Um anjo de ao

Carlos Chagas

Se um dia fizerem no Brasil eleio para anjo, arcanjo ou querubim, ningum duvidar da unanimidade da deciso nacional: ganhar o vice-presidente Jos Alencar. Nem preciso falar da coragem com que ele enfrenta o cncer, muitas vezes governando o pas do hospital, nas ausncias do Lula, sempre pronto a enfrentar toda e qualquer questo poltica ou de sade. Mantm frrea lealdade ao titular sem abrir mo de suas opinies. Para ele, o vice substitui, no sucede, exceo de situaes inusitadas felizmente no acontecidas.

Vale lembrar a independncia com que Jos Alencar singelamente sustenta seus pontos de vista, mesmo fielmente respeitando as diretrizes do Lula.

Desde o primeiro dia do governo que vem batendo firme na altssima taxa de juros praticada pela equipe econmica. Sem ser economista, sem diploma, como o presidente, manda os doutos tecnocratas para as profundezas quando demonstra a inocuidade desses obscenos percentuais da usura. Claro que em seus numerosos dias de poder, poderia dar o dito pelo no dito, mandando Meirelles, Mantega e companhia reduzirem as taxas, mas jamais o fez, por questo de respeito ao chefe. Costuma brincar dizendo que se algum apresenta dor no peito, deve procurar um mdico, assim como o Lula procurou economistas para traar a poltica econmica. Se s vezes o mdico erra, pacincia.

Mas suas discordncias no ficam apenas nos juros. Ainda esta semana, com o presidente na Inglaterra, o vice saiu em defesa do Tribunal de Contas da Unio, mesmo depois de sucessivas crticas do Lula instituio, por conta da paralisao de obras do PAC. Tambm criticou o Congresso, e o governo, pelas manobras protelatrias ao projeto dando a todos os aposentados os reajustes daqueles que recebem o salrio mnimo.

No faz muitas semanas, surpreendeu o pas e o exterior ao defender o direito de promovermos pesquisas nucleares capazes de levar bomba atmica, indagando porque uns podem e outros no podem.

Em suma, trata-se de um anjo de ao, sob a pureza das asas da lealdade. Deu sucessivas provas disso, inclusive ao assumir por longa temporada o ministrio da Defesa, numa hora em que o presidente da Repblica debatia-se com a possibilidade de uma crise militar.

Me engana que eu gosto

A questo dos cartis volta ao debate por iniciativa de um deputado distrital de Braslia, Jos Antnio Regufe. Apesar de a lei proibir e punir a aliana de empresrios que combinam preos iguais de suas mercadorias, num regime de livre competio de mentirinha, a capital federal apresenta os mais altos preos da gasolina vendida nas bombas. O parlamentar provou a interligao de todos para burlar a legislao e mobilizou o Ministrio Pblico para as providncias necessrias.

edificante a denncia, tanto quanto a luta, mas, infelizmente, destina-se a dar em nada. Mesmo que a polcia tenha obtido gravaes onde fica evidente a maracutaia, no haver como comprovar a existncia de cartel. Afinal, podem telefonar-se e comentar preos, num regime democrtico, mesmo quando combinam criminosamente os percentuais de lucro.

O problema no resumir-se apenas aos combustveis esse conluio de sacripantas. Em quase todas as demais atividades empresariais verifica-se a burla da lei, sempre que se trata de extrair recursos do poder pblico. Empreiteiras entram mancomunadas em concorrncias para todo tipo de servios, acertando valores acima do mercado e sucedendo-se no patamar vencedor de acordo com suas convenincias. Se livre concorrncia for isso, bom tomar cuidado: qualquer dia Flamengo, Corntians, Vasco e Palmeiras combinaro quem vencer os prximos campeonatos de futebol, iludindo os pobres mans torcedores que se esgoelam nas arquibancadas…

Outra Confederao do Equador

Reuniram-se ontem em Fortaleza os nove governadores do Nordeste, com direito incluso de Acio Neves e o pedacinho de Minas que integra a regio. Para o pblico, mais uma oportunidade de alvssaras, loas e evos maravilha que vem sendo o governo Lula, assim como eloqentes manifestaes de louvor ao regime democrtico.

Nos bastidores, porm, a temperatura subiu. No h um governador, mesmo dos partidos da base de apoio oficial, que no dedilhe um rosrio de queixas diante do poder central. Seus estados perdem receita todos os dias e a propalada ajuda federal existe mais na propaganda do que na realidade.

Seria bom o presidente Lula tomar cuidado, pois mesmo na multiplicidade de tendncias poltico-eleitorais do conjunto, sempre haver a hiptese de darem o troco empenhando-se menos do que poderiam pela candidatura Dilma Rousseff.

No fio da navalha

Ainda que sem a emisso de juzos de valor diante do confronto entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal, a verdade que as instituies nacionais transitam sobre um fio de navalha. Pela Constituio, o Judicirio pode cassar mandatos parlamentares e esperar que sua deciso se cumpra de imediato? Pode.

Mas, tambm pela Constituio, todo cidado deve dispor do direito de defesa, jamais se admitindo condenaes onde faltaram ao ru as indispensveis prerrogativas para justificar seus atos? Deve.

O resultado a est: um conflito entre a mesa do Senado e o plenrio do Supremo. Cada dia que passa sem uma sada capaz de contentar as duas partes acumula tal potencial de crise que muita gente chega a temer a exploso institucional. E se Judicirio e Legislativo se engalfinham, quem sair vencendo? Ora, o Executivo, ou seja, ele…

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