E se depois de tudo ela no emplacar?

Carlos Chagas

A pergunta que se fazia em Braslia ontem, dia seguinte do enterro do PT, era se algum ter coragem de perguntar ao presidente Lula se tanta truculncia valer pena, se no final de tudo Dilma Rousseff no emplacar. Porque desde a inusitada imposio da chefe da Casa Civil como candidata at o lamentvel episdio de quarta-feira, no Senado, o primeiro-companheiro no hesitou em humilhar seu prprio partido. Sem esquecer as presses sobre os diretrios estaduais dos estados onde o PMDB tem os governadores, para que neles o PT no lance candidatos.

O presidente tem uma fixao maior do que fazer um bom governo, recuperar o poder aquisitivo das massas, distribuir o bolsa-famlia e impulsionar uma poltica externa independente.

Mais do que tudo, ele quer eleger Dilma sua sucessora. Para isso, curva-se s imposies do PMDB, faz concesses variadas a diversos partidos da base oficial, adula governadores e comporta-se como um cabo eleitoral daqueles do interior. Acima de tudo, porm, enquadra e desconsidera o PT e seu passado. Importa-lhe menos que Marina Silva e Flvio Arns peam as contas ou que Alosio Mercadante deixe a liderana da bancada pela porta dos fundos do Senado. Ou que o sonho uma vez sonhado pelos companheiros de transformar o Brasil revele-se um pesadelo dos diabos, pelo abandono de programas, metas e ideais antes presididos pela tica poltica.

Tragdia ser se depois de tudo isso, arriscando at parte de sua popularidade, o presidente defrontar-se com o impacto da inviabilidade da candidatura de Dilma ou, pior ainda, sua derrota nas eleies do ano que vem.

O PT posto em frangalhos dificilmente se ir recuperar, tanto em sua trajetria parlamentar quando nos resultados eleitorais em termos do novo Congresso e dos governos estaduais. Sem falar na desmoralizao das instituies parlamentares e no fato de ter contra ele, seno a opinio pblica, ao menos a totalidade da opinio publicada, irradiada e televisada. H quem preveja tempestades, se isso acontecer. Retrocessos, na hiptese da passagem do poder para os defensores do neoliberalismo e da prevalncia absoluta do mercado comprovadamente fracassado no planeta inteiro.

Os trapalhes

Anos atrs os trapalhes eram quatro: Ded, Didi, Muum e Zacarias, os dois ltimos de saudosa memria. Hoje, so muitos mais. Acima de fazer rir, fazem chorar, lamentar e ranger os dentes. Jamais se viu na crnica do Senado comportamento to indigno de boa parte de seus integrantes.

Trapalhes foram Paulo Duque, conduzindo o Conselho de tica como a Me Joana conduzia o seu estabelecimento. Alosio Mercadante, girando mais do que biruta de aeroporto, desagradando o PT inteiro e servindo de chacota para os demais partidos. Wellington Salgado, fazendo as vezes de Sanso s avessas, pois quanto mais crescem seus abominveis cabelos, mais se credencia a demonstrar fraqueza e indigncia. Almeida Lima, um Rolando Lero mais eficiente do que o original, na escolinha de horror do Senado. Ideli Salvatti, a perfeita bruxa da Branca de Neve que em vez de oferecer mas envenenadas, engoliu todas de uma vez. Romero Juc, lder dos dois mundos, pensando em imitar Taillerand mas representando o papel Lus XVI a caminho da guilhotina. E quantos mais, envolvidos na mais execrvel das pantomimas parlamentares, dirigida dos pores do palcio do Planalto?

Indaga-se quando e como o Senado poder pensar em recuperar sua imagem, depois do espetculo desta semana. Parece que nunca, porque no se tratou apenas de salvar Jos Sarney de acusaes que ele poderia ter respondido com segurana e altivez. No caso, os trapalhes transformaram a atividade parlamentar num circo. No qual tocaram fogo.

Requio com Dilma

Ironicamente, o prato principal foi coelho caadora. Falamos do jantar de quarta-feira, que reuniu no palcio na Alvorada o presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff e o governador do Paran, Roberto Requio, que no foi caado ou, muito menos, servido.

A preocupao maior do anfitrio foi saber se o convidado de honra seria ou no candidato presidncia da Repblica, embolando ainda mais o meio campo da sucesso do prximo ano. Sem esquecer as duas tentativas em que se lanou, e foi derrotado pelos lamentveis caciques do PMDB, Requio deixou claro no dispor das menores condies para insistir. Seu partido no um partido, mas uma federao de discordncias onde pontificam o fisiologismo e interesses regionais divergentes.

O governador est pronto para apoiar a candidatura de Dilma, claro que sob certas condies, a primeira delas de que a chefe da Casa Civil no selecione para seu companheiro de chapa um dos camalees do PMDB. Mas entende que o governo Lula, se no o mais eficiente em toda a histria da Repblica, ser ao menos um dos mais competentes. Apia o presidente em gnero, nmero e grau, tornando-se natural, assim, seu acoplamento candidata.

Quanto sucesso no Paran, Requio no admite interferncias aliengenas. Lanou a candidatura de seu vice-governador e aguarda os entendimentos, mas rejeita respaldar os dois irmos Dias, seja lvaro, seja Osmar. H tempo para as composies. Pessoalmente, espera candidatar-se ao Senado.

Contando, ningum acredita

Captulo extra no festival de lambanas encenado pelo Senado em torno das representaes contra Jos Sarney aconteceu quanto o lder do governo, Romero Juc, em plena sesso da Comisso de Constituio e Justia, apresentou requerimento convocando a ministra Dilma Rousseff a comparecer e depor a respeito da reunio que teria ou no tido com a ex-chefe da Receita Federal, Lina Vieira.

Em poucos segundos o presidente da Comisso percebeu a manobra. Juc pretendia apresentar e ver rejeitado o pedido, porque naquela hora a bancada governista era amplamente majoritria. Rejeitada a petio que os oposicionistas pretendiam apresentar mais tarde, mas recusada pelos governistas, no poderia mais ser reapresentada.

Um golpe pueril que o senador Demstenes Torres identificou e, para evit-lo, encerrou a sesso. A gente fica pensando se Romero Juc trata os oposicionistas que l liderou no passado, como se fossem os governistas de hoje.

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