Juros e dvida interna: cuidado com os nmeros

Pedro do Coutto

preciso ter muito cuidado com os nmeros quando se escreve sobre eles, no s porque tudo relativo, mas tambm porque eles tm uma personalidade nem sempre muito aparente. necessrio, portanto, personaliz-los e analis-los comparativamente. Na edio de 24/07, a Folha de So Paulo publicou uma excelente reportagem da Sucursal de Braslia revelando que, no ms de junho, atravs do Banco Central, o governo Lula colocou mais 26 bilhes de reais em ttulos no mercado que atravs dos bancos, lastreia a dvida interna do pas. Este endividamento, assim, subiu ao patamar de 1 trilho e 400 bilhes, em nmeros redondos, dos quais 1 trilho e 200 bilhes de reais no setor mobilirio sobre o qual repousam os fundos de investimento. Ao mesmo tempo, o Comit de Poltica Monetria decidiu reduzir de 9,25 % para 8,75 a taxa Selic que remunera exatamente esses papeis. A queda dos juros seria, por si s, um fator positivo? primeira vista sim. Mas, numa segunda observao relativa, nem tanto.

O recuo de 0,5 sobre 1 trilho e 200 bilhes (dvida mobiliria) produz um desembolso a menos de 6 bilhes de reais ao ano. Mas 6 bilhes comparativamente perdem para o acrscimo de 26 bilhes no estoque da dvida. Tudo relativo, como definiu eternamente Einstein. No podemos nos deixar levar pela primeira impresso, pelo primeiro impacto, pelo impulso de ver acontecer aquilo que desejamos que ocorra. Verifica-se, no cotejo dos percentuais, que o endividamento, em vez de diminuir, na realidade aumentou. Tem aumentado sempre. O atual governo recebeu a dvida interna na escala de 700 bilhes. Ela cresceu praticamente cem por cento em seis anos. Em compensao, os juros pagos, que eram de 26% ao ano, legado de FHC, passaram a ser de 8,75%. O panorama real este. Vamos retirar dos nmeros o manto difano da fantasia, para citar frase famosa de Ea de Queiroz.

Outra questo que precisa ser revitalizada a do desemprego. A mesma edio da FSP publica matria do reprter Pedro Soares com base em dados do IBGE. Sustenta que o desemprego nas seis principais regies metropolitanas do pas, em junho, passou a ser de 8,1%, enquanto e, maio era de 8,8. O ndice de 8,1 considerado ema recuperao, pois passou a ser o mesmo de h um ano. Avano? Nada disso. Pois indispensvel levar em conta que ao longo dos ltimos doze meses a populao brasileira aumentou 1,2%. O mercado de trabalho, desta forma, no poderia deixar de evoluir pelo menos no mesmo percentual. O que aconteceu ento, com base no mesmo IBGE? A situao, em vez de melhorar, piorou. Porque se a taxa demogrfica de 1,2%, a mesma percentagem teria que incidir sobre a mo de obra ativa brasileira, que representa 50 por cento do total de habitantes. Usando-se a mesma estatstica e projetando-a, no s nas principais regies metropolitanas, como o ABCD paulista e o Grande Rio, mas sobre todo o pas, chegamos concluso que existem no Brasil mais de sete milhes de desempregados. Pelo menos.

E, tanto assim, que ainda na edio de 24 de julho, a Folha de So Paulo informa, agora com base em estatsticas do Ministrio do Trabalho, que as despesas com o pagamento do seguro desemprego, no primeiro semestre deste ano, cresceram 41% em relao ao mesmo perodo de 2008. O desembolso atingiu 9,9 bilhes de reais. Como se comprova, no est fcil conseguir emprego. Pelo contrrio. Tanto assim que o jornal destaca que, em 2009, 164 mil pessoas desistiram diante dos obstculos que encontraram. Um desastre tudo isso. O desemprego normal deveria situar-se na escala de 5%. Estamos portanto com um dficit muito grande. Seus reflexos gerais so pssimos. Para todos.

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