Inadimplncia sobe: onde vai parar?

Pedro do Coutto

Os jornais de quarta-feira, 29, publicaram entrevista do chefe do Departamento Econmico do Banco Central, Altamir Lopes, alis sempre muito claro e objetivo, sobre o crescimento da inadimplncia no pas, ao longo dos ltimos meses. A melhor matria foi a do Jornal do Comrcio, inclusive principal, manchete da edio. Foram separados os atrasos de pagamento por parte de empresas e os atrasos de pessoas fsicas em quitar seus compromissos. Os perodos em confronto focalizaram junho de 2008 e junho deste ano. O critrio para definir o que significa inadimplncia foi o de considerar postergaes superiores a 90 dias. De fato, um ms ou dois de atraso pode ser ocasional. Mas trs meses algo que merece ateno. Assim falou Altamir Lopes.

A inadimplncia empresarial subiu de 4 para 5,7%.

A dos assalariados, pessoas fsicas elevou-se de 7 para 8,6%. Como se verifica, em ambas as situaes, a progresso relativa foi em torno de vinte por cento. Como tudo relativo, o fundamental, digo eu, analisar-se no apenas o panorama, mas a tendncia. Pois se esta se repetir nos prximos meses, a pergunta que se coloca aonde ir ela parar? Qual o seu limite? Principalmente quais os seus intensos reflexos econmicos e sociais? Nada indica que possa ser revertida rapidamente. Difcil isso acontecer. Pois a taxa mdia cobrada pelo crdito s empresas est acentua Altamir Lopes- em 36,7% ao ano. Os juros aplicados s pessoas fsicas, inclusive pelo comrcio, oscilam em torno de 45%. Ao ano. Juros muito altos. Sobretudo levando-se em conta que o IBGE est encontrando uma inflao de praticamente 6% por doze meses. O quadro este. O governo ter que colocar em prtica uma poltica que permita o consumo com a inadimplncia recuando a seu patamar clssico. Que deve ser, a exemplo da taxa de desemprego, na escala aproximada de 5%. Trata-se de um ponto nevrlgico, especialmente porque quanto maior for a inadimplncia percentual, maiores sero seus efeitos em nmeros absolutos. O volume de crdito no pas alcanou, segundo o prprio chefe do Departamento Econmico do BACEN, 1 trilho e 278 bilhes de reais, correspondendo a praticamente 45% do PIB. Inclusive, apesar da evoluo nos atrasos de pagamento, em junho agora a oferta de crdito avanou 1,3%. Sem crdito, claro, no pode haver consumo. E sem ele no existe crescimento da produo industrial e melhoria do nvel de emprego. E para que o crdito possa se expandir, indispensvel que haja salrio para que os compromissos possam ser pagos. Elementar, no? Mas espanta que setores da tecnocracia pensem o contrrio.

E tem mais. No adianta somente o percentual da mo de obra empregada crescer, essencial que a massa de salrios tambm avance. No tem ocorrido isso. Na edio de 27 de julho, na Folha de So Paulo, reportagem de Verena Forneti comparou os salrios mdios no Rio de Janeiro, cidade de So Paulo e Braslia, no primeiro semestre de 2008 e no igual perodo de 2009. No Rio, desceu de 845 para 844 reais. Em So Paulo, de 871 para 862. Em Braslia de 814 para 802 reais. Quase a mesma coisa? Nem tanto. necessrio colocar a inflao de 6% entre um perodo e outro. O recuo torna-se portanto maior. Alguma coisa est errada. No no reino da Dinamarca, mas no Brasil.

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