
Charge de Fred Ozanan (Instagram)
Míriam Leitão
O Globo
O mercado está dividido em relação à instalação de uma CPI para investigar o caso do Banco Master. De um lado, há os que avaliam que seria positivo trazer todos os fatos à tona de uma vez, separar o joio do trigo. De outro, estão os que temem que o uso político da comissão gere ainda mais instabilidade e acabe prejudicando os negócios.
Há, sobretudo, o receio de que a CPI produza algum tipo de direcionamento que enfraqueça a independência do Banco Central e da política monetária — cenário considerado o mais negativo possível. Por enquanto, ninguém quer se manifestar abertamente, por se tratar de um tema sensível. Um analista de mercado afirma que existe uma certa “curiosidade” sobre até que ponto a CPI poderia ser positiva ou negativa. Uma depuração do sistema, diz ele, é sempre bem-vinda.
“PRODUTEIROS” – Outra fonte, de uma corretora, avalia que o sistema financeiro poderia até sair fortalecido de uma investigação aprofundada, ao diferenciar os chamados “produteiros” — como são conhecidos no mercado os assessores focados apenas na rentabilidade dos papéis, sobretudo em benefício próprio — daqueles que efetivamente trabalham com foco no cliente, analisando não apenas a taxa de retorno, mas também o risco do negócio. No caso do Master, lembra a fonte, o banco chegou a pagar o dobro da comissão a quem recomendava seus produtos.
Um terceiro analista afirma que quem age de boa-fé e com bom senso não pode ser contra a investigação do caso. O problema, ressalta, é que muitas vezes os fatos não são esclarecidos em CPIs, que acabam se transformando em arenas de disputa política. Na avaliação dele, o mercado já começa a precificar esse desgaste, o que pode ser observado em uma leve alta dos juros futuros à medida que a discussão se intensifica.
Acordo para salvar Toffoli não o salvará e pegou mal para o STF
Tudo indica que não foi por pressão dos colegas que Toffoli abdicou da relatoria do Caso Master no STF, mas sim porque concluiu que seria o melhor a fazer.
Afinal, sete deles o apoiavam e apenas dois (Edson Fachin, presidente do tribunal, e Cármen Lúcia), aparentemente não.
Então, quando o ministro Flávio Dino sugeriu que se divulgasse uma nota, assinada por todos, dizendo que apoiavam Toffoli e que não haveria suspeição nem impedimento dele, Toffoli admitiu deixar a relatoria do caso:
“Eu sei que a imprensa vai divulgar que eu fui retirado do processo. Eu preferia que fosse diferente, mas se for a decisão hoje para parar hoje… é melhor e eu aceito”.
Foram mais de três horas de reunião. Dois ministros participaram dela virtualmente – Luiz Fux no Rio, André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, em São Paulo.
Era para ser secreta, secretíssima. Mas há consenso no Supremo de que ela foi gravada por um dos presentes. Toffoli é o suspeito. Ele nega.
O site Poder 360 publicou trechos das falas dos ministros, todas favoráveis a Toffoli. Seguem algumas:
– Gilmar Mendes – Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a PF quis revidar.
– Luiz Fux – O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo.
– Nunes Marques – Para mim, isso é um nada jurídico. […] Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil.
– André Mendonça – Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli [com o presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro]. Isso não existe. Está aqui claro que não existe relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa. Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado.
– Cristiano Zanin – Sou há 1 ano e meio relator de um caso que envolve 3 ministros do Superior Tribunal de Justiça, e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares. Isso aqui tudo é nulo.
– Flávio Dino – Essas 200 páginas [do relatório da Polícia Federal] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira.
E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, senhor presidente, que o senhor deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência.
– O ministro Alexandre de Moraes não teve falas literais publicadas, mas aparece como um duro crítico da Polícia Federal, que entregou ao presidente do tribunal o relatório que incrimina Toffoli.
Outras falas literais de ministros:
– André Mendonça – E a questão de eventos [dos quais Toffoli participou], se for considerada, todos nós somos suspeitos de tudo. […] Pode acontecer com qualquer um de nós [a investida da Polícia Federal]. Quero saber se vão dar esse tratamento para mim.
Os eventos aos quais Mendonça se referiu, parte deles foram patrocinados pelo Master.
– Flávio Dino – Eu já disse para o meu amigo e irmão Dias Toffoli: veja que já tem maioria. Mas não vai ser unânime. Mas o ministro Dias Toffoli tem voto para continuar. […] Em qualquer outro pedido de arguição [de ministro] eu sou STF futebol clube.
Toffoli também disse na sua exposição que seria a favor de um código de ética para o Supremo se todos os ministros estivessem de acordo em divulgar as suas declarações de IR, o IR de suas empresas e dos seus familiares ascendentes, descendentes e colaterais até o 2º grau e afins.
Gilmar o aparteou:
– “Nós não estamos aqui para discutir Código de Ética”.
Como se vê, os ministros não estavam ali para examinar os achados da Polícia Federal contra Toffoli, mas para defendê-lo, se defenderem por tabela, e criticar a Polícia Federal. Ficaram mal na foto – isto é:
– Na gravação. Quem gravou cometeu um crime que deveria ser investigado. Por que não chamam a Polícia Federal?
Os advogados do Master salivam à espera do momento ideal para pedir a anulação do processo. Muitos deles atuaram na Lava-Jato.
Metrópoles, Opinião, 14/02/2026 05:30 Por Ricardo Noblat
Perdoem a extensão, mas é pela melhor compreensão.
Os ministros do STF vão anular a investigação sobre Toffoli feita pela PF?
Do advogado e professor Davi Tangerino, sobre a reunião dos dez ministros do STF que selou a saída de Dias Toffoli da relatoria do Caso Master:
— As críticas à PF feitas pelos ministros dão a chave: VÃO ANULAR A INVESTIGAÇÃO SOBRE DIAS TOFFOLI.
O Globo, Opinião, 14/02/2026 10h22 Por Lauro Jardim