Viso distorcida

General Luiz Gonzaga S. Lessa

estarrecedor como a nossa poltica exterior vem sendo conduzida de forma a procurar intrigar os negcios com a Colmbia e mesmo compromet-la a nvel continental, constrangendo-a na sua deciso soberana de ceder bases aos EUA com o objetivo de prosseguir no seu vitorioso combate s FARC e ao trfico de drogas. Estamos violando at mesmo um dos alicerces bsicos da nossa diplomacia: a no interferncia nos assuntos internos dos pases com os quais nos relacionamos.

A despeito da visita do Presidente Uribe ao pas dando as suas explicaes, parece que Lula e o seu ministro de relaes exteriores no se satisfizeram com as razes apresentadas, motivando-os a convocar uma extempornea reunio da UNASUL para tratar do assunto que, antes de resolver e aparar as diferenas, quase levou ao rompimento dos laos diplomticos entre Colmbia e Venezuela.

Totalmente fora da realidade do jogo poltico mundial, e de forma at presunosa, convidou-se( ou intimou-se?) o Presidente Obama para comparecer ao infausto frum para ouvir e dar explicaes.

No fundo, manifestamos novamente o nosso servilismo e a nossa incapacidade de resolver os problemas hemisfricos sem a presena do irmo do norte, que, de forma explcita, foi alijado de integrar a nascente UNASUL. A bem da verdade, no se sabe a que ela se destina, quando integrada por pases que guardam entre si marcantes diferenas ideolgicas e histricas rivalidades e antagonismos. Muito longe da unio o que se prega e se pratica a desunio.

Bem fez Obama em no comparecer ao evento de Bariloche e de Uribe impor condies para a sua presena, exigindo que no fossem tratados apenas os assuntos correlatos cesso de bases, mas, tambm, temas mais amplos de segurana continental envolvendo as FARC e os apoios a ela dados pela Venezuela e Equador, o trfico de armas, a abertura de portos venezuelanos aos navios de guerra russos e as manobras com eles realizadas e, at mesmo, as recentes iniciativas do rearmamento brasileiro.

Todos, assuntos muito pertinentes a um debate franco e leal no mbito da UNASUL. Querer, como Venezuela, Equador, Bolvia e at mesmo o Brasil pretendem, uma reverso do acordo Colmbia-EUA, alm de irrealista, uma evidncia de miopia diplomtica, que s o tnus ideolgico do nosso chanceler de fato, o Sr Marco Aurlio Garcia, pretende alimentar.

Enquanto estamos com as nossas atenes voltadas para a fronteira norte vemos o Itamaraty sendo paulatinamente superado pelas aes dos EUA no cone sul, rea das mais sensveis e do tradicional interesse e influncia brasileiros.

Notcias pouco divulgadas, diria at mesmo negadas imprensa, no despertam a ateno para o que l vem ocorrendo e deixam a nossa diplomacia em situao bastante embaraosa, para se dizer o menos.

medida que equacionam os seus grandes problemas no Oriente Mdio e definem as suas polticas para o Iraque e Afeganisto, os EUA voltam as atenes para a Amrica Latina, retomando as suas prioridades para o Cone Sul, onde, de h muito, procuram estabelecer relaes privilegiadas com a Argentina e o Paraguai, com uma projeo de poder que vai muito alm das preocupaes com a Trplice Fronteira.

O foco aparente dessa influncia tem levado os EUA a se tornar um ativo participante na soluo dos problemas que afetam a rea fronteiria Brasil-Argentina-Paraguai, levando-os a integrar, em 2002, como conseqncia dos atentados s torres gmeas de 11 de setembro de2001, o quase desconhecido acordo denominado “Mecanismo 3+1 de Segurana na Trplice Fronteira”.

Na prtica, essa integrao se traduziu como o nosso reconhecimento cabal de que naquela rea sensvel se desenvolviam atividades ligadas ao terrorismo internacional, promovidas pelo Hezbollah e Hamas, acusao de que at hoje no se afastaram os norte-americanos e que sempre foram negadas por ns brasileiros.

Esse problema se revestiu de tanta gravidade que a regio integrou uma lista de alvos para possvel bombardeio, alvos definidos pelo general da Fora Area Americana Charles Holland, a pedido do ento Secretrio de Defesa Donald Rumsfeld. Provavelmente, o bombardeio no se materializou porque os militares americanos disseram no possuir “inteligncia acionvel” nos alvos propostos.

Em 2006, o Itamaraty anuncia a criao e o funcionamento em agosto do mesmo ano do Centro Regional de Inteligncia(CRI) na Trplice Fronteira, em Foz do Iguau, parceria entre Brasil, Argentina, Paraguai e EUA, para combater “atos ilcitos” “por meio do aumento da cooperao entre os organismos de segurana pblica” dos referidos pases.

A posse de Barack Obama no aliviou as preocupaes dos EUA sobre a Trplice Fronteira. Denis Blair, Diretor Nacional de Inteligncia, em sua audincia no Senado Federal, em 12 de fevereiro de 2009, afirmou que o “Hesbollah tem h muito mantido a sua presena na regio….onde notria a presena de narcticos e trfego de armas”.

Embora admitindo alguns progressos, o Relatrio sobre Terrorismo, 2008, apresentado ao Senado dos EUA e publicado em abril do corrente ano, enfatiza que a corrupo, a falta de coordenao entre as diferentes organizaes, a baixa prioridade na alocao dos recursos e a ausncia de legislao apropriada comprometeram a adoo de eficientes medidas no combate ao terrorismo.

Em particular, reala que no Brasil a falta de leis que estabeleam claramente os crimes de terrorismo e de lavagem de dinheiro veem dificultando combat-los com eficincia e oportunidade.

Mas as aes dos EUA no Cone Sul vo muito alm das suas preocupaes com terroristas. No de hoje que buscam estreitar suas relaes com a Argentina e o Paraguai, ameaando a natural liderana brasileira na regio.

Em 2002, o presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, autorizou a entrada no pas de tropas de foras especiais, do Comando Sul dos EUA, para atuarem nas provncias de Salta e Misiones, fronteira com o Brasil, em manobra conjunta com o seu exrcito.

Interessante notar que a autorizao do congresso s foi concedida um ms e meio aps o efetivo desembarque dos militares americanos em solo argentino. Na poca, tanto o nosso Ministrio da Defesa como o Itamaraty evitaram comentar sobre os exerccios na fronteira.

Tradicionalmente, as relaes diplomticas entre o Paraguai e os EUA tm sido muito cordiais. Todavia, nos ltimos anos, os laos se estreitaram ainda mais, com a celebrao de acordos militares que no podem passar despercebidos pelo Brasil.

Durante o governo do presidente Alfredo Stroessner, com o apoio tcnico dos norte-americanos e mo-de-obra local, foi construda uma grande base area em Marechal Estigarrbia, no Chaco paraguaio, distante cerca de 200 km da fronteira boliviana, que, pela sua desproporo em relao fora area do pas, ainda hoje d margem a muitas especulaes.

A base permite a operao com grandes aeronaves, dispe de um complexo sistema de radar e de uma torre de controle, possui enormes hangares e pode alojar at 16000 homens nas suas instalaes. Sua pista maior do que a existente no aeroporto internacional de Assuno. Sua localizao, de alto valor estratgico, permite-lhe operaes contnuas ao longo de todo o ano pelas condies meteorolgicas favorveis, possibilitando-lhe conduzir aes em toda a Amrica do Sul e cobrir os eixos martimos do extremo sul do continente.

Nunca demais lembrar a sua proximidade da trplice fronteira, das grandes reservas de gs bolivianas e do imenso reservatrio de gua do Aqfero Guarani.

Em 2006, com a aprovao do senado e a convite do presidente Nicanor Duarte, 500 militares integrantes das foras especiais do exrcito americano, com avies, armamentos e munies desembarcaram em Marechal Estigarribia para, supostamente, realizarem operaes humanitrias e de ao cvico-social junto populao pobre da redondeza. s foras americanas foram concedidas imunidades, tanto face justia local quanto jurisdio da Corte Criminal Internacional.

Por mais que os fatos digam o contrrio, autoridades negam a existncia de base americana em solo paraguaio.

Altamente preocupantes so as evidncias da instalao de um Centro de Comando e Controle – C2 – na embaixada americana em Assuno, com a finalidade de colher e analisar informaes e se opor a qualquer atividade que ponha em risco a segurana dos EUA.

A instalao de tal centro revela a alta prioridade que os EUA, no momento, conferem ao Paraguai e se constitui em ameaa velada aos pases do cone sul, dada a incerteza das aes que dele podem se originar. Com ele, a lacuna de “inteligncia acionvel” deixa de existir. Difcil entender o mutismo da nossa diplomacia com to grave situao.

Mais recentemente, em abril do corrente ano, o deputado Eliot Engel, que preside o Sub-comit para a Amrica Latina e o Caribe, na Cmara dos Representantes dos EUA, apresentou um projeto de lei para incluir o Paraguai na lei de Preferncias Tarifrias Andinas e Erradicao de Drogas, que permitir ao pas exportar para os Estados Unidos livre de taxas.

Um duro golpe no Mercosul, aps todas as benesses que o Presidente Lula concedeu nas tratativas referentes s mudanas no Tratado de Itaipu. O deputado, referindo-se ao Presidente Lugo, ressaltou que ele “j um bom amigo e um importante aliado”. Mais uma vez,como fica a nossa diplomacia, ministro Celso Amorim?

Enquanto todas as atenes parecem voltadas para as bases americanas na Colmbia, onde so justas as nossas preocupaes face s ameaas potenciais que elas podem representar para a Amaznia brasileira, a despeito das declaraes de autoridades estadunidenses de que elas no sero utilizadas para conduzir operaes fora do territrio colombiano, os Estados Unidos da Amrica, silenciosamente, sem alarde, veem impondo uma slida e preocupante presena no Cone Sul, que rivaliza e tenta limitar a natural influncia brasileira sobre essa regio, historicamente, foco da mais alta prioridade da nossa diplomacia.

Com as bases ao norte e ao sul, fecha-se um perigoso arco de presso e influncia dos Estados Unidos sobre a Amrica do Sul, o que, at ento, eles no haviam logrado alcanar.

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