Dentro de 30 dias, começa a Copa da África do Sul. Em 80 anos, nenhuma surpresa, agora também não haverá. Ganha quem já ganhou, perde quem sempre perdeu. Amanhã, dia 11, Dunga, soberano, anuncia a seleção

Em 1920, Jules Rimet já pensava e trabalhava para realizar a Copa do Mundo de Futebol. Sofria pela fato de só existir competição na Olimpíada. Estávamos então em pleno amadorismo, o profissionalismo só começaria (e chegaria ao Brasil) em 1934.

O presidente da Fifa assistiu as Olimpíadas de 1924 e 1928, ganhas pelo Uruguai. (A famosa “Celeste Olímpica). Conseguindo fazer a primeira Copa em 1930, escolheu o Uruguai por causa disso, e pelo fato do país comemorar 100 anos de Independência. O que era possível no capitalismo daquele época, que permitiu a construção do Estádio Centenário, num país que era chamado de “a Suíça Sul-americana”, porque tinha câmbio estável. Depois, exportou algumas ovelhas e mais tarde aumentou o faturamento com a atração de turistas que iam jogar nos cassinos. (O principal, Punta del Este, “povoado” por milhares de pessoas riquíssimas, que atravessam a fronteira para jogar. Onde mora um ex-presidente da Petrobras, maravilhosamente enriquecido, tido e havido como comunista).

Chatíssimo e sem repercussão. Sem classificação ou eliminatória, 8 países convidados em duas chaves de 4. Os dois primeiros de cada grupo já estavam na semifinal, e logo na final. Apenas 12 dias. Ganhou o Uruguai derrotando a Argentina na final, podia ter sido o Brasil.

1934 e 1938, a mesma coisa, cronologicamente deveriam ser excluídas da história. A Itália venceu as duas, de que adiantou? Não houve em 1942 e 1946, por causa da terrível Segunda Guerra Mundial. Em 1946, já existia a “paz”, mas não local e jogadores.

Os EUA quiseram realizar a Copa, não apareceram concorrentes, o mundo ainda se reorganizava. Por causa disso transferiram o espetáculo (?) para o Brasil, ainda sem classificatórias.

O Brasil, franco favorito, proporcionou a primeira grande sensação, mas apenas nacional. Se fosse hoje, manchetes mundiais, por causa da derrota, não levemos em consideração o progresso da tecnologia. (Jamais se viu ou se verá, 200 mil pessoas, em silêncio, emocionadas e chorando pela derrota que ninguém esperava).

A sede para 1954, na Suíça, ainda consequências da guerra. Sendo sempre “não beligerante”, o país estava intacto, enriquecendo por causa de três fatores. 1 – 5 por cento com a fabricação de relógios. 2 – Mais 5 por cento com o faturamento do chocolate. 3 – 90 por cento com a rentabilidade majestosa das contas numeradas.

Não ganhou nem era possível mesmo. A Copa foi para a Alemanha. Ninguém definiu melhor essa conquista do que o (grande) jogador Beckenbauer: “Precisávamos dessa vitória, o mundo todo nos odiava”. E com razão. A partir daí começou o rodízio dos continentes, e introduziram modificações construtivas.

Os concorrentes passaram a 16, vieram as eliminatórias, as substituições de jogadores, primeiro 2, depois 3. (Em 1962, contra a Tchecoslováquia, Pelé se machucou, o Brasil ficou com 10).

Em 1966, na Inglaterra, duas surpresas. Pela primeira vez, o Brasil era eliminado na chave. E também pela primeira vez (a segunda já demora 44 anos e irá durar uma eternidade) a Inglaterra foi campeã. Assim mesmo com um gol ilegítimo, discutido até hoje.

Esse título mostrou que “jogar em casa” é uma grande vantagem. Em 1974 a Alemanha foi campeã, em casa venceu a Holanda, uma das grandes seleções da história. 4 anos depois, a mesma Holanda foi derrotada por outra “dona da casa”, a Argentina. Inacreditável.

Só que a seleção da Argentina estava reforçada pelo general Videla e o almirante Massera, grandes torturadores, dentro e fora do campo, principalmente fora, e na escuridão de porões assustadores, dos quais ninguém escapava. A final deveria ser Holanda-Brasil, mas a Argentina, que precisava vencer o Peru por 4 gols de diferença, conseguiu 6, vantagem civilizada e muito bem uniformizada e militarizada.

Em 1982 a Espanha não foi campeã, mesmo jogando “em casa”, em 1990 a Itália repetiu o fiasco. Veio 1998, a França, também “em casa”pela primeira vez ganhou o título. Tinha uma boa seleção, o que não era o suficiente. Mas foi ajudada de forma impressionante pela “convulsão” do Ronaldo Fenômeno, e o fato da seleção brasileira não ter comando, nem dentro nem fora do campo.

(Naquele fim de tarde de 12 de julho de 1998, ainda no Stade de France, escrevi: “Ninguém jamais saberá o que aconteceu hoje, aqui”. A “convulsão” se transformou em confusão, Ronaldo exigiu, “quero jogar”. Não jogou (no sentido exato da palavra) mas entrou em campo. 12 anos depois o fato continua sem explicação. Aceitaram a revelação, a Copa já era uma sensação, disputada por 32 países, “uma honra” chegar à Copa, mesmo e apenas na eliminatória).

***

PS – Também não existe o que gostam de chamar de “chave da morte”.  32 concorrentes (não podem aumentar mais) em 8 grupos, passam 16 que se enfrentam no “mata-mata”. 7 que já foram campeões (alguns mais de uma vez), outros 9, não totalmente “zebras”. Como a Espanha de agora, a Holanda de várias vezes, Portugal do nunca ou jamais.

PS2 – Gostaria que a Copa da África do Sul inscrevesse no rol dos campeões, o oitavo país. Que fosse o próprio anfitrião. Mas isso é i-m-p-o-s-s-í-v-e-l.

PS3 – Até mesmo para um país dividido entre negros e brancos, que revelou um dos maiores estadistas da História, depois de 27 anos de prisão. Sendo mais de 20 anos no regime de TRABALHOS FORÇADOS. Nelson Mandela levantando a taça e festejando o título, que maravilha viver.

PS4 – Não gostaria que os mesmos 7 países conquistassem outra Copa. O futebol é a maior lavanderia de dinheiro a céu aberto. É a sensação de 4 em 4 anos. É o maior espetáculo sobre a terra.

PS5 – E a mais importante ascensão social e financeira de jovens que nasceram desprezados, abandonados e sem futuro.

PS6 – Começando em 11 de junho, o mundo só terá como assunto dominando bilhões e bilhões de pessoas, essa Copa. Aqui no Brasil, a partir de amanhã pela manhã, Dunga indicará os jogadores que escolheu para representar o Brasil. Assim que se conhecer os 23 nomes, será o início do debate, da controvérsia, do SIM ou do NÃO, ao que for transformado em realidade.

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