Marina troca Senado pelo projeto de derrotar Dilma

Pedro do Coutto

Ao se desligar do PT, partido que ajudou a fundar nas horas difceis da oposio ao regime militar, e no0 qual se encontrava h trinta anos, Marina Silva, movida por forte impulso interior, decidiu buscar, como disse, um novo caminho poltico. Certamente depois de superar a dvida hamletiana, prepara-se para ingressar no caminho verde sob inspirao da ecologia. Sua deciso no deve ter sido fcil. Afinal de contas, ela abriu mo de renovar seu mandato no Senado pelo Acre nas urnas de 2010 para desenvolver o projeto, que no momento parece ntido, o de criar condies para derrotar Dilma Roussef, candidata do presidente Lula sucesso.

O gesto no encontra outra explicao ou poder- candidatar-se reeleio pelo PV, mas isso no teria a repercusso que pretende obter e, alis, est alcanando na imprensa. Ela acentua uma dissidncia no Partido dos Trabalhadores, j aberta com o desligamento do senador Flavio Arns. E tambm, de certa forma, com o esvaziamento de Alosio Mercadante na liderana do partido no Senado. Mercadante defendeu abertamente o afastamento de Jos Sarney da presidncia da Casa, mas foi completamente ultrapassado e desautorizado pela nota do presidente da agremiao, Ricardo Berzoini, lida, no por ele, Mercadante, mas pelo senador Joo Pedro.

Marina Silva considerou ter contas a ajustar com o PT e com o governo. Provavelmente tambm com a chefe da Casa Civil. Escolheu o momento certo em meio tempestade, que tanto envolveu o Legislativo pela bruma da impunidade, quanto a candidata pelo desencontro entre sua verso e a da ex secretria da Receita, Lina Vieira. Sintetizando, na verdade, Marina Silva trocou o Senado pela perspectiva de contribuir na campanha de 2010 para derrotar aquela que considera sua principal adversria.

Mais um fato raro na poltica brasileira, um imprevisto a mais, uma pedra a mais no caminho. Aquela pedra, sobre a qual escrevi h poucos dias, e que Drumond eternizou na poesia. Eu disse mais um fato raro. Pois . No existem muitos. Mas, sem dvida, entre os poucos, o de Marina Silva acrescenta-se ao de Roberto Jeferson que em 2005, para acuar Jos Dirceu e conseguir retir-lo da Casa Civil, acusou-se a si mesmo no episdio que, ele prprio afirmou.

Envolveu recebimento, sem destinao explcita, de um apoio de 4 milhes de reais para candidatos do PTB s eleies municipais. O dinheiro evaporou-se entre as nuvens. Os mandatos do acusador inslito e do acusado perderam-se no espao do confronto marcado por rastros e razes de dio que se tornaram aparentes. Um duelo poltico que conduziu ao desvendamento de mais uma tragdia brasileira, j que o mensalo pode ser classificado assim.

Agora, um novo duelo se coloca: Marina Silva prefere perder o Senado se assim contribuir para evitar que Dilma chegue presidncia da Repblica. O vulto de Skakespeare ressurge no palco da realidade brasileira.

Um outro assunto. Em matria publicada no Globo de 20 deste ms, o reprter Tlio Brando revela que a Agncia Nacional de Transportes Terrestre decidiu que o trem bala Rio-So Paulo-Campinas, de alta velocidade, ter que percorrer linhas subterrneas ao cruzar os subrbios cariocas. O trajeto pela superfcie no se revela seguro.

A obra, com isso, vai encarecer enormemente. Mas no este o aspecto principal da notcia. Que, alis, merecia maior destaque. O aspecto principal a prova da situao da cidade. Conflagrada com choques entre a Polcia e o crime, permanentemente insegura tanto de dia quanto de noite. Incrvel.

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