Quem será o vice de Serra?

Arnaldo Menezes:
”Helio, você que acompanha os bastidores da política, poderia dizer quem será o segundo do governador? Já ouvi falar em vários nomes, mas nenhum confirmado. Aqui em Campinas falam que será mesmo Aécio Neves. Leio sempre que você não acredita. Fora do governador de Minas, quem pode ser?”

Comentário de Helio Fernandes:
Resposta difícil, Arnaldo. Se não se sabe se o próprio Serra confirmará a candidatura, como saber quem será o segundo dele? Especulam que o paulista e o mineiro estariam “fazendo jogo de cena”, jogando para a platéia, mas realmente não acredito.

Na “Primeira República” os candidatos eram quase sempre de São Paulo ou Minas, com um vice do Norte/Nordeste. O primeiro civil presidente, Prudente de Moraes, teve como vice Manuel Vitorino, da Bahia. Que até assumiu, quando Prudente foi fazer uma cirurgia perigosa (principalmente em 1896, há mais de 100 anos).

Vitorino fez história como vice em exercício, comprando o Palácio do Catete e mudando a sede do governo. Que era no belíssimo Palácio Itamaraty, onde instalou o Ministério do Exterior.

Depois foram vices, Estácio Coimbra, de Pernambuco, chegando a Nilo Peçanha, vice do mineiro Afonso Pena, que morreu em 15 de junho de 1909, deixando 17 meses para o vice. Mudou todo o panorama.

Nilo, inimigo irreconciliável de Ruy Barbosa, trabalhou intensamente para derrotá-lo e eleger seu ministro da Guerra, Hermes da Fonseca, (sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca) que acabou entrando na História, e não apenas por ter impedido Ruy de ser presidente.

Falam muito em sucessão “café com leite”, mas só em 1918, disputaram na mesma chapa, um paulista e um mineiro. Rodrigues Alves, que no Império já havia sido presidente de São Paulo, (só existiam Províncias, Estados só a partir da República), e depois presidente da República, novamente governador de São Paulo, foi chamado, porque consideravam que seria o único a derrotar o então “maior brasileiro vivo”.

Para reforçar a chapa, (os políticos tinham pavor de Ruy presidente) colocaram como vice, o ex-governador de Minas, Delfim Moreira. O ex-presidente Rodrigues Alves estava morrendo, Delfim Moreira, “sofria das faculdades mentais”, como se dizia na época.

Rodrigues Alves não queria, mas teve que aceitar. Valia tudo para derrotar Ruy. Não saiu de sua chácara em Guaratinguetá, assumiu o vice Delfim Moreira, mas quem governou por 11 meses, foi Afrânio de Mello Franco, duas vezes ministro. E que seria chanceler em 1930. Delfim só assinava, mas o pai de Afonso Arinos era de honestidade irrefutável. (Rodrigues Alves morreria logo depois, Delfim Moreira desapareceu, virou avenida).

Em 1919 Ruy abandonou a política, morreria em 1º de março de 1923, no mesmo mês e ano do marechal Hermes da Fonseca, numa das maiores crises brasileiras, mas isso já é outra história, embora Epitácio Pessoa, (tio de João Pessoa, cujo assassinato impulsionou a revolução-golpe de 30) tivesse ficado 3 anos no poder.

Morto Ruy, acabando a eleição, tudo mudou. Foram poucas as eleições e portanto, raros os vices. Até que veio o fim da ditadura de 64, a eleição indireta, (exigência dos militares) e a chapa que ficará na História. Novamente o presidente eleito, Tancredo Neves, não assumiu, a Constituição havia mudado, Sarney cumpriu o mandato inteiro.

Na primeira eleição direta depois da ditadura de 64, em 1989, houve a inversão. Como Collor era de um estado pequeno, teve de colocar um vice de São Paulo ou Minas Gerais, optou por Minas e Itamar Franco. Houve o impeachment, o primeiro da história, Itamar assumiu, patrocinou a catástrofe FHC, da qual se arrepende até hoje.

FHC, o homem do retrocesso de “80 anos em 8”, além da incompetência congênita e adquirida, liquidou (pagando à vista em dinheiro) uma das cláusulas pétreas da Constituição, se REEELEGEU. E estabeleceu uma nova realidade da qual ninguém quer se “livrar”. A lógica, vá lá, depois da “violação FHC”, é a tentativa do terceiro mandato. (Que ele mesmo tentou, não conseguiu).

Como agora, em caso de impedimento, renúncia ou incapacidade médica, o vice assume e cumpre o resto do mandato, existem mais candidatos a vice do que propriamente a presidente. Serra, (a sua pergunta é sobre ele) pode voltar à rotina ou sistemática que vigorou até 1930. Um paulista ou mineiro, com um nordestino na vice.

O próprio Serra, em 2002, tentou ressuscitar a fórmula, convidando Jarbas Vasconcellos para seu vice. Governador de Pernambuco, Jarbas aceitou, dependendo do seu vice, “Mendoncinha”, (que apresentou a emenda de reeeleição de FHC), renunciar. Jarbas não tinha confiança nele, o vice acreditava que o governador aceitaria ser vice de Serra favorito. Errou, Jarbas ficou, agora é senador até 2014.

Serra, se não puder compor a “chapa pura”, Há!Ha!Ha!, pode convidar o ex-governador de Pernambuco, que aceitará na hora

E se o governador de São Paulo confirmar a candidatura e Aécio também confirmar que não aceita, quem ficará na vez? A chapa quase formada (com o DEM) era Serra-Arruda. Mas Serra é tão sortista, que já conversava com ele, (e a liderança do DEM) quando Arruda foi preso. Serra se desligou a passou a dizer: “Arruda, nem sei quem é”.

Os candidatos são muitos, a vice é muito cobiçada, desejada e esperada. Como na História do Brasil, a partir do golpe militar de 15 de novembro de 1889, existe quase sempre o mesmo número de presidentes que terminaram o mandato e de vices que assumiram, a esperança é compreensível.

Lula Está terminando o segundo mandato, nos dois, sem o PMDB na vice. Em 2002 e 2006, o PMDB já era o maior partido do Brasil e não fez exigência da nomenclatura, que palavra, não se importava de indicar o vice, como não indicou mesmo.

***

PS – O dócil e “compreensível” PMDB, não se interessa pelo Poder nominal, quer aquilo que o Poder proporciona. Sem pretender defender o presidente Lula, o PMDB é responsável (?) pelo governo ter 37 ministros.

PS2 – De qualquer maneira, haverá também dificuldades para indicação do vice de Dona Dilma. Para ela, não vale a questão geográfica, pois não tem origem nem procedência, o que pode gerar consequência.

PS3 – Como a pergunta é de um paulista de Campinas, a última resposta: “O vice de Dona Dilma não virá de São Paulo. A não ser que valha a data de nascimento de 1956”. O domicílio eleitoral é mera divagação. Ou desgravação do que não foi gravado, desbravação em terreno não desbravado. Que República.

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