  a parcela de investimentos da parcela da dívida. Isso faz com que o aporte de capital do grupo que ele representa (que o dinheiro não é só dele, é claro),  tenha que atingir a ordem de R$ 1,4 bilhão.

O voto e o povo, o candidato e o presidente, após as promessas eleitorais

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro – ótima matéria de Dimitrius Dantas, O Globo de terça-feira, procurou rebater as críticas sobre o seu alinhamento político e disse que os eleitores que o levaram à vitória em 2018 sabiam que ele fazia parte do bloco do Centrão. Não é exata a afirmação. Pelo contrário, Bolsonaro elegeu-se anunciando um posicionamento exatamente contrário à ideologia do Centrão, ou melhor,  à fisiologia do centrão, como algo nocivo ao país e à democracia.

As afirmações de agora colocam em destaque a divergência entre o candidato de 2018 e o presidente da República que assumiu em 2019 e repete a política que condenava no poder. Decepcionada, uma parte substancial de eleitores e eleitoras foram atingidos pela vontade de buscar o voto de volta. Mas é tarde. Urnas agora só as de outubro deste ano.

PROGRAMA IDÊNTICO – O fenômeno de arrependimento não é novo. Ocorreu com Dilma Rousseff ao conquistar o seu segundo mandato nas eleições de 2014. Ela acusou Aécio Neves de ter um programa economicamente liberal e contrário aos interesses populares. Entretanto, reeleita passou a colocar em prática programa absolutamente idêntico. Os eleitores também quiseram buscar o voto de volta. É o risco que envolve o povo e o voto.

O risco dos candidatos , uma vez vitoriosos, assumirem na Presidência o comportamento oposto ao anunciado nas campanhas eleitorais existe. O voto e o povo, por sinal, é título de um livro meu publicado em 1966, o qual focaliza a diferença de comportamento político entre os grupos de renda mais alta e os segmentos de renda menor. Mas essa é outra questão.

CAÇA AOS VOTOS – O fato é que temos que reconhecer que na propaganda política ou partidária, os candidatos têm que dizer aquilo que os eleitores e eleitoras querem ouvir. Afinal de contas, os candidatos estão pedindo votos e não se pode pedir alguma coisa quando na formulação que está solicitando contraria de antemão os que estão sendo solicitados a comparecer às urnas.

É um risco democrático, mas não há o que fazer. O caso, entretanto, é de sensibilidade para com os limites do possível já que a política em si é a arte do possível. Por isso, quando uma promessa é flagrantemente exagerada, os eleitores e eleitoras devem desconfiar.

Conforme escrevi recentemente, não foi o caso do ex-juiz Sergio Moro que recebeu o Ministério da Justiça livre de pressões partidárias, acumulando até no seu esquema de atuação o Coaf, ponto profundamente nevrálgico às articulações entre setores políticos, setores administrativos e setores empresariais. Era poder demais e por isso a promessa durou pouco. Moro deveria ter percebido. Mas não o fez.

ARREPENDIMENTO – O presidente Jair Bolsonaro parece ter se arrependido do veto total que aplicou ao projeto que financiava dívidas tributárias de pequenas e microempresas. É o que revela a reportagem de Daniel Giulliano, O Globo de ontem. Tanto assim, que primeiro Bolsonaro admitiu que o seu veto será derrubado. Um fato inédito.

O autor manifesta-se certo de que o Legislativo vai anulá-lo. Assim mostra que não tinha a menor certeza da repercussão de seu ato. O projeto que o governo tenta agora reviver ou aguardar a quebra do veto, permitia o parcelamento de R$ 50 bilhões de dívidas. A quantia é alta, mas a fração relativa ao orçamento é pequena.

VETO – Bolsonaro diz que não pode responder processo por crime de responsabilidade fiscal, e por isso vetou a matéria. Mas depois de conversar com o ministro Paulo Guedes, admitiu a edição de uma portaria para atender a 75% dos pequenos e microempresários. Surpreende o caminho de uma portaria capaz de mudar partes de uma lei.

Portaria é um ato ministerial, as leis e os decretos têm que ser sancionados pelo presidente da República. Só ele pode assinar decretos e reconhecer leis. O presidente da República não pode editar portarias. Trata-se, conforme disse há pouco, de outra escala na administração.

EXPLICAÇÕES DO BC –  O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, publicou na tarde de segunda-feira, a sexta edição de sua carta anual para explicar porque a inflação de 2021 atingiu praticamente o dobro da meta de 5%. Ele diz que o fenômeno inflacionário é mundial, mas esquece que os reajustes aplicados à Selic, que agora está na escala de 9,25% ao ano, voltaram-se para a expectativa de conter a inflação. A primeira meta inflacionária de 2020 para 2021 era de 3,75 %. Depois a meta passou para 5,2% e acabou em 10,6%.

As teorias no papel são uma coisa. Na prática são outras. O papel aceita tudo, agora as telas do computador também. Mas a realidade prevalece. As perspectivas inflacionárias são elevadas, basta dizer que hoje, quarta-feira, sobem novamente os preços da gasolina e do óleo diesel.

DÍVIDA INTERNA –  Os economistas Bruno Funchal e Jeferson Bittencourt, dois integrantes da equipe do ministro Paulo Guedes, em declarações a Manuel Ventura, O Globo de ontem, citaram a alta da dívida interna brasileira como um freio ao avanço do PIB. Eles manifestaram essa opinião no fórum de debates promovido pelo Instituto Millenium, identificando o crescimento da dívida como contrário à retomada econômica do país.

Frisaram que nos últimos dez anos a dívida interna que era de 62% do PIB chegou e hoje encontra-se na escala de 82%. O Produto Interno Bruto, digo, atinge a escala de R$ 6,6 trilhões. Sobre esses R$ 6,6 trilhões incide a taxa Selic de 9,25% ao ano.  O custo da rolagem do endividamento é de R$ 540 bilhões a cada 12 meses, segundo Funchal e Bittencourt.

Quando se fala em percentagem para termos a dimensão correta tem que especificar sobre que número absoluto incide. Era um dos pontos fundamentais defendidos pelo ministro Roberto Campos, avô do atual presidente do Banco Central.

PRODUÇÃO INDUSTRIAL  – Daniela Amorim e Vinicius Neder, o Estado de S. Paulo de segunda-feira, destacam a retração verificada nos últimos 10 anos pela produção industrial brasileira. Trata-se, disseram, de uma década perdida, sobretudo porque com a inflação alta, a participação industrial no Produto Interno Bruto encolheu 33% e reduziu 800 mil empregos.  Os dados são do IBGE, comentados por André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE.

A retração industrial é uma consequência também, a meu ver, da queda do consumo, já que só se produz aquilo que se comercializa, e é assim absorvido pelo mercado nacional. O Estado de S. Paulo, segunda-feira, publica também reportagem de Adriana Fernandes sobre o pensamento de Bruno Funchal e Jeferson Bittencourt a respeito do endividamento interno do país.

Sergio Moro errou ao confiar em Bolsonaro e ambos se tornaram eleitores de Lula

Pesa contra Moro ter aceitado a Justiça levando consigo o Coaf

Pedro do Coutto

A jornalista Catarina Rochamonte, Folha de S. Paulo de segunda-feira, errou de alvo ao citar Ruy Castro como empenhado em favorecer o lulismo e, por esse motivo, segundo ela, ter dirigido ataques ao comportamento de Sergio Moro.

Francamente, Catarina Rochamonte enganou-se completamente, bastando examinar os fatos. Sergio Moro figurava entre os de melhor imagem pública do país e aceitou ser ministro da Justiça de um presidente que, logo em seguida, demonstrou, para dizer o mínimo, desorientação, afastando-se de companheiros da campanha eleitoral.

COAF – O que de fato pesa contra Sergio Moro foi ter aceitado o Ministério da Justiça levando consigo o Coaf. Não dava para acreditar numa permanência nem de seis meses. O Coaf é o órgão mais sensível do universo político e empresarial. Controla os depósitos e transferências financeiras. É capaz de estranhar movimentações excessivas. Tem conhecimento até de depósitos no exterior.  Estava claro, para quem conhece um pouco de política, que tal sistema não poderia ficar nas mãos de um ministro da Justiça disposto a combater a corrupção.

A corrupção é uma prática e tem que incluir obrigatoriamente pelo menos um setor político, um setor administrativo, uma fração empresarial. Pelo menos. Mas esta é outra questão. O fato é que Sergio Moro aceitando o Ministério da Justiça deixou desfocar sua imagem pública que se encontrava no auge. Ele, de fato, pela primeira vez no país, prendeu ladrões de casaca. Mas deixou-se levar pela ilusão. De forte candidato à Presidência transformou-se em um candidato de pouca densidade em matéria de votos.

O ex-presidente Lula da Silva cresceu nas pesquisas, como revelaram o Datafolha e o Ipec. A causa está na queda de Bolsonaro  e no fato de o Supremo Tribunal Federal ter anulado a condenação de Sergio Moro contra Lula da Silva. O STF inclusive o considerou parcial nos processos.

PASSEATA DOS CEM MIL – Catarina Rochamonte citou o jornalista Frankilin Martins, que ocupou ao lado de Vladimir Palmeira e do marinheiro Elinor Brito, o comando da Passeata dos Cem Mil na Cinelândia contra a morte do estudante Edson Luís. Frankilin Martins é filho do senador Mário Martins, já falecido, um político importante do país, sobretudo por sua absoluta integridade. O conheci e fui amigo dele.

Mas o essencial é a constelação de fatos desastrosos e nocivos praticados por Jair Bolsonaro. Basta relacioná-los para explicar o avanço do lulismo na campanha para as urnas deste ano. Ao criticar o desempenho de Sergio Moro, Ruy Castro desvendou uma realidade, como os acontecimentos comprovam. Inclusive porque a candidatura Sergio Moro, a meu ver, nada representa ao que se refere qualquer perspectiva de êxito. Ele foi importante como juiz da Lava Jato, mas a sua imagem, o vento levou.

PRESSÃO DO CENTRÃO –  Reportagem de Marianna Holanda, Julia Chaib e Ricardo Della Coletta, Folha de S. Paulo de ontem, revela que dos 23 ministros do governo Bolsonaro, pelo menos 12 serão candidatos às eleições de outubro e, portanto, terão que ser substituídos no início de abril, seis meses antes das urnas.

A reportagem acentua que sentindo muito forte as reivindicações do Centrão, Jair Bolsonaro empenha-se em blindar três ministérios: o da Saúde, o da Infraestrutura e o do Desenvolvimento Regional. Isso comprova o avanço do bloco governista no Congresso que, como em todo universo fisiológico, deseja cada vez mais poder ao que se refere à aplicação de recursos financeiros.

Valdemar da Costa Neto comanda a ofensiva e quando lançou, como fez no final da semana passada, a candidatura da ministra Tereza Cristina para vice-presidente, evidentemente teve também como alvo indicar a nova ou o novo titular da Agricultura. Uma análise importante será, depois das urnas, observar como os atuais ministros que forem candidatos saíram em relação aos resultados eleitorais. Conforme já escrevi, cada vez o presidente Bolsonaro perde votos ao longo da campanha.

FUSÕES E COMPRAS DE EMPRESAS –  Stephanie Tondo e Vitor da Costa, O Globo, são autores de uma ampla reportagem revelando as grandes fusões e aquisições de empresas realizadas em 2021.  Foram 1504 e, apesar do ano eleitoral, os repórteres apontam tendência de alta a médio prazo. Os resultados são economicamente importantes sobretudo porque significam um aumento de 45% em relação aos resultados de 2020.

É possível que tais fusões e compras reflitam no mercado de empregos, o que é positivo.  Só é preciso saber se as aquisições e fusões resultaram de financiamento do BNDES , do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Neste caso,  a grande base das operações foi formada por recursos públicos.

Se recuar no aumento de servidores, Bolsonaro perde um milhão de votos, no mínimo

Bolsonaro afunda na desorientação e perde apoio que lhe resta

Pedro do Coutto

Nada pior em política do que prometer alguma melhoria, excitar expectativas e depois recuar, frustrando fortemente esperanças, no caso de Bolsonaro, que ele próprio despertou. Mais uma vez, o presidente da República age contra a sua própria reeleição. É melhor não prometer nada, do que prometer e depois recuar.

A mágoa se refletirá nas urnas de outubro. Reportagem de Bruno Góes, O Globo de domingo, destaca o posicionamento do chefe do Executivo diante da reação de servidores federais, como é o caso dos integrantes da Receita pelo fato dele, Bolsonaro, ter anunciado reposição inflacionária somente para as Polícias Federal, Rodoviária e Judiciária.  

APELO – Bolsonaro diz que apela para a sensibilidade dos funcionários e que não há espaço no orçamento para a elevação de salários. “Primeiramente – afirmou – não está garantido o reajuste para ninguém. Tenha a reserva de R$ 2 bilhões que poderia ser usada para a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária, além dos integrantes do sistema prisional.  

Mas outras categorias viram isso e disseram: também queremos. E veio essa onda toda”. As declarações do presidente da República foram feitas a jornalistas no momento em que foi participar da festa de aniversário do advogado-geral da União, Bruno Bianco.

Na minha opinião, mais uma vez, prevalece a participação do ministro Paulo Guedes. Bolsonaro acrescentou que compreende a perda do poder aquisitivo, uma vez que não há reajuste desde 2017, e os alimentos e a energia elétrica subiram. “Mas não podemos simplesmente explodir o Brasil porque isso não resolve absolutamente nada”, disse.

REAÇÕES – O reflexo político da mudança de projeto de Jair Bolsonaro será dos maiores e dará margem a reações em cadeia. A começar pela própria Polícia Federal. Aliás, esta questão de aumento à Polícia Federal, Polícia Rodoviária e Polícia Judiciária foi colocada de maneira incompleta porque o governo prometeu reajuste, mas nunca disse a porcentagem a ser aplicada aos vencimentos dos servidores.

De qualquer forma, o desgaste será muito grande, adicionando mais um fator de distanciamento entre o presidente da República  e o candidato à reeleição.

AVISO A BOLSONARO  – Conforme escrevi ontem, a mensagem do general Paulo Sérgio Nogueira estabelecendo a obrigatoriedade de vacinação do Exército, além da imunização importante, representou um aviso ao presidente da República sobre a hipótese de conflito no dia das eleições, consequência da polarização.

Excelente reportagem de Marianna Holanda, Folha de S.Paulo de ontem, focaliza amplamente o quadro criado com Bolsonaro tentando concentrar o posicionamento do titular do Exército exclusivamente no caso da vacinação. No O Globo, o assunto também foi bem focalizado por Bruno Goés e Gabriel Shinohara, que ouviram o general Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, que disse: “O presidente Jair Bolsonaro faz um show de besteiras todos os dias”.

PELA TANGENTE – Bolsonaro disse no sábado que não exigiu explicações do Ministério da Defesa sobre a mensagem do general Paulo Sérgio Nogueira. Apenas disse que não se vacinou e que (falta um pouco de nexo na frase) “não tem exigência nenhuma, não tem mudança e que pode esclerecer”, acentuou, dirigindo-se aos jornalistas.

“Hoje, tomei café com o general paulo Sérgio Nogueira e se ele quiser esclarecer o fato, tudo bem. E se não quiser, está resolvido. Não tenho que dar satisfação para ninguém. É uma questão de interpretação”, acrescentou.

Como se constata no texto irregular, o presidente da República partiu para deslocar  qualquer reflexo político maior das afirmações do ministro do Exército. Efetivamente, na minha opinião, não se consegue compreender exatamente o pensamento que gerou as palavras do presidente.

DIRETRIZ – Afinal de contas, a defesa da vacinação não é uma questão interpretativa. É uma diretriz. O mesmo se aplica à ameaça de punição dos militares que colocarem fake news nas redes da internet. Esta parte então é um recado absolutamente direto aos bolsonaristas identificados como os que operam na usina da desinformação que tanto prejudica o legítimo interesse coletivo da população.

Os reflexos negativos imaginários à vacina só podem partir dos que são contra a sua aplicação. É o caso típico do próprio Jair Bolsonaro que ainda recentemente revelou que não levará a sua filha Laura de 11 anos para que seja vacinada, embora a sua esposa, Michele Bolsonaro, tenha se vacinado em Nova York quando da instalação em setembro da Assembleia Geral da ONU de 2021.

DESAFIO DE BARRA TORRES –  Na noite de sábado, o Jornal Nacional da TV Globo revelou, na íntegra, a carta aberta do almirante Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa, ao presidente Jair Bolsonaro, desafiando-o a provar as acusações que fez à Anvisa quando insinuou que existia alguma coisa por trás da decisão da Agência em favor da vacinação de crianças de 5 a 11 anos.

Barra Torres exigiu uma investigação e que o presidente da República apresente provas concretas contra a sua idoneidade, lembrando de sua patente de oficial general (almirante) da Marinha brasileira com 32 anos de serviço.

“Se o presidente da República não encontrar provas capazes de sustentar a sua acusação que tenha a hombridade de vir a público e reconhecer o seu erro”, afirmou. Surpreendentemente, os jornais de domingo, pelo menos em suas edições impressas, não publicaram a matéria que merece destaque por sua importância e pelo tom de desafio lançado. O JN entrou no ar às 20h30, mas possivelmente, penso, a matéria deveria estar no sistema online da Globo e portanto também no online de O Globo.

TERCEIRA VIA – Fala-se agora na política brasileira em matéria de sucessão que há uma perspectiva de surgir uma terceira via entre Lula e Bolsonaro. Isso me faz lembrar iniciativas no Brasil e no mundo de se lançar terceiras forças ou terceiras vias, tentativas todas eles fracassadas. No plano internacional, aliás, foi objeto de um livro do jornalista e historiador Paulo de Castro, que foi do Diário de Notícias e do Correio da Manhã, focalizando o bloco surgido em decorrência da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, da terceira força.

O movimento foi liderado pelo marechal Josip Broz Tito da antiga Iugoslávia que resistiu ao nazismo e jamais se rendeu às tropas de Hitler. Tito lançou então uma terceira força no cenário mundial integrada por ele, pelo primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru que sucedeu a Gandhi em 1947. A terceira força reunia também o ditador do Egito, Gamal Abdel Nasser, que fazia parte de um grupo de coronéis que havia derrubado o rei Faruk.

Tito enfrentou pressão de Stalin que cercou fronteiras iugoslavas, porém não se intimidou. Mas o movimento da terceira força não progrediu. Não havia base econômica sólida, a não ser o Canal de Suez, que na época era uma rota fundamental para os carregamentos de petróleo. Paulo de Castro teve sucesso em suas obras, mas o passar do tempo diminuiu a sua importância. Passou a ser apenas uma página da história.

Bolsonaro, por etapas, vai se afastando do caminho que leva às eleições de outubro

Charge do JCaesar (veja.abril.com.br)

Pedro do Coutto

Quem observar com atenção e isenção o comportamento, as atitudes políticas e as declarações do presidente Jair Bolsonaro, inevitavelmente chegará à conclusão de que, por quaisquer motivos, ele está se afastando do caminho que leva às urnas de outubro, pois a cada passo seu ele perde mais votos do que ganha e com isso sua candidatura à reeleição está se esvaziando. Basta ver os fatos.

A sua posição contra a vacina é um absurdo total e, sob o ângulo das eleições, um gesto contra si mesmo e os seus próprios interesses de reeleger-se. A vacinação contra a Covid-19 é extremamente popular, o que é bastante positivo para a população brasileira, fenômeno que está comprovado por já ter abrangido praticamente 170 milhões de pessoas. Fosse a maioria contra a vacina, como é o caso de Bolsonaro, a procura pela imunização não seria tão intensa.

VACINAÇÃO INFANTIL – Agora, o presidente da República com o vídeo que gravou e colocou nas redes sociais afirmou-se contra a vacinação infantil de crianças de 5 a 11 anos, demonstrando até irritação, chamando os que defendem a blindagem prévia à Covid-19 de “tarados por vacinas”. A esse respeito, foi muito bom o artigo de Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo de sábado, que incluiu-se entre os “tarados por vacinas”, e chamou a atenção para os progressos da medicina através do tempo.

Se for feita uma pesquisa sobre a opinião dos pais a respeito da vacinação dos filhos, o resultado será superior a 80%. Bolsonaro está assim indo contra a opinião pública, contra  a vontade popular, contra os eleitores e eleitoras.

EMENDA CONSTITUCIONAL – Jair Bolsonaro pressionou pela emenda constitucional que adia o pagamento de precatórios. Mas, ao mesmo tempo, alinhou-se fortemente ao Centrão, comandado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL; partido pelo qual se filiou para disputar a reeleição. Agora, porém, conforme eu disse no início, ele está procurando outra solução que não a eleitoral.

Tanto assim, que anunciou um aumento destinado a repor a inflação para a Polícia Federal, para a Polícia Rodoviária e para a Polícia Judiciária, o que abriu uma crise no funcionalismo federal em bloco, sobretudo por parte dos auditores da Receita. Estava claro que destinar um aumento a determinadas categorias e não estendê-las a todos o funcionalismo só poderia criar uma forte reação em cadeia para que o mesmo reajuste seja aplicado a todos. Aliás, como determina literalmente o artigo 37 da Constituição Federal.

ATAQUES ÀS URNAS – Ao longo dos últimos meses, Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas, ameaçou com a não realização de eleições se o voto impresso não fosse revigorado, mas depois recuou de forma total e ficou numa posição que revelou uma falta de segurança em matéria política. O Exército acabou sendo chamado para acompanhar o processo eleitoral no TSE e Bolsonaro mudou de opinião totalmente, como se a presença de um general no plano das eleições alterasse a estrutura das engrenagens das urnas à disposição do eleitorado.

Em determinado momento, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro Alexandre de Moraes. Abriu uma crise incrível. O presidente Michel Temer foi chamado a participar de um pedido de desculpas (de Bolsonaro) por ter sido ele, Temer, o autor da nomeação do ministro para a Corte Suprema. Mas o problema de Bolsonaro com o STF continuou.

Ele que havia participado de manifestação na Esplanada de Brasília com seus apoiadores pedindo o fechamento do STF, um dia afirmou publicamente que, com a nomeação do ministro Nunes Marques , ele passou a ter 10% do Supremo, como se a Corte fosse palco de uma disputa política ou desportiva, além de ter deixado mal o próprio ministro. Nunes Marques assim foi reduzido a um representante da vontade de Bolsonaro no STF.

AFRONTA – Quando do encerramento dos trabalhos da CPI da Pandemia, Bolsonaro promoveu um exercício militar em Brasília com tanques na rua , o que motivou uma forte reação coletiva que viu no episódio uma ideia de intimidação. O presidente da República havia substituído o ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Mas a questão militar que se abriu estava longe de se encerrar.

Agora mesmo, ocorreu o pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira, ministro do Exército, estabelecendo a vacinação  dos militares da Força e proibindo-os de lançar fake news nas redes da internet. Além de ter comunicado que devem estender a comunicação a seus parentes.

Conforme comentei na edição de ontem, o Comando do Exército estabeleceu normas de comportamento para o dia das eleições a fim de evitar que a polarização provoque hostilidade entre as correntes que se enfrentam nas urnas.

ENDEREÇO CERTO – Na verdade, a decisão do ministro Paulo Sérgio Nogueira teve um endereço muito mais amplo do que apenas pedir atenção para as vacinas. O general, no fundo, alertou para a defesa da democracia e da vontade popular nas urnas.

O presidente Jair Bolsonaro vetou o projeto aprovado pelo Congresso que incluía o Refis às micro e pequenas empresas. A matéria provocou reação no Congresso e pelos micros e pequenos empresários. Um gesto que não acrescentou voto algum, pelo contrário.

Na justificativa, Bolsonaro frisou que a sanção acarretaria uma perda de receita de R$ 1,2 bilhão em 2022. Compare-se esse valor com o orçamento federal para o próximo ano que é de R$ 4,8 trilhões.

VETO – Jair Bolsonaro vetou o projeto aprovado pela Câmara e pelo Senado que permite às emissoras de televisão e rádio podem descontar do Imposto de Renda cedido à Propaganda Eleitoral Gratuita.  O presidente assim ficou contra as empresas de rádio e televisão, sobretudo porque esta compensação no Imposto de Renda tinha sido estabelecida por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso. O veto nada acrescenta para Bolsonaro.

O presidente da República congela os salários, seguindo a política de Paulo Guedes. Mas nada diz quanto à subida acelerada dos preços, o que cria um contraste que só pode prejudicar sua candidatura no desfecho de outubro.

PETROBRAS – No início do ano passado, Bolsonaro substituiu Roberto Castello Branco pelo general Silva e Luna na Presidência da Petrobras porque Castello Branco vinha apresentando uma política de aumentos sucessivos da gasolina, do gás e do óleo diesel. Entretanto, o general Silva e Luna manteve e até ampliou a mesma política, defendendo-a numa entrevista a Irany Tereza, do Estado de S. Paulo de sábado.

Afirmou que a Petrobras não pode fazer política pública, dando a entender não ser possível conter os preços dos combustíveis. Foi um jato de água fria nos que temem reflexos ainda maiores no custo de vida.

VIAGEM –  O presidente da República viajou para Santa Catarina, mergulhando nas praias do estado sem visitar as áreas atingidas por inundações na Bahia, quarto colégio eleitoral do país.

O site do SUS e a página do Ministério da Saúde na internet, segundo versão do ministro Marcelo Queiroga, sofreram a invasão de hackers. Mas isso aconteceu há quatro semanas e o sistema não foi restabelecido. Com isso, os números da pandemia e da vacinação estão sendo revelados de forma incompleta. Não se entende porque o Ministério da Saúde não conseguiu resolver o grave problema.

Bianca Gomes e Mariana Rosário, O Globo de ontem, focalizam o assunto e dizem que há um atraso de uma avalanche de informações sobre novos testes e incidências da doença que não estão vindo a público.

INÉRCIA – O presidente da República não tomou providência alguma. Nem sequer exigiu do ministro Queiroga qualquer ação para restabelecer o universo dos números do setor fundamental à integridade e à própria vida humana. Como se constata, o presidente da República é um adversário de si mesmo.

São fatos que levam à suposição de que Bolsonaro não está muito preocupado com votos, mas com qualquer outro projeto de poder. Mas para o poder só existem dois caminhos: o das urnas ou o das armas. Neste caso, o pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira tem uma importância decisiva.

Pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira vai além da vacinação; um aviso a Bolsonaro e seus seguidores

General condicionou volta de militares ao trabalho à vacinação

Pedro do Coutto

O general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, fez um pronunciamento na tarde de quinta-feira, estabelecendo a vacinação dos militares e estendendo a sua decisão aos que praticarem fake news, sugerindo inclusive que alertem os seus parentes para tal atividade perniciosa.

O pronunciamento do ministro do Exército, podemos chamá-lo assim, tornou-se extremamente oportuno, talvez por coincidência do destino, no mesmo dia em que Bolsonaro gravou um vídeo que colocou na internet,  levantando suspeição sobre a Anvisa no seu empenho para vacinar a população infantil de 5 a 11 anos de idade.

DECLARAÇÕES – O Globo de ontem, reportagem de Jussara Soares, destaca o assunto realçado também na Folha de S. Paulo, por Vinicius Sassine. Na noite de quinta-feira, tanto a GloboNews, quanto a TV Globo no Jornal Nacional, colocaram no ar o vídeo contendo as declarações de Bolsonaro, e nele reproduziu entrevista que fez a uma emissora de televisão do Nordeste.

A manifestação de Bolsonaro, francamente, não poderia ter sido pior e mais prejudicial à sua própria campanha em busca de votos, num esforço muito grande para reduzir a diferença que Lula da Silva abriu sobre ele, assinalada tanto pelo Ipec quanto pelo Datafolha. Pelo Ipec, 48 a 21, pelo Datafolha, 48 a 22. A rejeição ao governo permaneceu alta. A situação eleitoral do chefe do Executivo revela-se precária e a sua vulnerabilidade só pode ter crescido depois de novamente condenar a vacinação infantil. E não é só.

RECEITA MÉDICA –  Depois de uma audiência pública cujos integrantes foram selecionados pelo ministro Marcelo Queiroga, mas que mesmo assim não aprovou a obrigatoriedade de receita médica, o desastre tornou-se ainda mais amplo. Não é possível que num momento em que a população brasileira adere maciçamente à vacinação contra a Covid-19, haja alguém disposto a votar em Bolsonaro em função de seu posicionamento contrário a que crianças de 5 a 11 anos sejam imunizadas.

A vacinação tem o apoio da comunidade científica de modo geral não apenas no Brasil, mas em mais 31 países, entre os quais os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Itália e a Espanha. Não faz sentido que alguém deixe de levar o seu filho ou sua filha para vacinar-se em função do que disse literalmente o presidente da República. No episódio, ele só pode ter perdido votos para as eleições de outubro deste ano.

AMEAÇA –  Reportagem de Igor Gielow, Folha de S. Paulo desta sexta-feira, revela que o comando do Exército decidiu adiantar exercícios militares diante do temor de violência no caminho das urnas de outubro. O texto da decisão publicada por Igor Gielow é elucidativo.

A decisão do comando, que evidentemente inclui o ministro Paulo Sérgio Nogueira, diz: “Todos os 67 exercícios militares principais previstos para o ano que se encontram  marcados para o último trimestre foram adiantados e deverão ser executados no máximo até setembro. Depois disso, todo o efetivo  estará à disposição para eventuais necessidades”.

Acrescenta a reportagem que as conversações mantidas pelo Alto Comando do Exército tratam do tema polarização política levando em conta o cenário atual das pesquisas eleitorais. Generais temem que a animosidade entre os dois grupos possa descambar para incidentes pontuais de violência ou contaminar discussões em disputas estaduais.

CONVERGÊNCIA DEMOCRÁTICA – Na minha opinião, apreciando-se o documento do general Paulo Sérgio Nogueira com a manifestação do Alto Comando focalizada por Igor Gielow, verifica-se inevitavelmente uma convergência democrática previamente consolidada para impedir que aconteça nas urnas brasileiras de outubro o que ocorreu há um ano nos Estados Unidos,  quando radicais do Partido Republicano invadiram o Congresso na mais que alucinada tentativa de impedir a proclamação da vitória de Joe Biden.

Alguns comentaristas admitem que a atitude alucinada poderá render votos para o Partido Republicano para as eleições deste ano. A democracia, porém, é muito mais forte do que impulsos partidários, sobretudo os que vêm da extrema-direita. Se a violência (parto deste princípio) pudesse assegurar a vitória dos violentos, eles nunca perderiam o poder nos países do mundo. Refiro-me ao mundo democrático, claro.

MENSAGEM –  E, por isso, vejo claramente na manifestação do general Paulo Sérgio Nogueira e na instrução do Alto Comando um sentido tão claro quanto transparente de respeito ao resultado das urnas, e acho que a mensagem foi endereçada ao Palácio do Planalto e aos antigos apoiadores que na Esplanada de Brasília já pediram a intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.

Só pode ser esse o motivo, porque na realidade, não faz sentido recorrer à violência a corrente política que está na frente da maratona eleitoral. A violência decorre do inconformismo e do reconhecimento tácito de que os seus autores  tentam escapar dos limites democráticos, um patrimônio popular brasileiro.

ESCOLAS DE SAMBA – O prefeito Eduardo Paes, mais uma vez,  foi ao encontro da reivindicação turística dos hotéis do Rio de Janeiro. Proibiu o Carnaval de rua, mas liberou o desfile das escolas de samba. Como os médicos já assinalaram, a decisão não faz sentido. A contaminação pelo desfile das escolas de samba é muito maior, sobretudo porque são dois dias de aglomerações no sambódromo e também nas concentrações das próprias escolas. Além disso, há o problema dos ensaios nos diversos bairros da cidade.

É recomendável que a questão seja revista para evitar um novo surto da pandemia que subiu exatamente no início deste ano, consequência das aglomerações causadas pelos festejos da passagem de 31 de dezembro, o que não pode representar uma coincidência em todos os países nos quais o fenômeno ocorreu.

Auxílio Brasil não reduz a miséria no país de maneira alguma, mas agrada eleitores

Charge do Jota..A (portalodia.com)

Pedro do Coutto

O tema entrou em debate no final da tarde de quarta-feira na GloboNews com o governo comparando números de antes e depois do auxílio emergencial, agora transformado em Auxílio Brasil, e concluindo que tinha funcionado para reduzir a extrema pobreza.

Um absurdo completo, pois o auxílio hoje de R$ 400 por família não leva em consideração que a média de pessoas por unidade familiar passa de cinco. Assim, o auxílio mensal reduz-se logicamente para R$ 80 por pessoa.

CONTESTAÇÃO – Os números do governo, em programa conduzido por César Tralli, foram contestados parcialmente por Marcelo Neri, da FGV, e de forma mais acentuada por Fernando Gabeira. Acrescento a minha opinião; se auxílios assistenciais pudessem resolver problemas múltiplos que envolvem a pobreza extrema, ela já teria acabado no mundo. Entretanto, a situação se agrava cada vez mais.

Só uma política de pleno emprego e de salários não perdendo para a inflação poderá enfrentar até mesmo  a fome que ronda milhões de pessoas no Brasil e no mundo. O impasse entre o capital e o trabalho não foi resolvido até hoje, dois mil anos depois de Jesus Cristo.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA –  Os conservadores se mantêm firmes na ideologia de assegurar a concentração de renda. Um grupo dessa corrente, na verdade, não deve ser chamado sequer de conservador, um engano. Querem, de fato, ampliar a concentração de renda e não conservar. Essa é a grande contradição. O problema se eterniza.

Não será o Auxilio Brasil uma ação de emergência que poderá nem equacionar a questão. Fora do emprego e do salário não há caminho social livre para a grande maioria da população. Inclusive, a questão do Auxilio Brasil não é apenas dinheiro. É a falta de seguro social adequado, capaz de pelo menos assegurar a aposentadoria às pessoas marginalizadas pelo destino e pela ação das políticas super conservadoras e reacionárias.  

IMPREVISTOS –  A política, conforme digo sempre, é marcada por imprevistos. Agora mesmo, anteontem, aconteceu mais um. As Polícias Federal e também Estadual de São Paulo desencadearam uma investigação sobre o ex-governador Márcio França, que foi vice de Geraldo Alckmin, perdeu a eleição de prefeito para João Doria e agora candidata-se novamente ao voto,  no rumo do Palácio Bandeirantes.

O escândalo e a sequência das investigações abalam frontalmente a sua candidatura ao governo paulista, pelo PSB, partido ao qual Geraldo Alckmin deve se filiar. O afastamento de Márcio França, consequência natural do escândalo, resolve um problema que Lula tinha pela frente em São Paulo: o PSB pensou em lançar Márcio França e Lula pretende apoiar Fernando Haddad.

Agora, o campo parece livre para Fernando Haddad. Mais uma vez, impõe-se a bela frase de Magalhães Pinto: “Política é como a nuvem, muda de forma e direção a todo instante”. A reportagem sobre as investigações contra Márcio França, Folha de S. Paulo desta quinta-feira, é de Rogério Pagnan e Klaus Richmond.

FALTA DE UNIDADE –  Reunião da Saúde comprova falta de unidade dos setores. O ministro Marcelo Queiroga marcou uma entrevista à imprensa na tarde de quarta-feira aparentemente para anunciar o início da vacinação infantil. Acabou fazendo isso, mas depois de idas e vindas de sua equipe. Uma das diretoras voltou ao tema das receitas médicas e da obrigação dos pais levarem as crianças para serem vacinadas.

Ela própria não tomou conhecimento de que o Ministério da Saúde havia recuado sobre a exigência. Além disso, a diretora desconhecia também a decisão da consulta pública que rejeitou a necessidade da receita. Como é possível que uma diretora do Ministério da Saúde senta-se à mesa da equipe, presidida por Queiroga, e defenda caminhos diversos dos que já haviam sido traçados?

Obsessão de Bolsonaro contra a vacina é quase inacreditável, um desastre eleitoral

Charge do J. Bosco (oliberal.com)

Pedro do Coutto

A posição radical do presidente Bolsonaro contra a vacinação para imunizar o país da Covid-19 é quase inacreditável, não fossem os fatos públicos que a confirmam numa série de ocasiões e intervenções inexplicáveis. Começou com o veto à vacina Coronavac chinesa, identificada como um instrumento comunista e de propaganda antidemocrática.

No episódio, Bolsonaro ignorou que a China é a nossa maior parceira comercial, logo, se infiltração comunista houvesse ela não seria desencadeada isoladamente no caso das vacinas, mas sim permanentemente através do comércio entre os dois países.

OBSTÁCULOS –  Depois foi a vez da Pfizer, que ofereceu a venda de quantidade expressiva de vacinas contra o coronavírus e o presidente tentou obstaculizar. No meio do negativismo, surgiu uma vacina indiana cujo fornecimento para o Brasil seria intermediado pela firma Precisa, numa etapa que logicamente dispensa intermediações.

O ministro Pazuello chegou a recusar a vacina chinesa, falando a famosa frase “um manda e o outro obedece”. O caso da vacinação em massa não é um problema do sim e não, mas do problema do viver ou não viver, conforme os números comprovaram.

Agora, o presidente voltou-se contra a vacinação de crianças de 5 a 11 anos e o Ministério da Saúde convocou uma audiência pública, que teve a presença de bolsonaristas, a exemplo da deputada Bia Kicks. Ficou flagrante que o objetivo da chamada audiência pública era contornar a posição de Bolsonaro, sobretudo porque ele poderia se irritar com a iniciativa de apoiar a vacinação em crianças do ministro Marcelo Queiroga.

AUDIÊNCIA – Queiroga se expôs ao ridículo convocando a audiência para apreciar uma decisão técnica da Anvisa. Um dos obstáculos colocados por Bolsonaro era a necessidade de receita médica. Um absurdo completo e total. Impossível de ser atendido pela população a procura de médicos no país dispostos a receitar a vacina, uma obrigação pública.

A dispensa de receita foi aprovada. A matéria está focalizada em reportagens de Raquel Lopes e Matheus Vargas, Folha de S. Paulo de quarta-feira, e no O Globo, por Constança Tatsch, Giulia Vidal e Melissa Duarte. Esperamos agora o início da vacinação infantil. Importantíssimo.

No Rio, o prefeito Eduardo Paes suspendeu os blocos de rua, mas manteve o desfile na Sapucaí, reivindicação da hotelaria da cidade, pois sem as escolas de samba os turistas não têm motivo para vir ao Rio de Janeiro.

INVASÃO – Voltando ao assunto da vacina, verifica-se que há mais de três semanas o site do SUS, do Ministério da Saúde, sofreu uma invasão de hackers, segundo o ministro Queiroga, e ainda não foi restabelecido integralmente. Aí faltam dados que agravam o cenário da pandemia, agora acrescida pelo Ômicron e pela gripe Influenza.

O apagão da Saúde agrava a campanha de imunização. É muito estranho que um bloqueio de um site causado pela invasão de hackers demore tanto tempo para ser restabelecido.

VETO – O presidente Fernando Henrique Cardoso, pouco após assumir em 1995, publicou um decreto que previa renúncia fiscal pela cessão do horário de propaganda partidária no rádio e na televisão. Agora o Congresso Nacional, reportagem de Marianna Holanda e Ranier Bragon, Folha de S.Paulo de ontem, focaliza a decisão presidencial  que vetou a compensação fiscal e o início da reação das emissoras de rádio e TV.

No Congresso, foi desencadeada uma campanha para derrubar o veto do presidente da República. Bolsonaro, como facilmente se constata, praticou mais um erro político logo em sua campanha eleitoral: desagradou suas lideranças no Senado e na Câmara, atingiu as emissoras de TV e rádio e fica evidente no episódio que haverá reflexos na opinião pública.

Servidores do Banco Central querem receber reposição inflacionária dos salários

Charge do Jota.A jota-a.blogspot.com)

Pedro do Coutto

Na noite de segunda-feira, o Sindicato dos Servidores do Banco Central anunciou que os funcionários do BC apoiam a reivindicação do funcionalismo público do país e deseja ser atendido pelo percentual de reajuste inflacionário que o governo Jair Bolsonaro pretende aplicar para a Policia Federal, Polícia Rodoviária e Polícia Judiciária.

Reportagem de Matheus Garcia e Tiago Resende, Folha de S. Paulo de segunda-feira, revela o inicio da adesão do quadro técnico do Banco Central ao movimento unificado dos funcionários públicos marcado para o dia 18 de janeiro na esplanada de Brasília.

RENOVAÇÃO ANUAL – A reivindicação, claro, é justa, sobretudo porque o artigo 37 da Constituição federal determina que os reajustes salariais dos funcionários têm que se basear na mesma porcentagem para todos e a data única de sua entrada em vigor, renovando-se anualmente, porque a inflação também é medida a cada 12 meses pelo IBGE.

O Banco Central tem 3400 servidores e cerca de 500 estão ameaçando se afastar dos cargos comissionados que ocupam, insatisfeitos com a escala de remuneração que lhes é aplicada. Vale observar que o pessoal do Bacen figura no topo da remuneração, inclusive porque não estão sujeitos ao teto de R$ 36 mil por mês, uma vez que se trata de uma autarquia independente, cujo presidente, por exemplo, tem mandato definido, como é o caso de Roberto Campos Neto.

Os vencimentos dos funcionários públicos têm sofrido diminuições desde 2017, pois nesse período não viram a cor de nenhum  reajuste. Com isso, tanto os servidores do banco central quanto de todo o funcionalismo civil perdeu poder aquisitivo, pois os preços sobem sem parar, ao contrário de seus salários.

ABALO – O movimento do pessoal do Bacen abala a posição do ministro Paulo Guedes, já balançada, aliás, por tantos fracassos e contestações. Para Paulo Guedes, os preços podem subir à vontade, mas, ao contrário, os salários têm que ficar congelados, o que representa uma diminuição lógica do poder de compra. O movimento dos funcionários públicos civis têm ganhado corpo e receberam um apoio importante dos funcionários do Banco Central.

Importante sobretudo porque os funcionários do Banco Central têm uma escala de remuneração diferente a exemplo das estatais, como é o caso da Petrobras, do Banco do Brasil, de Furnas, da Eletrobras e da Caixa Econômica Federal que possuem um fundo de complementação salarial que se aplica quando se aposentam.

COMPLEMENTAÇÃO – O fundo é essencial para o pessoal do Bacen e para as estatais, uma vez que o teto de aposentadoria para o INSS, do qual são contribuintes, é de R$ 6.600 por mês. Alguém, por exemplo, que ganha R$ 10 mil, pode se aposentar com R$ 6.600? Sofrer tal diminuição? Aí entra o fundo de complementação. Por tanto, o quadro do Banco Central faz parte de uma elite técnica formada por especialistas com diploma de nível superior, Mestrado e Doutorado, em número expressivo de casos com cursos realizados no exterior.

Portanto se técnicos capacitados assim estão lutando por reposição inflacionária, que a meu ver é de 25%, de 2017 a 2021, imaginem os leitores a aflição que desaba sobre a média do funcionalismo civil que não possui tais qualificações, mas que têm que viver, sustentar suas famílias, pagar as suas contas em dia e enfrentar os aumentos de energia elétrica, gasolina e alimentos nos supermercados. Acho que o funcionalismo federal deve enviar documento nesse sentido ao ministro Paulo Guedes e ao presidente Jair Bolsonaro.

TERCEIRA VIA  – Reportagem focalizando o posicionamento de empresários e banqueiros a respeito da terceira via de Julio Wiziack, Folha de S. Paulo de ontem. A matéria acentua que as classes empresariais que sempre acompanham com interesse especial os debates políticos, principalmente as eleições, têm razões fortes para isso, pois como todos sabem, são fontes de financiamento para campanhas eleitorais. Quanto mais forte estiver o candidato, maior a facilidade para ele, é claro, caso de Lula.

Em relação a Jair Bolsonaro, o apoio também se fará sentir porque ele é o atual presidente da República e tem, portanto, o controle sobre a caneta mágica que se aplica a um número enorme e pouco transparente da administração pública. Os casos que precederam o embate de 2022 são suficientes para explicar e iluminar os bastidores e sombras políticas que não são da visão clara dos eleitores e das eleitoras.

A terceira via desapareceu com a queda de Ciro Gomes, de acordo com o Datafolha e o IPec,  ultrapassado por Sergio Moro.  É possível que o ex-juiz avance mais um pouco. Ele atualmente tem nove pontos, mas dificilmente, na minha opinião, ultrapassará 15% dos votos. Além disso, Lula está reunindo condições para vencer a sucessão de outubro deste ano no primeiro turno.

DESDOBRAMENTOS – Os banqueiros, industriais e comerciantes , sem dúvida alguma, acompanham com grande interesse os desdobramentos e os limites de cada candidatura. João Doria, por exemplo, com quatro pontos , entra em seu limite, sobretudo porque tem uma rejeição de 34%. Muito alta para quem se encontra ainda bem atrás na maratona.

Para termos uma ideia, a rejeição de Doria é igual a de Lula. Mas o petista tem 48% das intenções de voto. A rejeição a Bolsonaro varia entre 55% a 59%. Mas ele tem 22% de eleitores dispostos a votar nele.

CLUBES –  Os clubes se transformarão em empresas? Esse foi o tema focalizado na edição de segunda-feira de O Globo, por Tatiana Furtado, referindo-se aos investimentos empresariais a serem destinados ao Botafogo e ao Cruzeiro, que se transformariam em sociedades anônimas. Os clubes de futebol têm preço ? Não adianta colocar no papel o ativo das agremiações esportivas. Não podem ser traduzidos em valores econômico-financeiros porque eles operam no terreno sensível da paixão popular.

As receitas produzidas pela presença dos torcedores variam de acordo com a colocação dos times nas tabelas. Além disso, tem que se abrir uma chave para a contratação de jogadores e também não vou esquecer de frisar, a venda de craques que surgem das escolinhas de futebol e que vêm de campos humildes de peladas. Mas estes casos são exceções,  cujas transações rendem lucros aos que dirigem os clubes.

Quanto à rentabilidade dos investimentos previstos (R$ 400 milhões para o Cruzeiro através da empresa de Ronaldo Fenômeno), dificilmente poderão proporcionar um lucro superior ao da aplicação normal em papéis do mercado financeiro.

VACINA OBRIGATÓRIA –  O debate sobre a vacina obrigatória está sendo alimentado pelo presidente Bolsonaro e  pelo ministro Marcelo Queiroga,  que encontra exemplo no tempo da História do Brasil.

Aconteceu em 1922, quando Oswaldo Cruz no governo Epitácio Pessoa, lançou a vacina obrigatória contra a febre amarela. O governo Bolsonaro recuou um século para se tornar testemunha de mais uma etapa de casos absurdos.

Governadores estão certos: sem reajuste salarial, funcionários não podem enfrentar os preços

Charge do Rodrigo (expresso.pt)

Pedro do Coutto

Vinte e dois governadores estaduais anunciaram reajuste aos funcionários públicos a partir de janeiro deste ano. Antes, portanto, do prazo máximo para qualquer aumento nominal que se esgota no mês de abril, seis meses antes das eleições.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, se encontra entre os governadores que concedem o reajuste. O governador de São Paulo, João Doria, ao contrário, e também o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

SEM REPOSIÇÃO – A decisão é lógica. Os funcionários encontram-se desde 2017 sem uma reposição inflacionária. Enquanto isso os preços sobem sem parar. Chega a um ponto, como estamos muito próximos, de uma impossibilidade de saldar os compromissos obrigatórios, como é o caso da alimentação, da energia elétrica, das tarifas de transporte, do gás e das despesas com as escolas dos filhos, incluindo cadernos e livros.

Esses dados já bastam para destacar bem nitidamente a impossibilidade de os salários congelados poderem enfrentar a escala incessante dos preços. No O Globo, Marlen Couto e Bernardo Melo, numa excelente reportagem, focalizam o problema e apresentam a relação dos governadores, dividindo-os entre os que estão dispostos a reajustar o funcionalismo e os que sustentam não ter condições.

POSIÇÃO DE DORIA  – Compreensível, em consequência das inundações que atingiram o seu estado e desabrigaram mais de 600 mil pessoas, o governador Rui Costa da Bahia. A posição do governador João Doria vai deixá-lo muito mal junto ao eleitorado paulista, tanto em seu voo para Brasília, quanto em relação ao seu apoio ao vice-governador.

Enquanto isso, Geralda Doca e Eliana Oliveira, também O Globo de ontem, destacam declarações do ministro Paulo Guedes de que vai continuar lutando pela sua agenda, mesmo neste ano eleitoral que altera o ambiente político do país. Reconhece que está enfrentando dificuldades, inclusive em seu projeto de privatizações de empresas estatais.

PIB FRACO –  Na manhã de ontem, a GloboNews divulgou declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, prevendo inflação de apenas 5% no ano que começa. Disse também que o Produto Interno Bruto deve crescer apenas 0,36%. Um desastre, pois a população cresce 1% a cada 12 meses e o PIB não pode perder a corrida contra a taxa demográfica, pois neste caso cai a renda per capita brasileira.

Na edição de ontem, Folha de S.Paulo, Larissa Garcia, em reportagem de grande destaque, assinala que Roberto Campo Neto vai divulgar o sexto documento de sua administração para tentar justificar o índice inflacionário fora da meta. Ele, conforme assinalei, prevê 5%. Mas é a antiga questão, 5% sobre o quê? Sobre os 10,7% do ano passado? Ou 5% sobre a situação anterior a 2021? Sim, pois são situações diversas.

Marcelo Queiroga e Milton Ribeiro são obstáculos à previsão da FGV para PIB de 2022

Saúde e Educação não apresentam avanços compatíveis às demandas

Pedro do Coutto

A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim de Macroeconomia da Fundação Getúlio Vargas, elaborou um estudo concluindo por um impulso nos setores de Educação, Saúde, Serviços e Agronegócio para o avanço do Produto Interno Bruto do Brasil em 2022. Reportagem, aliás excelente, de Cássia Almeida, O Globo de domingo, focaliza a previsão que se baseia no fato de que os setores citados correspondem a 38% do PIB. Portanto, o valor de R$ 2,38 trilhões descontados os tributos.

Na minha opinião, os setores de Serviços e Agronegócio podem avançar como prevê Silvia Matos. Mas a Educação e a Saúde, tão essenciais à vida humana quanto ao progresso do país, não dão ideia de que possam apresentar avanços compatíveis com as necessidades do governo, da população, e que sustentem o crescimento do PIB.

DESEMPENHOS QUESTIONÁVEIS – Os dois titulares das pastas fundamentais, tanto para o presente quanto para o futuro próximo, são Marcelo Queiroga e Milton Ribeiro. Não creio que haja a necessidade de adjetivar o desempenho dos ministros da Saúde e da Educação para verificar que a realidade não conduz à visão macroeconômica produzida e refletida nas páginas da FGV. As páginas de Cássia Almeida são melhores do que as da Fundação Getúlio Vargas.

Inclusive, no texto macroeconômico, baseando-se em impressões do grupo técnico do Bradesco que acompanham os anúncios das empresas, os investimentos estão calculados na base de R$ 766,9 bilhões. Pode ser, mas é preciso considerar, como se diz sempre por aí, que uma coisa é a teoria, outra é a realidade. E tem mais, o papel de ontem e as telas dos computadores de hoje aceitam os dados que lhe forem destinados. Mas o plano concreto reage à ficção, seja ela leve ou mais profunda.

Um dado curioso é a avaliação reproduzida por Cássia Almeida, incluída na reportagem, da economista do Bradesco, Fabiana D’Artri, que calcula os possíveis aportes de capital com base nos anúncios das empresas publicados nos jornais e principalmente nas telas da TV Globo e da GloboNews. As emissoras de maiores audiências em seus respectivos setores.

“MILGARE BRASILEIRO” – Acontece que a pesquisa só pode ter se baseado nos anúncios de 2021, pois a propaganda de 2022 ainda não foi iniciada. Previsões me conduzem sempre a uma frase do ex-ministro Delfim Netto, quando titular da Fazenda, procurando justificar o chamado “milagre brasileiro”, que teria ocorrido no governo Médici, adaptando ao Brasil o milagre econômico alemão do pós-guerra quando o país foi governado pelo primeiro-ministro Adenauer.

Delfim Netto chegou a afirmar “primeiro vamos fazer crescer o bolo para depois dividi-lo”. Referia-se ao eterno problema da redistribuição de renda, a qual só pode ocorrer através do pleno emprego e da valorização dos salários. Não há outro caminho e o desencontro entre a remuneração do capital e a do trabalho atravessa não só os séculos, mas até os milênios.

REELEIÇÃO –  Em seu artigo de ontem, no O Globo e na Folha de S. Paulo, Elio Gaspari terminou dizendo, com toda a razão, que a reeleição adotada no Brasil a partir do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso é uma “praga”. Uma praga verdadeira, sem dúvida, pois todos os que se elegem anunciam o seu fim, mas terminam aderindo à renovação de seus mandatos no poder.

A reeleição começou como uma praga e se mantém como tal. Foi um marco que sintetiza um surto anunciando de corrupção que depois da emenda constitucional aprovada pelo Congresso produziu o mensalão, o petrolão, a noite paulista de um carregador de mala e conduziu o governo Bolsonaro a um desastre absoluto.

Mas falei no início de Queiroga e Ribeiro. O primeiro assumiu uma posição condenada pela classe médica e científica a respeito da vacinação, caminho no qual para agradar a Bolsonaro foi colocando obstáculos. Milton Ribeiro, na pasta da Educação, até hoje não produziu um projeto sequer de modernização, ampliação ou pelo menos racionalização do acesso dos estudantes ao acesso de ensino público.

CONFUSÃO – Confundiu tudo. Tentou intervir nas universidades sobre o atestado de vacina. É um ministro que parece estar limitado a despachos administrativos de rotina. Não parece ser movido por impulso algum de progresso e de ampliação do ensino em todos os níveis. Estacionou no tempo.

A reeleição é marcada ainda por uma contradição absoluta. Os presidentes da República, governadores e prefeitos que disputam reeleição não precisam se afastar de seus cargos. Entretanto, se um ministro ou um dirigente de estatal for lançado candidato a qualquer cargo, inclusive legislativo, necessita desincompatibilizar-se seis meses antes das urnas.

A contradição é evidente. Para o presidente da República a lei não exige afastamento como exige por exemplo para o presidente da Petrobras ou do Banco do Brasil. Impressionante o contraste. Aliás de contradições, a política brasileira está repleta.

Reajuste pela inflação só para o salário mínimo; concentração de renda avança

Charge do Pelicano (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro, cumprindo a legislação do país, reajustou o salário mínimo em praticamente 10%, repondo assim o índice inflacionário do IBGE registrado em 2021. Como os demais salários dos funcionários públicos e dos trabalhadores não acompanham a inflação oficial, logicamente a concentração de renda se amplia, sobretudo porque os preços, principalmente os da alimentação, no ano passado subiram mais do que o avanço oficial inflacionário.

Esse é um dos lados da questão. O outro é que o salário mínimo avançando mais do que os demais vencimentos faz com que uma faixa cada vez maior de trabalhadores e servidores públicos desçam de patamar passando a ganhar também o piso oficial de agora de R$ 1212 por mês. A renda dessa forma vai se concentrando cada vez mais.

MARATONA – Inclusive vale acentuar que o reajuste dos salários sucede sempre à inflação registrada ao longo de 12 meses, variando conforme acordo sindicais.  Mas ocorre que no mês seguinte, imediatamente após um aumento nominal, os preços voltam a ganhar dos salários e essa corrida é uma maratona de 12 meses.

Todos os anos o fenômeno se repete e a renda vai se concentrando. Aliás, afirma-se que os conservadores desejam manter essa equação entre preços e salários desvantajosa para o trabalho humano. Mas a classificação dos conservadores contém um equívoco; eles não desejam apenas conservar, empenham-se para expandir sempre a concentração de renda.

IDEÓLOGOS – Devem ter como ideólogos o ministro Paulo Guedes e o governo Jair Bolsonaro. No momento, no Brasil, um terço dos que trabalham ganham um salário mínimo.  Há uma parcela que ganha menos, as 14 milhões de famílias inscritas no Auxilio Brasil.

Acontece que o Auxilio Brasil tem que ser dividido pelo número de pessoas de cada família, e com isso significa uma diminuição de seu alcance emergencial. Além disso, o auxílio de emergência não resolve o problema social. Este só se resolve através do emprego e do salário justo, princípios inclusive cristãos.

O presidente Bolsonaro só há muito custo e liberou recursos para socorrer os milhares de desabrigados na Bahia. Esqueceu que a Bahia é o quarto maior colégio eleitoral do país, somente atrás de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Tem 10 milhões de eleitores.

PANELAÇO –  No momento em que ia ao ar em cadeia de televisão, incluindo a Rede Globo,  no Rio, na cidade de São Paulo e em várias capitais brasileiras, as panelas bateram nos edifícios residenciais, o que revelou, diga-se de passagem, a grande audiência da televisão. Bolsonaro finalmente anunciou a vacinação de crianças, mas condicionou à iniciativa por parte dos pais, o que é natural, e apresentação de receita médica.

Logo após, a TV Globo e a GloboNews divulgaram uma entrevista com o ministro Marcelo Queiroga. Ele também anunciou a vacinação infantil, mas não incluiu a condicionante de apresentação de receita médica. Exigência de receita médica para vacinar é um absurdo completo, algo que nunca aconteceu em país algum do mundo.

AÇÃO DA ANVISA – A Anvisa entra em ação e impede a atracação de navios com passageiros atingidos pela Covid-19. Enquanto a reportagem de batida de panelas foi de Patrik Camponês e Daniel Gulino, O Globo de ontem, a matéria sobre a decisão da Anvisa mandando desembarcar os passageiros contaminados pela Covid, Folha de S. Paulo de ontem, foi de Raquel Lopes.

O navio cruzeiro MSC Splendida apresentou 68 pessoas contaminadas, 56 tripulantes e 12 turistas. O número mostra que um dos fatores mais fortes da contaminação é a proximidade porque esta explica os casos verificados.

A atracação no Porto de Santos foi proibida e os contaminados foram hospedados em hotéis da capital baiana. A maioria dos contaminados só apresentava sintomas leves, incluindo os assintomáticos. O episódio assinala a importância da Anvisa e também do uso de máscaras de distanciamento mínimo entre as pessoas.

INVESTIMENTOS  – Reportagem de Stephanie Tondo e Janaina Lage, O Globo de sábado, com base em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) revela que em 2021 os investimentos de brasileiros em áreas financeiras internacionais, principalmente é claro nos Estados Unidos, cresceu 28% em relação às aplicações realizadas em 2020.

Atingiram em moeda brasileira R$ 827,19 bilhões, consequência natural da queda da Bovespa de 12% no ano que terminou. Um dos motivos, a meu ver, está no fato de a taxa Selic que rege as aplicações em renda fixa, como é o caso dos títulos que lastreiam a dívida interna de R$ 6 trilhões ter ficado em 9,25%, perdendo para a inflação do IBGE de 10,7%. Outro fator foi a subida do dólar registrada no ano passado. Além disso, destaca-se o fato de a Bolsa de Nova York ter proporcionado em 2021 um avanço de 30%.

PARAÍSOS FISCAIS – Finalmente, um outro fator: se o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campo Neto, investem até em paraísos fiscais para assegurar uma rentabilidade efetiva a seus investimentos, os brasileiros e brasileiras que têm condições seguem o exemplo.

Porém, na quase totalidade, aplicam nos mercados financeiros americanos pagando tributos e não se beneficiando de isenção de impostos como é o caso do paraíso existente nas Ilhas Virgens britânicas. Os que investem no Brasil pagam tributos legais a começar pelo Imposto de Renda. A incidência do IR sobre os salários acima de R$ 4 mil é de 27,5% na fonte. Não é preciso dizer mais nada. Mas hoje é dia 2 de janeiro. Vamos dar a volta por cima, ter esperança até porque sem ela não se vive.

Ano de 2021 foi marcado pela desorientação governamental e pela insatisfação popular

Entrevista Sérgio Amaral | Um Brasil

Charge do Adão (site Um Brasil)

Pedro do Coutto

O ano de 2021, que terminou na meia-noite de ontem, passagem de 31 de dezembro para primeiro de janeiro, foi marcado especialmente por uma desorientação geral do governo Bolsonaro que prejudicou fortemente a população brasileira, seja pelo congelamento de salários, pela alta dos preços e até pela obstrução à aplicação das vacinas essenciais à vida humana.

Além disso, o Congresso marcou a sua atuação por uma confusão absoluta. Fatiou a emenda constitucional dos precatórios, algo jamais visto na história parlamentar do Brasil, e concordou com uma emenda do Senado ao projeto inicialmente aprovado pela Câmara. Emenda aplicada à emenda constitucional ? Só se emenda aquilo com o que não se concorda. Caso contrário, não haveria necessidade de emenda alguma.

AUSÊNCIA DO GOVERNO – As enchentes da Bahia, principalmente, e as inundações ocorridas em Minas Gerais e São Paulo, revelaram uma ausência do governo federal. O governo Bolsonaro chegou ao ponto de rejeitar uma ajuda oferecida pela Argentina, embora tenha aceito uma ajuda do Japão. Ajuda não se recusa. Isso é algo que revela uma imaturidade política completa. O presidente da República rejeita qualquer diálogo com forças políticas que considere de centro-esquerda ou de esquerda.

Acrescentando caráter eleitoral à controvérsia do Planalto com o governador Rui Costa, que é do PT, Bolsonaro esquece que a Bahia é um grande colégio eleitoral do país e que isolando o governador e o próprio estado, perderá votos preciosos em sua campanha em 2022. O governador Rui Costa é um administrador bem aceito pela opinião pública de seu estado, tanto que se reelegeu em 2018 com 62% dos votos.

Bolsonaro que também perde votos com a sua irredutível campanha contra a vacinação, agora incorpora seu desgaste ampliando-o pela reação natural da Bahia contra aquele que não levou em consideração as milhares de mil pessoas atingidas pelas inundações, enquanto ele encontrava-se de férias, passeando de jet ski nas praias de Santa Catarina e visitando até o Parque Beto Carrero.

INCITAÇÃO AO CRIME – Para terminar por hoje sobre as observações da política de Bolsonaro vemos que, em entrevista a Matheus Vargas e Raquel Lopes, Folha de S. Paulo, o almirante Antônio Barra Torres acusa o presidente da República de incitação ao crime contra os integrantes da Anvisa, ameaçando divulgar os seus nomes publicamente por terem aprovado por unanimidade a aplicação de vacinas a crianças entre 5 e 11 anos de idade.

Este absurdo reflete bem a atuação de um governo que age contra si próprio, contra a reeleição, contra o povo de modo geral e até contra a infância em particular, posicionando-se, não se sabe o motivo, contra a sua imunização.