A força de uma amizade sincera, no relacionamento de Renato Teixeira e Dominguinhos

Dominguinhos InstrumentalPaulo Peres
Poemas & Canções

Com seu parceiro Renato Teixeira, o instrumentista, cantor e compositor pernambucano José Domingos de Morais (1941-2013), o saudoso Dominguinhos, retrata nesta letra o que significa uma “Amizade Sincera”. A música faz parte do CD Renato Teixeira no Auditório Ibirapuera, gravado em 2007.
AMIZADE SINCERA
Renato Teixeira e Dominguinhos
Amizade sincera é um santo remédio
É um abrigo seguro
É natural da amizade
O abraço, o aperto de mão, o sorriso
Por isso se for preciso
Conte comigo, amigo disponha
Lembre-se sempre que mesmo modesta
Minha casa será sempre sua
Amigo
Os verdadeiros amigos
Do peito, de fé
Os melhores amigos
Não trazem dentro da boca
Palavras fingidas ou falsas histórias
Sabem entender o silêncio
E manter a presença mesmo quando ausentes
Por isso mesmo apesar de tão raro
Não há nada melhor do que um grande amigo

A intensa saudade da pátria. numa visão poeticamente sintética de Menotti Del Picchia

http://2.bp.blogspot.com/-hAk2mRLCaz4/UPPzgSqyw7I/AAAAAAAAC9o/8skS4dlwsGM/s640/menotti+del+picchia2.jpgPaulo Peres Poemas & Canções

O jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, cronista, pintor, ensaísta e poeta paulista Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988) fala da “Saudade” de sua pátria, durante o seu exílio.

SAUDADE
Menotti Del Picchia

Saudade cheia de graça,
alegria em dor difusa,
doença da minha raça,
pranto que a guitarra lusa
em seu exílio verteu…

Ai quem sentir-te não há-de
se foi dentro da saudade
que a minha pátria nasceu.

As memórias do poeta, quando a chuva enfim chega no interior do Nordeste

Mauro Motta, grande poeta pernambucano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), membro da Academia Brasileira de Letras, no poema “Chuva de Vento”, mostra o que significava a chuva na sua infância no interior, na cidade de Nazaré da Mata.

CHUVA DE VENTO
Mauro Mota

De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.

Uma desesperada canção de amor que marcou a trajetória de Djavan

Djavan conseguiu desenvolver um estilo pessoal

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e produtor musical alagoano Djavan Caetano Viana revela na letra de “Álibi” o ser apaixonado e não correspondido, tal como ele gostaria que fosse, inclusive, já não se sacia com o sexo (força do beijo), mesmo que o sexo seja intenso, frequente e liberado (vadio). O apaixonado sofre (chora), mas nega a raiva que sente (mentira da ira), pelo desejo não satisfeito (não contraíra). O amor está no limiar da dor e vice-versa (por um triz).
O apaixonado tenta iludir-se e ao outro aparentando felicidade, usando a sua carência como justificativa (álibi) para essa vida sem sentido, a espera do outro que não se entrega. A música faz parte do LP Djavan Ao Vivo, lançado em 1999, pela Epic/Sony Music.
ÁLIBI
Djavan 
Havia mais que um desejo
A força do beijo
Por mais que vadia
Não sacia mais


Meus olhos lacrimejam teu corpo
Exposto à mentira do calor da ira
No afã de um desejo que não contraíra
No amor, a tortura está por um triz

Mas gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido inválido
Mesmo sem ter havido, havido

Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido inválido
Mesmo sem ter havido, havido

Havia mais que um desejo

Na poesia de Mário Quintana, a importância do “calor animal” apimentando o encontro com a amada

Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram, vamos ficando sozinhos uns dos outros.... Frase de Mario Quintana.Paulo Peres
Poemas & Canções

O tradutor, jornalista e poeta gaúcho Mário de Miranda Quintana (1906-1994), no poema “Bilhete com Endereço”, fala do querer, do amor e do desejo que ele quer daquela pessoa, ou seja, o calor animal dela.

BILHETE COM ENDEREÇO
Mário Quintana

Mas onde já se ouviu falar
Num amor à distância,
Num tele-amor?!
Num amor de longe…
Eu sonho é um amor pertinho
Um amor juntinho…
E, depois,
Esse calor humano é uma coisa
Que todos – até os executivos – têm.
É algo que acaba se perdendo no ar,
No vento
No frio que agora faz…
Escuta!
O que eu quero,
O que eu amo,
O que desejo em ti,
É o teu calor animal!

Um dilacerado poema de Mário de Andrade, sobre a esperança que se desfaz na solidão

Paulo Peres
Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945),  no poema “Canção”, retrata sua vivência com a solidão.

CANÇÃO
Mário de Andrade

….de árvores indevassáveis
De alma escura sem pássaros
Sem fonte matutina
Chão tramado de saudades
À eterna espera da brisa,
Sem carinhos …como me alegrarei?

Na solidão solitude
Na solidão entrei.

Era uma esperança alada,
Não foi hoje mas será amanhã,
Há de ter algum caminho
Raio de sol promessa olhar
As noites graves do amor
O luar a aurora o amor…que sei!

Não solidão, solitude,
Na solidão entrei
Na solidão perdi-me…

O agouro chegou. Estoura
No coração devastado
O riso da mãe-da-lua,
Não tive um dia! uma ilusão não tive!
Ternuras que não me viestes
Beijos que não me esperastes
Ombros de amigos fiéis
Nem uma flor apanhei.

Na solidão, solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me
Nunca me alegrar

Uma canção sob medida para homenagear as belíssimas paisagens de Lumiar, no RJ

Imagem relacionada

Lumiar é um dos recantos mais maravilhosos do país

Paulo Peres
Poemas & Canções

O administrador de empresa e poeta carioca Marcos Fernandes Monteiro, conhecido como Coquito, na letra de “Lumiar” fala de um vilarejo bucólico que pertence ao Município de Nova Friburgo (RJ), repleto de vida, diversão e um ótimo lugar para quem deseja somente descansar. A música “Lumiar” foi gravada por Johnny do Matto no CD Parcerias, em 2009, produção independente.

LUMIAR
Johnny do Matto e Coquito

Nada mais que rotina
Nada mais que colina
Nada mais verde no olhar
Nada mais simples do que Lumiar
Nada mais do que o barro
Amassado pelo pé
Que caminha léguas distantes

Nada mais do que a palha
que queima no cigarro
Mas sustenta o sonho adiante

Nada mais que um abrigo
Um recanto, um amigo
Gente na praça
Gente no Beco
Na travessa
Gente que peca
Mais que confessa

Tudo é muito sem pressa 
Onde o tempo se expressa 
Tudo apenas humano 
Meio Froidiano 
Mais muitos anos

Tudo na essência da terra
O milagre daquela serra

Um poema suplicante, em defesa da dignidade daqueles que são abandonados pela vida

E o inverno massacra os moradores de rua…

Paulo Peres
Poemas & Canções

A assistente social do Tribunal de Justiça (RJ), letrista e poeta Márcia Figueiredo Barroso, nascida em São Gonçalo (RJ), no poema “Fantasma Negro” retrata o cotidiano caótico dos moradores de rua, vítimas do desajuste social.

FANTASMA NEGRO
Márcia Barroso

A cara do sofrimento
Dorme ao relento
Nas ruas vazias
Vadias,
Repletas de nada
Nos Reflexos das luzes
Escuras…
Corpos que se agasalham
Nos trapos
Farrapos deixados pelos caminhos
Sujos
Abandonados
Invisíveis
Sofrem calados
Porque o choro silenciou
Na garganta seca
E o medo de tão intenso
Esqueceu de assustar…
A cara da fome
Mama nas tetas flácidas
Recostadas nas calçadas
Com as mãos abertas
Pedintes
Famintas
A barriga não ronca
Ela ruge
Exige
Mas não tem resposta
E troca
O pedaço de pão
Pela ilusão
Do crack
Ou qualquer outra droga
Que possa saciar
O desejo de se alimentar
De vida
De alívio
Da fome que nada sacia
E a barriga segue vazia
E qualquer farelo não basta
Pois o desejo de pão é ancestral
Animal
E pede, pede
Mas ninguém dá.
Então exige, ataca
E não acata,
Porque precisa saciar
Uma fome que não mata
Porque desacata
A ordem de seguir vivendo
Como um fantasma negro
Zumbi
Que mostra a existência nula,
Chula,
Inútil e resistente
Vivente…
A cara da solidão
Se esconde amedrontada
Teme ser reconhecida
Por quem a abandonou.
Cresceu só
E aprendeu que não tem par
Vive
Porque insiste
Suporta
Mas não sabe ser sozinho
E busca alguém para abraçar
Acalentar
Amar
E faz um filho
Para preencher o vazio
Desta inexistência
Viva
De não ser ninguém.

Uma desesperada canção de amor, na visão de quem sonha e jamais consegue despertar

Divulgação

Cristina Saraiva, cantora e compositora carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

A produtora, professora de história, cantora e compositora (letrista) carioca Cristina Gomes Saraiva confessa que vive “Sem Despertar”, tal qual um sonho calado que caminha pela noite procurando o seu amor.  A música “Sem Despertar” foi gravada na CD Primeiro Olhar (Cristina Saraiva & Parceiros), em 2002, produção independente.

SEM DESPERTAR
Simone Guimarães e Cristina Saraiva

Vejo o dia clarear
Por toda a noite eu caminhei
Nas beiras de mar
Rodei de cais em cais
Andei entre corais
Fui sem saber
Onde andava você

Deixe ao menos lhe dizer
Por esse tempo todo andei
Pensando em você
E ninguém mais me vê
Eu saí pra colher
A flor mais bela
Pra dar pra você

Como alguém sem passado
Sem nada para evitar
Me entreguei sem cuidado
Às tramas desse seu olhar

Como um sonho calado
Que insiste em não me deixar
Você vive ao meu lado
E eu vivo pra não despertar

Em poucas linhas, um poemeto de Manuel Bandeira mostra como a vida é fugaz,

Não quero amar, Não quero ser amado. Não quero combater, Não quero ser soldado. — Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples!... Frase de Manuel Bandeira.Paulo Peres
Poemas & Canções
O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1866-1968), conhecido como Manuel Bandeira,  em poucas linhas mostra como a vida é fugaz.
 
ANDORINHA
Manuel Bandeira
Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

“Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção…”

Fernando Brant e Milton Nascimento, num registro fotográfico de 1980. Parceria dos músicos rendeu canções como Travessia(foto: Arquivo Estado de Minas)

Milton e Brant, exemplo de uma amizade eterna

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de “Canção da América”, lembra o desejo de frátria, devido aos laços histórico/afetivos que unem os países americanos, em especial, os latino-americanos. Pelo potencial confraternizador que carrega, a canção tornou-se o hino de celebração das amizades, mormente, para retratar os encontros e as despedidas existentes em nossa vida.

Esta música foi gravada por Milton Nascimento, em 1980, no LP Sentinela, pela Ariola. E deve ser cantada sempre, como se fosse um hino do Dia do Amigo, que se comemora hoje, 20 de julho.

CANÇÃO DA AMÉRICA
Milton Nascimento e Fernando Brant

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

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DIA DO AMIGO
Paulo Peres

Não existe palavra
Que possa definir
O real significado,
A bênção Divina
E a felicidade infinita
De tê-lo como amigo.

Um impressionante auto-retrato de Manoel de Barros, o poeta inspirado pela beleza do Pantanal

Paulo Peres

Poemas & Canções

O advogado, fazendeiro e poeta mato-grossense Manoel Wenceslau Leite de Barros mostra-nos que a natureza é sua fonte de inspiração, o Pantanal é a sua poesia, uma vez que, para criar seus versos, ele parte de experiências vividas, transformando-as a partir da sua imaginação em poemas, entre os quais “Auto-Retrato Falado” merece destaque na sua obra literária.

AUTO-RETRATO FALADO
Manoel de Barros

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore. 

“Pensando em Ti”, um clássico inesquecível de Herivelto Martins e David Nasser

Herivelto Martins e David Nasser

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista, nascido em Jaú (SP), David Nasser (1917-1980), é autor de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Pensando em ti “, cuja letra, através de hipérboles, destaca uma paixão desmesurada. Este samba-canção foi gravado por Nelson Gonçalves, em 1957, pela RCA Victor. 
PENSANDO EM TI
Herivelto Martins e David Nasser


Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço,
É dia e noite
Pensando em ti

Eu vejo a vida
Pela luz dos olhos teus
Me deixe ao menos
Por favor pensar em Deus

Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que tento ler
Em cada frase tu estás

Nas orações que eu faço
Eu encontro os olhos teus
Me deixe ao menos
Por favor pensar em Deus

Uma desesperada canção de amor de Cláudio Nucci, para ser feliz o tempo inteiro

Cláudio Nucci, um compositor de talento

Paulo Peresc
Poemas & Canções

O produtor musical, cantor e compositor paulista Claudio José Moore Nucci, mais conhecido como Claudio Nucci, invoca que o “Amor Aventureiro” penetre seu coração sonhador e dele afaste a dor, porque deseja viver este amor todas as horas. A música faz parte do LP Claudio Nucci, lançado em 1981, pela Emi-Odeon/Emi Music.

AMOR AVENTUREIRO
Claudio Nucci

Amor aventureiro
Invade o meu coração sonhador
Leva pra longe a dor
Quero viver com você o tempo inteiro

Todos os dias replantar
Todas as noites acender
Todas as músicas que a voz pode cantar
Prosas e versos escrever
Cores e traços desenhar
Cacos de vida pra juntar no pensamento

Amor aventureiro
Invade o meu coração sonhador
Leva pra longe a dor
Quero viver com você o tempo inteiro

Todos os rios navegar
Todas as terras percorrer
Todas as mágicas que a mão pode fazer
Novos amigos encontrar
Outras histórias conhecer
Tantos motivos pra louvar cada momento

Um poema sobre a imagem triste das favelas, onde se defrontam sonhos e decepções

Rocinha: maior favela do país - Jornal O Globo

Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior favela do país

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, no poema “Olhando da Janela”, confessa que guardará no coração a imagem triste das favelas.

OLHANDO DA JANELA
Malú Mourão

Do alto da montanha se ostenta,
De um povo, a marca de uma vida,
Que na verdade em nada lhe contenta,
O vil poder que a muitos intimida.

Vejo a favela assim imperiosa,
Onde esconde sutil a incerteza,
De uma vivência às vezes duvidosa,
Que do morro faz parte da beleza.

Mas naquela hipotética comunidade,
Existem os sonhos e as decepções,
Que se misturam a cada realidade,
Mesclando de anseios as emoções.

Ali surgem incógnitas impetuosas,
Onde a vida arquitetada na carência,
Entrega-se confusa às teias laboriosas,
Do escárnio prepotente da violência.

E no compasso da eterna esperança,
A comunidade no seu pensar latente,
Deseja ter um viver de bonança
Onde a paz ilumine cada vivente.

Moradores da Rocinha, Sereno ou Fé,
Quitungo ou Complexo do Alemão,
Corôa , Caixa D’água ou Guaporé!…
Guardarei esta imagem no coração.

A incomparável beleza que se colhe na juventude iluminou a poesia de Machado de Assis

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. No poema “Flor da Mocidade”, o poeta exalta a beleza que se colhe na juventude, com a mais bela flor que existe.

FLOR DA MOCIDADE
Machado de Assis

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Na seca do Nordeste, as vidas desencontradas que insistem em procurar um caminho para sobreviver

cd Cambada Mineira2Paulo Peres
Poemas & Canções
Os poetas cariocas Marcelo Pacheco e Chico Pereira, junto com o parceiro e cantor Amarildo Silva, retratam na letra da música “Nordeste” as vidas desencontradas que a seca impõe ao nordestino em sua busca, cotidiana, pela sobrevivência e esperança por dias melhores. A música foi gravada pelo grupo Cambada Mineira, em 2000, no CD Cambada Mineira 2, produção independente.


NORDESTE

Amarildo Silva, Marcelo Pacheco e Chico Pereira

Vidas desencontradas
Nesse sol errante
Desfilam em debandadas
Essa gente caminhante
Que reza o ano inteiro pra chover
Abandonados não sei por que
E ainda assim cantam sem saber
Certamente comem não sei o quê
E ainda insistem em sobreviver
Nessa terra ardente
Nesse céu distante do nosso olhar
Sua chuva nunca vem nos molhar
Pra fazer brotar
Vidas, flores, ribeirão
Seus meninos são o limo desse chão
São mel de fruteira, flor de algodão
Que cisma em crescer
Nessa senzala a céu aberto
Nessa fornalha, nesse deserto
Mas esse sertão é um grande país
E suas mulheres serão felizes
Pois ainda sonham, será por que?
Essa gente ainda busca querer
Um caminho, um caminho

O amor da plenitude, que só chega quando se atinge a maturidade, na visão de Lya Luft

Com as perdas, só há um jeito: perdê-las. Com os ganhos, o proveito é saborear cada um como uma boa fruta de estação.... Frase de Lya Luft.Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora aposentada, escritora, tradutora e poeta gaúcha Lya Fett Luft, no poema “Canção da Plenitude”, admite não ter mais a beleza de uma adolescente, mas pode oferecer ao seu amor todo os atrativos que a sabedoria da maturidade lhe proporcionou.

CANÇÃO DA PLENITUDE
Lya Luft

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.           

Quando um poema encontra outro poema, no livro Entre-Textos, de Luiz Otávio Oliani

Um livro de poemas, com 41 autores

Paulo Peres
Poemas & Canções

O bacharel em Letras e Direito e poeta carioca Luiz Otávio Oliani teve a ideia de reunir diálogos com poetas brasileiros contemporâneos, divulgando-os nas redes sociais. Esses poemas foram inicialmente publicados no seu mural do Facebook e depois migraram para o livro impresso “Entre-textos”, lançado pela Editora Vidráguas, de Porto Alegre, em 2013, uma publicação de 41 diálogos, ou seja, para cada poema Luiz Otávio responde com outro poema, um desafio chamado: o avesso do verso (reverso). 

Em um desses diálogos, Luiz Otávio Oliani, através o poema “Cotidiano” responde ao poema “Covardia”, da ativista cultural, professora, escritora e poeta carioca Teresa Drummond.

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COVARDIA
Teresa Drummond

Cristo cruza os braços
Visto que os filhos fogem da luta
Desço a bandeira do mastro
Enquanto estrelas vestem o luto…

Ó filhos da pátria:
Ó filhos…

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COTIDIANO
Luiz Otávio Oliani

Há vísceras
em todos os lugares

Quem se indigna
diante de quem sangra?

Qual o mistério que há na dor de uma paixão?, indagavam Catulo e Pedro de Alcântara

Cantores iluminam obra lírica de Catulo da Paixão Cearense em CD derivado de show

Ilustração de Elifas Andreato

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) e seu parceiro Pedro de Alcântara, na letra de “Ontem ao Luar”, tentam explicar através de uma lágrima o que é a dor de uma paixão. A música foi gravada por Vicente Celestino, em 1917, pela Odeon.

ONTEM AO LUAR

Pedro de Alcântara e Catulo da Paixão Cearense

Ontem, ao luar, nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão.
Nada respondi, calmo assim fiquei
Mas, fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei
Mostrando-a ti, dos olhos meus correr senti
Uma nívea lágrima e, assim, te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer
De ver a lágrima nos olhos a sofrer

A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que eu só sei sentir
É mister sofrer para se saber
O que no peito o coração não quer dizer
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta, ao luar, do mar à canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão

Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor
O amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe um monte á beira mar, ao luar
Ouve a onda sobre a areia a lacrimar
Ouve o silêncio a falar na solidão
De um calado coração
A penar, a derramar os prantos seus
Ouve o choro perenal
A dor silente, universal
E a dor maior, que é a dor de Deus