Tem azeitona nessa empada?

Carlos Chagas

Tudo normal que o presidente Lula lute e se empenhe para serem de confiana do governo o presidente e o relator da CPI da Petrobrs. So essas as regras do jogo, h tempos, para todas as CPIs. O que parece excessiva a tentativa de blindagem desenvolvida pelo companheiro-mr, que at as foras sindicais mobilizou para fazerem oposio nas ruas s investigaes sobre a maior empresa nacional. S na segunda-feira o Lula reuniu-se separadamente com Renan Calheiros, lder do PMDB, Jos Incio, ministro da Coordenao Poltica, Jorge Haje, ministro da Controladoria Geral da Unio, Srgio Gabrielli, presidente da Petrobrs, Jos Eduardo Dutra, presidente da BR Distribuidora, Gim Argelo, vice-lder do governo, e Alosio Mercadante, lder do PT, tudo na presena de Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete. No dia seguinte, em viagem Bahia, no se descuidou da questo, atravs de mltiplos telefonemas para Braslia. Hoje, na capital, prev-se o mesmo ritmo de reunies.

muita areia para um caminho s. Estaria o governo temeroso de que alguma lambana das grossas venha a ser descoberta nos intestinos da Petrobrs? Afinal, a empresa est acima de tricas e futricas parlamentares. Ou deveria estar. A tem, diria um observador apressado.

Tanto o PSDB quanto o DEM deixaram claro no pretender prejudicar a Petrobrs e seus negcios internacionais. Tem conscincia da importncia econmica e poltica daquela que foi e continua sendo smbolo da soberania nacional, no obstante as manobras do socilogo para enfraquec-la, mudar o seu nome e at privatiz-la. Mesmo assim, nada explica o paroxismo que tomou conta do palcio do Planalto, apesar de seus inquilinos hoje trabalharem em outro lugar, dadas as obras l realizadas. bom aguardar, porque dentro dessa empada pode estar uma azeitona amarga…

Nova recada

Ainda sobre o presidente Lula, registre-se nova recada de sua parte. Na Bahia, voltou a vangloriar-se de que nenhum governante, desde o Descobrimento, fez tanto quanto ele para desenvolver a educao no pas. Sequer fizeram a metade, entenda-se, dos governadores gerais aos regentes, aos imperadores e aos presidentes da Repblica, a partir de Deodoro da Fonseca. Seria indelicado comentar que tanta pretenso assim jamais se registrou em nossa Histria, mas o comandante avanou ainda mais o sinal. Chamou seus antecessores, todos, de perversos, porque deixaram crescer as favelas que hoje nos envergonham. Mas que foi injustia, isso foi, at porque, no poder h seis anos e cinco meses, o presidente Lula assistiu as favelas continuarem multiplicando-se em ritmo de progresso geomtrica, enquanto suas obras sociais avanam em progresso aritmtica. Se h perversidade, um certo percentual deve-se a ele, apesar de seus inequvocos esforos e boas intenes.

Caso os partidrios do terceiro mandato decidissem desencadear agora a campanha prevista para daqui a alguns meses, melhor estribilho no haveria do que encher o territrio nacional com faixas dizendo Lula outra vez, contra a perversidade.

No decide pelos outros

Se h uma tradio maior no Supremo Tribunal Federal, entre muitas, de que em cada cabea situa-se uma sentena. Nenhum presidente da mais alta corte nacional de Justia ousou antecipar o voto de seus colegas, porque os ministros mostram-se extremamente ciosos de sua independncia no rumo do Bom Direito.

Pois no que o presidente Gilmar Mendes escorregou, em palestra efetuada esta semana na embaixada da Repblica Federal da Alemanha, aqui em Braslia? Declarou que ser derrubada no Supremo qualquer iniciativa parlamentar ensejando um terceiro mandato ao presidente da Repblica, ou a prorrogao de todos os mandatos. Rotulou essas expectativas de casusmos.

Ainda que certo na opinio, ou at parcimonioso, porque mais do que casusmo, a continuao do Lula equivaler a um golpe de estado, Gilmar Mendes no dispunha de procurao para falar pelos demais dez ministros. Alm dele, apenas dois haviam-se manifestado de pblico a respeito da questo: Marco Aurlio Mello e Carlos Aires de Brito, que tambm condenaram a hiptese. Os demais, se j opinaram, foi reservadamente, no ch das dezessete horas. Seria bom esperar, se o monstrengo jurdico do terceiro mandato progredir no Congresso. Afinal, at agora, o presidente Lula nomeou sete ministros, dos onze.

A praga da terceirizao

No Executivo, Legislativo e Judicirio, a terceirizao tem sido uma praga. Basta percorrer a Esplanada dos Ministrios e a Praa dos Trs Poderes para constatar que nos palcios, ministrios, reparties, empresas pblicas e sucedneos, todo tipo de trabalho majoritariamente executado por trabalhadores sem vnculo com o servio pblico. Dos mais banais, como limpeza e segurana, aos mais sofisticados, como divulgao e manipulao de computadores, os contratados lotam salas e sales. Contratados por quem? Por empresas privadas em parte constitudas por amigos e correligionrios dos detentores do poder. Pessoas jurdicas que cobram absurdos e pagam miseravelmente seus funcionrios, estas sem a menor garantia de permanncia no emprego. Faturam o diabo, os empresrios da terceirizao, cobrando do governo at mesmo os impostos que recolhem.

Que a terceirizao tenha invadido a atividade privada, trata-se de problema das empresas particulares. Na maioria dos casos a mutreta a mesma, porque boa parte das atividades so executadas por empregados de firmas criadas sombra de diretores e proprietrios. No se trata propriamente de um problema deles, porque, afinal, as empresas so constitudas de capital e de trabalho, saindo prejudicados os assalariados, mas, convenhamos, o sistema esse, desde que o socialismo burocrtico saiu pelo ralo. Mas levar a experincia para o setor pblico mereceria formidvel investigao.

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