Proposta perigosa

Carlos Chagas

Pelos cálculos do ministro da Justiça, 80 mil presos ganharão a liberdade em todo o país,  caso aprovada sua proposta de afastar dos estabelecimentos prisionais os condenados sem grande periculosidade. É bom tomar cuidado. Criminosos de espécies variadas,  sentenciados pela Justiça, estarão sentados no ônibus ou  no metrô,  ao nosso lado. Passearão pelas ruas, freqüentarão centros comerciais e tomarão sorvete perto de nossas crianças sem ter cumprido as penas referentes às suas delinqüências. Só não poderão estar de bermuda e sandálias de dedo, que revelariam a obrigatória tornozeleira capaz de monitorá-los à distância. De meias e  calças compridas, serão cidadãos iguais a todos nós.

Fica para outro dia indagar quem ou que empresas serão beneficiadas com a venda ao poder público  dessa parafernália eletrônica a exigir complicados centros de vigilância.

A discussão é mais profunda. Quantos, entre os 80 mil, reincidirão no crime, voltando a roubar, assaltar, falsificar, agredir e enganar pessoas honestas?  Pelas estatísticas aferidas nas folgas de Natal, Ano Novo, Dia das Mães e similares, perto de 20%. Sem falar na capacidade dos próprios ou de familiares e amigos de  transferirem as tornozeleiras  para um poste ou um pé de mesa, deixando-os sem monitoramento. Mas mesmo que flagrados em botequins ou zonas duvidosas, de madrugada, o que fará a autoridade pública para enquadrá-los? Fica difícil imaginar a possibilidade do envio de choques elétricos ou admoestações através de chips ou ondas curtas.

A sugestão do ministro, com todo o respeito, bate de frente com o sentimento da sociedade. Vai estimular o crime e a violência. Afinal, mesmo parecendo de baixa periculosidade, foram presos, julgados e condenados. É claro que não deveriam estar misturados a autores de crimes hediondos ou a bandidos contumazes. Que se utilizem os recursos dessa custosa e perigosa aventura para construir pavilhões e até presídios destinados aos presos menos perigosos. Mas que sejam  mantidos atrás das grades pelo tempo de sua condenação. Em nome dos que permanecem do lado de cá.  Diz o mote popular que esperteza, quando é demais, come o esperto. Bondade em demasia também come o bondoso.

Não dá para ignorar

É conhecida a história do fazendeiro que viajou e só deveria voltar na segunda-feira, mas resolveu retornar no domingo. Ao passar pela  porteira de sua fazenda, flagrou um peão levando um cabrito nas costas. Indagou por que e o esperto camarada espantou-se, perguntando: “Cabrito? Que cabrito? Sai daí, bicho!”

Assim estão o PMDB, o PT, o PSDB e o próprio presidente Lula, frontalmente atacados  por Ciro Gomes e dispostos a continuar ignorando as críticas e as diatribes.  Fingindo que o cabrito não existe.

Em alguns casos, as agressões do ex-candidato presidencial têm sido virulentas, como a de que o PMDB é uma quadrilha de bandidos e o PT e o PSDB, partidos de golpistas.  No mínimo, deveriam defender seu patrimônio.

Mais ministérios

A redução do número de ministérios foi uma das iniciativas louváveis do então presidente Fernando Collor, entre outras dignas de condenação. Começou seu governo com apenas seis, fora os militares. O presidente Lula já chegou aos  38 de hoje,  mas José Serra, se for eleito, acrescentará  pelo menos mais dois: os ministérios da Segurança e do Deficiente Físico. País rico é assim mesmo, ainda que as duas novas criações venham a esvaziar os ministérios da Justiça e da Saúde.

Risco de outro fracasso

O périplo do chanceler Celso Amorim pelo Irã, Rússia e Turquia precede a ida do presidente Lula a Teerã, onde, com o apoio dos governos russo e turco, espera oferecer à singular República Islâmica a garantia de resistência contra  as sanções do resto do mundo. A contrapartida seria a promessa dos aiatolás de permitirem a fiscalização internacional em suas usinas nucleares, como demonstração de que não estão fazendo a bomba atômica.  Trata-se, a iniciativa brasileira, de uma incursão no reino do desconhecido. O risco será de o Brasil ficar de mãos abanando tanto diante dos Estados Unidos e seu grupo, que insistem nas sanções, quanto frente ao Irã, que não admite fiscalizações. Boa vontade não costuma mover montanhas, em termos de política externa.

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