Nessa era de ignorância e boicote às vacinas, é preciso lembrar Martin Luther King

De todas as formas de desigualdade, a... Martin Luther King - PensadorTarcísio Corrêa Monte
Interesse Público

O hábito de ler jornais de manhã cedo já vem de um tempo. Na faculdade, antes da aula, era o Valor Econômico, principalmente o caderno de Internacional. De uns tempos para cá, tenho lido mais a imprensa europeia. Talvez fosse melhor sair para correr na praia ou no parque nesse horário. Melhor para evitar ver como nosso mundo tem se tornado surreal.

Abro o site da Euronews da França: “La police italienne cible les antivax”. A matéria basicamente diz que “na Itália, a polícia invadiu as residências de 17 extremistas antivacinas. Eles são suspeitos de terem incitado as pessoas a cometer delitos contra personalidades de instituições públicas italianas, como o primeiro-ministro Mario Draghi.

BASTA DITADURA – A operação está ligada a um inquérito sobre ameaças feitas no grupo “Basta Dittatura” do app Telegram. Um chat que já foi encerrado devido ao seu conteúdo ilegal. Várias manifestações recentes contra o “Green Pass” (Cartão de Vacinação) tornaram-se violentas e causaram grande perturbação em muitas cidades italianas”.

Fecho o site então e procuro algo no La Repubblica para confirmar: “I No Vax commentano in diretta le perquisizioni: “Andiamo e lanciamo bombe”.

“Somos famosos”, escreviam no bate-papo, enviando um ao outro por mensagem a notícia da blitz policial de Torino. O canal voltou a chamar-se “Basta Dittatura”, mas é novo, depois que o Telegram, por ordem do Ministério Público, ordenou o fechamento daquele em que havia indícios de protestos de rua e ameaças a pessoas públicas.

JOGAR BOMBAS – “Vamos acabar com toda a merda criminosa do Ministério Público de Torino, do antiterrorismo de Milão. “Devíamos todos ir debaixo do prédio para jogar bombas para que acabem com essa ditadura”.

A referência a símbolos tipicamente de extrema direita é clara, porém das buscas dos 18 suspeitos organizadas naquela semana em 16 cidades italianas, nenhuma ligação explícita a Forza Nuova ou a siglas neofascistas subversivas surgiu.

Vem-me à memória então o incrível livro “A dádiva do amor”, de Martin Luther King Jr, especificamente uma frase que me marcou: “não podemos sobreviver separados espiritualmente em um mundo geograficamente unido”.

O QUE ELE PENSARIA? – Pego então o livro e reabro nos meus dois textos prediletos dele: “Amor em ação” e “Amar seus inimigos”. Reflito sobre o que pensaria sobre todo esse momento que vivemos no mundo o maior ativista político da História dos EUA, que se tornou o ícone mais importante e herói do movimento dos Direitos Civis na década de 1950, até seu assassinato no fim dos anos 1960.

Os antivacinas, é de se reconhecer, alguns podem ser pessoas bem-intencionadas, alegam seu Direito Fundamental de Liberdade de não se vacinar. Outros afirmam que a vacina não funciona.

O segundo argumento parece não se sustentar. O pesquisador na Universidade de Yale, Atila Iamarino, em artigo recente nesse jornal ‘Não faltam vacinas, faltam vacinados’ já liquidou essa tese:

DIZ A CIÊNCIA – “Segundo o Office for National Statistics do Reino Unido, entre janeiro e setembro de 2021, não vacinados tiveram um risco 32 vezes maior de morrer por Covid do que os completamente imunizados. E segundo o Centro de Controle de Doenças dos EUA, quem pegou o novo coronavírus e se curou, mas não se vacinou, teve mais de cinco vezes mais chances de ter Covid novamente do que quem nunca pegou o vírus mas tomou as duas doses das vacinas. Ou seja, até curados não estão tão protegidos quanto quem se vacinou e têm mais chances de ter e passar Covid”, diz o cientista de Yale.

Então resta o argumento da Liberdade. Mas será que esta é absoluta? Como bem mostra Michael Sandel em “Justiça”, Kant já dizia que esta tem limites. Não pode ser levada ao ponto de prejudicar os outros. Não posso ter a liberdade de guardar Plutônio-239 ou Urânio-233 e Urânio-235 em casa. O coletivo, pois, às vezes deve prevalecer em prol da proteção da própria sociedade.

E OS MÉDICOS? – Poderia então um médico não se vacinar e continuar trabalhando em uma UTI? Poderia então uma pessoa não se vacinar e continuar mantendo contato em locais públicos com pessoas idosas ou vulneráveis por terem alguma comorbidade? Mas e a tal Liberdade?

Na realidade, essa liberdade simplesmente não existe. Na época da escravidão, um senhor de engenho tinha o Direito de Propriedade sobre seus escravizados. Poderia adrede jogar um cativo no forno se isso lhe aprouvesse. Tinha liberdade para isso. Esse é o nível de absurdo a que se pode chegar se procedermos a uma manipulação do discurso dos Direitos Civis às últimas consequências, invertendo sua verdadeira lógica. A ponto de quererem soltar bombas nas instituições na Itália!

Voltemos então ao gênio Luther King Jr para ver que todo esse ódio e ignorância não levam a nada.

DIZIA LUTHER KING – É preciso ao contrário agir tendo em mente o que o mestre Luther King ensinou: altruísmo, empatia, não conformidade. Ter uma “mente rigorosa e um coração sensível”. Vejamos alguns trechos dos sermões que mencionei acima:

“Quantas vezes nossas vidas são caracterizadas por uma alta pressão sanguínea de credos e uma anemia de atitudes”.

“Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa”.

“Diferentemente da cegueira física, que em geral é imposta aos indivíduos como resultado de forças naturais além de seu controle, a cegueira intelectual e moral é um dilema que o homem inflige a si próprio por seu trágico mau uso da liberdade e por seu fracasso em utilizar o máximo da sua capacidade mental”.

AMOR AO PRÓXIMO – O que diria Luther King sobre o mundo atual? Difícil dizer. Provavelmente continuaria pregando o amor ao próximo, o altruísmo mesmo que perigoso e excessivo. Estaria consoante com o Liev Tolstói na esperança para perceber em Guerra e Paz que “quando a gente fala do sol, logo vê os seus raios”.

Ignorância e ódio nunca resolveram nada. Pois “Retribuir ódio com ódio só multiplica o ódio, acrescentando uma escuridão mais profunda a uma noite já desprovida de estrelas”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Sensacional artigo, publicado no excelente blog Interesse Público, do jornalista Frederico Vasconcelos. O autor, Tarcísio Corrêa Monte, é juiz federal. E isso nos dá muitas esperanças de que – como diz o ditado alemão – ainda haja juízes em Berlim, digo, em Brasília. (C.N.)

4 thoughts on “Nessa era de ignorância e boicote às vacinas, é preciso lembrar Martin Luther King

  1. Na medida em que um ser humano decide viver em sociedade muitas das suas liberdades individuais deixam de existir. Este é o ponto.
    A gente nem percebe, mas o tempo vai nos enquadrando.
    Só um exemplo: na era medieval não existia via de mão única e nem mão ou contramão.
    Em qual lugar do mundo atual um cidadão tem a liberdade de dirigir na direção que lhe der na telha?
    Não tem jeito. A vida em sociedade nos tirou algumas liberdades.

  2. Incrível como as coisas são em Pindorama, um juiz como este não é indicado para a suprema corte porque, por ventura não é pastor evangélico. E um que serviu todo tipo de governo e todo tipo de ideologia é, mas ele é em primeiro lugar “terrivelmente evangélico”. Até o último desgoverno pestista o handicap era ser pestista, agora é ser evangélico é a prerrogativa, se não for, tá ferrado.

  3. Também importante lembrar que vacina não tem partido.
    Essa coisa de ficarem se referindo às vacinas pelo laboratório, universidade ou país, este último de conotação claramente inferior é coisa de preconceituosos e conservadores da direita.

    Aliás, por falar de esquerda e direita, a ONU reconheceu o governo de Maduro como único e legítimo na Venezuela.

    https://br.sputniknews.com/amp/20211206/onu-reconhece-governo-maduro-como-legitimo-representante-da-venezuela-20546973.html

  4. Parabéns, Frederico, pela explanação simples.sobre um tema complicado.

    Todavia é complicado porque se dá cartaz a quem não merece, isto tem a ver com as declarações imbecis do presidente que se posiciona contra a ciência em quase tudo. Como esse apedeuta chegou a capitão com essa.mentalidade? Claro, ninguém sabe.

    O direito do cidadão é limitado pela lei, e quem nao quer viver em sociedade que pegue seus trapos e se enfie em um bueiro e vai viver sua vida na sarjeta.

    Esses loucos que fingem não saber o que é certo ou errado são os que mais tiram proveitos da sociedade, normalmente são funcionários públicos ou de estatais e vivem um mundo paralelo vencedores iniciativa privada que gera riquezas para seus deleites.

    Basta aplicar a lei e pronto. Caso resolvido para os engraçadinhos petistas e bolsonaristas.

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