Na poesia de Pedro Nava, um noturno de Chopin na calma da noite de Belo Horizonte

Letras in.verso e re.verso - [Raridades] Um conjunto de documentos  considerado secretos sobre a vida de Pedro Nava, mais de trinta anos depois  de sua morte, está agora aberto à consulta dos

Pedro Nava tinha saudades de Belo Horizonte

Paulo Peres
Poemas & Canções

O médico, escritor, memorialista e poeta mineiro Pedro da Silva Nava (1903-1984), no poema “Noturno de Chopin”, descortina o sentimento pelo  seu grande amor.

NOTURNO DE CHOPIN
Pedro Nava

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim…
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim…

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor…
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor…)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

O ritmo eterno do talento de Pedro Kilkerry, que uniu prosa e verso, com grande sucesso

TRIBUNA DA INTERNET | O simbolismo na poesia de Pedro KilkerryPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Pedro Militão Kilkerry (1885-1917), no soneto “Ritmo Eterno”, faz a vida falar da vida. Em 1906, Kilkerry se juntou ao grupo literário baiano Nova Cruzada e começou a publicar seus primeiros poemas na revista homônima. Em 1913, o poeta se forma em ciências jurídicas e sociais na Faculdade de Direito da Bahia, no mesmo ano em que passa editar as crônicas Quotidianas – Kodaks no Jornal Moderno e lança mão pela primeira vez do poema em prosa. Kilkerry ainda colaborou com poemas e artigos em periódicos de Salvador e começa a escrever em verso livre em seus últimos anos.

RITMO ETERNO
Pedro Kilkerry

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha… Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo…

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar…
Alvor, turquesa, ondula a matéria… É veludo,

É minh’alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!

“Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho”, dizia Cândido das Neves, o genial compositor

Cândido Das Neves | Discografia | Discogs

Cãndido das Neves, talento e elegância

Paulo Peres
Poemas & Canções

O carioca Cândido das Neves (1899-1934), apelidado de “Índio”, era compositor, cantor e instrumentista. “Noite Cheia de Estrelas”, gravada em 1932 na RCA Victor por Vicente Celestino, mostra as suas características na arte de compor: letras sempre muito extensas, cantavam a natureza de uma forma romântica.

NOITE CHEIA DE ESTRELAS
Cândido das Neves

Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor…
Só tu dormes, não escutas
O teu cantor.
Revelando à lua airosa
A história dolorosa desse amor…

Lua!
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada!
Quero matar meus desejos!..
Sufocá-la com os meus beijos…

Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo…
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim,
Pois ao ver que quem te chama sou eu
E entre a neblina se escondeu…

Lá no alto a lua esquiva…
Está no céu tão pensativa,
As estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar,
Todo o astral ficou silente
Para escutar:
O teu nome entre as endeixas
A dolorosas queixas
Ao luar.

Um poema desesperado, que exibe os grandes dramas que os brasileiros sofrem

A miséria do Brasil | Editorial | A Crítica | Amazônia - Amazonas - Manaus

A desigualdade social no Brasil chega a ser mesmo chocante

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor e poeta Paulo Reis, nascido em Bom Jardim (RJ), sempre dedicado à defesa do meio ambiente e à luta contra as desigualdades sociais, há anos já traçava um retrato do “Brasil” atual, sem sofismas e sem falácias.

BRASIL
Paulo Reis

Brasil
Rico com os pés descalços
Rosto marcado sem maquiagem
Sorriso desdentado
Agrícola de barriga vazia
Sujo com grandes mananciais
Berço da corrupção
Hábitat da impunidade
De famílias sem teto
Da habilidade
Que faz emergir da escuridão grandes estrelas
Da liberdade sem asas
Gigante dominado
De gente grande com pequenos ideais
De braços abertos
Mas não acolhe com dignidade os seus filhos
Miserável com conta na Suíça
Miscigenado com preconceito
Do povo que canta, mas não tem voz
Dos analfabetos de tantas culturas
Dos poderosos sem lei
Que comemora com festas o sofrimento
Que deixa morrer o seu futuro
Que é surpreendido enquanto dorme
Que sonha acordado
Um dia vê-lo orgulhar

“O instante é tudo para mim”, dizia o poeta Paulo Mendes Campos, no soneto “Tempo e Eternidade”

TRIBUNA DA INTERNET | Três coisas que o poeta Paulo Mendes Campos não  conseguia entenderPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor e poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) explica que o instante é tudo, no soneto “Tempo e Eternidade”.

TEMPO E ETERNIDADE
Paulo Mendes Campos

O instante é tudo para mim que ausente
Do segredo que os dias encadeia
Me abismo na canção que pastoreia
As infinitas nuvens do presente.

Pobre do tempo, fico transparente
À luz desta canção que me rodeia
Como se a carne se fizesse alheia
À nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
E a minha eternidade uma bandeira
Aberta em céu azul de solidões.

Sem margens, sem destino, sem história
O tempo que se esvai é minha glória
E o susto de minh’alma sem razões.

Uma tentativa de encontrar a si mesmo e descobrir como viver, na visão de Candeia

Candeia | Sambista, Poesia, AcademiaPaulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Antônio Candeia Filho (1935-1978), na letra de “Preciso Me Encontrar”, descreve a tentativa de uma pessoa mergulhar no seu íntimo para se descobrir. A música foi gravada no LP Cartola, em 1976, pela Discos Marcos Pereira.

PRECISO ME ENCONTRAR
Candeia

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar…

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver…

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar…

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar…

A sabedoria poética de Paulo Leminski, sempre revolucionário, criativo e surpreendente

Paulo Leminski. Os melhores poemas de Paulo Leminski - Mundo EducaçãoPaulo Peres Poemas & Canções

O crítico literário, tradutor, professor, escritor e poeta paranaense Paulo Leminski Filho (1944-1989) expressa no poema “Objeto Sujeito” tudo quanto nunca saberemos.

50 frases de Paulo Leminski que valem a pena conhecer

Paulo Leminski marcou uma época

OBJETO SUJEITO
Paulo Leminski

Você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

Você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

Você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra Pasárgada
Xanadu ou Shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olhe lá

O eterno drama dos flagelados da seca, na visão poética e realista de Patativa do Assaré

Imagem analisada visualmentePaulo Peres
Poemas & Canções

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme podemos perceber no poema “Dois Quadros”, que mostra o cotidiano do nordestino em busca de melhores condições de vida.

DOIS QUADROS
Patativa do Assaré

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

“Dentro de mim mora um anjo”, uma canção de amor que traz verdades infinitas

Cacaso » Recanto do Poeta

Cacaso, um poeta e compositor verdadeiramente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, poeta e letrista mineiro Antônio Carlos de Brito (1944-1987), conhecido como Cacaso, nos versos de “Dentro de mim mora um anjo”, em parceria com Sueli Costa, revela que existe um sujeito, uma máscara como artifício de sobrevivência, entre aquilo que ele canta e aquilo que lhe passa por dentro. A música “Dentro de mim mora um anjo” foi gravada pela primeira vez para ser incluída na trilha sonora da novela Bravo, em 1975, da TV Globo, com a participação de Sueli Costa e, mais tarde, regravada com grande sucesso por Fafá de Balém.

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO
Sueli Costa e Cacaso

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
Dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro.

Um poético verbo irregular, criado pela genialidade revolucionária de Oswald de Andrade

Retrato de Oswald de Andrade | Enciclopédia Itaú Cultural

Oswald de Andrade, retratado por Tarsila do Amaral

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, escritor, ensaísta, dramaturgo e poeta paulista José Oswald de Souza Andrade (1890-1954) foi um dos principais articuladores do movimento modernista literário e da célebre Semana de Arte Moderna, marco divisório na história das artes brasileiras, realizada em São Paulo, em 1922. A rebeldia de Oswald o levava a querer muito mais do que simplesmente revolucionar forma e conteúdo da criação artística. O que ele queria mesmo era uma revolução que transformasse a vida social dos brasileiros, suas instituições e costumes. Oswald de Andrade inventou o verbo crackar, baseado no crack da Bolsa de Nova York em 1929, porque, segundo ele, a poesia também existe para denunciar as injustiças sociais e, neste sentido,  sua rebeldia criou um verbo irregular.

VERBO  CRACKAR
Oswald de Andrade

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa.

Sê pirata
Sede trouxas

Abrindo o pala
Pessoal sarado

Oxalá eu tivesse sabido que esse verbo era irregular.

Um poema irônico de Olegário Mariano, sobre a mulher astuta que aturava três amantes

Olegário Mariano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, político e poeta pernambucano Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958), imortal da Academia Brasileira de Letras, num soneto bem-humorado, afirma ter uma mulher amado “Os Três Reis Magros”, ou seja, três peraltas, cada qual pior, na opinião de Mariano, que era primo de outro grande poeta, Manuel Bandeira.

OS TRÊS REIS MAGROS
Olegário Mariano

Amas a três peraltas. Dividida
tua alma é deles. Cada qual pior.
Andam-se engalfinhando toda a vida…
Gaspar e Baltasar e Melchior.

Este joga foot-ball. É um rei do sport,
difícil de levar-se de vencida.
Aquele tem uma barata Ford.
E o outro é um bate-calçadas da Avenida.

Isso é um nunca acabar! De luta em luta,
de mentira em mentira, esperta e astuta,
vais a vida levando…Mas bem vês:

tornas teus dias cada vez mais agros
e, dando o coração aos três reis magros,
ficas mais magra do que todos três.

Toda a riqueza musical do Brasil, enfim reunida num samba da melhor qualidade

Bira da Vila | SpotifyPaulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e percussionista Ubirajara Silva de Souza nasceu no Bairro Vila São Luiz, Duque de Caxias (RJ), razão pela qual adotou o nome artístico de Bira da Vila. Em parceria com Serginho Meriti, ele aborda os diversos estilos populares da música brasileira na letra de “O Daqui, o Dali e o de Lá”. Este samba foi gravado por Bira da Vila no CD Canto da Baixada, em 2010, produção independente.

O DAQUI, O DALI E O DE LÁ
Serginho Meriti e Bira da Vila

É preciso mexer, misturar
O daqui, o dali e o de lá
Pois o nosso tempero tem samba, tem xote
Tem frevo e bolada, balada e jexá
Bota a banda pra tocar
Que o povo vai curtir, a galera vai gostar
Nossa gente é isso aí
Vai, vai…

No embalo do maracatu
Vaquejada, jambo, caxambú
Carimbó, sertanejo, merengue, lambada
Forró pé de serra, côco, boi bumbá
Xaxado, calango, reisado e axé
Toca aí que a gente diz no pé
Toca aí que a gente diz no pé

Toca um bom samba de enredo
O samba de roda, pagode e baião
Toca de tudo que toca em nosso coração
Um coração verde e branco, azul, amarelo
É canto, é dança, é ritmo
Elo, firmando a corrente da nossa nação

Toca quadrilha, congada
Fandango, lundu e saravacuê
Bumba meu boi, caiapó, toca maculelê
Cateretê, moçambique, quilombo
Bigada, caboclinho lambe, surge o marujada
Muita timbalada e o tererê.

“Nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir”, dizia o grande compositor Antonio Maria

Antonio Maria Filho/Arquivo Pessoal

Antonio Maria morreu cedo, mas deixou uma grande obra

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria Araújo de Morais (1921-1964), em parceria com o cantor e compositor paraense Ismael de Araújo Silva Netto (1925-1956), escreveu um clássico do repertório da MPB: “Canção da Volta”, que retrata o arrependimento de alguém por seguir às ordens do seu coração. Este samba-canção foi gravado por Dolores Duran, em 1954, pela Copacabana.

CANÇÃO DA VOLTA
Ismael Netto e Antonio Maria

Nunca mais vou fazer
O que o meu coração pedir
Nunca mais vou ouvir
O que o meu coração mandar
O coração fala muito
E não sabe ajudar

Sem refletir
Qualquer um vai errar, penar,
Eu fiz mal em fugir
Eu fiz mal em sair
Do que eu tinha em você
E errei em dizer
Que não voltava mais
Nunca mais

Hoje eu volto vencida
A pedir pra ficar aqui
Meu lugar é aqui
Faz de conta que eu não saí

É preciso saber envelhecer como as velhas árvores que nos protegem, dizia Olavo Bilac

Os livros não matam a fome, não... Olavo Bilac. - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta carioca Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), no soneto “Velhas Árvores”, transforma no crescimento das árvores em uma emocionante lição de vida.

VELHAS ÁRVORES
Olavo Bilac

Olha estas velhas árvores, — mais belas
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

“Nasci para não nascer”, diz o poeta Murilo Mendes, expoente do movimento modernista

8 melhor ideia de murilo mendes | murilo mendes poemas, o que é filosofia,  citaçõesPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, notário e poeta mineiro Murilo Monteiro Mendes (1901-1975),  fez parte do Segundo Tempo Modernista. Recebeu o Prêmio Graça Aranha com seu primeiro livro “Poemas”. Participou do Movimento Antropofágico, que buscava uma vinculação com as origens do Brasil. Expoente do surrealismo, em seu “Poema Chicote” ele joga com a dualidade “nascer para não nascer”. 

POEMA CHICOTE
Murilo Mendes

Eis o tabuleiro do abismo
Com esfinge, quimeras e grifo.

O céu debruado em ódio
Mostra o peito de arlequim.

Eternidade madrasta,
Meu pensamento me queima
Terrível. Já estou com medo
De avançar para mim mesmo.

Nada existe sem amor.

Esposa que te negaste,
É tarde! em torno de mim
O mito rói a realidade
Cortinas negras abafam
Meu invicto coração.
Ó Deus como tardas a vir
Nas asas do teu enigma!

Nasci para não nascer.

“Jequitinhonha” — uma canção premiada, que teve como inspiração a obra de Guimarães Rosa

Canta Minas” – Amarildo Silva com participações especiais de Márcio Borges, Banda Tempos e Cambada Mineira - Agendamus

Amarildo Silva, cantor e compositor mineiro

Carlos Newton

O advogado. analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), jornalista, poeta, compositor e letrista carioca Paulo Roberto Peres, , inspirou-se na obra de Guimarães Rosa para fazer a letra de “Jequitinhonha”, música gravada por Amarildo Silva no CD Virgem Sertão Roseano, em 2003, produção independente. A música “Jequitinhonha” foi regravada pelo Grupo Cambada Mineira no CD Meu Recado, em 2006, com participação da cantora, compositora e instrumentista Simone Guimarães, pela Gravadora Rob Digital. Este CD obteve o 3º Lugar no “Prêmio Jazz + Melhores de 2006″.

JEQUITINHONHA
Amarildo Silva e Paulo Peres

Jequitinhonha
Voz na história
Prosa risonha
Luz e vitória
Banindo miséria
No chão do sertão

No Palco vida
Cotidiano
Surge atrevida
A primavera
Beleza da terra
Sonho desse chão

Que um dia foi mar
Mas virou sertão
Veredas sem fim
Memória arar
Futuro na mão
Fartura enfim

Parte do sertão
Tinha como meta
O bem comum
Parte do sertão
Vive tão discreta
Lugar nenhum

Eu sou o filho de um camponês
Cuja sina à terra fez
Plantar arroz, milho e feijão
E dividir com o meu irmão
E dividir com o meu irmão
Esta Bandeira da “Fome Não”
Que é raça, é luta e é valentia,
Fonte de toda sabedoria

As múltiplas faces da liberdade, belas e trágicas, na visão poética de Moacyr Felix

Moacyr Felix (BR 1926-03-11) Poemas selecionados

Moacyr Felix, um poeta do seu tempo

Paulo Peres
Poemas & Canções

 O editor, escritor e poeta carioca Moacyr Félix de Oliveira (1926-2005) marcou o seu tempo, com a veemência e a clarividência de um intelectual comprometido, engajado nas lutas ideológicas e literárias da segunda metade do século passado. Advogado, fez estudos de filosofia em Paris com os mestres Merleau-Ponty e Bachelard, foi editor de revistas, organizou os célebres volumes da serie Violão de Rua, interrompida pelos militares, foi editor de poesia na editora Civilização Brasileira, etc, etc, etc., no Rio de Janeiro, onde nasceu.  Sua voz chegou até à espaçonave Myr, em órbita terrestre, homenageando Gagarin, o primeiro astronauta, em português, com tradução simultânea em russo. Neste poema, Félix responde, liricamente, a um questionamento do seu filho sobre a liberdade?”.

MEU PAI, O QUE É LIBERDADE?
Moacyr Félix

– Meu pai, o que é a liberdade?

– É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

– Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
– laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

– Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

– Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
– a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida…
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.

Sonhos e esperanças dos boias-frias, na ácida visão crítica de João Bosco e Aldir Blanc

Aldir Blanc e João Bosco: clássicos da MPB e separação histórica marcaram  parceria - Jornal O Globo

João Bosco e Aldir Blanc, numa parceria inesquecível

Paulo Peres
Poemas & Canções

O psiquiatra, escritor e compositor carioca Aldir Blanc Mendes (1946-2020), na letra de “O Rancho da Goiabada”, em parceria com João Bosco, mostra que os boias-frias, apesar de enfrentarem um trabalho pesado durante a semana, em seus momentos de folga, através da bebida, transformam suas tristezas em sonhos. A música faz parte do LP Tranversal do Tempo, gravado por Elis Regina, em 1978, pela Philips.

O RANCHO DA GOIABADA
João Bosco e Aldir Blanc

Os boias-frias quando tomam umas biritas
Espantando a tristeza
Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita
E a sobremesa
É goiabada cascão com muito queijo

Depois café, cigarro e um beijo
De uma mulata chamada Leonor ou Dagmar
Amar
O rádio de pilha, o fogão jacaré, a marmita, o domingo
O bar
Onde tantos iguais se reúnem e contando mentiras
Pra poder suportar

Ai, são pais-de-santo, paus-de-araras, são passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados
Dançando dormindo de olhos abertos à sombra da alegoria
Dos faraós embalsamados

Em matéria de dor de cotovelo, ninguém jamais poderá se comparar a Lupicínio Rodrigues

Terceiro painel da série traz Lupi Rodrigues | Por amor a Porto AlegrePaulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor gaúcho Alcides Gonçalves (1908-1987), em parceria com  o mestre Lupicínio Rodrigues, na letra de “Cadeira Vazia”, conta a estória da vítima da mulher traidora, volúvel, sempre disposta à traição, mas que, ao voltar arrependida, encontra pelo menos compaixão, uma vez que perdoá-la é impossível. Este samba-canção foi gravado por Francisco Alves, em 1950, pela Odeon.

CADEIRA VAZIA
Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves

Entra meu amor fique a vontade
E diz com sinceridade o que desejas de mim
Entra podes entrar a casa é tua
Já que cansaste de viver na rua
E os teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas tristes
Que não gosto de lembrar esse dia
Mas de uma coisa pode ter certeza
Teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia

Tu es a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que eu sou o teu paizinho
Que há tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu

Voltaste estás bem, estou contente
Só me encontraste um pouco diferente

Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar podes comer meu pão

Menotti Del Picchia, um poeta de alma errante, que vivia a saborear maravilhas passageiras

MENOTTI DEL PICCHIA – FRASES – Pão de Canela e ProsaPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, cronista, pintor, ensaísta e poeta paulista Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988) possuía uma alma errante e, consequentemente, sentia um estranho prazer em tudo que tem pouca duração.

CANÇÃO DO MEU SONHO ERRANTE
Menotti Del Picchia

Eu tenho a alma errante
e vago na terra a sonhar maravilhas…

Não paro um momento!
Eu busco irrequieto o meu sonho inconstante
e sou como as asas, as velas, as quilhas,
as nuvens, o vento…

Eu sou como as coisas inquietas: o veio
que canta na leira: a fumaça que voa
na espira que sobe das achas; o anseio
dos longos coqueiros esguios;
a esteira de prata que deixa uma proa
no espelho dos rios.

Eu tenho a alma errante…

Boêmio, o meu sonho procura a carícia
fugace, procura
a glória mendaz e preclara.
Sou como a vela fenícia
ao largo, uma vela distante…

Eu tenho a alma errante….

E me sinto uma estranha delícia
em tudo que passa e não dura,
em tudo que foge e não para…