O Jango que deu certo

Carlos Chagas

A História costuma ser feita de ironias. Confundem-se a origem,  o perfil político e os objetivos de dois presidentes da República rotulados de populistas, representantes das massas: João  Belchior Marques Goulart e Luiz Inácio da Silva, apesar de um, rico fazendeiro, e outro, torneiro-mecânico. Só que as semelhanças de conduta  expostas na obstinação comum de redimir os menos favorecidos separam-se como água e azeite.

Para chegar ao poder, João Goulart precisou de uma revolta armada, com o país  à beira da guerra civil. O Lula,  nem tanto. Perdeu três vezes as eleições, só vencendo na quarta, mas deixando de ser confundido com Jango no propósito de promover “na marra” as  reformas de base. O atual  recuou pouco antes de assumir o poder, através de um documento de submissão às elites denominado “Carta aos Brasileiros”. O anterior radicalizou no final de um mandato incerto, por falta de opções.

Antes do texto de capitulação prévia do Lula,  porém, será bom não esquecer da existência de empresários dispostos  a deixar o país, no caso de sua vitória. E de projetos em andamento visando a retirada dos investimentos externos feitos no Brasil.

O problema é que João Goulart, mesmo de início disposto ao diálogo e à conciliação, não escreveu carta alguma. Mais ainda, insistiu  na determinação de promover mudanças estruturais num país àquela época muito mais atrasado,  radicalizado e empedernido pelos privilégios elitistas.

Já o Lula, de concreto, deixou de realizar as reformas agrária, bancária, urbana, educacional e outras, conseguindo transformá-las em assistencialismo. Além de  manter satisfeito e não apavorado, até melhor aquinhoado, o segmento conservador. Mas satisfez as massas com a melhoria de seu padrão de vida, sufocando segmentos dispostos a seu lado que, no passado, Jango não  conseguiu conter. Insurgia-se todos os dias, naqueles idos, o Comando Geral dos  Trabalhadores, ao tempo em que CUT e congêneres, hoje, viram-se transformados em gatinhos, tigres que foram antes.

No Congresso, nos tempos de Jango, a resistência da Direita revelou-se extremada e muito superior aos pruridos da bancada ruralista e sucedâneos, hoje. Lula conseguiu a submissão da maioria parlamentar através de benesses, nomeações e liberação de verbas de que o longínquo antecessor não cogitou ou conseguiu implantar.

Uma semelhança verifica-se entre os dois presidentes populistas na questão  agrária. As Ligas Camponesas de Francisco Julião invadiam terras até em proporção  menor do que o MST, hoje, mas aos liderados de João Pedro Stédile falta o apoio de outras forças sindicais, ao contrário do início dos anos sessenta, quando todos defensores das reformas de base pareciam unidos.

Por último, nos tempos de Jango o planeta dividia-se em dois campos empenhados em luta mortal. Como mais tarde  o bloco chefiado pela União  Soviética saiu pelo ralo, junto com o comunismo, beneficiado foi o Lula, circunscrito apenas a alguns arroubos periféricos diante dos Estados Unidos. É bom lembrar que os americanos chegaram a chamar Jango de estadista, enquanto tramavam sua queda, ao tempo em que incluem o Lula no rol dos 25 maiores líderes da atualidade, sem o menor perigo de intervenção por aqui. Também, não precisam. As forças armadas brasileiras,  cuja maior parte Washington  manipulava  através do “perigo vermelho”, tiveram sua oportunidade e fracassaram por estender seu predomínio  durante 21 anos, enquanto hoje mantém conduta exemplar, afastadas da política. Ainda que não raro engolindo sapos em posição de sentido.

Um suma, Jango perdeu, Lula sai vitorioso. Oriundos da mesma raiz  germinaram  em terrenos diversos. Este deu certo, aquele foi deposto. Os dois passarão aos livros de História como  populistas, mas que diferença, hein?   

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