Lula quer melhor diálogo com a mídia

Pedro do Coutto

Reportagem de Valdo Cruz, publicada na Folha de São Paulo de 16 de março, revela que o presidente Lula deseja nomear um ministro capaz de abrir um canal (positivo) de diálogo com a mídia. Seria o substituto de Helio Costa nas Comunicações, que vai se afastar a 3 de abril para disputar o governo de Minas Gerais.

A preocupação causa surpresa, sem dúvida, já que Franklin Martins, filho do senador Mario Martins, vem desempenhando bem as funções e seus atos parecem bastante positivos em favor do presidente da República e do governo. Não se compreende, portanto a dúvida quanto à procura de um nome que está em pelo menos nove de uma lista de dez indicações.

Unanimidade não existe e como esta está fora de cogitações não se encontra solução melhor e mais adequada. Inclusive Helio Costa, cuja origem como repórter da Rede Globo é a mesma de Franklin Martins, é no fundo muito mais um ministro voltado para situações empresariais do que Franklin. A dúvida neste ponto aumenta. Será que Lula deseja o impossível? A unanimidade? Esta não existe, tampouco convém que exista porque simplesmente tiraria o governante fora da realidade. Como aqueles que passaram longo tempo no poder.

Fidel Castro está há mais de 50 anos mandando em Cuba. Stalin governou a URSS por 29 anos. Assumiu em 24 com a morte de Lenine, resistiu a maior invasão da história, faleceu de morte natural. Getúlio Vargas ficou 15 anos no Palácio. Voltou consagrado pelas urnas, teve um trágico desfecho em 54, no Palácio do Catete. Agora se existe um governante que é absolutamente produto da imprensa e levado ao poder por ela é exatamente Lula. Não compreendo portanto razões de tantas queixas. A unanimidade não lhe convém, como não convém a ninguém.

Nada pior do que ela. Sobretudo para todos os que exercem a menor parcela de poder que seja. O cidadão, sem o sentir, inicia um processo de deificação. E como isso é impossível, conduz o governante à maiores exigências e às vulnerabilidades dos falsos amigos que são eternos, como eternos são os seres humanos. Usam o endeusamento para obter cada vez mais vantagens pessoais, em detrimento dos interesses coletivos. Vejam o mensalão. Vejam os aloprados. Duas classificações dadas pelo próprio presidente da República. Agora o caso do Bancoop, através do qual “amigos” chegaram a vender ao próprio presidente um imóvel ainda não existente. Logo um triplex de frente para a praia, cujo pagamento talvez tenha sido facilitado por outro “amigo”.

Getulio Vargas, pouco antes de suicidar-se, teve talvez a maior decepção de sua vida. E tinha 72 anos de idade. Há uma testemunha viva deste fato, o embaixador Edmundo Barbosa da Silva, então oficial de gabinete do Palácio do Catete. Ele o contou a um amigo comum.

Certo dia, homem de honestidade pessoal absoluta. Vargas mandou que seu filho, Manoel, vendesse uma de suas fazendas no Reio Grande do Sul. Mas chegou a seus ouvidos que o comprador da fazenda tinha sido exatamente o chefe de sua guarda pessoa, Gregório Fortunato, condenado pelo atentado à vida do jornalista Carlos Lacerda.

Vargas deu-se conta então, tardiamente, da influência exercida pelo chefe da guarda pessoal. Dissolveu-se naquele momento. E a partir de então caminhou para o suicídio, cujo caminho viria depois por pressão militar para depô-lo. Hábil com políticos, Vargas perdera, talvez no episódio sua linha de resistência. É mais uma história de um serviçal que se torna amigo exatamente para proveito próprio. Vargas não ouviu a imprensa. Creio que este foi seu erro.

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