Saltando de banda

Carlos Chagas

Nem o presidente Lula nem a ministra Dilma Rousseff tomaram qualquer deciso sobre o companheiro de chapa da candidata. No palcio do Planalto registra-se a tendncia para que venha do PMDB, mas apenas depois da certeza de que o partido se integrar campanha do PT. Sob esse prisma, especula-se a respeito da indicao de Michel Temer, presidente da Cmara e presidente licenciado do PMDB, mas o cauteloso deputado por So Paulo anda saltando de banda. Trocaria mais um mandato na Cmara e sua provvel permanncia na direo na casa no binio 2011-2012 por uma aventura eleitoral, j que at agora Dilma no decolou nas pesquisas?

Acresce que o presidente Lula no gosta de Temer, costuma referir-se a ele de forma crtica, enquanto Dilma carece de maiores aproximaes com ele.

No PMDB, o sentimento de expectativa. Um grupo segue a orientao de Orestes Qurcia e ainda luta para o partido apoiar Jos Serra. Mesmo entre os lulistas, porm, existem os peemedebistas que levantam ressalvas: se a escolha do vice beneficiar lderes polmicos como o ministro Geddel Vieira Lima e o deputado Eliseu Padilha, ficaro margem.

Fora do PMDB, Dilma teria outras opes, como Ciro Gomes, apesar de o ex-governador do Cear insistir em que disputar a presidncia da Repblica. No se cogita de nenhuma chapa-pura, a no ser que o PT fique abandonado. Em suma, faltam dados essenciais para a montagem da equao por enquanto em aberto.

Nem projetos nem programas

Vale comear com uma historinha encenada pelo saudoso crtico literrio Agripino Grieco. Ele era o terror dos escritores, censor implacvel de todas as mediocridades. Ganhou fama. Freqentava com assiduidade o salo de um barbeiro no bairro em que morava no Rio, o Meyer. O profissional, com o passar do tempo insinuou-se e insistiu anos a fio para que Grieco lesse os originais de um romance que havia escrito, algo que o elevaria ao patamar de Machado de Assis, Jos de Alencar e at Ea de Queirs. O crtico deu tanta bandeira na pretenso do barbeiro, recusando-se a levar o texto para casa, que um dia o coitado apelou: est bem, se o senhor no tem tempo para ler tudo e elaborar uma crnica completa, pelo menos me d a honra de escolher o ttulo da minha epopia.

Agripino Grieco surpreendeu, concordando e anunciando que daria o ttulo naquela hora mesmo. E indagou: o seu livro tem trombones? No, de jeito nenhum. Tem trombetas? Tambm no. Ento a est o ttulo: Nem trombones nem trombetas…

O episdio se conta a respeito dos candidatos presidncia da Repblica. Esto lanados, freqentam o noticirio e j percorrem o pas em pr-campanha, mostrando-se e aparecendo na televiso.

Dilma Rousseff, Jos Serra, Acio Neves, Helosa Helena e agora Marina Silva e Ciro Gomes transitam pelo pas, no deixam de cortejar o Nordeste e armam suas candidaturas de maneiras variadas.

Mas algum j ouvir falar de seus projetos e programas para o prximo mandato presidencial? Dispe ao menos um dos candidatos um plano-diretor, um elenco de propostas para definir os objetivos nacionais? Algum conjunto de objetivos maiores a ser conquistados para moldar nosso futuro?

Nada. Dilma admite continuar a obra do Lula, Serra quer levar para o plano federal sua performance paulista, Acio lembra o dr. Tancredo, Helosa Helena fala em demolir tudo, Marina Silva parece o samba de uma nota s, envolto na ecologia e Ciro nem isso.

O governo Lula j fica devendo uma definio maior, que at agora limitou-se ao PAC, ao bolsa-famlia e satisfao das elites empresariais. Muita gente respira fundo e diz que ainda bem, porque o presidente andou correndo o srio risco de ter de absorver as loucuras do ex-ministro Mangabeira Unger, felizmente j escafedido.

Em suma, ao menos at agora, os candidatos apresentam-se pelas prprias imagens, sem nenhuma viso estratgica em condies de nos inserir no contexto mundial. Mesmo em palavras simples, compreensveis pela maioria do eleitorado, ficam devendo uma resposta: para onde querem levar o Brasil? Nem projetos nem programas…

E os aposentados?

A lambana verificada no Senado e acentuada na semana que passou leva a mais uma desiluso: e as iniciativas capazes de recuperar os aposentados, extinguindo o celerado fator previdencirio e evitando o nivelamento de todos por baixo? Faz muito que a concesso de reajustes a todos os que recebem mais do que o salrio mnimo foi discutida, debatida. votada e aprovada no Senado e na Cmara. O presidente Lula vetou o que no seria benefcio, mas obrigao do poder pblico.

Pois bem: h quanto tempo a mesa do Congresso, agora conduzida pelo senador Jos Sarney, ficou de marcar e no marca a sesso definitiva para a apreciao do veto? Por que as diversas bancadas no exigem essa deciso?

A resposta simples: porque o presidente Lula no quer. Porque a equipe econmica fez a cabea dele e sustenta que o pas ir falncia se o reajuste for concedido. Por isso Sua Excelncia vetou e por isso pressiona Sarney e as lideranas variadas para adiarem a deciso. Enquanto isso, os aposentados que se danem. S que tem um problema: os aposentados votam…

Direito suprimido

Foi nos tempos da Constituinte, graas iniciativa do ento deputado Nelson Jobim, que se viu suprimido o direito de todos os senadores em exerccio terem o direito obrigatrio de disputar a reeleio pelos respectivos partidos. Eram candidatos natos, mesmo sendo muitos deles rejeitados logo depois pelo eleitorado.

Em nome sabe-se l de que princpio democrtico, desapareceu a prerrogativa. Os senadores no tem garantia de receber legenda para tentar um novo mandato, independentemente dos conchavos e articulaes partidrias. o caso do senador Mo Santa, do PMDB do Piau. Por conta do acordo do partido com o PT, sob a batuta do atual governador, anunciam que legaro ao polmico senador o direito de concorrer. No d para entender.

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