Dilma tem pouca comunicação com as mulheres

Pedro do Coutto

Reportagens de Fernando Canzian e Fernando Rodrigues publicadas na FSP de domingo sobre detalhamentos da pesquisa do Datafolha, divulgada no sábado, destacam aspectos interessantes que formam o resultado hoje das intenções de voto para presidente da República que apontou 38 pontos para José Serra e 28 por cento para Dilma Roussef. São detalhes importantes, talvez essenciais, para o desenrolar da campanha sucessória.

or exemplo: entre os homens, resultado médio de todas as regiões, Serra alcança 38 contra 33 de Dilma. Entre as mulheres, no entanto, a diferença em favor do ex-governador de São Paulo passa a ser muito maior: 38 a 22. No primeiro segmento, como observamos, a distancia é de cinco pontos. No segundo, é de dezesseis degraus. O que pode explicar isso? Aliás, fenômeno raro em política a falta de convergência estatística entre eleitores e eleitoras.

A única hipótese viável para o entendimento de tal raridade numérica só pode residir na falta de comunicação mais efetiva entre a ex-chefe da Casa Civil e as mulheres. Sua linguagem e sua mensagem ainda não conseguiram sensibilizar a opinião pública feminina. Como fazer isso é a questão colocada para os magos do marketing eleitoral. Às vezes não é nada complicado. Basta uma palavra mais simples e, por isso mesmo, mais motivadora. Ela não falou até agora ao coração das mulheres. Talvez por sua postura demasiado tecnocrática. Não atingiu as mães de família, as donas de casa, as mulheres comuns que lutam para sustentar e dar ensino a seus filhos. O caminho me parece ser por aí.

A política – para lembrar o conceito de De Gaulle – é algo extremamente complexo. Porém todas as suas formulações têm que ser claras. Política é uma ação firme e forte em torno de idéias claras e simples, acrescentou quando em 65 foi eleito pelo voto direto, no segundo turno, derrotando Mitterrand.

Analisando-se com frieza e objetividade os resultados setoriais do levantamento do Datafolha, verificamos uma surpresa: Dilma perde para Serra, por 34 a 25, nas classes D/E, as de menor renda e que, segundo a empresa da Folha de São Paulo, pesam 30,8 por cento do eleitorado. Uma contradição, pois é exatamente nestes grupos que o presidente Lula obtém seus melhores índices de aprovação. Isso de um lado. De outro, revela que a pesquisa de intenção de voto, a partir do momento em que Lula se empenhar mais claramente, quando no período de propaganda na televisão, pode apresentar mudança substancial. Pois os segmentos de menor renda mensal (de 804 a 1.115 reais por mês) ainda não fixaram a imagem de Roussef como candidata do presidente. Fenômeno cultural e de fato natural, tipicamente brasileiro.

Na classe C, que engloba 53 por cento dos eleitores (renda mensal de 1.115 a 4.807 reais), Serra leva a melhor por 36 a 28. Nas classes A/B, as de renda mensal melhor, o ex-governador bate a ex-ministra por 37 a 28. É difícil mudança nesta faixa social, com peso de 15,6 por cento do total do eleitorado. São os que recebem acima de 4,8 mil reais por mês. Neste ponto, considero pessoalmente uma inclusão um pouco forçada. Afinal de contas, uma pessoa que ganha mensalmente em torno de 5 mil reais não deve ser considerada de classe média. E as despesas com alimentação, saúde, educação dos filhos, com moradia? Seja como for, é a mais bem situada na escala sócio econômica. A tendência do grupo é votar em Serra. Da mesma forma que a tendência, ainda não registrada de votar em Dilma, terminará predominando nas classes de renda mais baixas. Exatamente por isso é que o quadro atual, apontando vantagem para Serra, não está consolidado. O tempo vai esclarecer.

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