Ameaças de golpe militar fez Bolsonaro perder ainda mais votos para 2022

Charge do Adnael (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

As ameaças de Jair Bolsonaro envolvendo a perspectiva de golpe militar do país com a suspensão das eleições presidenciais e com a iniciativa de não respeitar as decisões do STF criaram para o presidente da República um cenário cada vez mais complicado ao que se refere às eleições do próximo ano para a Presidência da República quando ele próprio disputa a reeleição.

A lógica indica o seguinte, se ele é candidato à reeleição, mas as eleições podem não se realizar, ele deixou evidente que o seu projeto é de tornar-se ditador do Brasil, pois caso contrário, seria uma contradição incrível, mais um absurdo, alguém candidatar-se a uma eleição que considera possível de não ocorrer. Ninguém pode ser candidato a algo que não existe, portanto o seu projeto seria absolutamente antidemocrático.

INVESTIDAS ANTIDEMOCRÁTICAS – Depois do episódio que culminou com a leitura da sua carta em tentativa de conciliação,elaborada por Michel Temer, seu antecessor, a intenção de Bolsonaro a mim parece a de ganhar tempo em consequência de uma pauta artificial. Mas para ele é praticamente impossível afastar-se do projeto de poder. Os números do Datafolha divulgados na noite de sábado pela GloboNews e pela TV Globo, e objeto de ampla análise de Igor Gielow e Renata Galf, Folha de S. Paulo de domingo, destacam que as investidas antidemocráticas não acrescentaram nada à candidatura do atual presidente.

Pelo contrário, o Datafolha acentua que 50% do eleitorado acha que Bolsonaro pode dar um golpe de Estado no país; 45% acham que não tem a menor condição. Mas entre os 50% que admitem a hipótese, encontra-se a parcela de 30% que admite fortemente o perigo. Se o golpe de Estado militar preocupa tanta gente no Brasil e as pesquisas do mesmo Datafolha apontam o fraco desempenho eleitoral de Bolsonaro é porque a tese que leva à ruptura institucional não dá voto e retira até sufrágios no caminho difícil da reeleição. Inclusive porque diante da pesquisa a respeito do regime político do país, 70% afirmam ser plenamente democráticos.

Logo, a tese ditatorial não é caminho para as urnas do ano que vem. Além disso, 76% da opinião pública são favoráveis ao impeachment do presidente se ele na prática ignorar as decisões da justiça entre as quais as do ministro Alexandre de Moraes. Dois terços dos eleitores e eleitoras, faixa percentual de 66% que defendem a democracia, consideram que os ataques de Bolsonaro às autoridades e aos políticos são uma ameaça ao regime democrático.

OPINIÃO PÚBLICA –  O Datafolha deixou mais uma vez nítida uma tendência que me parece irreversível de modo absoluto: não à ditadura e sim à democracia e à liberdade. Na opção entre ditadura e democracia pode ser colocado como um ponto de análise o artigo de Bruno Boghossian, Folha de S. Paulo de ontem, que deixa no ar a indagação de que, no fundo, diante do obstáculo de alcançar o apoio das urnas, qual a saída que Jair Bolsonaro prevê para si mesmo. A opinião pública, portanto, já deu a sua resposta. O quadro político institucional brasileiro está na obrigação de complementá-la.

O Datafolha acentuou a fraqueza política de Bolsonaro: em um confronto no segundo turno, ele perde para Lula por 56% a 31%, margem bastante ampla, e perderia também para Ciro Gomes e João Doria. A derrota para João Doria é ainda mais significativa, uma vez que não acredito que ele não renuncie ao governo de São Paulo para tentar a Presidência em 2022.

IOF – As páginas econômicas dos três grandes jornais do país, O Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, têm focalizado os efeitos do decreto discutível do presidente Jair Bolsonaro em elevar o Imposto sobre Operações Financeiras numa escala de 30% para as pessoas físicas  e de 25% para as pessoas jurídicas. A diferença, mais uma vez, acentua a política não de redistribuição, mas de maior concentração de renda. O IOF para todos nós, pelo decreto, sobre de 3% para 4% que incidem sobre o valor da transação. Para as empresas, o IOF sobe de 1,5% para 2%.

A diferença significa o seguinte: para quem pagar a conta em seu cartão de crédito o tributo é de 4%, mas se as transações também financeiras se referirem a dois bancos, por exemplo, o tributo é de apenas 2%. Está aí um fato que destaca mais uma vez o caráter fortemente conservador da política econômica de um governo que se encontra em contradição a si mesmo.

A questão da redistribuição de renda marca bem o debate entre as esquerdas de hoje, os progressistas e os centro da direita formado por conservadores, moderados e extremistas. Se progressistas são os que defendem a redistribuição de renda e os conservadores ocupam a posição contrária, é porque no fundo, de acordo com o sentido da própria linguagem, ser conservador  é ser contra o progresso. É o tal caso, não adianta ver apenas o fato, é preciso ver no fato.

Lula está a um passo de vencer no primeiro turno as eleições de 2022

Charge de Nando Motta (brasil247.com)

Pedro do Coutto

Esta revelação surge de uma análise dos números contidos na pesquisa mais recente do Datafolha que apontou uma grande vantagem do ex-presidente Lula sobre o atual chefe do Executivo na sucessão presidencial marcada para daqui a praticamente 12 meses. Na edição de ontem, manchete principal da Folha de S. Paulo, foi destacada a provável vitória de Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro por 56% a 31% num segundo turno. A reportagem na Folha é de Igor Gielow. O Globo publicou também os mesmos números, reportagem de Sérgio Roxo. Mas o fato é que pode não haver segundo turno nas urnas de 2022.

O Datafolha analisou as tendências políticas em vários cenários para o próximo ano. O cenário mais lógico, que não inclui nomes que realmente não vão disputar o pleito, Lula alcança 44 pontos contra 26 de Bolsonaro, 11 de Ciro Gomes e 6 de João Doria. Ocorre que 11% anunciaram o objetivo de votar em branco ou anular o voto. Portanto, 89% passa a ser igual a 100%. Se Lula tem 44%, ele se encontra a um ponto percentual e um voto para conquistar a maioria absoluta no primeiro turno e assim dispensar o confronto numa nova convocação do eleitorado brasileiro.

OUTRO ASPECTO – Os números assinalam também um outro aspecto. O governador João Doria dificilmente vai renunciar ao cargo que ocupa atualmente para ser candidato ao Planalto. Com base nos números, ele certamente já sentiu que não há espaço para uma eventual decolagem sua. Custando a decolar também se encontra o ex-governador Ciro Gomes, do PDT, que vem repetindo a faixa entre 10% a 11% das intenções de voto a cada pesquisa realizada. Mas Ciro Gomes não tem mandato atual e assim não precisa renunciar para concorrer às eleições.

O fato é que no levantamento do Datafolha ainda pode-se especular sobre outra face do problema. Se João Doria não disputar e nenhum nome ocupar a sua posição, os números percentuais poderiam assegurar a Lula uma vitória no primeiro turno de forma ainda mais fácil. Portanto, o que se verifica é que o ex-presidente Lula da Silva encontra-se numa posição bastante favorável ao desfecho de 2022.

NONA DISPUTA –  Inclusive, vale frisar, um aspecto historicamente importante. Lula estará participando pela nona vez consecutiva de eleições presidenciais: perdeu para Collor em 89, perdeu para FHC em 84, novamente para FHC em 98, derrotou José Serra em 2002, venceu Alckmin em 2006, elegeu Dilma Rousseff em 2006 e conseguiu reelegê-la contra  Aécio Neves. Em 2018, o seu candidato Fernando Haddad foi derrotado. Somam-se, portanto, oito disputas presidenciais nas quais ele se envolveu diretamente. A de 2022 será a nona. Não há exemplo no mundo de um presidente ter participado direta ou indiretamente de tantas eleições.

A maior incidência encontrava-se no presidente Franklin Roosevelt nos Estados Unidos. Ele venceu as eleições em 32, reelegeu-se em 36 e 40, e mais uma vez em 44 na última disputa política da sua vida. Morreu em abril de 1945, dias depois do encontro com Churchill e Stalin já para tratar do fim da guerra que se aproximava. Mas tem um detalhe. Em 1944, para evitar que um presidente se eternizasse no poder, o Congresso americano aprovou uma emenda constitucional restringindo a reeleição a uma única vez só. Mas, o exemplo de quatro vitórias nas urnas alcançado por Roosevelt ficou na história americana e na própria história universal.

EXTREMA-DIREITAEm sua coluna de ontem na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman analisa o quadro político brasileiro e manifesta surpresa com o fato de Jair Bolsonaro manter ainda a seu favor uma parcela expressiva do eleitorado em torno de 20%. Schwartsman tem razão. O desastre é muito maior do que a percentagem que ainda permanece favorável ao presidente da República. Até mesmo grupos conservadores que sempre apoiaram o poder estão se afastando do Planalto. Mas o enigma focalizado por  Hélio Schwartsman   na minha impressão só pode ser explicado pela paixão que a extrema-direita desperta em grupos sociais que só identificam a força como a solução de tudo.

Trata-se de um equívoco colossal e universal. Mas existe concretamente. Para os grupos de extrema-direita (a extrema-esquerda já desapareceu totalmente), não importa o fato de 26 milhões de brasileiros estarem vivendo uma situação de fome. Não importa que o déficit habitacional do país esteja em 6 milhões de unidades. Não importa nada disso. Eles são torcedores esportivos da competição política que nada tem a ver com confrontos de esportes. No esporte uma equipe derrota a outra, na política uma equipe pode derrotar a outra e também a população.

Na Folha de S. Paulo de sábado, Leonardo Vieccelli revela que 46 milhões de brasileiros e brasileiras estão sem renda do trabalho e vivendo de favores eventuais. Na mesma edição, Viecceli focaliza também o déficit habitacional de 6  milhões de moradias. São desafios que se eternizam e que não podem ser resolvidos nas quatro linhas de um gramado. Só pode ser resolvido com a valorização do trabalho humano e a redução do desemprego.

Lula 44%, Bolsonaro 26%, Ciro Gomes 11% e Doria 6%; o quadro não mudou em dois meses

Dificilmente o quadro apresentado poderá ser revertido até as eleições de 2022

Pedro do Coutto

A pesquisa do Datafolha publicada nos jornais desta sexta-feira assinalou um aumento da reprovação do governo Bolsonaro, mas a perda de popularidade não influiu no quadro projetado para as urnas de 2022, caso as eleições fossem hoje. Na realidade, houve uma confirmação das tendências do eleitorado brasileiro. Relativamente ao primeiro turno, Lula alcançaria 44 pontos, contra 26 de Bolsonaro, 11 de Ciro Gomes e 6 de João Doria.

Feita a simulação para o segundo turno, Lula atingiria 56% dos votos contra 31% de Jair Bolsonaro. O mesmo panorama do mês de agosto. Verifica-se que do primeiro para o segundo turno, Lula sobe de 44% para 56% e Bolsonaro evolui de 26% para 31%. Na Folha de S. Paulo, Mauro Paulino e Alessandro Janoni, presidente e diretor do Datafolha, comentam o resultado sobre a reprovação do governo Bolsonaro. Mauro Paulino e Alessandro Janoni acentuam que, comparando-se o crescimento da reprovação com o registrado em dezembro, verifica-se uma queda de 21 pontos do presidente da República porque, enquanto sua reprovação subiu, a sua aprovação desceu.

RECUO DA APROVAÇÃO – Conforme assinalei no artigo de ontem, são dois movimentos interligados. Não se pode medir apenas o aumento da rejeição, mas também o recuo da aprovação, isso inclusive vale nos dois sentidos, sejam eles a favor ou contra o desempenho do governo. O Globo focalizou também a pesquisa do Datafolha. A reportagem foi de Sérgio Roxo. Na Folha de S. Paulo, além de Mauro Paulino e Alessandro Janoni, referiram-se à pesquisa o jornalista Igor Gielow.

O favoritismo de Lula da Silva e a descida de Bolsonaro em quatro degraus, na minha opinião, acentuam que dificilmente o quadro poderá ser revertido no final do próximo ano, já que nós nos encontramos há apenas 12 meses de distância das urnas sucessórias. Ontem, por exemplo, o presidente Bolsonaro assinou decreto elevando o Imposto sobre Operações Financeiras num percentual por volta de 30% sobre as transações de pessoas físicas, incluindo cartões de crédito, o IOF subiu de três para quatro pontos. Relativamente às empresas, o IOF subiu de 3 para 4,3 pontos.

Os acréscimos evidentemente vão se refletir no custo de vida e no poder de consumo da população, uma vez que as empresas vão repassar a diferença e as pessoas físicas vão pagar diretamente a transferência do seu bolso para os cofres do governo. A reportagem de Fernanda Tissot, Gabriel Shinohara , Eliane Oliveira e Ivan Martinéz-Vargas assinala que o produto causado pelo aumento do tributo vai garantir o Bolsa-Família para 54 milhões de pessoas, que corresponde a 20% da população brasileira, pois cada família tem uma média de quatro pessoas.

DO BOLSO DOS ASSALARIADOS – Verifica-se assim, que o governo não está transferindo recursos do Tesouro para a população mais pobre. Está retirando de assalariados os recursos para assegurar benefícios sociais. Não há transferência do capital ou do trabalho. Há transferência do trabalho para o desemprego e para o combate à fome.

O panorama político geral do país continua a ser de falta de perspectiva, já que os preços continuam em ascensão e os salários permanecem em retrocesso. Não estão somente estagnados, o que já seria um desastre, mas estão sendo diminuídos, o que é inclusive inconstitucional. É preciso levar em conta não só o valor nominal dos vencimentos, mas o seu valor em função do ritmo inflacionário. Nos últimos 12 meses, a inflação já registra um avanço de 9,6%.

TAXA SELIC – Na próxima semana, segundo a análise da jornalista Miriam Leitão, O Globo e TV Globo feita na manhã de ontem, o Banco Central deve elevar a taxa Selic de 5,2% para 6,2%. Um acréscimo percentual de 20%. É preciso considerar, entretanto, que o acréscimo vai representar mais 1% sobre R$ 6 trilhões que é a dívida interna brasileira, pois uma coisa é a incidência de 5,2% sobre R$ 6 trilhões, outra é a incidência de 6,2% sobre os mesmos R$ 6 trilhões. Alguns comentaristas fazem uma análise que se choca com a realidade.

Os bancos, conforme eu digo sempre, não são devedores da taxa Selic, e sim credores. É preciso acrescentar que a taxa Selic não pode ser inferior ao índice inflacionário do IBGE, pois, nesse caso, produziria juros negativos que são inaceitáveis pelo sistema financeiro, como todos sabem, e inevitáveis para todos nós, consumidores.

PACTO – O ex-governador Geraldo Alckmin e o ex-prefeito Haddad firmaram pacto sobre a eleição ao governo de São Paulo do próximo ano em que ambos devem ser candidatos.de que se um dos dois for ao segundo turno terá o apoio do terceiro colocado. Foi levantada a possibilidade de ambos estarem na etapa final da disputa e de um dos dois enfrentar o atual vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB), candidato de Doria. Caso se confirme a segunda hipótese, a expectativa é que um conte com o apoio do outro.

A reportagem de Sérgio Roxo e Gustavo Schmitt, O Globo, destaca bastante o tema e as articulações entre Alckmin e Haddad. Eles, no fundo, são adversários do governador João Doria que certamente disputará a reeleição porque a pesquisa do Datafolha revelou que o atual governador possui apenas 6% das intenções de voto para a disputa presidencial.Essa é a hipótese mais provável, mas se Alckmin não concorrer ao Planalto, o pacto firmado fica valendo para a disputa.

A disputa pode ser também contra Guilherme Boulos, Márcio França ou Arthur Do Val, mas a hipótese mais viável, na minha opinião, é a união desses dois políticos contra João Doria. Se Alckmin e Haddad firmaram um pacto prevendo o apoio de um ao outro, é porque Geraldo Alckmin vai apoiar Lula contra Jair Bolsonaro nas urnas de 2022. O tema vai repercutir no PSDB em vista do partido não poder apoiar Bolsonaro na sucessão, pois este chegou a propor, quando deputado, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fosse fuzilado.

Impensável: Paulo Guedes pede a Luiz Fux solução que não existe para precatórios

Guedes caracteriza a sua atuação no governo Bolsonaro na base da fantasia

Pedro do Coutto

Impressionante a iniciativa do ministro Paulo Guedes de procurar Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal, na esperança vã de encontrar uma solução para o que ele considera como um grave problema que é o pagamento de precatórios. São ações ajuizadas entre 1989 e 1990 que transitaram em julgado aproximadamente trinta anos, prazo em que os seus autores e os advogados que os representaram esperam para receber os seus créditos na Fazenda Nacional.

Desconhecendo o problema, ou fingindo desconhecer, porque uma espera de 30 anos é uma distância enorme entre o reconhecimento do direito e a sua realização, o titular da Economia colocou na mesa da discussão uma alternativa que o Supremo não pode endossar.

CONTRA A INICIATIVA – Como poderia agir a Corte Suprema? Anulando sentenças que ocorreram há três décadas? Mudando uma jurisprudência com efeito retroativo? Impossível. A reportagem de Fernanda Trisotto, Marianna Muniz, Gabriel Shinohara e Geralda Adoca, O Globo, focaliza nitidamente o absurdo da iniciativa. Na Folha de S. Paulo, Bernardo Caram, Danielle Brant e Marcelo Rocha, revelam que a própria área jurídica do governo é contrária à iniciativa de Paulo Guedes, inclusive considera a dívida dos precatórios algo fora do teto orçamentário. Tem razão.

Basta indagar o seguinte: a qual teto orçamentário o ministro Paulo Guedes se refere? Aos tetos de 1989 a 2020 ou ao teto de 2021? O advogado Alexandre Farah lembra de outro lado que com base na lei, muitos precatórios já foram vendidos a escritórios especializados em adquiri-los e dessa forma os vencedores das ações que deram origem à tais precatórios já transmitiram os seus direitos com um deságio por volta de 30%, além dos 20% relativos aos honorários dos advogados das causas originais.

Os pagamentos dos precatórios vêm sendo realizados. Não seria possível suspendê-los de uma hora para outra, criando uma desigualdade absurda entre aqueles que já conseguiram receber e os que não receberam. Isso faria com que o sistema judiciário do país fosse renegado à vontade de um governo que até hoje não conseguiu implantar um projeto definido, seja ele em que área for.

FANTASIA – O ministro Paulo Guedes caracteriza a sua atuação na base da fantasia. Há dois anos, quando da Reforma da Previdência Social, ele anunciou uma economia anual de R$ 100 bilhões, o que faria que numa década atingisse R$ 1 trilhão. Não é preciso nenhum comentário fora da fantasia delirante do ministro.

Um outro lado da questão é aquele do qual Paulo Guedes pediu a atenção de Fux para o caso do pagamento da nova versão do Bolsa Família. Outro absurdo completo. Uma coisa nada tem a ver com outra, pois para mim, vincular Bolsa Família às despesas com precatórios significa achar que os titulares das ações vitoriosas da justiça iriam diretamente financiar o programa assistencialista do governo Bolsonaro. Francamente, o ministro Paulo Guedes revela não ter noção dos limites políticos da arte de governar.

DECLÍNIO SE ACENTUA –  Em pesquisa divulgada na data de ontem pela GloboNews, o Datafolha apontou um crescimento da reprovação do governo Bolsonaro junto à população de 51% para 53% no prazo de quatro meses. Entretanto, o fato mais preocupante para o governo não está no crescimento da sua reprovação, mas está no aumento da sua queda.

Ele era aprovado por 34% do eleitorado e agora a sua aprovação recuou para 22 pontos. Assim, Jair Bolsonaro perdeu na realidade 14 pontos percentuais. Sua rejeição subiu de 51% para 53% e sua aprovação caiu de 34% para 22%. O seu caminho para as eleições de 2022 está cada vez mais difícil porque no fundo o reflexo nas urnas é inevitável.

Sua aprovação atual, como já tinha observado em artigo anterior, é assegurada pelo posicionamento da extrema-direita no processo político eleitoral. A queda de 34% para 22% traduz o desengajamento de correntes do centro-direita, tanto da sua candidatura quanto do seu governo.

MP DAS FAKE NEWS – O senador Rodrigo Pacheco, destaca Thiago Resende, Folha de S. Paulo de ontem, quando devolveu ao Planalto a Medida Provisória que dificultava a retirada de fake news da rede da internet, disse que o presidente da República não deve querer atuar como chefe do Congresso Nacional e também do Supremo Tribunal Federal.

Não se compreende porque o presidente Bolsonaro desejava dificultar a remoção de fake news. Tenho a impressão que as fake news têm como objetivo acrescentar apoio para ele. Mas se assim fosse, o seu governo não teria rejeição de 51% da população, portanto do eleitorado, contra uma aprovação de 34 pontos, como revelou a mais recente pesquisa do DataFolha.

DESONERAÇÃO DA FOLHA –  A Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara Federal aprovou na quarta-feira o projeto que mantém até 2026 a desoneração da folha de pagamentos ao INSS de 17 empresas que atuam em setores que mais empregam trabalhadores no país. Pela lei geral, os empregadores têm que contribuir com 20% sobre a folha de salários sem limite. O que representa uma contradição, pois o valor máximo de qualquer aposentadoria pela CLT é de R$ 6,1 mil.

A desoneração que está em vigor este ano estabelece uma opção enigmática às empresas: a desoneração seria uma alternativa entre pagar 20% ou pagar de 1% a 4% sobre o faturamento. É claro que vão preferir a faixa de 1% a 4%, pois caso contrário não faria sentido substituir os 20% por essa forma de pagamento.

Mas fica a pergunta; a escala de 1% a 4% se refere a que faixas de faturamento? Se for a uma faixa só, basta dizer que essa seria de 1%. O enigma na história é a diferença entre as quatro faixas previstas de modo genérico. A meu ver, se a desoneração se estender por mais tempo, o INSS simplesmente fecha porque estará perdendo uma receita enorme ao que se refere a contribuição de empregadores. O INSS, da mesma forma que o FGTS, já é atingido pelo desemprego. Se além do desemprego houver desoneração a médio prazo, tal solução coloca em risco o pagamento das aposentadorias e pensões pela Previdência Social. Vale a pena ler a matéria de Eliane Oliveira, O Globo desta quinta-feira, que focaliza bem o assunto.

MOBILIZAÇÃO –  Evandro Éboli, O Globo, relata o tipo de concentração de evangélicos, tendo à frente o pastor Silas Malafaia, junto ao Senado Federal, para que a Comissão de Constituição e Justiça marque a sabatina de André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal com base na condição que o próprio presidente anunciou de o escolhido ser terrivelmente evangélico.

Há resistências no Senado a começar pelo senador Davi Alcolumbre, presidente da CCJ. Mas o que não faz, principalmente, é a mobilização pública de qualquer grupo religioso, político ou econômico, no sentido de que seja nomeado um dos seus representantes para a Corte Suprema. O movimento evangélico, na minha impressão, não está inspirado em Mateus, João, Marcos e Lucas, autores do Evangelho cristão, não vinculado a iniciativas de sentido político. O Novo Testamento tem 2 mil anos e surgiu 3600 anos depois do Velho Testamento judaico.

Campos Neto critica aumento da gasolina, Silva Luna defende reajustes, mas esquece queda do consumo

Charge do Arionauro (arionaurocartuns.com.br)

Pedro do Coutto

Na tarde de terça-feira, num evento realizado pelo BTG Pactual, o presidente do Bacen, Roberto Campos Neto criticou o que classificou como rapidez nos reajustes praticados nos preços da gasolina e do óleo diesel pela Petrobras, acentuando que em outros países a distância entre o valor de mercado e o preço de venda é mais longo do que aquele praticado pela estatal brasileira. Foi, sem dúvida, uma crítica direta feita por Roberto Campos Neto à política do general Silva e Luna, que aliás substituiu Castello Branco na Presidência da Petrobras pela colocação em prática da mesma política de reajuste de preços que ele, Silva e Luna, pratica hoje.

Silva e Luna respondeu indiretamente às críticas diretas de Roberto Campos Neto, acentuando que a Petrobras não pode ser lançada em aventura. Praticamente referindo-se aos interesses financeiros da empresa que se refletem também nos interesses dos acionistas. Entretanto, na minha opinião, Silva e Luna esquece o reflexo do consumo, cuja retração vai influenciar também na rentabilidade da empresa em face do consumo interno da gasolina, do diesel e do gás de cozinha.

REPETIDAS FALHAS  – Este ano, a gasolina já aumentou 31%, o óleo diesel 28%, o gás de cozinha 21%. Algum reflexo esse processo tem que apresentar, uma vez que os salários encontram-se absolutamente congelados, o que significa perda de seu valor de consumo já que não existe como substituir ou repor as perdas salariais que têm caracterizado a política do governo Jair Bolsonaro traçada pelo ministro Paulo Guedes, cujas falhas se repetem sem cessar.  Reportagem de Gabriel Shinohara, Fernanda Trisotto e Melissa Duarte, O Globo, focaliza expressamente a contradição entre Roberto Campos Neto, de um lado, e Silva e Luna, de outro. Na Folha de S. Paulo, com o mesmo destaque, a reportagem é de Larissa Garcia.

O impasse entre os preços, os salários e os níveis de consumo estão conduzindo a um desfecho social extremamente preocupante porque tendo que pagar mais caro pelos combustíveis e pela energia elétrica, o que podem os consumidores fazer ? Nada, a não ser consumir menos e se alimentar menos ainda, sobretudo porque no setor de supermercados não há financiamento direto aos consumidores que diante da falta de dinheiro só podem correr, e mesmo assim a curto prazo, ao giro dos cartões de crédito cujos juros, como se sabe, são estratosféricos.

A energia, principalmente a elétrica, é de consumo diário e obrigatório. Não há outra maneira, a menos que os consumidores desliguem as luzes e os aparelhos de televisão. Agora mesmo, na edição de ontem da Folha de SP, está publicada uma matéria revelando que, segundo a Consultoria PSR Energy, o preço da energia vai subir menos em 2022 do que está subindo em 2021. Pode subir menos, mas vai subir, Enquanto isso, os salários descem, tomando-se por base a relatividade entre eles e as taxas de inflação.

CUSTO DE VIDA – Desligar a luz, as telas da TV e dos computadores passa a ser uma das últimas possibilidades das famílias conseguirem se manter à tona e, mesmo assim, por tempo determinado e a um curto prazo, pois os índices de custo de vida não vão retroagir. Pelo contrário, já se encontram em 9,6% no período de julho de 2020 a julho de 2021.  A tendência, portanto, já está desenhada no horizonte sombrio com que se deparam os grupos sociais que vivem do trabalho.

Roberto Campos Netto disse também, reportagem de Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo, que o Comitê de Política Monetária elevará a Selic no ponto que for preciso, consequência do fato claro de que o mercado financeiro não está absorvendo os papéis do Tesouro em face da Selic, hoje na faixa de 5,2% ao ano, encontrar-se muito distante de uma inflação que chegou praticamente o dobro dessa escala.

CRESCIMENTO DO PIB – Adriana Fernandes acentua que o Banco Itaú elaborou um estudo prevendo o crescimento do Produto Interno Bruto na escala de 0,5%, enquanto a MB Associados estima a evolução em apenas 0,4%. Se tais projeções se referirem a um período de 12 meses, como é normal, o Produto Interno Bruto terá recuado concretamente. Simplesmente porque ficará abaixo do índice demográfico brasileiro que oscila entre 0,7% a 1% ao ano.

Com isso, verifica-se-á o recuo da renda per capita, pois ela é o resultado da divisão do montante do PIB pelo número de habitantes do país. Isso de um lado. De outro, é preciso esclarecer que a projeção do Itaú de 0,5% incide sobre o total em números absolutos. Porque uma coisa é calcular meio por cento sobre um PIB de R $ 6,6 trilhões. Outra coisa, é projetar meio por cento sobre um montante menor que R$ 6,6 trilhões. Ou seja, se o Produto não cresceu em 2020, não se pode dizer que ele crescerá meio por cento em 2021. Esse meio ponto percentual deve ser aplicado sobre o resultado do recuo verificado no período anterior.

CPI DO SENADO – Essa terça-feira significou um desastre terrível do governo Jair Bolsonaro. Os depoimentos de Marcos Tolentino e Marconny Albernaz na CPI presidida pelo senador Omar Aziz foram um absurdo completo. Como é possível que duas pessoas deste nível tenham se envolvido em articulações para que a compra de vacinas, principalmente as da Índia, fossem efetivadas, inclusive com antecipação de US$ 45 milhões  através de uma empresa e de uma garantia de um banco que na realidade não existia.

Além disso,  Marcos Tolentino possui quatro CPFs negativados e continua a movimentar contas bancárias com dois CPFs, o que é absolutamente proibido por lei. O governo Jair Bolsonaro realmente não conseguiu traçar um rumo mínimo nem para a sua própria administração.

Medidas populares são uma farsa para ocultar fracasso da política social, econômica e financeira do governo

Não se observa neste governo qualquer iniciativa efetiva para reduzir a pobreza

Pedro do Coutto

Reportagem de Fernanda Trisotto, Evandro Éboli e Dimitrius Dantas, edição desta terça-feira de O Globo, revela um conjunto de medidas elaboradas pelo ministro Paulo Guedes por pressão do presidente Jair Bolsonaro no sentido de reduzir os impactos negativos dos aumentos de preço dos combustíveis, da energia elétrica e da alimentação, esta última atingindo fortemente os grupos de menor renda. Por falar em renda média, esta recuou no país.

O que o governo chamou de pacote de bondades, representa também um esforço de transferir concretamente os efeitos do desemprego e dos desembolsos pelo Tesouro Nacional. Assim, no cerne da questão, surge um aspecto essencial: sem recuperação do mercado de trabalho e dos salários diante da inflação, não há como o poder público – não só no Brasil , mas em todo o mundo – enfrentar e superar os obstáculos sociais cada vez maiores que separam a pobreza do impasse em que se envolveu o governo Bolsonaro, em grande parte aprisionado numa teia imobilista traçada por Paulo Guedes e sua equipe.

CICLO VICIOSO – Não se observa em todo o governo qualquer iniciativa, não paternalista, mas efetiva, no sentido de reduzir a pobreza que avança com os seus efeitos, os mais diversos, sobre a realidade brasileira. Sem emprego não pode haver produção, não havendo produção, não pode haver consumo, não havendo consumo, coloca-se em risco a própria existência humana representada em nosso país por pelo menos por 40 milhões de pessoas que se encontram sob risco de não poder se alimentar e que já enfrentam as consequências gravíssimas da falta de saneamento e até da ausência regular do abastecimento de água potável.  

Reduzir tarifas muito altas de energia elétrica nao é solução efetiva tanto para o presente, quanto para o futuro do país. Mas para o governo Bolsonaro o futuro concentra-se apenas em outubro de 2022, no caminho das urnas, o que já representou um recuo anunciado por projeto de não realizar as eleições caso o voto impresso não fosse reinventado no Brasil em um retrocesso que pelo menos conduziria a 1996.

As perspectivas relativas ao Produto Interno Bruto, de acordo com o boletim Focus do Banco Central, não são positivas. Pelo contrário, indicam um avanço pequeno em relação a 2021. Mas aí surge uma outra questão. Os percentuais relativos a avanços referem-se a que base numérica absoluta? Este é um outro problema porque é preciso distinguir entre um avanço relativo a uma situação de recuo anterior e a incidência do avanço sobre o Produto Interno Bruto que havia antes da queda.

ILUSÃO – O PIB brasileiro era de R$ 6,6 trilhões. Assim, os avanços concretos só podem ser confirmados se o crescimento incidir sobre esse montante porque se qualquer avanço recair sobre um produto menor que o montante de R$ 6,6 trilhões, os números podem iludir uma grande parcela da população. Mas o seu uso é incapaz de mudar a realidade. Essa visão concreta é indispensável para mostrar que pacotes de bondade não são de todo negativos, mas ocultam uma realidade essencial que ultrapassa a queda de prestígio de Bolsonaro para disputar o pleito do próximo ano.

Há que se estabelecer uma diferença entre o que é um benefício e um direito. A sociedade brasileira espera obter direitos sociais e não receber benefícios eventuais. A questão da popularidade, sem dúvida, é importante. Mas ela não se conquista apenas com iniciativas isoladas e subsidiadas pelo Tesouro Público. Elas têm que ser resultado de uma política integrada sob os ângulos social, econômico e financeiro. Sem isso, não há solução efetiva para a sociedade brasileira ou para qualquer sociedade.

ARGENTINA –  Vejam agora o exemplo da Argentina. As eleições legislativas preliminares das eleições gerais marcadas para novembro apontaram uma derrota do presidente Alberto Fernández e da vice Cristina Kirchner. O peronismo assim, como em poucas vezes da história política do país, coloca-se em crise. Para mim, consequência de compromissos assumidos na campanha eleitoral não cumpridos pela chapa vencedora. Mais uma diferença, portanto, entre as promessas e a sua concretização.

Nas campanhas, como é habitual, os candidatos se comprometem com uma série de projetos e soluções. Uma vez no poder, esquecem tanto das soluções quanto das promessas. Essa é uma das raízes institucionais que ocorre principalmente no Brasil. Para mudar essa tendência, os candidatos devem no mínimo dizer a verdade e, quando eleitos, lembrar o que disseram aos eleitores e eleitores ao longo das campanhas.

ZIZINHO – Uma bela reportagem de Alex Sabino, Folha de S. Paulo, sobre os 100 anos de Zizinho que transcorreria ontem se vivo fosse. Foi sem dúvida, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Pertence à era anterior às vitórias de Pelé e Garrincha. Jogou no Flamengo, foi tricampeão em 42,43 e 44, jogou no Bangu de 1949 a 1956 e encerrou a carreira no São Paulo.

Representou uma lembrança inesquecível para todos aqueles das gerações que o viram jogar. Meio-armador, meio-avançado e centroavante, deixou a sua marca no futebol. O destino não permitiu que fosse campeão do mundo em 1950. O campeonato mundial caberia bem para ele, como também para Ademir de Menezes. Ele, aliás, lembrou este ângulo da história esportiva num diálogo com o próprio Ademir.

Mas é que houve um Uruguai de Obdulio Varella no caminho e os 2×1 no Maracanã. Esteve fora da seleção brasileira na conquista do Pan-Americano de 1952 em Santiago do Chile. Não existia um bom relacionamento entre ele e o treinador Zezé Moreira. Com Zezé Moreira, o Brasil derrotou o Uruguai por 4×2, devolvendo a derrota de 1950 e conquistou o título numa final, derrotando o Chile por 3×0.

CONTUSÃO –   No lugar de Zizinho, no meio-campo, Zezé Moreira escalou Didi, então no Fluminense que, eis novamente o destino, se tornaria campeão e bicampeão do mundo nas jornadas heroicas de 1958 e 1962. No Pan-Americano de 1952, Zezé Moreira convocou apenas um jogador da equipe efetiva de 1950, Ademir de Menezes. Mas ele se contundiu e no seu lugar entrou Baltzar, do Corinthians.

A vitória de 1952 lavou a alma dos brasileiros. Eis o time que Zezé Moreira escalou: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho e Nilton Santos. No meio, Eli do Amparo, Didi e Pinga, na frente, Julinho Botelho, Baltazar e Rodrigues Tatú. A conquista de 1952 representa também uma alteração tática de grande importância: o futebol nao se ganha apenas do meio para frente, mas também depende do desempenho da defesa e da entrega de bola do meio-campo para as ações ofensivas.

Sem Lula, oposições não lotam a Avenida Paulista e nem entusiasmam o eleitorado

Manifestações contra o governo Bolsonaro tiveram baixa adesão no domingo

Pedro do Coutto

A reportagem de Dimitrius Dantas, Gustavo Schimitt, Rafaela Ramos e Sérgio Roxo, O Globo, da mesma forma que a reportagem da Folha de S. Paulo, edições de ontem, incluindo a de Marianna Holanda, revelaram que a manifestação concentrada na Avenida Paulista contra o governo e pelo impeachment de Jair Bolsonaro não conseguiu lotar o espaço e refletir o grau de insatisfação que existe contra o presidente da República, ampliado com o pronunciamento de 7 de setembro.

Não conseguiu porque, como o Datafolha já deixou claro em sua pesquisa sobre as intenções de voto para as urnas de 2022, ressentiu-se da ausência de Lula e da liderança que exerce sobre ampla camada dos eleitores e eleitoras do país. Nessa pesquisa, vale lembrar, Lula concentrou 46% dos votos contra 25% de Bolsonaro e 11% relativos a Ciro Gomes. Na concentração de domingo na Paulista, Ciro Gomes esteve presente, da mesma forma que João Doria e Henrique Mandetta. Mas os fatos comprovaram que nenhum dos três sozinho teria influência nos rumos dos eleitores brasileiros.

DORIA, MANDETTA E MORO – Ciro Gomes, não há dúvida, é a terceira força, mas João Doria não pode renunciar ao governo de S. Paulo para tentar se candidatar ao Planalto. Mandetta só pode desempenhar um papel adicional na campanha contra o atual chefe do Executivo. Sergio Moro, nem isso. Embora tenha a seu favor o desencadeamento de uma onda contra a corrupção, na verdade ficou sem opção entre Lula, a quem condenou a prisão, e Bolsonaro, que forçou a sua demissão do Ministério da Justiça e se tornou alvo de sua reação baseada num motivo lógico.

A concentração na Avenida Paulista, de certa forma, constituiu uma resposta à ameaça ditatorial do presidente Jair Bolsonaro. Mas deixou um espaço vazio entre o que representam os que estavam presentes a ela e a ausência de Lula, cuja presença completaria fortemente a realidade do quadro político nacional.

Não se trata de discutir o mérito da questão se o governo Lula representou escândalos na Petrobras, como aconteceu quando as diretorias da empresa foram divididas entre as bancadas partidárias na Câmara como se fossem capitanias hereditárias. Isso de um lado. De outro, Lula nunca patrocinou manifestações públicas, incluindo faixas pelo fechamento do Supremo, do Congresso, de um desfecho ditatorial que, incluindo o fim das eleições, tinha como objetivo transformá-lo em um sucessor de Pedro II, portanto imperador do Brasil, dando sequência irrealista à novela da TV Globo “Nos tempos do Imperador”. Quanto a tal hipótese, a história brasileira retrocedeu 132 anos no tempo e no espaço.

ELETROBRAS – Reportagem de Paulo Cappelli e Dimitrius Dantas, O Globo de ontem, revela que o governo recuou do seu projeto original de privatizar a Eletrobras à base de colocação de ações no mercado, numa operação capaz de tornar a estatal de maioria em minoria no controle acionário. A questão do preço jamais foi discutida ou levada a sério.  A privatização, agora ficou comprovado, era um arrematado absurdo. Significaria uma transferência de comando a custo zero para os compradores, uma vez que eles manteriam em seu poder as ações que viessem a ser adquiridas na Bovespa.

Mas a questão não é somente essa. É que agora, como acentua Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, parte para criar uma nova empresa estatal para em seguida privatizá-la. Ele não explica como e nem o motivo, mas a simples substituição do primeiro pelo segundo projeto revela que o governo propôs privatizar a holding sem ter certeza da própria iniciativa, nem saber ao certo o que estava fazendo. Mais um desastre do desgoverno Bolsonaro. O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, não quiseram comentar o assunto. Acho que sequer poderiam fazê-lo.

DÉFICIT DE HABITAÇÃO –  A TV Globo, na tarde de ontem, programa RJ TV, informou que o déficit de moradias na cidade do Rio de Janeiro atinge 220 mil unidades, o que para mim abrange praticamente um milhão de pessoas, com base na média de habitantes por unidades de um pouco mais de quatro pessoas. A reportagem acrescentou que para enfrentar esse déficit, a Prefeitura e o Governo do Estado iam habilitar a ocupação de imóveis federais, estaduais e municipais que não estão sendo utilizados e assim poderiam proporcionar habitação aos que não a possuem.

Informem ao prefeito Eduardo Paes, como ele aliás deve saber, que o problema habitacional não é tão simples. Não pode ser solucionado com a concessão que se presume gratuita de moradias.  Habitação é um problema social gravíssimo que depende diretamente do mercado de empregos e da renda dos salários. Não adianta nada incluir uma família numa unidade domiciliar se ela não tem recursos para pagar o consumo de energia elétrica, o consumo de gás, o condomínio e o IPTU.

A inclusão se correspondência de renda será uma nova fonte de acúmulo de débitos cujo reflexo atinge a Prefeitura e diretamente toda a população carioca e fluminense. Em todo o Estado do Rio o déficit é de 500 mil moradias, correspondendo a cerca de 2 milhões de pessoas. Não adianta tentar disfarçar a essência do problema. Nâo se trata apenas, o que já é muito, de um lugar para morar. Trata-se sobretudo de poder manter a moradia. A embalagem não altera o produto. Constitui apenas uma ilusão a mais na vida brasileira.

Política não é competição esportiva e o resultado atinge sempre a população do país

Charge do Cazo (blogdoaftm.com.br)

Pedro do Coutto

No primeiro pronunciamento depois do 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, no sábado, numa visita à Feira Agropecuária de Esteio, no Rio Grande do Sul, – excelente reportagem de Adriana Mendes, O Globo de domingo – que no episódio do Dia da Independência quando ameaçou descumprir as decisões do ministro Alexandre de Moraes, não houve nenhum poder vitorioso, reproduzindo assim a visão esportiva que faz do jogo político num embate em que sempre se julga vitorioso. Desta vez, entretanto, admitiu um empate.

A visão do presidente da República está completamente distorcida, da mesma forma que distorcida se encontram as correntes que se chocam umas ao lado do Planalto, outras voltadas maciçamente contra o chefe do Executivo. De qualquer forma, as paixões que ocorrem na vida humana, sejam de qual tipo forem, vão sempre produzir equívocos e conduzir às análises desastrosas da realidade.

TERCEIRO REFLEXO – Foi assim em 1955, quando Carlos Lacerda liderou um movimento subversivo contra a posse de JK, vitorioso nas urnas democráticas. A opinião pública precisa entender que o embate sintetizado nas legendas partidárias não envolve uma dualidade própria das decisões no futebol. Há sempre um terceiro reflexo, que no fundo, se encontra na verdadeira disputa, colocando em confronto as visões progressistas e conservadoras. Isso para reduzir ao máximo as opções do eleitorado porque temos que considerar ainda as posições de extrema direita, intolerante sob qualquer resultado das urnas que não favoreçam a paixão que alimenta em si.

Conforme digo sempre, o amor é um sentimento fundamental, mas Deus nos livre das paixões que se aproximam de situações febris e exaltadas ao máximo. As paixões são um perigo,  seja na política, seja no amor pela mulher, seja na obsessão de tentar impor uma realidade interior sobre a realidade concreta dos fatos.

Falei há pouco sobre extremismo e vejo tal posição relembrada em artigo de Patrícia Campos Mello, Folha de S. Paulo de ontem. O golpe preventivo foi o argumento falso usado pelo Lacerdismo em 1955 contra a posse de Juscelino Kubitschek. O então líder da UDN dizia: “Temos que dar o contragolpe porque o golpe foi dado nas eleições fraudadas”. O absurdo pelo que vejo através mais de seis décadas de jornalismo político se repete. É a intolerância para com a vontade popular.  

AS REDES SOCIAIS E OS EDITORES –  Em artigo publicado ontem, na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman focaliza com o brilho de sempre a questão que se coloca entre o limite da liberdade de expressão nas redes sociais da internet e os limites impostos pela lei, pela ética e pelo bom senso. Entre esses limites situa-se o fato de , na grande maioria dos casos, os textos divulgados pela internet não estarem sujeitos a uma verificação de sua procedência ou improcedência a editores responsáveis. Como, por exemplo,  ocorre invariavelmente nos jornais, nas emissoras de televisão e de rádio.  

Na internet, cada um se julga editor de si mesmo e daí as investidas antidemocráticas e até criminais que ocupam espaços eletrônicos. Não é possível, não faz sentido, que cada um desempenhe concretamente o papel de editor de si próprio. Aceitar isso significa aceitar como normal a anormalidade que impulsiona as injúrias, difamações, calúnias  e até os incentivos ao sequestro de ministros e a invasão violenta do Supremo Tribunal Federal. Afinal de contas, o direito é uma questão de bom senso, de respeito aos limites entre o normal e o anormal, entre o que é aceitável e o que é inaceitável.  Ninguém pode achar que é algo normal e aceitável propor-se sequestrar um ministro da Corte Suprema.

A diferença entre a existência de editores e a sua ausência nas mensagens veiculadas é algo a ser obrigatoriamente analisado pelas redes mobilizadas para a comunicação moderna e imediata e, por ser imediata, em muitos casos, irreparável. Porque uma coisa é o direito de opinião, outra coisa, completamente diferente é o incitamento ao crime, incluindo sequestros e assassinatos.

SEMANA DA ARTE MODERNA –  Na edição de ontem, também da Folha de S. Paulo, Ruy Castro refere-se ao centenário da Semana de Arte Moderna a ocorrer em 2022. Cita aspectos reescritos e outros da necessidade de serem revistos. São questões relativas à datas, à idade dos personagens e à sua localização no tempo de um século atrás. Aliás, por falar em revisões e reescritos, uma série enorme de episódios, como os da Segunda Guerra Mundial, necessitam de uma revisão e uma reanálise para assegurar a plenitude histórica dos acontecimentos. Por exemplo, aspectos econômicos-financeiros  sobre compra de armamentos, de combustíveis e até de consciências que se desenrolaram em águas nem sempre aparentes.

Historiadores, se desejarem, poderão mergulhar em correntes pouco visíveis na aparência, mas muito sensíveis na essência. Como eram feitos os pagamentos de compras de armas e petróleo nas redes bancárias? Qual a origem do dinheiro que sustentava os pagamentos? Qual a procedência do dinheiro que sustentava fortificações e templos voltadas à destruição humana ?

Hoje, interessante é saber qual a origem de recursos financeiros que erguem templos de ódio e voltados à perseguições, tanto religiosas, quanto àquelas que se destinam a obscurecer os fatos concretos, colocando-os em dúvida do tempo. Registros existem porque como os fatos, o rastro do dinheiro sempre aparece para os que desejarem iluminá-los.

Risco institucional permanece e o presidente Bolsonaro pode voltar ao ataque novamente

Bolsonaro poderá buscar um novo caminho para tentar se manter no poder

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Fernando Canzian, Folha de S.Paulo de sábado, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou que, embora acuado no momento, Jair Bolsonaro não vai deixar de atacar a arquitetura democrática até o final de seu governo. Para Arminio Fraga o comportamento do presidente da República cria uma tensão que, do ponto de vista econômico, é absolutamente paralisante.

A opinião de Fraga é extremamente oposta a do ministro Paulo Guedes que, numa palestra a investidores na última sexta-feira, em São Paulo, argumentou que após o choque político registrado no último dia 7 de setembro, o governo retomará o seu projeto de recuperação da economia nacional. A reportagem de Fernanda Trisotto focaliza o encontro de Paulo Guedes no momento em que ele procurou, mais uma vez, acalmar o que chama de “mão do mercado”. Na minha impressão, Paulo Guedes permanece mergulhado na fantasia e procura vender um clima de serenidade que não existe no governo Bolsonaro do qual é o titular da Economia.

IMPASSE CONTINUA – Para Armínio Fraga, o setor de serviços está sendo duramente atingido e ele é responsável pelo maior reflexo na formação do Produto Interno Bruto e no mercado de empregos. O impasse continua. Tenho a impressão de que Michel Temer, convocado pelo próprio Bolsonaro, representa um intervalo no desenvolvimento não só da economia, mas do próprio processo global do país. Dificilmente, a mão de tigre do mercado ficará imobilizada pela trégua que representou o recuo do presidente da República. Esse recuo, de um lado, não constrói confiança, e de outro decepciona os setores radicais da extrema-direita. Com isso, o reflexo eleitoral é inevitável e a perda de densidade política do governo se acentua.

Cada vez mais, por todos os motivos existentes, o presidente Jair Bolsonaro se distancia cada vez mais do projeto de reeleição. Por isso mesmo, conforme a previsão de Armínio Fraga e a previsão geral, ele voltará a atacar as instituições, buscando um novo falso pretexto e um caminho capaz de mantê-lo no poder. Não conseguiu em 7 de setembro; faltou-lhe apoio militar, é claro. Pois se apoio militar ele tivesse na semana que passou, o desfecho do conflito conduziria ao risco de um desabamento democrático.

Vamos aguardar o que poderão revelar as pesquisas do Datafolha ou da XP Investimentos, além do antigo Ibope, hoje  Instituto Paulista de Excelência da Gestão (Ipeg), a respeito das tendências políticas dos eleitores e eleitores.Quanto mais ocorrer o esvaziamento da candidatura de Bolsonaro, maior risco ele representa para o país, para as eleições e para si mesmo.

TERMOS ADITIVOS –  Julia Affonso, Estado de S. Paulo deste sábado, revela a decisão do ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União, anulando o termo aditivo de contrato firmado entre o Ministério da Saúde e a VTCLog que envolvia o fornecimento de insumos médicos para vacinação contra a Covid-19. A matéria acentua que o termo aditivo assinado pelo ex-diretor Ferreira Dias elevou o reajuste do contrato existente de R$ 3,9 milhões para R$ 57,7 milhões.

Essa questão de termos aditivos está exigindo uma revisão em série e de bastante profundidade porque as licitações originais preveem um sistema de reajuste de acordo com os índices inflacionários, mas os já famosos termos aditivos elevam às alturas as percentagens deste reajuste.

VENDAS NO VAREJO –  Leonardo Vieceli, Folha de S. Paulo, com base em dados do IBGE, afirma que o comércio varejista, sobretudo de roupas, avançou 1,2% no mês de julho, registrando uma circulação maior de clientes. Não entendi bem o que seja circulação maior de clientes. Parece que se refira a presença de consumidores nas lojas. Mas a questão não é só essa. É preciso medir se as vendas aumentaram em seu volume físico ou se subiram também ao que se refere às despesas efetuadas pelos consumidores.

Além disso, é preciso considerar que base numérica incide no avanço de 1,2% registrado pelo IBGE. Isso porque se foi sobre uma base de acentuada retração, qualquer avanço relativo pode aparentar envolver um falso impulso de recuperação. O varejo, segundo Leonardo Vieceli, inclui também artigos de higiene, produtos farmacêuticos, eletrodomésticos e setor de calçados.

De qualquer forma, fica a pergunta: como podem as vendas aumentarem se os salários continuam congelados, os juros bancários passam de 20% ao ano e o endividamento da população, como há poucos dias a Folha de S. Paulo revelou, na escala de R$ 424 bilhões ? Só de juros são mais de R$ 80 milhões ao ano. Qual a mágica e qual a lógica que envolve o resultado a que chegou o IBGE nessa questão? Temos que partir do princípio de que a mágica é o oposto da lógica.

De Jânio Quadros a Bolsonaro, tentativas de ditadura acabam em renúncia e recuo aparente

Oscilação torna a situação de Bolsonaro extremamente crítica

Pedro do Coutto

Ao longo dos sessenta anos que separam a renúncia do presidente Jânio Quadros do recuo formal do presidente Jair Bolsonaro em relação aos insultos que dirigiu aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, a história contempla duas claras tentativas de implantar uma ditadura no Brasil, mas que felizmente não lograram o êxito esperado pelos seus autores ou sequer pelos seus apoiadores.

A condecoração de Ernesto Guevara com a ordem de Tiradentes por Jânio Quadros levou-o a uma forte contradição com o pensamento das lideranças militares. Mas não foi apenas isso que marcou o desfecho de 1961, quando Jânio abriu uma crise institucional que atravessa o tempo e perdura até hoje. No dia 21 de agosto, Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, numa entrevista à TV Tupi revelou ter sido convidado pelo presidente Jânio Quadros a participar de um golpe de Estado. No dia seguinte, a entrevista foi manchete principal da edição do Jornal do Brasil.

SEM APOIO –  Jânio Quadros pensou em decretar intervenção federal na Guanabara, porém não encontrou apoio dos titulares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Partiu então para o lance da renúncia, esperando que o seu gesto levasse uma multidão às ruas a exemplo do que aconteceu em Havana quando Fidel Castro simulou uma renúncia ao poder. O Senado e a Câmara Federal, cujas antenas estavam ligadas pela denúncia de Lacerda, homologaram imediatamente a renúncia, considerando-a como um ato pessoal não sujeito à aprovação pelo Congresso.

Agora, em 2021, o presidente Jair Bolsonaro adotou um caminho diferente de Jânio, mas partiu para o ataque, principalmente contra o Supremo, como ficou claríssimo em seus pronunciamentos em Brasília e na Avenida Paulista. Não encontrou, graças a Deus, respaldo do Exército para desfechar um golpe que o tornasse imperador do Brasil. Ficou absolutamente isolado e teve então que, num gesto extremo, recorrer ao ex-presidente Michel Temer que, de forma inusitada, tornou-se o redator do documento de recuo no qual Bolsonaro tentou se desculpar com Alexandre de Moraes, com Luís Roberto Barroso e com a própria Corte Suprema.

A situação de Bolsonaro tornou-se extremamente crítica e o extremismo da direita que era a sua base de apoio restringiu-se aos grupos para os quais a verdade não importa, num gesto que a transforma num simples desejo, confundindo realidade com vontades. Temos assim, duas investidas históricas de grupos da direita contra instituições nacionais.Mas não foram essas, ao longo do tempo, as únicas investidas contra a vontade das urnas  e contra a democracia.

POSSE DE JK – Em 1955, o então deputado Carlos Lacerda, liderou um movimento sectário contra a posse de Juscelino Kubitschek, vitorioso nas urnas. A investida de Lacerda e da direita exigiu dois movimentos militares liderados pelos  generais Teixeira Lott e Odílio Denys que garantiram a posse de JK. Como se constata, os movimentos subversivos não foram só os que derrubaram João Goulart, culminando com o encontro dos sargentos na sede Automóvel Clube no Rio de Janeiro.

Na ocasião, Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio, dirigiu uma carta aberta a Carlos Lacerda dizendo que a sua atitude demonstrava a existência de ódio em seu coração e acrescentou nesse documento esquecido pelos historiadores: “Carlos, você fala em tanques e canhões. Você os teme ou os deseja? Faz-me parecer que você os deseja se eles estiverem ao seu lado”.

Dom Helder apontava assim a maior contradição que marcou a vida do jornalista, do deputado e do governador. Sua ânsia de poder o levou ao desastre. A ansiedade configurada também na reunião de 2 de abril de 1964, no Palácio Guanabara, quando ao lado dos governadores Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e Petrônio Portela, este do Piauí, afirmou num discurso que era amigo e admirador do general Castello Branco, e desejava ser o seu sucessor nas eleições diretas de 1965. Não houve eleições diretas. Lacerda foi vítima da sua própria ansiedade e o Brasil passou 21 anos sob uma ditadura militar.

COMPORTAMENTO IDEOLÓGICO – Em artigo na Folha de S. Paulo ontem, sexta-feira, Ruy Castro acentuou um aspecto que envolve o comportamento ideológico da direita, principalmente por sua extrema. O bolsonarismo, disse, existia antes de Bolsonaro e agora ameaça ressurgir como um bolsonarismo sem Bolsonaro. A ironia do escritor não retira a força da verdade contida na frase e muito menos a força da verdade eternizada pelos acontecimentos históricos.

A extrema-direita estará sempre ao lado de desfechos de força, sobretudo porque a sua mensagem não incluiu qualquer compromisso social e capaz de resultar num programa construtivo de governo que reduza o desemprego e eleve o poder de consumo da população. Pelo contrário, o que caracteriza a extrema-direita é a sua disposição no sentido de concentrar cada vez mais a renda nacional. Assim, a sua alternativa é a da força que nem sempre dá certo, vejam os exemplos de Jânio Quadros, de Jair Bolsonaro e do próprio Carlos Lacerda que se transformou a luz do tempo de adversário da realidade em adversário de si mesmo.

Bolsonaro faz economia desabar e Barroso diz que falta de compostura envergonha o país

Nas cordas, Bolsonaro agora tenta se agarrar ao fiapo de defesa que lhe resta

Pedro do Coutto

Os ataques que o presidente Jair Bolsonaro desfechou contra o ministro Alexandre de Moraes, contra o Supremo Tribunal Federal e a favor do não cumprimento de sentenças judiciais fizeram a economia desabar imediatamente no dia seguinte à data da Independência. A Bolsa de Valores recuou, o dólar subiu, a inflação acelerou e os preços dos alimentos, até nas feiras livres do Rio de Janeiro, aumentaram acentuadamente, inclusive como demonstrou a reportagem da TV Globo no início da tarde de ontem.

Também ontem, reportagem de Vitor da Costa, Stephani Tondo e João Sorima Neto, O Globo, assinala a falta de rumo no mercado em consequência do agravamento da crise política que atingiu o seu ponto máximo, aliás como escrevi ontem. Na Folha de S. Paulo, Daniele Madureira destaca a reação negativa do pronunciamento de Bolsonaro nas classes empresariais que sustentaram que o presidente da República deve se empenhar, isso sim, para a retomada econômica do Brasil e não perder o rumo político da situação nacional.

RUMOS DA DEMOCRACIA – Na minha opinião, o desabamento causado por Bolsonaro só não atingiu a extrema-direita, mas alcançou duramente os próprios setores conservadores que estão preocupados com os rumos da democracia e com as eleições de outubro de 2022. Na Folha de S. Paulo, o economista Sérgio Lazzarini, em entrevista ao repórter Douglas Gavras, assinala que as ameaças de Bolsonaro jogam fora as perspectivas de recuperação da economia brasileira em um quadro tumultuado em que investimentos importantes, com reflexo no mercado de empregos, terminam não se realizando.

Enquanto escrevo esse artigo, há a notícia de que Bolsonaro recuou e diz que tudo foi dito no calor do debate. No fim da tarde de ontem, o presidente da República divulgou texto recuando praticamente de forma total em relação às ofensas dirigidas ao ministro Alexandre de Moares, buscando retratar-se em relação a sua participação nas manifestações do dia 7 de setembro.

Bolsonaro atribuiu tudo ao calor do debate e o seu recuo foi assim total, um rendimento político às forças que se uniram contra ele que tenta, com isso, ganhar tempo para sobreviver. Se ele recuou é porque espera um período que julga suficiente para respirar e sair das cordas. Mas os ataques feitos ao Supremo continuam e o teste definitivo será, sem dúvida, quando Bolsonaro cumprir as decisões do ministro Alexandre de Moraes e do STF.  O presidente, na minha opinião, ficou sem espaço e como última tentativa deixa o ataque e passa para a defesa. Quanto tempo durará essa defesa é a pergunta que se pode fazer.

DURO DISCURSO – O pronunciamento de Luís Roberto Barroso, antes da declaração de Bolsonaro no fim da tarde de ontem, foi sem dúvida o mais duro e frontal feito por um magistrado contra a falta de rumo e de legitimidade de propósitos demonstrada pelo presidente da República, e que deveria ser o primeiro a defender as leis e as instituições.

Barroso atacou duramente o presidente Bolsonaro, acusando-o de falsificar fatos e manter um comportamento marcado pela falta de compostura, situação que está envergonhando o Brasil perante o mundo, acusando sem provas, repetindo seguidamente inverdades e não enfrentando os verdadeiros problemas nacionais, como o desemprego, a pandemia, a queda do poder de compra e a falta de perspectiva para a sociedade brasileira.

O desfecho da crise instaurada está gerando uma paralisia econômica e social, cujos reflexos são negativos. Na minha impressão, o país só retomará as suas atividades normais a partir do momento em que Jair Bolsonaro deixar a Presidência da República.

FLAMENGO NÃO JOGA SOZINHO – Atendendo pedido do Flamengo, a Prefeitura do Rio decidiu permitir que os jogos do time possam ter acesso de público pagando os seus ingressos. Dezenove clubes e a CBF estão recorrendo contra a decisão. Surpreendentemente, o prefeito Eduardo Paes não se pronunciou até o momento. É preciso considerar um fato que se sobrepõe a qualquer outra interpretação: o Flamengo não joga sozinho, por isso os seus adversários participam da receita decorrente dos ingressos.  

Mas como dividir essa receita se a Prefeitura se refere apenas ao Flamengo? No futebol não existe exibição sem adversário e sem competição. Não é possível assim atribuir-se um tratamento a um clube por mais popular que ele seja sem que tal decisão interfira no interesse dos demais. O futebol é um espetáculo para as multidões, seja pela TV ou pelo público presente. Mas em nenhuma situação pode se levar em conta o privilégio deste ou de outro time em relação às equipes que dão vida aos campeonatos.

Se Lira não abrir processo de impeachment contra Bolsonaro, ele fecha Câmara, Senado e Supremo

Afirmações alucinadas de Bolsonaro foram e são de gigantesca gravidade

Pedro do Coutto

Os pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro na terça-feira, na Esplanada de Brasília e na Avenida Paulista, além de representarem uma ruptura completa com a Constituição, com as instituições e com a democracia, demonstram também um caminho absolutamente sem volta no quadro político brasileiro.

Negando-se previamente a não respeitar as decisões do ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro ultrapassou todos os limites que poderiam conduzir a um esforço de reconciliação. E fez isso de caso bem pensado, dando curso ao seu projeto de tornar-se o imperador do Brasil. Não foram apenas as faixas reivindicando a ditadura militar com ele no poder os fatos dominantes de uma manifestação que, historicamente, se tornou singular na memória do país em seus 199 anos de independência. Foi, sobretudo, um impulso destrutivo da arquitetura democrática que rege e conduz a vida brasileira.  

SEM RECUO – Depois dos discursos de Brasília e da Avenida Paulist é absolutamente impossível qualquer recuo por parte do Planalto e qualquer aceitação por parte da planície na qual se situa toda a população do país. Mauro Paulino, diretor do Datafolha, lembrou que a mais recente pesquisa do instituto apontou a grande maioria de 75% do eleitorado a favor da democracia e contra qualquer tipo de ditadura. Já tivemos a que marcou o período novembro de 1937 a 2 de dezembro de 1945 e a que preencheu o espaço da longa noite que começou em abril de 1964 e terminou em março de 1985.

As afirmações de Jair Bolsonaro foram e são de gigantesca gravidade, maior do que a atitude do coronel Jurandir Mamede em novembro de 1955, quando se pronunciou contra a posse de Juscelino Kubitschek apesar de sua vitória nas urnas. Surgiu desse episódio o movimento de retorno aos quadros constitucionais vigentes, liderados pelos generais Teixeira Lott e Odílio Denys, que assegurou a posse de JK na Presidência da República.

Naquela ocasião, a Câmara votou o impeachment do presidente em exercício Carlos Luz e do presidente efetivo Café Filho. Não deixa de chamar atenção um ponto comum no extremismo de uma época e de outra. Agora, bolsonaristas nas ruas ressuscitaram o Lacerdismo, movimento liderado por Carlos Lacerda que identificava a presença do comunismo em todas as situações de conflito entre a sua corrente e quaisquer correntes adversárias.

INVESTIDA – Agora, não foi um coronel que investiu contra a Carta Magna, não foi um presidente interino que se negou a puni-lo, mas o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, o autor da investida fatal contra a democracia e também fatal para a sua continuidade no governo que ele mesmo destruiu. No O Globo, Bernardo Mello Franco qualifica o dia  7 de setembro de 2021 como o Dia do Golpismo.

E, também em O Globo, Rennan Setti e Bruno Rosa focalizam o reflexo da tensão política na economia brasileira, debilitada pelo desemprego, pela retração no consumo dos alimentos, pelo aumento dos combustíveis e pela elevação das tarifas de energia elétrica. Mas o presidente Jair Bolsonaro só pensa em se manter no poder e por isso investe violentamente contra o quadro constitucional brasileiro.

Não há linha de recuo possível. Não pode ser aceita sob hipótese alguma a afirmação enfática de um presidente da República que sustenta antecipadamente que não cumprirá as decisões de um ministro do STF mesmo que encampadas pelo Supremo Tribunal Federal. A atitude é tão descabida que revela em si mesma que a hora do desfecho final  entre a democracia e a ditadura, como diz o verso, brilhou no céu da pátria nesse instante. Não há retorno, ou Arthur Lira age ou a democracia naufraga.  

Bolsonaro cruza a fronteira da lei e parte para o golpe militar contra a democracia

Bolsonaro não tem volta após investir contra a Constituição

Pedro do Coutto

Ao aceitar as manifestações pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e também os ataques exaltados contra o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Jair Bolsonaro cruzou a fronteira da lei e se posicionou claramente favorável a um golpe militar contra as instituições, incluindo na sua ofensiva um comunicado ao ministro Luiz Fux, presidente do STF – absurdo completo – para afastar Moraes da Corte Suprema.

A ofensiva golpista ficou clara nas imagens da GloboNews e também da TV Globo levadas ao ar na tarde de ontem focalizando a série de ataques ao Supremo pela concentração nas Esplanada dos Ministérios. No final da manifestação em Brasília, Bolsonaro anunciou que no final da tarde estaria presente na concentração da Avenida Paulista. Os bolsonaristas, no fundo impulsionador pelo presidente da República, partiram para o desfecho de força, cujos resultado vai depender da disposição do Exército comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira.

LIMITE – Na edição de ontem, terça-feira, de O Globo, Merval Pereira e Miriam Leitão destacaram que Bolsonaro situou-se numa posição limite, a meu ver, entre a lei e a ordem, revelando preferindo a estrada da desordem. Com um brilhante comentário feito na GloboNews no início da tarde, Miriam Leitão destacou que agora Bolsonaro não tem mais caminho de volta, uma vez que na realidade investiu contra o texto constitucional, lei maior do país.

Na minha opinião não é possível que um presidente da República compactue com iniciativas voltadas para fechar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso, sem que tal alinhamento subversivo não possa acrescentar-lhe reflexos na mesma proporção e no mesmo limite dos atos que adotou.

O IMPERADOR – Marianna Holanda e Ricardo Della Coletta, Folha de S. Paulo, destacam a ultrapassagem da sociedade brasileira por parte de um presidente da República que deveria estar preocupado com o desemprego, com a queda do consumo de alimentos, com a pandemia, com a vacinação, com a subida a taxa inflacionária, mas que não está ligando para nenhum desses graves problemas e deseja apenas tornar-se imperador e perpetuar-se no poder, sem levar em conta sequer com o fato de que um golpe militar acabaria com os mandatos dos integrantes do Centrão, incluindo os parlamentares que o apoiam.

O golpe militar, como aconteceu com o Ato Institucional nº 5, acarretaria o fechamento do Poder Legislativo e também afetaria a liberdade individual dos brasileiros e brasileiras. Bolsonaro, na minha impressão, além do impulso para o golpe, perdeu também completamente a noção sobre os limites da lógica e da política que, como dizia Juraci Magalhães, é também a arte do impossível. Para mim é impossível que o Exército se encontre ao lado de Jair Bolsonaro em sua alucinada investida para achar o caminho que o salve da derrota em 2022.

FAKE NEWSO presidente Jair Bolsonaro, na tarde de segunda-feira, editou Medida Provisória dificultando a retirada de textos das redes sociais da internet. Mais uma iniciativa absurda do homem que deveria presidir o Brasil, pois para isso foi eleito nas urnas de 2018. Por exemplo, não tem sentido dificultar a retirada de uma proposta que os jornais de ontem tornaram pública em que duas pessoas oferecem pagamento em dinheiro para quem atacar fisicamente o ministro Alexandre de Moraes. Como é possível defender uma coisa dessas?

Trata-se de um caso doentio e de alucinação. Isso de um lado. De outro, se as fake news influenciassem a favor de Bolsonaro, o seu governo não teria sido considerado entre ruim e péssimo por 54% da opinião pública, como revelou o Datafolha. Se as fake news influenciassem na posição eleitoral  do presidente para 2022, ele não estaria com 25 pontos a seu favor contra 46 pontos dos que se dispõem a votar em Lula contra ele.

São fatos concretos os que estou citando e que provam que as fake news podem levar a desfechos dramáticos como foi o caso de um jovem acusado de estupro e assassinato, mas que não participou nem de uma coisa e nem de outra, embora a sua imagem pessoal tenha sido exibida nas telas eletrônicas. São casos isolados, dramáticos, capazes de criar situações absurdas, mas, sob o ângulo coletivo, a mentira jamais se tornará verdade, ainda que repetida por mil vezes, conforme disse o repugnante nazista  Joseph Goebbels , cuja imagem resiste tragicamente como modelo junto aos extremistas da direita de hoje que são os herdeiros da tragédia do nazifascismo do passado.

FLAMBOYANTS DE PAQUETÁO presidente do IBGE, Eduardo Rios Neto, reportagem de Carolina Nalin, O Globo, explica a importância da Ilha de Paquetá, cenários dos flamboyants da bela canção de Braguinha e Alberto Ribeiro, escolhida como ponto de partida para a realização do censo de 2022. A meu ver não faz sentido.  Isso porque a Ilha de Paquetá é uma área de classe média, cujo poder aquisitivo encontra-se ao nível do poder aquisitivo dos moradores da Tijuca.

Não serve como síntese da realidade nacional e a sua colocação como base da pesquisa pode conduzir a equívocos essenciais. Basta comparar a Ilha de Paquetá, onde só se vai de lancha, com as favelas da Maré do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. Basta também levar-se em conta que a metade da população brasileira não conta com saneamento básico, rede de esgotos e água potável.

Basta ainda examinar, como mostram os filmes das manhãs da TV Globo, os becos das favelas, cenários de conflitos de sangue, colocando em confronto policiais, traficantes e milicianos. Em Paquetá, acrescentaram Braguinha e Alberto Ribeiro em 1948, a lua cheia ilumina e embala casais de namorados. Paquetá parece ser um paraíso que escapou às ações do crime organizado e desorganizado que tomam conta da Cidade do Rio de Janeiro.

Centro-direita irá se afastar de Bolsonaro se ele insistir em golpe

Bolsonaro ‘fantasia’ retorno a 1964 e ficará isolado na extrema-direita

Pedro do Coutto

Reportagem de Danielle Brandt, Julia Chaib e Ranier Bragon, Folha de S. Paulo desta segunda-feira, revela que uma das bases de apoio ao governo Bolsonaro, a corrente de centro-direita, poderá afastar-se dele ainda hoje, caso insista na radicalização e no impulso de pregar um golpe contra a democracia e contra a Constituição. A matéria é muito importante, sobretudo porque o afastamento da centro-direita, e por via de consequência do Centrão, deixará o presidente da República isolado na extrema-direita, posicionamento aliás que ele e os seus apoiadores mais próximos sempre ocuparam.

Mas, no caso do Centrão e do conservadorismo não-extremista, a investida radical representa um desastre, como destaca também a Folha de São Paulo em reportagem de Carolina Linhares e  Anna Virginia Balloussier, exibindo cartaz de apoiadores do governo levantando a tese de uma intervenção militar com Bolsonaro no poder. Esse poder, de acordo com os extremistas, inclui o fechamento do Supremo e do Congresso Nacional.

SEM MANDATO – O fechamento do Supremo já significa um absurdo ainda maior do que a violência. O fechamento do Congresso deixaria senadores e deputados sem mandato, situação enigmática para os atuais governadores e o fim das eleições gerais de 2022. Tal solução que revive o fascismo não pode interessar de forma alguma ao quadro político parlamentar, uma vez que os mandatos seriam substituídos por militares escalados pelo imperador do Planalto. Com isso, a sobrevivência da própria classe política teria desabado.
 
Carolina Linhares e Anna Virginia Balloussier destacam os setores alinhados na extrema-radical. Entre eles, os evangélicos liderados por Silas Malafaia e Estevam Hernandes da Igreja Renascer em Cristo. Neste ponto, a contradição é também integral: cristãos não podem ser favoráveis a desfechos de força e às ditaduras, pois tanto umas quanto outras significam a supressão da liberdade e a violação de direitos humanos, exatamente ao contrário do que através de dois milênios lê-se na mensagem de Jesus Cristo, segundo os evangelistas Mateus, João, Marcos e Lucas.  

Portanto, os evangélicos não podem formar ao lado daqueles que pregam a violência e têm como impulso principal suprimir a liberdade, o direito do voto, a democracia e manter um conservadorismo que colide frontalmente com os princípios cristãos consagrados no Novo Testamento.

ARTICULAÇÃO – No O Globo, Marianna Muniz destaca na edição de ontem que ministros do Supremo Tribunal Federal, como é o caso do presidente da Corte, Luiz Fux, procuram articular nos bastidores uma solução capaz de conter a crise, cujo desfecho final pode ter início hoje à noite. Mas a articulação que conta com a participação de Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil, na minha impressão, dificilmente poderá obter êxito porque o presidente Bolsonaro é o primeiro a partir para o confronto, incluindo o desrespeito à Constituição do país que tem como um dos seus pontos nevrálgicos, como ele próprio já anunciou, a supressão das urnas de outubro de 2022.

Por falar nas urnas, o presidente da República permanece sem filiação partidária e, pela lei eleitoral, tem prazo até o próximo dia 3 de outubro para se inscrever numa legenda e com isso habilitar-se para disputar as eleições  do próximo ano.

SITUAÇÃO SINGULAR – A não filiação de Bolsonaro a qualquer partido criará uma situação singular que ameaça até a viabilização da própria candidatura. Seria um fato inédito na história universal; ocupar a Presidência da República e disputar a eleição sem estar vinculado a qualquer partido. A impressão que se tem é de que o presidente está agindo de propósito para alimentar mais um aspecto de suas atitudes e comportamentos contraditórios.

Porém, não tenho dúvida de que ao se aproveitar do 7 de setembro para investir novamente contra o STF e contra as instituições, Bolsonaro perderá o apoio do Centrão, pois é impossível que os seus integrantes se disponham a jogar pela janela os seus próprios mandatos e a sua presença na vida pública brasileira. O quadro partidário terá que suspender a ação subversiva surpreendentemente assumida pelo próprio presidente da República.

BITCOINS DO FARAÓ –  Em reportagem na Folha de S. Paulo, Italo Nogueira destaca que o Santander, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal decidiram antecipadamente, e de forma preventiva, encerrar as contas da GAS Consultoria no sistema de bitcoins, utilizada pelo faraó para ganhar ilegalmente uma quantia verdadeiramente fantástica. Era o reviver da antiga pirâmide.

Ítalo Nogueira diz que o faraó baseou-se em liminares da justiça para evitar o fechamento das contas como desejava o Banco do Brasil, o Santander e a CEF. Mas, para  mim, o que mais surpreende é o fato de o Banco Central não ter agido para conferir as denúncias dos dois bancos estatais e do Santander.

Afinal, o Banco Central dirigido por Roberto Campo Neto tem como uma de suas obrigações assegurar a legitimidade das movimentações financeiras e, no caso de não serem legítimas, denunciá-las publicamente e praticar a intervenção no mercado, sobretudo porque a economia popular encontrava-se e se encontra sob grande risco de prejuízos. Por que motivo o Banco Central não agiu?

Afinal, o que Bolsonaro vai dizer em seus dois discursos nos protestos em Brasília e São Paulo?

Charge do Clayton (opovo.com.br)

Pedro do Coutto

O artigo de Bernardo Mello Franco na edição de domingo de O Globo revela um fato essencial no meio da crise aberta pelo presidente Jair Bolsonaro a pretexto da computação eletrônica de votos e de um ultimato dirigido aos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal. Quanto a Alexandre de Moraes, em face de sua inclusão em inquérito por atividades antidemocráticas. Relativamente a Luiz Roberto Barroso, também presidente do TSE, por sua posição clara e lógica contra o que seria o retrocesso contido na volta do voto impresso no país.

As alegações são absurdas e politizadas de 7 de setembro igualmente sem o menor sentido: uma data de todos, conforme acentuei no artigo de ontem que Bolsonaro desejava transformar em pretexto golpista para alguns. Mas esta ameaça está superada com base na revelação e no comentário de Bernardo Mello Franco. A realidade política nacional passou a ser outra no curto espaço entre a quinta-feira e o domingo.

MANIFESTAÇÕES – Mas Bolsonaro insiste em levar o tema para as ruas. Tanto assim que anunciou que estará presente nas manifestações de amanhã nas Esplanada de Brasília e na Avenida Paulista. Em Brasília, no corredor dos Ministérios. Em São Paulo, em frente ao endereço da Fiesp, cujo posicionamento, sobretudo após o recuo em divulgar o manifesto democrático, passou a ser fortemente contestado.

Aliás, a Federação Brasileira de Bancos não recuou e condenou a vacilação de Paulo Skaf. O presidente da República se isolou ainda mais. O agronegócio apoiou a Federação dos Bancos e os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal desistiram de romper com a Febraban. Na minha opinião, romper com o sistema bancário e com as informações de que ele dispõe é um ato extremamente arriscado. Mas essa é outra questão.

A questão essencial, como destacou Mello Franco, está na posição assumida pelo general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, suspendendo o tradicional desfile do Dia da Pátria. Claro que a sua atitude foi apoiada pelos comandantes da Marinha e da Aeronáutica. Caso contrário não teria o impacto que obteve e está obtendo. Não sei, francamente, qual o ângulo de visão do ministro da Defesa, general Braga Netto.

INVESTIDAS – O fato dominante, contudo, ficou claro, é que as investidas contra as eleições e contra ministros do STF perderam o pouco impulso que já tinham em sua origem e passaram a se deparar não apenas com o silêncio do Exército, mas com a sua definição pela democracia, pela Constituição Federal e pela liberdade do voto. O episódio deixou demonstrado que Jair Bolsonaro não conta com qualquer fração militar expressiva para investir contra as instituições e praticar um lance de dados na tentativa vã de se tornar o imperador do Brasil. A saída para a crise a meu ver está consolidada pela estrada que leva as urnas em outubro de 2022.

Nas redes sociais os esforços para enveredar pela ilegalidade estão barrados. As fake news que chegaram a incentivar o sequestro de titulares do STF naufragaram na própria contradição de um gesto absurdo e criminoso. As fake news não têm expressão de peso capaz de subverter a lógica dos fatos. Basta considerar um princípio: se as fake news resolvessem, Jair Bolsonaro não estaria atrás de Lula  na projeção para 2022, como revelaram as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos.

ABOLIÇÃOMuito importante a entrevista da historiadora Mary Del Priore ao jornalista Bruno Albano, O Globo de ontem, em que, com base em pesquisas realizadas ao longo do tempo, chegou à conclusão de que a Princesa Isabel, de fato, só assumira a posição de abolicionista três meses antes do 13 de maio de 1888.

A historiadora é autora de um estudo em profundidade sobre a decretação da Lei Áurea. Vale a pena ler a entrevista porque a análise histórica é capaz não só de revelar, mas também traduzir o passado. A versão corrente de contemporâneos da época, entre os quais o meu avô, Pedro do Coutto, outro historiador, foi a de que a fuga de escravos se acentuava muito e o Império já na fase de crepúsculo, tentou usar o Exército no esforço de resgate que era exercido por mercenários chamados capitães do mato.

O Exército se recusou ao papel e a Abolição que já trazia em si um impulso republicano, ampliou seu raio de ação e sua influência no país, influência tardia, porém indispensável para fazer com que o Brasil não fosse o último , mas sim o penúltimo país  a abolir a escravatura. O último no período do Império, o primeiro como República. Portanto, penúltimo à luz da história do tempo. O caráter do Império era profundamente conservador, mas o conservadorismo foi tocado pela dissidência, liderada por Joaquim Nabuco e com a atuação também marcante de Ruy Barbosa.

DESMATAMENTO – Reportagem de Laryssa Medeiros, O Globo de domingo, dá sequência à reportagem do RJ 2 da TV Globo no sábado.  Na Rua Professor Hélio Povoa, Tijuca, desmatamentos e motosserras entraram em ação, iniciando a derrubada de 340 árvores para a construção não autorizada pela Prefeitura de um edifício de 240 apartamentos.

O RJ 2 de sábado focalizou inclusive a manifestação conjunta de protesto por moradores à margem da floresta urbana. Impressionante o descaso para com o verde e o meio ambiente, motivado pelo lucro e por uma legalidade disfarçada de replantio. Afinal, quantos anos demora para que futuras 340 árvores substituam as que estão se perdendo a partir de sexta -feira ? Estranho , sobretudo, é o silêncio do prefeito Eduardo Paes, responsável pela preservação do meio ambiente  e pelo plano urbano da Cidade do Rio de Janeiro.

No ultimato aos ministros do STF, Bolsonaro termina dirigindo um ultimato a si mesmo

Declarações absurdas de Bolsonaro tentam abalar a estrutura constitucional

Pedro do Coutto

Ao inaugurar na tarde de sexta-feira o ramal ferroviário Ilhéus – Caetité, na Bahia, reportagem de João Pedro Pitombo e Kaique Santos, Folha de S.Paulo de sábado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que nas manifestações de 7 de setembro enviará um ultimato aos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, O presidente disse que “não podemos admitir que uma ou duas pessoas, usando a força do poder, queiram dar um novo rumo ao nosso país. Devem curvar-se à Constituição, respeitar a nossa liberdade e chegarem a conclusão que se encontram no caminho errado, mas há sempre tempo para se redimir”.

Como se constata, as declarações de Bolsonaro são absurdas e desconexas, sobretudo porque quem ameaça a estrutura constitucional do país é exatamente ele, Bolsonaro, na medida em que, como já tornou público diversas vezes, admitiu não realizar as eleições de outubro de 2022 porque o sistema de computação eletrônica não foi substituído pelo voto impresso.

AMEAÇAS – Surgiram assim novas ameaças ao Poder Judiciário, inclusive o presidente da República disse que os ministros “ousam nos desafiar, desafiando a Constituição e desrespeitando o povo brasileiro. Portanto quem dá esse ultimato não sou eu, é o povo brasileiro”. Analisando-se as frases do pronunciamento, expostas de forma excelente por João Pedro Pitombo e Kaíque Santos, chega-se à conclusão de que o presidente da República não se encontra com o seu pensamento organizado e tampouco baseado na lógica e principalmente nos fatos que dão margem ao raciocínio a partir do enfoque insubstituível do bom senso.

Os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso não estão propondo nenhum atentado contra a democracia. O primeiro está combatendo as fake news, cujos efeitos são extremamente desastrosos. O segundo, defendendo o sistema de computação eletrônica dos votos, sistema contra o qual, desde 1996,com exceção de Jair Bolsonaro, não houve qualquer denúncia ou contestação. Isso de um lado.

De outro, Bolsonaro, como deixou claro na cidade de Ilhéus, está disposto a utilizar o 7 de setembro para reiterar manifestações golpistas e autoritárias que só encontram respaldo na extrema direita que insiste em existir no Brasil, apesar do desfecho de 1945 com a derrubada do nazifascimo contra o qual a FEB lutou arduamente nos campos da Itália. Não me refiro à extrema esquerda porque esta desapareceu no Brasil completamente e suas ideias não mais se reproduziram e foram substituídas por um posicionamento reformista de inspiração cristã na medida em que prega apenas a justiça social e uma melhor distribuição de renda entre o capital e o trabalho.

ENTRECHOQUE – No final de semana, o ministro Onyx Lorenzoni dirigindo-se ao PT disse que a luta política “somos nós contra eles”. Referiu-se assim ao entrechoque inevitável de conservadores e reformistas. Mas esqueceu que no meio dos dois campos existem a democracia, a liberdade e o direito de voto.

Ameaças ao STF como essas que Bolsonaro faz são responsáveis pelo refortalecimento e ressurgimento da candidatura do ex-presidente Lula da Silva no quadro político brasileiro. É clara a consequência, afinal os que defendem as eleições, a Constituição e a imunidade do Supremo, nas urnas de outubro do próximo ano devem ficar com quem ? Com Bolsonaro que ameaça  a Corte ou com Lula da Silva que lidera amplamente as pesquisas eleitorais do Datafolha e do XP Investimentos ? A resposta é absolutamente clara.

RECUO DO BB E DA CEF – O presidente do Banco do Brasil, Fausto de Andrade Ribeiro, e o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, revela Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S. Paulo deste sábado, recuaram de suas posições e decidiram não mais se desligarem da Febraban.

Tacitamente concordaram assim com o conteúdo da manifestação da entidade em favor da democracia e das eleições, posicionamento absolutamente legal, mas que contrariou fortemente o presidente Jair Bolsonaro que assim demonstra desejar exatamente o contrário. Mas essa é outra questão.

VULNERABILIDADE – No artigo de sábado, eu falei das dificuldades do BB e da CEF se desvincularem da Federação Brasileira de Bancos. Em 24 horas, a dificuldade se confirmou. Isso porque, na minha impressão, um rompimento deixaria vulneráveis atividades bancárias e empresariais, cujas revelações podem (não só poderiam) causar constrangimentos e reflexos negativos.

Poderiam proporcionar também o surgimento de informações sobre créditos lançados no exterior e sobre transações que muitas vezes extrapolam limites de rendas de assalariados e até de empresários. Assim, não será um bom negócio romper com o sistema financeiro que tem nos bancos, principalmente o Itaú, Bradesco e Santander, os seus elos mais fortes. Saldos bancários evoluem muito mais nas sombras do que a luz do sol.

Ao exaltar democracia, Febraban desfecha a mais forte reação contra Bolsonaro e o Centrão

Distanciamento da Febraban ratifica a oposição ao radicalismo do Planalto

Pedro do Coutto

Ao reafirmar o seu apoio ao manifesto em favor da democracia, do respeito à Constituição e às eleições, a Federação Brasileira dos Bancos desfechou o mais forte ataque tanto ao governo Jair Bolsonaro, quanto ao Centrão, sua principal base de apoio no Congresso. O presidente da Febraban, Isaac Sidney Menezes Ferreira, rejeitou o pedido dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para que a federação reanalisasse o seu posicionamento, sob pena de o BB e a CEF se desvincularem da federação

Isaac Sidney não atendeu à solicitação dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal e manteve o documento, acentuando também ser lamentável o recuo da Fiesp que tinha se comprometido com a manifestação, adiando o seu apoio por alguns dias à posição democrática.

REAÇÃO  – Sob o ângulo político, o distanciamento da Febraban constitui a mais séria reação contrária ao radicalismo do Planalto e ao alinhamento do Centrão com o governo. Isso porque o sistema bancário não só absorve os títulos emitidos pelo Executivo para girar a dívida interna do país que se eleva a R$ 6 trilhões, como também opera o sistema de encomendas, contratos de financiamento, pagamentos e depósitos, tanto do país quanto do exterior, controlados é claro pela federação e pelo Coaf.

Tenho a impressão de que o bloco conservador favorável ao governo no Parlamento encontra-se hoje extremamente preocupado com a firme decisão de Isaac Sidney Menezes Ferreira. Os motivos, sob o ângulo político tradicional, são óbvios e a sua revelação ilumina depósitos na própria rede bancária e também em estabelecimentos de crédito. A principal cisão envolvendo o Executivo e a democracia ocorreu esta semana.

Reportagem de Renato Andrade, Geralda Doca, Ivan Martinéz-Vargas, O Globo desta sexta-feira, destaca muito bem e com objetividade o tema em foco. O que não está em foco no primeiro plano, passa a receber uma clara iluminação logo no plano sequente.

IRONIA – Evandro Éboli, Mariana Muniz e Julia Lindner, O Globo, destacam os preparativos do governo para as comemorações de 7 de setembro, incluindo uma agressiva ironia do presidente da República aos ministros do STF. Afirmou Bolsonaro: “Ninguém precisa temer o 7 de setembro. Basta reconhecer (referindo-se indiretamente ao Supremo) que extrapolou. Portanto, quem quiser subir no carro de som e de cima dele ver duas milhões de pessoas, pode fazê-lo à vontade. Eu também garanto o uso da palavra se eles desejarem falar. Não temos outro grito de Independência porque já somos independentes”.

Esse pronunciamento foi feito a apoiadores na terça-feira, logo após o pronunciamento do ministro Luíz Fux, presidente da Corte Suprema, defendendo uma pacificação entre os poderes. Fux acentuou que as manifestações de 7 de setembro precisam ocorrer sem violência.

Assim, se Bolsonaro ironizou e rejeitou o texto de Fux é porque, no fundo, mantém-se no caminho de se opor a qualquer reaproximação os distensão.Esta última palavra, muito usada pelo presidente Ernesto Geisel e pelo general Golbery do Couto e Silva. De qualquer forma, lembra o repórter Aguirre Talento, O Globo de ontem, o Ministério Público está recomendando reforço no sistema de Segurança Pública em Brasília.

FAKE NEWS – Ao sancionar a nova lei de Segurança Nacional, revelam Jussara Soares, Dimitrius Dantas e Paulo Cappelli, o presidente Jair Bolsonaro vetou dispositivos que tornavam crimes as fake news no campo político e posicionamentos contra as eleições.

No segundo caso, como todos sabem, Bolsonaro se inclui totalmente, pois já ameaçou as eleições de 2022. Quanto às fake news, o dispositivo vetado proíbe a veiculação de comunicação enganosa, o que não afeta o pensamento do presidente da República. Os dois vetos foram também focalizados por Marianna Holanda e Cristina Camargo, Folha de S. Paulo.

Esses vetos, na minha opinião, devem cair pois, inclusive, focalizam matérias já previstas na legislação do país; caso da propaganda enganosa que ultrapassa o campo político e se estende à publicidade comercial e à obstrução das eleições já condenadas pelo texto constitucional. De qualquer forma, Bolsonaro acentuou novamente a sua posição pessoal em relação a esses dois pontos chaves da democracia.

MINIRREFORMA – O ministro Paulo Guedes lamentou a derrubada do que chamou de minirreforma trabalhista pelo Senado Federal. A minirreforma trabalhista de Paulo Guedes previa que jovens desempregados poderiam frequentar empresas para aprender e com isso descortina-se para si a hipótese de virem a ser empregados.

Portanto, pelo que se indica, a frequência seria gratuita. Como explicar tal colocação?

Independência, fim da escravidão e queda de ditaduras foram obras das oposições através da história

Planalto e oposição devem encarar o 7 de Setembro como uma data de todos

Pedro do Coutto

Ao se aproximar a data de 7 de setembro, que está sendo objeto de manifestações políticas em favor do governo ou contra ele, todos nós devemos lembrar que a independência do Brasil foi uma conquista do nosso país e que, portanto, não pode estar condicionada ou sujeita à interpretações momentâneas, seja num sentido ou em outro: ou seja, sob qualquer inspiração político-partidária. Mas o Dia da Pátria, na minha visão, abre oportunidade para uma análise histórica dos acontecimentos marcantes da vida brasileira e de sua característica primordial como nação.

A independência proclamada por Dom Pedro I em 1822, data que se aproxima do bicentenário, foi uma decorrência de uma ação oposicionista contra a Corte de Lisboa, conduzida no lado brasileiro pela figura extraordinária de José Bonifácio de Andrada e Silva. O fim da escravidão em 1888 foi uma outra consequência que assinalou a vitória da oposição ao regime imperial que consagrava o trabalho escravo, tanto assim que o Brasil foi o último país a aboli-lo em todo o mundo. A campanha abolicionista que teve como líder maior Joaquim Nabuco contou com a participação, entre outros, de Ruy Barbosa, de José do Patrocínio e de Lopes Trovão, considerado um dos maiores oradores da campanha.

DERROTA FRAGOROSA – A libertação dos escravos foi uma derrota fragorosa da indignidade do escravagismo e da posição verdadeiramente anticristã dos escravagistas. A República que, como lembrou o historiador Hélio Silva, “não esperou o amanhecer de 15 de novembro de 1889”, foi outra vitória das oposições brasileiras.

Em 1945, o fim da ditadura Vargas foi outra consequência histórica da força oposicionista. Finalmente, mais um exemplo concreto, a campanha pelas Diretas Já e pela vitória de Tancredo Neves levaram ao fim a ditadura político-militar instaurada em abril de 1964. Eleito com esmagador apoio popular, o destino impediu Tancredo Neves de assumir. Mas, sem sombra de dúvida, a democracia se reconsolidou no país com a investidura de José Sarney na Presidência da República. Terminava o longo ciclo militar de poder, abalado irremediavelmente com o episódio do Riocentro em maio de 1981.

Por todos esses acontecimentos, tanto o Palácio do Planalto quanto as oposições devem encarar o 7 de Setembro como uma data de todos os brasileiros e, principalmente, do próprio Brasil. Reportagens de Igor Gielow, Folha de S. Paulo de quinta-feira, e de Gustavo Schmitt, no O Globo, focalizam a existência de tensões e, sobretudo, intenções absurdas de transformar a data máxima brasileira numa expressão partidária. No Brasil existem partidos, é claro, mas o país não é partido de corrente alguma. É de todos os brasileiros e brasileiras.

RECUO DA ECONOMIA – Ivan Martínez-Vargas e Carolina Nalin, no O Globo, destacam o recuo do Produto Interno Bruto na escala de 0,1% no segundo trimestre deste ano. O resultado é apresentado como uma estagnação. Mas é pior. Trata-se de um recuo porque a população brasileira, segundo o próprio IBGE, cresce 0,7% de um ano para o outro, já descontada a mortalidade. O crescimento populacional assim é resultado  de 1,4% de nascimentos e de 0,7% de mortes.

A comparação entre o PIB e o índice demográfico é fundamental, uma vez que a renda per capita de um país é o resultado da divisão de seu Produto Interno Bruto pelo número de habitantes. Dessa forma, acentuo, o crescimento econômico efetivo tem que levar em conta o aumento populacional. O tema é focalizado também por Eduardo Cucolo, Leonardo Vieceli e Eduardo Sodré, Folha de S. Paulo.

O Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o  Credit Suisse fazem projeções para o PIB que a meu ver não tem base na realidade porque, no fundo, se referem a um possível crescimento do produto este ano em relação a uma base muito fraca no exercício anterior, pois, no momento, em retração de compras até nos supermercados, como será possível estimar que o PIB possa avançar entre 4,9 e 5,2 pontos, como destacam ?

CÁLCULO OTIMISTA – Tanto a base é fraca que os três bancos acham, num cálculo otimista, que o Produto Bruto brasileiro crescerá entre 1,5% a 2% no próximo ano, mas o consumo das famílias no indispensável setor de alimentos retraiu-se, o desemprego continua alto e o Banco Central elevou a taxa Selic justamente para obter maior colocação dos títulos do governo no mercado. Caso contrário, não teria o menor sentido o devedor propor ao credor taxas de juros mais altas.

De qualquer forma, o problema persiste porque a inflação em 12 meses está calculada em 7%. Como se vê, 1,8% acima da remuneração dos títulos do Tesouro, a base da Selic. Na verdade, os bancos não são devedores da taxa Selic e sim credores através dela da dívida acumulada pelo Tesouro Nacional.

DESONERAÇÃO DA FOLHA – Se for prorrogada por cinco anos a desoneração das contribuições patronais para com o INSS, matéria de Mariana Holanda e Fábio Puppo, na minha opinião, o governo decretará a insolvência do INSS. Isso porque a contribuição da renda está reduzida de 20% sobre a folha de salários para uma escala entre 1% a 4% do faturamento bruto das empresas. É claro que tal esquema representa um risco para a Previdência Social do país.

Prorrogar a desoneração por cinco anos, desejo acentuar, será estabelecer a insolvência do INSS porque o mercado não está admitindo novos empregados e as aposentadorias vão crescendo, como é natural, em face do atingimento tanto do tempo de contribuição necessário, quanto da idade exigida. Sem novos empregos, a receita previdenciária não cresce, e com o acréscimo das aposentadorias, os encargos não param de aumentar. O governo está assim diante de um dilema que ameaça não só toda a população, como a sobrevivência de um projeto social indispensável para a vida humana.

MORTE MISTERIOSA – Pai da jornalista Lygia Jobim, o embaixador José Jobim, que apareceu morto em 1979 na Urca como se houvesse se enforcado, tornou-se o nome da turma do Instituto Rio Branco que concluiu o curso na quarta-feira. A reportagem é de Eliane Oliveira, O Globo, lembrando que José Jobim foi embaixador do Brasil no Paraguai e embaixador junto ao Vaticano. No final de uma tarde, disse à sua filha que iria visitar um amigo e não retornou mais. Dois dias depois, a família recebeu um telefonema informando que o seu corpo fora encontrado na Urca.

O presidente Jair Bolsonaro participou da formatura que foi das mais rápidas e não teve a presença de jornalistas, segundo o Itamaraty, em função de cuidados exigidos pela Covid -19. A paraninfa da turma foi a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, presidente da Associação dos Diplomatas do Brasil. Antes de desaparecer, o embaixador José Jobim publicou um livro sobre o preço da construção da hidrelétrica de Itaipu. Diplomatas ouvidos pelo O Globo disseram não terem sido informados sobre o evento, talvez em função da escolha de José Jobim como patrono da turma.

Ivanildo Gonçalves, o homem que sabia demais, passa a ser uma grande testemunha

Imagens de Ivanildo comprovariam pagamento em favor de Roberto Dias

Pedro do Coutto

O título repete uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e o episódio do motoboy Ivanildo Gonçalves funciona, mais uma vez, ao longo do processo político, como um imprevisto que muda o rumo das investigações policiais e dos fatos que se acumulam na névoa da história.

Reportagem de Paulo Cappelli, Natália Portinari, Julia Lindner e André de Souza, O Globo desta quarta-feira, confirma em longos detalhes o que a GloboNews e a TV Globo haviam exibido na tarde e na noite de segunda-feira. O motoboy Ivanildo Gonçalves comparece a uma agência bancária, realiza saques em dinheiro vivo, paga boletos em nome do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias.

RISCO – A atuação do motoboy estende-se por vários meses a partir de 12 de julho de 2020.Foi exposto ao risco de sofrer assaltos, tal era a rotina da qual participava na mesma agência bancária e fazendo os mesmos saques relativos às faturas das VTClog que possuía intenso relacionamento, vê-se agora, com Ferreira Dias. A transportadora é suspeita de irregularidades e de articulações vinculadas à comercialização de vacinas contra a Covid-19.

O homem que sabia demais, pelas vezes em que se defrontou com as caixas do banco, sacou um total de R$ 47,4 milhões, depositados em endereços relacionados a Ferreira Dias, e efetuou pagamentos de boletos resultantes de compromissos do ex-diretor. Convocado, como é claro, pela CPI do Senado, o ágil motoboy recorreu ao Supremo para não comparecer ou, se comparecesse, para manter-se em silêncio. Ivanildo não é acusado de nada, definiu o senador Omar Aziz, mas deixou o governo mal no episódio ao se esquivar de apenas confirmar o que as imagens da segurança do banco registraram.

RECURSO ABSURDO – Na minha opinião, pior ainda ficou o ministro Nunes Marques que acolheu o recurso absurdo de uma testemunha que assim se transforma em investigado e se coloca em posição antagônica às imagens captadas. Fácil agora para a CPI identificar em que contas foram lançados os boletos que levaram ao empate entre os saques e os depósitos.

Como se constata, a desordem em todos os sentidos era predominante no Ministério da Saúde. Do jantar em um shopping de Brasília às curvas da moto pilotada por Ivanildo, sombras vão se tornando cada vez mais nítidas à luz do sol. Como negar a evidência dos valores movimentados por Ivanildo, “o homem que sabia demais” de Hitchcock?

PRECATÓRIOS –  O Globo de ontem publicou reportagem de Manoel Ventura e Fernanda Trisotto focalizando um novo posicionamento assumido pelo Ministério da Economia em relação aos pagamentos dos precatórios que se acumularam há várias datas na Justiça Federal.

A proposta orçamentária para 2022 inclui a previsão desses pagamentos, como revelaram o Secretário Especial do Tesouro, Bruno Funchal, o Secretário do Orçamento, Ariosto Culau, e o secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, além de estudos da Secretaria de Gestão. Os técnicos da Fazenda levaram ao ministro Paulo Guedes um documento chamando atenção para a necessidade de emenda constitucional para parcelar os precatórios.

A respeito dos precatórios, revelou-me o ex-deputado Alexandre Farah,  os mesmos resultam de ações ajuizadas em 1989, portanto há 32 anos, e julgadas praticamente três anos depois. Assim, o tempo de espera pelo pagamento em média é de 29 anos. Muitos dos que ajuizaram ações, faleceram ao longo dessas três décadas.

HONORÁRIOS – Mas o caso não termina aí. Há a questão dos honorários dos advogados, em média 20% do total das causas. E existe também uma movimentação que ocorreu de alguns anos para cá por parte de escritórios especializados na compra de precatórios.

Os escritórios propunham em média um deságio de 30% que, somados aos honorários advocatícios dos titulares originários das ações, reduzem o valor dos precatórios à metade. Portanto, quando se fala em precatório, lembra Alexandre Farah, está se falando num tempo de espera colossal para que o governo cumpra sentenças judiciais contra as quais não pode mais recorrer. Esta é a versão efetiva das dívidas que o poder público acumula no país.

DESEMPREGO – Uma reportagem de Carolina Nalin, O Globo, com base no resultado de uma pesquisa por amostragem do IBGE, destaca que a taxa de desemprego no período de janeiro a março teria recuado 0,7%, caindo de 14,8 para 14,1 pontos. Teriam retornado ao mercado formal de trabalho  no período o total de 2,1 milhões de pessoas.

A meu ver, os números não encontram reflexo nos sintomas, porém é fácil conferir: basta ver se as receitas do INSS e do FGTS subiram no mesmo período. Mas a questão ainda não termina aí. É possível que 2,1 milhões de pessoas tenham sido readmitidas. Mas com que salários?

Bolsonaro adia filiação partidária porque o seu projeto está mais nas armas do que nas urnas

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Por incrível que pareça, o presidente Jair Bolsonaro permanece sem filiação partidária e, até o momento, não parece disposto a encontrar uma nova legenda para nela ingressar e assim concorrer às eleições de outubro do próximo ano. Reportagem de Jussara Soares, O Globo desta terça-feira, focaliza a questão e assinala que Bolsonaro foi aconselhado por Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil a somente reingressar no sistema partidário no final do primeiro semestre de 2022.

Para mim, uma situação confusa, pois a menos que tenha havido mudança, os candidatos, todos eles, necessitam ter um ano de inscrição partidária antes das eleições. O prazo assim termina, na minha impressão, em 3 de outubro de 2021, portanto a pouco mais de um mês. Jussara Soares acentua que Ciro Nogueira sugeriu a espera de mais seis meses para que possa ser feita uma avaliação melhor pelo atual presidente da República, uma vez que, pela pesquisa do Datafolha, ele foi considerado ruim e péssimo por 51% do eleitorado. O levantamento é do mês de julho, portanto feito há 60 dias. Em outubro de 2020, o índice negativo era de 31 pontos. Portanto, avançou vinte escalas percentuais. Mas, não é essa questão essencial.

DOIS CAMINHOS –  A questão essencial é que o poder não pode permanecer vago em lugar algum do mundo e os exemplos da história universal estão aí para demonstrar. E, para chegar ao poder, outro exemplo irredutível, o de que só há dois caminhos a se seguir, o das urnas, nas democracias, ou o caminho das armas, nas ditaduras. Ao que parece, a resistência em ingressar em uma legenda por parte de Bolsonaro é para que ele não se comprometa com o voto popular e deseje um desfecho militar.

Tanto é assim que o documento da Fiesp que apenas se baseia no compromisso com a Constituição, com as eleições e com a democracia, criou mal estar junto ao chefe do Executivo. A Fiesp, segundo o seu presidente Paulo Skaf, adiou o documento, conforme dito, até o final desta semana. Porém, os empresários do agronegócio, reportagem de Fernanda Trisotto e Henrique Gomes Batista, O Globo, não adiaram o seu posicionamento e colocaram na imprensa um manifesto contra o risco de retrocessos institucionais ao mesmo tempo em que exalta a democracia e coloca em foco totalmente claro o respeito ao voto e à Constituição do país.

Alguém pode ser contra a Constituição do país, contra o voto ou contra a democracia? É a pergunta que faço. Assim, se alguém reage mal a tais colocações, que têm o apoio de mais de 80% do eleitorado brasileiro, é porque no fundo da questão está tentando trilhar um caminho oposto na certeza de que a estrada do voto não o levará, no caso de Bolsonaro, ao desfecho igual ao que as urnas de 2018 lhe proporcionaram. Não pode haver outra interpretação. Da mesma forma que ninguém pode ser contra a água potável ou a alimentação sadia, não se pode acreditar na sinceridade de quem se irrita quando se fala em Constituição democrática e no direito de voto popular.

RECUO  –  Relativamente ao recuo da Fiesp, de acordo com Ivan Martínez-Vargas, Geralda Doca e Renata Andrade, também no O Globo, o adiamento adotado por Skaf resultou de um pedido feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira, para que o documento só venha a ser veiculado após o dia 7 de setembro, quando haverá no país manifestações de apoio e manifestações  contrárias ao governo federal. Entretanto, Skaf ao dizer que poderá liberar o texto até sábado dá a impressão de não concordar com o adiamento até a comemoração da Independência do país.

Além desse aspecto, Eduardo Sodré e Paula Soprana, Folha de S. Paulo, revelam que o adiamento criou decepção junto à maioria das entidades industriais, dando margem para que a direção da Fiesp possa ser acusada de covardia e de falta de empenho em legitimamente representar a classe empresarial, sobretudo porque mais de duzentos setores da indústria assinaram o documento e grande número dos que ainda não tinham firmado se mostraram dispostos a fazê-lo. Entre os setores industriais que demonstraram temor, surpreendentemente encontra-se a Firjan, uma vez que o Rio de Janeiro é o segundo centro industrial do Brasil.

SALÁRIO MÍNIMO –  O governo Bolsonaro anunciou na tarde de terça-feira que o salário mínimo a partir de janeiro de 2022 passará a ser de R$ 1170, 5% acima do valor atual. Ocorrem dois aspectos. Primeiro que se a inflação de 2021, aliás como se espera, superar os 5%, o salário mínimo estará de fato sendo reduzido, perdendo portanto ainda maior valor de compra.

Em segundo lugar, se o salário mínimo cai sobre 5% e os demais salários sobem zero por centro, fica evidente que o número dos que no Brasil recebem o piso básico vai aumentar ainda mais. Um terceiro ângulo da questão pela lei em vigor, o reajuste percentual do salário mínimo inclui os aposentados e pensionistas do INSS que assim vão ter os seus vencimentos nominalmente aumentados a partir do próximo ano.

Pela lei do país, a atualização dos orçamentos federais será feita também com base no percentual inflacionário achado pelo IBGE. Não sei porque o jornalismo econômico, tanto no O Globo, quanto na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo, não citam os valores absolutos sobre os quais os valores percentuais incidem. A parte tributária é uma coisa, é uma fração orçamentária, mas está longe de ser o valor total do orçamento.

ENDIVIDAMENTONo Jornal Nacional de segunda-feira, a TV Globo informou que em dez famílias brasileiras, sete encontram-se endividadas em maior ou menor escala. A comparação, portanto, representa 70% da população, uma vez que cada família tem uma média de 4,2 pessoas. O endividamento, acentuou a TV Globo, atinge R$ 426 bilhões sobre os quais incide em média juros anuais de 28,8%. Assim, com os salários congelados é absolutamente impossível que a sociedade brasileira possa saldar o montante de seu endividamento.

Só poderá fazê-lo rolar como uma bola de neve. Mas até que ponto esse processo rotativo será possível ? A fome é um dos maiores flagelos da humanidade  e a situação brasileira foge à regra.