Indefinição dos vices

Carlos Chagas

Com as pesquisas eleitorais  desenhando em cores firmes  o perfil da disputa pela presidência da República, a hora seria de as atenções se voltarem para a escolha dos candidatos à vice-presidência.  Não que os companheiros de chapa, através dos anos, signifiquem avalanchas de votos capazes de decidir a parada maior. Mas ajudam, em especial para as alianças partidárias. Até agora, porém, só nos deparamos com equações inconclusas.

Quem será, por exemplo, o vice de Dilma Rousseff? A situação, no caso, está de vaca não conhecer bezerro. Antes da última  pesquisa da Datafolha o PMDB impunha preencher a vaga  sem medo de  contestações do palácio do Planalto. A chave para o sucesso da candidata estava no apoio do maior partido nacional. Seu presidente, Michel Temer, pairava absoluto, apesar da má vontade do presidente Lula, que chegou a sugerir uma lista tríplice. Na verdade, queria garfar o deputado paulista, por quem não morre de amores. Mesmo assim, admitia a hipótese. As coisas mudaram quando Dilma encostou em José Serra, nas consultas populares. Assim permanecem as especulações, responsáveis por sutil raciocínio nos acampamentos do PT e do governo: para que fazer concessões aos aliados se temos aberta a avenida da vitória conquistada por nossas próprias forças?

Quer dizer, para eleger-se, a ainda chefe da Casa Civil não precisaria  do PMDB, podendo o primeiro-companheiro impor outro nome peemedebista, como Henrique Meirelles, ou até alguém de fora, como Ciro Gomes.  Assim delineia-se um impasse, para indignação de Michel e seus companheiros, capazes de dar um troco inesperado que seria o abandono da coligação com Dilma e o lançamento de um candidato próprio, senão uma aproximação com José Serra ou a cômoda opção pelo “cada um por si e Deus por todos”, com a liberação dos diretórios estaduais para a adesão a quem quiserem.

No ninho dos tucanos a perplexidade é a mesma. Ganha um prêmio quem acertar quem será o vice de José Serra. A maior parte do PSDB prefere Aécio Neves, mas o governador mineiro continua intransigente: não aceita. Admite-se que mais tarde, quando as chances do governador paulista estiverem umbelicalmente ligadas ao casamento com Aécio, ele possa rever a negativa, sem o quê  a derrota chegaria.

Mesmo assim, começa-se a elaborar um “Plano B”. Quem poderia ser o companheiro de chapa de Serra, caso não seja Aécio? O DEM reivindica o lugar, apresentando a senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura. Ouve-se também o nome do ex-vice-presidente Marco Maciel. Alguns alienígenas chegam a supor Fernando Henrique Cardoso, na insistência de uma chapa pura alternativa. Tasso Jereissati rejeitou, Sérgio Guerra saltou de banda. Em suma, a mesma confusão verificada no PT.

Marina Silva ainda tenta conquistar o PSOL, numa aliança pouco provável. Mas mesmo nessa alternativa, não seria Heloísa Helena, a chefe do partido. Talvez Plínio de Arruda Sampaio, que hoje disputa a indicação presidencial. Os verdes andam em crise, importa primeiro fixar a ex-ministra do Meio Ambiente para depois pensar no  vice. Quanto a Ciro Gomes, que ninguém sabe se terá condições partidárias para ser lançado à presidência, dadas as limitações do PSB, melhor deixar o problema para mais tarde.

A conclusão é uma só: a antecipação do processo sucessório presidencial gerou seus contrários, ou seja, a indefinição dos vices. Aliás, mais  ou menos  como vinha acontecendo em sucessões passadas.

No reino da fantasia

Parece brincadeira essa  crise gerada pelas novas regras de  royalties do petróleo aprovadas pela Câmara dos Deputados.  O Rio de Janeiro anda em pé-de-guerra com  Brasília, por ter sido garfado em perto de sete bilhões de reais, se o projeto virar lei. O problema é que as mudanças se fazem em função do faturamento do pré-sal, previsto para dar lucro apenas dentro de vinte anos.

Mesmo assim, dado o estrilo do governador Sérgio Cabral, que não admite perder receita, nem agora nem no futuro, a saída será mudar o projeto quando for para o Senado. Os bilhões cortados do Rio, como também do Espírito Santo e de São Paulo,  seriam restabelecidos desde que tirados do lucro da União. Se ainda não protestou,  o governo federal logo protestará.

O cômico nessa história trágica é que se está modificando um regime assentado na exploração dos poços de petróleo em plena produção por conta de uma  riqueza incrustada nas profundezas do oceano. Não se fala, por exemplo, em quanto a Petrobrás e penduricalhos irão gastar para tornar viável a  extração. Nem de onde virá o  dinheiro, apesar das ofertas da China e dos Estados Unidos.

Numa palavra, brinca-se com o futuro em sacrifício do presente.

Se arrependimento matasse

Pudesse o presidente Lula entrar na máquina do tempo,  voltando  atrás,  e estaria esta semana tranqüilamente inaugurando obras do PAC, com Dilma Rousseff a tiracolo, jamais comendo poeira no Oriente Médio. Porque desastrosa está sendo sua viagem a Israel e Palestina, com direito a passagem ela  Jordânia. O Brasil vem desagradando a todos nesse sonho impossível de contribuir para a paz na região. Um passo muito maior do que a perna, sugerido sabe-se lá se   pela megalomania de Marco Aurélio Barbosa ou  pela tolerância de Celso Amorim. Aquilo que nem Jeová nem Alá resolvem, não será “o cara” que irá resolver.  E ainda sob o risco de levar uma pedrada que a ele não se destinava, ou de aspirar lufadas de gás lacrimogêneo com outro endereço…

Dia seguinte pior do que a véspera

No Distrito Federal, o dia seguinte parece ficar  sempre um pouquinho  pior do que a véspera. Com o governador na cadeia, prestes a ter seu impeachment decretado, continua pairando a sombra da intervenção federal. Tem mais: as eleições de outubro poderiam servir para a recomposição da ética na política brasiliense, mas, pelo jeito, levarão a capital do país ao  fundo do poço.

Enquanto as forças de oposição não se entendem, crescem as chances da eleição de Joaquim Roriz, que pela quinta vez assumiria o governo local. Com todo o respeito, não terá sido ele o fio indutor da lambança recentemente descoberta?

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