“Mande notícias do mundo de lá”, pediam Fernando Brant e Milton Nascimento, com saudades da vida no interior

Letras de Brant encontraram na voz de Milton Nascimento o casamento perfeito - Gerais - Estado de Minas

Milton saiu de Três Pontas e conheceu Brant em Belo Horizonte

Paulo Peres

Poemas & Canções
O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de “Encontro e Despedidas”, retrata o que sempre representou uma estação de trem, diariamente, na vida de uma cidadezinha do interior. A música deu título ao LP gravado por Milton Nascimento, em 1985, pela Barclay/PolyGram.


ENCONTROS E DESPEDIDAS

(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar, é a vida

 

One thought on ““Mande notícias do mundo de lá”, pediam Fernando Brant e Milton Nascimento, com saudades da vida no interior

  1. Aproveitando o Cenário Rural descrito na letra musical, apresento-lhes esta atividade que se passa no mesmo âmbito!

    “PESCA DE ÁGUA FORA”

    No mundo cristão, o pescador é uma instituição sagrada. Até o “santo papa” usa o anel do pescador. Embora seja tão embusteiro quanto o caçador, quem pesca serve de simbologia para o pastor, o arrebanhador de almas etc. Ao passo que, o caçador, representa o passarinheiro, o traiçoeiro. Este milenar estigma contra o caçador deve ser porque ele abate animais bem mais assemelhados aos humanos. Fica subentendida como uma solidariedade do homem para com os seus coabitantes da crosta terrestre, em menosprezo à população subaquática – os peixes – a caça dos pescadores. Aliás, esse fixante da fé foi uma extensão perfeita que a Igreja Católica engedrou para peixe, em grego, ICTUS: Iesous Christos Theos Uios Soteros (Jesus Cristo Filho de Deus Redentor).
    A Heliêutica (arte de pescar) de um povo revela sobremodo os seus substratos telúrico-culturais. A nosso Região da Baixada já foi uma síntese da Amazônia Legal: na flora, fauna, climatologia e noutros aspectos. Na presente crônica, ocupamo-nos da pescaria d’água fora ou pesca de voga. Esta segunda denominação se dá por conta de um apetrecho retirado da bacabeira, em forma de caçamba; ele serve para baldear a água dos poções. Um outro instrumento também utilizado neste tipo de pesca é a gamela de inajá.
    A pescaria de água fora é o inverso das demais conhecidas. Ela consiste em se retirar a água do peixe, enquanto que nas outras modalidades, o peixe é retirado da água. Tudo começa por uma tapagem robusta feita rio acima, em geral, sob regime de mutirão. Nessa tapagem principal, sempre fica alguém de vigília para consertar quaisquer rupturas que venham a ocorrer e/ou simplesmente para dar alarme aos pescadores, quando a mesma se romper. O grito de alerta é entoado de duas formas: “Lá vai água, cabôco!” Ou de modo mais breve: “Lá vai água ô!” Mas, graças à ação gravitacional, quase sempre, a tapagem grande segura firme; o tempo sufuciente para cada grupo de pescadores secar o seu poção. Isso acontece porque à medida que o volume d’água vai-se acumulando na barragem principal, naquele ponto, o líquido se espraia, tendendo a se nivelar com o líquido do rio acima. Com efeito, a correnteza torna-se menos intensa, e, por conseguinte, a pressão contra a parede da barragem também.
    A seleção do poção ou perau piscoso é a primeira sondagem a ser feita: toma-se um chapim de cupim e fragmenta-se sobre a água, onde houver o maior esvoaçar de peixes, ali está o poção peixeiro. A essas alturas, a ausência de corrente fluvial faz o igarapé “atalhar”, ou seja, fica seccionado por uma série de poças intercaladas entre tapagens menores. Em seguida, a peonzada inicia o processo de baldeação: uma mão pega no cabo da voga e a outra no pau-de-apoio (um pedaço de madeira transversal, ligando as duas bordas da voga, cujo formato lembra uma calha). Daí, é só enchê-la de água, a qual deve ser jorrada por cima da tapagem rio abaixo. À proporção que o poção vai secando, aumenta o desespero dos peixinhos, ao ficarem de cara com o seu predador e sem meio (água) para poder driblá-lo. O jeju merece uma atenção toda especial, pois ele tem fama de pulador e furador de tapagem, “principalmente quando avista uma piranha do lado oposto”.
    Escoado o poção, é chegada a hora da cata. Os peixes mais comuns na pescaria de voga são: piaba, jandiá, mandi, sarapó (enguia) e até jacaré ou jacarerana (répteis). Os peixes de casco: cascudo, niquim, rabeca e caraguejo (crustáceo) costumam-se esconder nas solapas ou ocas, que nada mais são que cavidades escavadas sob as raízes da vegetação ciliar. Para pegá-los, o camarada tem de fechar os olhos e meter o braço no buraco. Supersticiosos, muitos pescadores, ao pegarem o primeiro peixe, cospem-lhe a cabeça, antes de enfiá-lo no cofo.
    A pescaria de água fora é a mais rudimentar das artesanais: seu mister demanda muito esforço físico e paciência. Por isso mesmo, alguns pescadores levam-na à base de toadas regadas à pinga. Na tentativa de atenuar o labor, aos 11 anos de idade, eu engendrei um dreno simples. Tomei um cano longo com diâmetro de 20cm e pus um puçá em uma de suas extremidades. Depois fiz uma sangria com o cano, introduzindo-o na base da tapagem que dava para o escoadouro. Sendo que a ponta dotada de puçá ficava para fora. Resultado: cerca de 60% do líquido contido no poção eram escoados por gravidade (banguela), e os peixes que tentavam escapar, acabavam aprisionados no tubo. – E os caboclos?! Aqueles, ao invés de me agradecerem e adotarem o novo sistema, não! Preferiram me tachar de louco, sob insanas gargalhadas, o que, aliás, é uma conduta própria dos matutos quando estão malocados em suas récuas.
    Bem, agora que você já aprendeu a pescar de voga, e já está de cofo cheio (lavou a burra). Pegue um arroz novo, torrado, pise-o no pilão e cozinhe-o com alguns nacos de toucinho de porco, em caldeirão de ferro a fogo de lenha. Sem esquecer o pirão de farinha d’água, convide une chef de la cuisine française, e depois verifique se ele ainda vai querer voltar à França, onde a maioria dos homens só “pesca de cofo”. Pescar de fofo: sinônimo de boiolagem, na gíria local.

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