Terror artstico e cultural, incndio devora um dos mais importantes acervos

H 47 anos moro numa rua deserta do alto do Jardim Botnico, onde nos anos 60 ningum queria morar. Tempos depois foi residir ali a famlia Oiticica. Um deles, Helinho (transformado num dos mais importantes personagens artsticos do Pas) montou ali sua fbrica, usina ou geradora de obras fantsticas. Naquela rua e at morrer morou Helio Oiticica.

Tive a sorte e a felicidade de conviver visualmente com o que Helinho (todos o chamavam assim, carinhosamente, e merecia) criou o que chamou de PARANGOL. Tendo que passar por ali a todos os momentos (sua casa ficava e fica a 100 metros da minha), via vrias vezes por dia aquelas criaes, estranhamente absorventes, lindssimas, verdadeiras bandeiras desfraldadas.

Sua casa era toda aberta, praticamente no existiam janelas, aquelas figuras lindamente coloridas, obrigava pessoas que passavam por ali, a pararem para admirarem. Muitos no entendiam, natural. Sua obra foi se consolidando, ele se consagrando e ganhando o mundo, isto no fora de expresso e sim realidade.

Mas Oiticica continuava o mesmo, muitas vezes ia para a rua, queria uma perspectiva melhor. Os museus do mundo foram se enriquecendo com suas peas notveis. Ele morreu muito moo, nos anos 80, mas o que deixou era formidvel, guardado e vigiado pelo irmo Csar, e bem mais tarde pelo sobrinho tambm Csar que nasceu depois da sua morte.

Apesar de ter um Instituto no centro da cidade, com o nome de Helio Oiticica, o irmo cuidava de tudo ali mesmo na casa simples e antiga. Mais ou menos h 1 ano compraram a casa de um vizinho importante que se mudava. Estavam transferindo parte do acervo para essa outra casa, dividindo-o.

Na madrugada de ontem, a partir de 1 hora sirenes de bombeiros, carros de polcia, movimento de curiosos, fizeram os moradores perderem uma noite de sono. Quando se soube o que acontecera, ningum lamentou no ter dormido, o lamento era pela perda daquele acervo colossal e insubstituvel.

Ningum tem a menor idia de como o incndio comeou e como destruiu tudo, numa velocidade impressionante. Todas as paredes pretas como carvo, no se salvou nada. Durante muito tempo, (no sei quanto), vou manter na memria, e pela proximidade, na viso, aquela tragdia cultural e artstica. No estava no seguro (como informam) mas mesmo que estivesse, irreparvel.

Ontem noite finalmente tive uma satisfao relativa. Vanda Klabin, que foi Curadora da obra desmontvel de Helinho Oiticica, que correu vrios pases, ganhando repercusso internacional, dizia numa competente entrevista de televiso: Felizmente a parte maior do acervo de Helio Oiticica est no exterior. Vanda Klabin, conhecedora e serssima, no revelaria esse fato se no tivesse certeza do que dizia, pelo menos isso.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.