No caminho da poltica, sempre a pedra de Drumond

Pedro do Coutto

O poema moderno (quando foi escrito) e eterno de Carlos Drumond de Andrade conhecido: no meu caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meu caminho. Nenhuma imagem melhor do que esta para exprimir as dificuldades que surgem de repente, no mais que de repente, para os que ocupam ou buscam o poder, e traduzir os obstculos que surgem na estrada para os candidatos. E tambm para os projetos elaborados.

A poltica mutante e mutvel. Quem poderia prever a morte de Vargas da forma com que se deu? O efeito da CPI sobre o financiamento do Banco do Brasil, administrao Ricardo Jafet, ao Jornal Ultima Hora de Samuel Wainer? Quem poderia admitir, no desencadeamento dos fatos, o atentado da rua Toneleros ao jornalista Carlos Lacerda, fundador da Tribuna da Imprensa? Quem poderia calcular a renncia de Jnio Quadros? Ningum. Muito menos seu antecessor, Juscelino, que esperava retornar ao Planalto nas eleies diretas de 65. Os fatos surpreenderam. No se poderia calcular a deposio de J/ao Goulart em 64.

Ningum poderia sequer admitir a hiptese de Lacerda, que no governo da Guanabara comandou de fato a oposio a Jango, terminasse sendo preso e cassado pelo movimento do qual foi o principal lder e inspirador. Importa menos que tenha sido detonado em Minas pelo governador Magalhes Pinto. A liderana da oposio a Goulart sempre esteve nas mos, na voz, no talento dramtico de Carlos Lacerda. H sempre uma pedra no caminho. Ningum poderia prever que, depois de sua vitria nas urnas da redemocratizao de 89, Fernando Collor acabasse sendo afastado da presidncia da Repblica. Foi de PC Farias ao impeachment.

As eleies de 89 foram as primeiras decididas em dois turnos. Leonel Brizola retornara de um longo exlio que comeou no Uruguai e terminou nos EUA, acolhido pelo presidente Jimmy Carter.

Em 82, foi eleito governador do Estado do Rio de Janeiro. Seu sonho era sempre foi- chegar presidncia do pas. No quis se eleger deputado federal em 86, para isso teria de renunciar seis meses antes do pleito. Foi a pedra do seu caminho. Trs anos depois, pela diferena de 1 ponto (16 a 15) perdeu para Lula o direito de enfrentar Collor no segundo turno. Colocou mal a trajetria. Sua idia salvacionista desprezou a importncia da articulao que teria podido desenvolver investido do mandato parlamentar. Tropeou na prpria sombra. Nela havia uma pedra. No foi a nica. O PDT, seu partido, dominava as ruas dividindo as reas reformistas com o PT.

Mas no episdio do impeachment, em 92, ops-se a ele. Brizola e o PDT submergiram. O PT assumiu todo o espao das oposies. Ou quase todo. Anos depois, em 2002, esse processo tornou-se decisivo para a eleio de Lula e, quatro anos em seguida, sua reeleio. Deve agradecer a Drumond de Andrade, sai arte, sua pedra, sua poesia. fora da realidade imprevisvel, contida na imagem que fica para sempre como smbolo perfeito da dificuldade humana e dos imprevistos que a envolvem projetando o inesperado a qualquer momento. Muitos outros exemplos, dependendo da memria, poderiam ser includos.

Mas basta apenas mais um. A pedra que o destino colocou na trajetria da ministra Dilma Roussef no voo rumo ao plano alto do poder. Chama-se Lina Vieira, ex Secretria da Receita Federal. Episdio imprevisto, inesperado, repentino. A candidata do presidente da Repblica jamais poderia calcular que, numa frase, fizesse reviver o poeta, tambm cronista, que durante tantos anos encantou os leitores nas pginas, primeiro do Correio da manh, depois do Jornal do Brasil. A pedra eterna. Ningum pode remov-la do destino e dos enigmas que o cercam. Drumond est em frente ao mar, em Copacabana.

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