Lula acha que sozinho elege Dilma

Pedro do Coutto

O presidente Lula – como os últimos acontecimentos políticos indicam – está investido da certeza de que, sozinho na arena, consegue derrotar as correntes de oposição reunidas e eleger Dilma Roussef para sucedê-lo no Palácio do Planalto. É a única maneira de se encontrar uma explicação para o isolamento de Ciro Gomes no PSB, legenda aliada do governo, que evidentemente seguindo orientação do próprio Lula, bloqueou a candidatura de Ciro à presidência.

Assim agindo, Luis Inácio considerou desnecessário o apoio do ex governador do Ceará a Dilma Roussef no segundo turno. Ciro vinha obtendo de 9 a 10% das intenções de voto e, naturalmente apoiaria a ex-chefe da Casa Civil. Lula terá razão ou cometeu um erro político de previsão? Terá minimizado a importância de Ciro no quadro da sucessão ou ele, de fato, não é importante? As urnas vão responder à questão, já a partir do primeiro turno, pois, em represália, o candidato que foi sem nunca ter sido, reagiu afirmando que Serra está mais preparado que Dilma. Manchete principal de O Globo e O Estado de São Paulo, sábado passado.

Está evidente a mágoa que envolveu Ciro Gomes, que sabe que sua preterição, pelo próprio PSB, seguiu orientação do presidente da República. Reagiu em cima do lance pois como no belo título de Hélio Silva, a história não espera o amanhecer. Antes da alvorada de sábado, Ciro já destacava José Serra e abalava os alicerces de Dilma. Lula, agora, tem pela frente dois adversários: Serra e Ciro. Aliás três, ia esquecendo de Marina Silva. Dilma ficou contra todos.

O panorama inicialmente desenhado transformou-se de repente. E eu cada vez  me convenço mais da certeza contido na afirmação de Magalhães Pinto: política é como a nuvem. Muda de forma e direção a qualquer instante. Quem de fato poderia prever que, de potencial correligionário, Ciro Gomes passaria a adversário do plano do Planalto? Isso porque, claramente, primeiro Lula convenceu Ciro a alterar seu endereço eleitoral para São Paulo. Abriu-lhe alguma perspectiva de disputar, com o apoio do PT, o governo paulista. A reação do partido se fez sentir fortemente e Lula retirou sua equipe de campo. Indicou Aloísio Mercadante. O governo de são Paulo é um degrau para a presidência da República. Ciro acreditou. Depois pensou no Senado. Aí surgiu com ampla base de votos a candidatura de Marta Suplicy. Ciro Gomes, então, cogitou finalmente em se candidatar a presidente, o que asseguraria o segundo turno e, no segundo turno, aí sem, caminharia ao lado de Dilma Roussef. De repente como no reino mágico de Oz, o sonho se desfez.

Desfez não. Foi desfeito pelo comando direto do próprio Lula. Ciro ficou sem estrada alguma, restando-lhe apenas, se desejar, concorrer a deputado federal novamente, desta vez por São Paulo. São acontecimentos como este que traduzem a impossibilidade de se fazer previsões no universo político. A frase de Magalhães Pinto ressurge sempre e alterações de rumo ocorrem de maneira pouco previsível. Ou imprevisível. Quem poderia prever o suicídio de Vargas? A renúncia de Janio? A deposição de João Goulart? A cassação de Lacerda pelo próprio movimento do qual, no início de 64, foi o principal líder?

Política é assim mesmo. Não levo a sério os que se apresentam como cientistas políticos, donos da verdade. A ciência, para início de conversa, não é como uma nuvem.

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