UNE, que tristeza, d adeus s armas

Pedro do Coutto

Como no livro famoso de Ernest Hemingway, depois da morte do escritor transformado em filme, a Unio Nacional dos Estudantes, fundada em 1937 e dona de uma bela histria na luta pela liberdade e pela justia quem diria? d adeus s armas. Retira-se do palco difcil dos embates com o poder e adere tristemente ao governo. Beneficiada, ela nem tanto, mas provavelmente seus dirigentes, por um apoio financeiro fornecido pela Petrobrs, ela voltou s ruas, no mais para contestar, que era sua misso histrica, mas para aderir. Abriu mo de seu papel no pas. Entrou em conflito com a prpria juventude que a deveria inspirar, e inspirou sempre, ao longo de 72 anos. Entrou em conflito porque so inerentes mocidade o inconformismo e o protesto. Protesto e inconformismo que s vezes levam utopia. Mas o que seria da histria da luta pela liberdade e pela construo do futuro no fossem os romnticos e os utpicos.

A UNE, talvez sem o saber, era herdeira de Alexandre Dumas pai e de Vitor Hugo. Tinha o arrebatamento dos mosqueteiros e o tom inflamado do autor de Os Miserveis. Onde houvesse necessidade de protesto l estava ela. Espadachins do passado atravessando as ruas do presente na busca sempre de uma nova alvorada. Foi assim at o governo Lula. Agora no. Transformou-se numa agncia estatal de mobilizao. Pode a metamorfose ter representado uma derrota dos que se julgavam marxistas. Mas sua atitude presente assinala mais uma vitria da anlise marxista: atrs de tudo h sempre um fato, ou fator, econmico. A Unio Nacional dos Estudantes nasceu para o protesto e a contestao. Deixou este plano. Est ingressando na adeso. Ingressando? J ingressou. Lastimvel.

Fundada em agosto de 37, trs meses antes da ditadura varguista do estado novo, o episdio marcou sua primeira apario em cena. Lderes estudantis foram presos, agredidos, torturados, a ameaa era geral. Na Chefia da Polcia o temvel Filinto Muller, mais tarde senador pelo PSD de Mato Grosso. Tendo explodido a segunda guerra mundial em agosto de 39, na dcada de 40 comearam os covardes afundamentos de navios mercantes brasileiros pelos submarinos nazistas. Foram 22 os casos trgicos. Tambm em agosto, mas de 42, a UNE voltou s ruas realizando uma passeata pela declarao de guerra Alemanha de Hitler e Itlia de Mussolini. Filinto Muller no autorizou. A Une recorreu ao ministro da Justia interino, Vasco Leito da Cunha. Este autorizou. Filinto demitiu-se. Assumiu Coriolano de Ges. Vargas, no dia 22, declarou guerra Berlim e Roma e tambm ao Japo de Hiroito. O episdio, emocionante, fica para sempre.

Em 65, a UNE apoiou a pea Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes, contra a ditadura militar que havia derrubado o governo Goulart. Ela, o autor e os atores Paulo Autran, Oduvaldo Viana Filho, Teresa Rachel, a cantora Nara Leo, arriscaram-se. Houve srias ameaas. Em 68, organizou e sustentou a passeata dos cem mil nas ruas do Rio, que culminou com o comcio da Cinelndia, de repdio priso de estudantes na Praia Vermelha ao assassinato do estudante Edson Luis Souto em manifestao estudantil em frente ao antigo restaurante do Calabouo. Mais um momento em que ela escreveu histria e dela participou corajosa e ativamente. Bombas de gs lacrimogneo no faltaram. Inclusive no cerco Igreja da Candelria na missa de stimo dia pelo jovem morto.

Em 92, tendo os cara pintadas frente, a UNE foi decisiva no repdio ao esquema PC Farias e no impeachment de Fernando Collor. Em 84, ela esteve firme no comcio monstro de um milho de pessoas pelo retorno das eleies presidenciais diretas. Toda esta bela presena hoje pertence ao passado. A UNE no protesta, no contesta mais. Aderiu. Deu adeus s armas. triste quando a juventude se conforma e adere ao poder. Que dizer?

UNE, QUE TRISTEZA, D ADEUS S ARMAS

Como no livro famoso de Ernest Hemingway, depois da morte do escritor transformado em filme, a Unio Nacional dos Estudantes, fundada em 1937 e dona de uma bela histria na luta pela liberdade e pela justia quem diria? d adeus s armas. Retira-se do palco difcil dos embates com o poder e adere tristemente ao governo. Beneficiada, ela nem tanto, mas provavelmente seus dirigentes, por um apoio financeiro fornecido pela Petrobrs, ela voltou s ruas, no mais para contestar, que era sua misso histrica, mas para aderir. Abriu mo de seu papel no pas. Entrou em conflito com a prpria juventude que a deveria inspirar, e inspirou sempre, ao longo de 72 anos. Entrou em conflito porque so inerentes mocidade o inconformismo e o protesto. Protesto e inconformismo que s vezes levam utopia. Mas o que seria da histria da luta pela liberdade e pela construo do futuro no fossem os romnticos e os utpicos.

A UNE, talvez sem o saber, era herdeira de Alexandre Dumas pai e de Vitor Hugo. Tinha o arrebatamento dos mosqueteiros e o tom inflamado do autor de Os Miserveis. Onde houvesse necessidade de protesto l estava ela. Espadachins do passado atravessando as ruas do presente na busca sempre de uma nova alvorada. Foi assim at o governo Lula. Agora no. Transformou-se numa agncia estatal de mobilizao. Pode a metamorfose ter representado uma derrota dos que se julgavam marxistas. Mas sua atitude presente assinala mais uma vitria da anlise marxista: atrs de tudo h sempre um fato, ou fator, econmico. A Unio Nacional dos Estudantes nasceu para o protesto e a contestao. Deixou este plano. Est ingressando na adeso. Ingressando? J ingressou. Lastimvel.

Fundada em agosto de 37, trs meses antes da ditadura varguista do estado novo, o episdio marcou sua primeira apario em cena. Lderes estudantis foram presos, agredidos, torturados, a ameaa era geral. Na Chefia da Polcia o temvel Filinto Muller, mais tarde senador pelo PSD de Mato Grosso. Tendo explodido a segunda guerra mundial em agosto de 39, na dcada de 40 comearam os covardes afundamentos de navios mercantes brasileiros pelos submarinos nazistas. Foram 22 os casos trgicos. Tambm em agosto, mas de 42, a UNE voltou s ruas realizando uma passeata pela declarao de guerra Alemanha de Hitler e Itlia de Mussolini. Filinto Muller no autorizou. A Une recorreu ao ministro da Justia interino, Vasco Leito da Cunha. Este autorizou. Filinto demitiu-se. Assumiu Coriolano de Ges. Vargas, no dia 22, declarou guerra Berlim e Roma e tambm ao Japo de Hiroito. O episdio, emocionante, fica para sempre.

Em 65, a UNE apoiou a pea Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes, contra a ditadura militar que havia derrubado o governo Goulart. Ela, o autor e os atores Paulo Autran, Oduvaldo Viana Filho, Teresa Rachel, a cantora Nara Leo, arriscaram-se. Houve srias ameaas. Em 68, organizou e sustentou a passeata dos cem mil nas ruas do Rio, que culminou com o comcio da Cinelndia, de repdio priso de estudantes na Praia Vermelha ao assassinato do estudante Edson Luis Souto em manifestao estudantil em frente ao antigo restaurante do Calabouo. Mais um momento em que ela escreveu histria e dela participou corajosa e ativamente. Bombas de gs lacrimogneo no faltaram. Inclusive no cerco Igreja da Candelria na missa de stimo dia pelo jovem morto. Em 92, tendo os cara pintadas frente, a UNE foi decisiva no repdio ao esquema PC Farias e no impeachment de Fernando Collor. Em 84, ela esteve firme no comcio monstro de um milho de pessoas pelo retorno das eleies presidenciais diretas. Toda esta bela presena hoje pertence ao passado. A UNE no protesta, no contesta mais. Aderiu. Deu adeus s armas. triste quando a juventude se conforma e adere ao poder. Que dizer?

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