CPI delineia equívocos do governo Bolsonaro que levaram à marca de 500 mil mortos

Em Goiânia (GO), manifestante vestido como personagem do filme "Pânico" e com faixa presidencial segura um cartaz referindo-se às 500 mil mortes provocadas pela pandemia de Covid-19 e a má gestão do governo Bolsonaro no combate ao coronavírus no país Foto: Diego Vara / Reuters

Nas manifestações de sábado, a marca sinistra foi lembrada

Leandro Prazeres, Natália Portinari, Julia Lindner e André de Souza
O Globo

Ao longo de quase dois meses de trabalho, a CPI da Covid coletou mais de mil documentos, colheu 21 depoimentos e aprovou 29 quebras de sigilos bancários e telefônicos. A partir da análise desse material, a investigação começa a delinear três caminhos que levaram o Brasil a registrar mais de 500 mil mortos: a aposta em medicamentos sem eficácia, a lentidão na compra de vacinas e a crença na tese da “imunização de rebanho”.

O material colhido pela CPI mostra, por exemplo, o empenho do governo Bolsonaro em transformar um conjunto de medicamentos sem comprovação científica contra a Covid-19 em uma de suas principais políticas públicas de combate à doença.

CLOROQUINA – Levantamento feito pelo GLOBO com base em telegramas diplomáticos enviados à comissão revela que o Itamaraty atuou pelo menos 84 vezes no exterior para garantir o abastecimento de cloroquina.

A maior parte das comunicações foi envidada à Índia. Os telegramas narram, por exemplo, que o presidente Jair Bolsonaro telefonou ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para pedir a liberação de insumos para a fabricação de cloroquina por empresas privadas brasileiras.

Um documento enviado pelo Ministério da Saúde à CPI mostra que o governo distribuiu mais de 6 milhões de comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina entre março de 2020 e abril de 2021 para combater a Covid-19. Somente as terras indígenas receberam 100,5 mil unidades em junho do ano passado.

DIZ A SAÚDE – Procurada, a pasta informou que a cloroquina é enviada regularmente às terras indígenas onde a malária é endêmica, mas não explicou por que mandou o remédio para combater a Covid-19. A cloroquina é indicada para malária, mas ineficaz contra a Covid.

Tudo isso ocorreu em meio aos alertas da comunidade científica nacional e internacional sobre a inadequação da cloroquina no tratamento da Covid-19. Em junho, a Organização Mundial de Saúde (OMS) suspendeu os testes com hidroxicloroquina (um derivado da cloroquina) após constatar que não tinha efeitos significativos e poderia até ser prejudicial, por seus efeitos colaterais. Mesmo assim, o governo enviou o medicamento aos estados até abril deste ano.

Os depoimentos do ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta e do presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, revelaram que o governo quis alterar a bula da cloroquina para incluir uma recomendação de uso do

VACINAS ATRASADAS – A demora na compra das vacinas contra a Covid-19 foi um dos assuntos que mais chamou a atenção no início da CPI. Desde janeiro deste ano, sabia-se que a farmacêutica Pfizer enfrentava dificuldades para negociar com o governo brasileiro.

Os depoimentos do gerente-geral da empresa para a América Latina, Carlos Murillo, e documentos enviados à comissão pela própria empresa comprovam a demora da equipe do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em adquirir o imunizante, que já estava contratado por dezenas de países no mundo inteiro. Segundo o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a Pfizer foi ignorada 81 vezes pelo governo.

A demora na negociação das vacinas tanto da Pfizer quanto da Janssen é apontada por senadores como uma das principais razões para a demora no início da imunização no Brasil e para o ritmo lento da aplicação.

COMPARAÇÕES – Levantamento da Universidade John Hopkins mostra que o Brasil tem apenas 11,39% da sua população totalmente vacinada. O número é muito inferior ao de países como o Reino Unido (45,9) e os EUA (45,23%). Também perde para latino-americanos como Chile (48,76%), República Dominicana (20,97%) e México (12,19%).

Ao mesmo tempo em que o governo apostava na cloroquina e não demonstrava o mesmo empenho na aquisição de vacinas, alguns de seus conselheiros apostavam na chamada “imunidade de rebanho”. A tese era a de que o aumento de infecções resultaria no desenvolvimento de uma “imunidade” natural na população.

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