Por cima da carne seca

Carlos Chagas

De caso pensado, o PMDB continua na contramo do governo. Mesmo preocupado em por enquanto no bater de frente com o palcio do Planalto, o maior partido nacional coleciona episdios de desentendimento, da eleio de Jos Sarney para presidente do Senado, contra o candidato do PT, at o apoio velado CPI da Petrobrs. Entre esses dois episdios, registra-se uma srie de pequenas desavenas, mesmo sem a inteno do rompimento imediato. So avisos, prenncios do inevitvel.

No caso, o inevitvel ser o desembarque do PMDB da candidatura Dilma Rousseff, caso, claro, ela se mantenha. Por enquanto, para os peemedebistas, bom conservar os seis ministrios, as dezenas de diretorias de empresas estatais e as centenas de cargos de escales inferiores. O divrcio, porm, parece bvio, apesar dos esforos que o presidente Lula fez e mais far para manter a aliana. Porque poucos duvidam, tanto da derrota da chefe da Casa Civil, vale repetir, se ela puder seguir em frente como candidata, quanto da sada do PMDB da base oficial.

A razo simples: o partido quer ficar onde sempre esteve, ou seja, no poder. De preferncia sem os nus, quer dizer, no apresentando candidato prprio sucesso do ano que vem. At porque, esse candidato no existe.

A corrente flui para Jos Serra, ainda que exista uma hiptese maior para tudo continuar como est, ou at ficar melhor, sem os entreveros atuais: o terceiro mandato. Caso o presidente Lula venha a ceder e aceitar concorrer a mais um perodo administrativo, tudo indica que ser eleito. Assim, contar com o PMDB, podendo at emplacar o candidato a vice. Sabem os cardeais da legenda que sero pea-chave na armao desse golpe, porque sem os votos de suas bancadas na Cmara e no Senado nenhuma emenda constitucional ser aprovada. o que se chama, em linguagem nordestina, ficar por cima da carne seca.

Maldade

S pode ser maldade o que o governo e os ulicos do presidente Lula, sem esquecer o prprio, andam fazendo com a ministra Dilma Rousseff. Porque uma vez caracterizada sua doena, mesmo dentro de um excepcional tratamento, a chefe da Casa Civil deveria ter sido poupada. Pelo menos nos quatro meses em que se vem submetendo quimioterapia. maldade ficar repetindo que ela est muito bem e que pode levar vida normal. Pior ainda, deix-la entregue a seus afazeres de primeira-ministra e de candidata presidencial. A madrugada de tera-feira demonstrou que mesmo sem se entregar, ela precisaria estar cercada dos cuidados que a situao exige. O choque de saber que precisou embarcar num jatinho em Braslia e internar-se num hospital em So Paulo ter sido to grande quanto o do anncio de que tinha cncer.

Crueldade tem sido a programao que Dilma, muitas vezes, acaba no podendo cumprir, obrigada a cancelar, s nos ltimos dias, sua presena no Frum Nacional de Joo Paulo dos Reis Veloso, no Frum da revista Exame, numa reunio plenria do PT, no Congresso de Radiodifuso e numa ida ao Cear para explicar o PAC.

Muito melhor teria sido, para ela, licenciar-se de atividades administrativas e polticas, recolhendo-se at, esperam todos, reaparecer completamente curada e pronta para retomar a trajetria de candidata. A atual estratgia do governo s faz prejudic-la e, ao contrrio do que pretendem, enfraquece suas possibilidades.

Todos de braos cruzados

Duas semanas j se passaram desde que o Supremo Tribunal Federal considerou caduca a Lei de Imprensa, deixando perigoso vazio em termos de garantias variadas no comportamento da mdia. Nem adianta repetir que a deciso das mais alta corte nacional de justia exprimiu mero jogo de cena, porque os artigos ditatoriais da referida lei j haviam sido revogados pelo Bom Direito, desde a promulgao na nova Constituio em 1988.

O problema que foi tudo pelo ralo, inclusive os artigos que asseguravam o direito de resposta, a segurana da retratao como fator de paralisao de aes penais, a garantia de reparao para quem fosse ofendido em sua honra atravs dos meios de comunicao, a punio para quem criasse alarma no sistema bancrio, a preservao de segredos de estado e tantas outras posturas essenciais ao bem-estar social.

Esperava-se, inclusive alguns ministros do Supremo, que a revogao pura e simples da Lei de Imprensa levaria imediatamente o Congresso a debater e aprovar em tempo recorde um novo conjunto legal moderno e adaptado ao sculo XXI. Pois at agora, nada. Nem na Cmara, nem no Senado, nem nos partidos polticos ou sequer na sociedade civil surgiram sinais de preocupao diante do vazio. como se tudo fosse permitido, numa sociedade sem condicionamentos. A imprensa marrom deve estar em festa.

Falta a negativa principal

Apressou-se o PSDB em esclarecer que a CPI da Petrobrs jamais ousar prejudicar a empresa, que os trabalhos se desenvolvero investigando possveis irregularidades praticadas ao longo dos anos, mas, de forma alguma, capazes de denegrir sua imagem ou atrapalhar suas atividades no pas ou no mundo.

timo, dos tucanos no se esperava outra coisa, ainda que, por cautela, o governo pretenda selecionar oito senadores de sua estrita confiana, entre os onze titulares da CPI.

S que tem um problema: o PSDB foi acusado pelas lideranas oficiais de estar tramando a privatizao da Petrobrs, se Jos Serra chegar ao poder. Sobre essa hiptese, nenhuma palavra, nenhuma negativa. Ser que as oposies pretendem mesmo entregar ao mercado um dos maiores patrimnios nacionais? Seria bom que se pronunciassem o mais rpido possvel.

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