Lideranças do agro veem erro de Flávio na crise do tarifaço dos EUA

Flávio perde espaço ao priorizar embates ideológicos

Letícia Pille
O Globo

Lideranças do agronegócio têm feito críticas reservadas à estratégia adotada pelo pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), durante a crise comercial com os Estados Unidos e avaliam que o senador vem perdendo espaço junto a um dos setores historicamente mais alinhados ao bolsonarismo ao priorizar embates ideológicos em detrimento de pautas consideradas prioritárias para o campo.

Empresários e representantes do setor ouvidos pelo O Globo afirmam que a viagem de Flávio a Washington para participar da audiência sobre o tarifaço foi “contraproducente” e cobram maior atuação em temas como a renegociação das dívidas rurais.

FORA DA TARIFA – As críticas ocorrem mesmo após a decisão do governo americano de deixar fora da tarifa de 25% uma série de produtos importantes para o agronegócio brasileiro, como carne bovina, pescados, café e alguns segmentos da madeira, o que reduziu o impacto imediato da medida sobre boa parte do setor.

Para integrantes do agro, porém, o episódio evidenciou mais uma oportunidade perdida por Flávio de assumir a liderança de uma agenda econômica cara ao seu eleitorado do que propriamente uma derrota comercial. A principal crítica é que, mesmo ocupando uma cadeira no Senado, Flávio pouco atuou em pautas consideradas prioritárias para o setor, como a renegociação das dívidas rurais, tema que mobiliza produtores e parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Outro ponto que provocou incômodo foi o discurso adotado pelo senador aos Estados Unidos para participar da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação comercial que embasou o tarifaço.

ALINHAMENTO COM TRUMP – A avaliação de empresários ligados ao agro é que a iniciativa misturou política com uma discussão essencialmente comercial e tinha poucas chances de alterar uma decisão que seria tomada com base nos interesses econômicos americanos. Ainda, dizem, a viagem também expôs Flávio ao risco de voltar ao Brasil sem resultados concretos e reforçar o discurso do governo de que o bolsonarismo atua alinhado aos interesses americanos.

Apesar das críticas, representantes do agro avaliam que o resultado final das negociações foi melhor do que o inicialmente esperado para o setor. Produtos relevantes da pauta exportadora brasileira ficaram fora da lista de sobretaxas, reduzindo o impacto imediato para diferentes cadeias produtivas.

CAUTELA – Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR) adotou um tom cauteloso ao comentar o anúncio americano. Segundo ele, houve avanços importantes com a inclusão de exceções para produtos como carnes, pescados e compensados de madeira, embora segmentos como o pinus permaneçam afetados. “Tivemos avanços importantes, mas ainda há produtos que precisam ser retirados da tarifa. Eu adoraria que essa tivesse sido uma discussão técnica”, afirmou.

Para parte das lideranças, porém, essas exceções também refletem interesses do próprio governo Donald Trump. A leitura é que a Casa Branca evitou sobretaxar produtos cujo aumento de preços poderia gerar desgaste interno entre consumidores americanos, como café e carne. Ou seja, a decisão levou em conta não apenas as negociações com o Brasil, mas também os impactos políticos e econômicos que uma taxação mais ampla poderia provocar internamente.

Embora tenha responsabilizado em parte o governo Lula pela condução das negociações, Lupion evitou atribuir protagonismo a Flávio no resultado obtido. Para o parlamentar, o resultado “é um copo meio cheio e meio vazio”, a depender do ponto de vista.

ATUAÇÃO TÉCNICA – Nos bastidores, essa percepção é compartilhada por integrantes do setor, que afirmam que as exceções foram fruto principalmente da atuação técnica de entidades representativas e das negociações conduzidas ao longo da investigação comercial.

Em nota nesta quinta-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) manifestou preocupação com a confirmação da tarifa e afirmou que a medida amplia a insegurança para empresas brasileiras e americanas, além de reduzir a competitividade da indústria nacional, dizendo que “a sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais”.

Já a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) atribuiu o desfecho da crise a “ruídos diplomáticos desnecessários”, “críticas personalistas” e ao que chamou de “desalinhamento político” entre Brasília e Washington, defendendo que a relação bilateral deveria ter sido conduzida de forma mais técnica.

DISPUTA POLÍTICA – É justamente esse ponto que aproxima avaliações de parte do setor produtivo. Embora divirjam sobre quem é o principal responsável pelo impasse, lideranças do agro e representantes da indústria convergem na avaliação de que uma negociação comercial desse porte deveria ter permanecido no campo técnico, longe da disputa política travada entre governo e oposição.

Outro ponto explorado por integrantes do setor é o discurso da soberania, que, na avaliação deles, pode acabar impondo novos problemas políticos a Flávio. Reservadamente, empresários afirmam que declarações como a do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao atribuir a responsabilidade pelo tarifaço ao presidente Luiz (PT), reforçam a narrativa do governo de que o pré-candidato do PL e seu entorno atuam alinhados aos interesses americanos.

Para esses interlocutores, a sucessão de episódios envolvendo representantes do bolsonarismo nos Estados Unidos, como a atuação de Eduardo Bolsonaro no país, a interlocução com integrantes do governo Donald Trump e a carta enviada por Flávio ao USTR, tende a fortalecer o discurso do Planalto em defesa da soberania nacional, favorecendo politicamente Lula.

O que a nova pesquisa Quaest revela sobre a disputa eleitoral de 2026

Aprovação do governo atingiu seu melhor patamar

Pedro do Coutto

Pesquisas eleitorais fotografam um momento, mas, quando sucessivos levantamentos apontam na mesma direção, deixam de registrar apenas um instante e passam a indicar uma tendência. É exatamente esse o aspecto mais relevante da nova pesquisa Genial/Quaest.

Mais do que mostrar Lula da Silva numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, o levantamento revela um movimento político mais profundo: o presidente cresce enquanto seu principal adversário perde terreno. A mudança parece pequena quando observada apenas pelos números, mas seu significado é bem maior.

INFLEXÃO – Depois de meses em que Lula e Flávio Bolsonaro alternaram empates técnicos ou pequenas oscilações, a série histórica da Quaest passou a indicar uma inflexão. Em junho, Lula já havia rompido o empate e aberto vantagem. Agora, o novo levantamento mostra que essa diferença aumentou, ao mesmo tempo em que a aprovação do governo atingiu seu melhor patamar desde meados de 2025 e voltou a superar a desaprovação, algo que não ocorria desde 2024.

A combinação desses indicadores merece atenção porque campanhas presidenciais costumam ser influenciadas por dois fatores simultâneos: a avaliação do governo e a percepção sobre a força dos adversários. Quando esses dois movimentos caminham na mesma direção, o cenário eleitoral tende a se consolidar com maior rapidez.

Não significa, naturalmente, que a eleição esteja decidida. Faltam meses para a votação, a campanha ainda não começou oficialmente e episódios econômicos, políticos ou judiciais podem alterar significativamente o ambiente eleitoral. Ainda assim, ignorar a mudança registrada pelas pesquisas seria deixar de perceber um fenômeno importante.

DIVERGÊNCIAS – Parte dessa transformação pode ser explicada pelo momento vivido pelo campo conservador. Desde a definição de Flávio Bolsonaro como principal representante do bolsonarismo, a direita deixou de apresentar a aparência de unidade construída ao longo dos últimos anos. As divergências tornaram-se públicas, lideranças passaram a disputar protagonismo e diferentes correntes começaram a questionar qual deveria ser o caminho para enfrentar Lula.

Esse ambiente naturalmente produz efeitos eleitorais. Nenhuma candidatura cresce apenas pela força do próprio discurso. Ela depende também da capacidade de unificar aliados, reduzir conflitos internos e transmitir segurança aos eleitores. Quando o debate passa a ocorrer dentro da própria oposição, parte da energia política deixa de ser direcionada contra o governo e passa a ser consumida pelas disputas internas.

Nesse contexto, a queda de Flávio Bolsonaro pode ser mais significativa do que a própria vantagem numérica obtida por Lula. Durante meses, o senador havia conseguido consolidar sua posição como principal nome da direita e reduzir progressivamente a distância para o presidente. Em determinados momentos da série histórica, chegou inclusive a aparecer tecnicamente empatado ou numericamente à frente dentro da margem de erro. O novo levantamento, entretanto, indica uma inversão dessa trajetória.

RECUO – Mais importante do que estar atrás é interromper uma curva ascendente. Campanhas vivem de expectativas. Quando um candidato cresce sucessivamente, transmite a sensação de que pode vencer. Quando passa a recuar em pesquisas consecutivas, o ambiente político muda. Parlamentares tornam-se mais cautelosos, partidos começam a recalcular estratégias, financiadores reavaliam apostas e aliados passam a considerar alternativas.

Esse efeito psicológico costuma ser subestimado, mas exerce enorme influência na política. Boa parte das decisões tomadas por dirigentes partidários não depende apenas dos números absolutos, mas da direção em que eles caminham.

No caso de Lula, o movimento parece seguir a lógica inversa. O presidente atravessou um longo período em que sua popularidade foi pressionada pela inflação dos alimentos, pela percepção negativa sobre a economia e pelas dificuldades de comunicação do governo. Em diversos momentos, a desaprovação superou a aprovação, alimentando dúvidas sobre sua capacidade de disputar um novo mandato em condições competitivas.

APROVAÇÃO DE LULA – A nova pesquisa sugere uma recuperação desse quadro. A aprovação voltou a superar a desaprovação e isso tende a produzir consequências eleitorais importantes. Presidentes que conseguem recuperar apoio popular normalmente também ampliam sua capacidade de mobilizar aliados, reduzir tensões na base parlamentar e transmitir estabilidade institucional.

Não é coincidência que o crescimento eleitoral de Lula ocorra paralelamente à melhora na avaliação do governo. Historicamente, no Brasil e em outras democracias presidencialistas, existe forte correlação entre aprovação administrativa e desempenho nas urnas. Quando o eleitor melhora sua percepção sobre o governo, frequentemente reduz sua disposição para apostar numa mudança de comando.

Isso não significa que o governo tenha resolvido todos os seus problemas. A economia continuará sendo um fator decisivo até outubro. Questões como inflação, renda, emprego, segurança pública e qualidade dos serviços continuarão influenciando o humor do eleitorado. Da mesma forma, a oposição ainda dispõe de tempo suficiente para reorganizar sua estratégia e reconstruir uma narrativa capaz de recuperar competitividade.

INTENÇÃO DE VOTO – Outro aspecto relevante é que pesquisas não medem apenas intenção de voto. Elas capturam expectativas sociais. Quando um candidato passa a ser percebido como favorito, parte do eleitorado moderado tende a migrar para aquele que considera mais viável, enquanto lideranças políticas procuram aproximar-se de quem enxergam com maiores chances de vitória. Esse movimento costuma ser lento no início, mas pode acelerar à medida que a campanha se aproxima.

É justamente por isso que a atual sequência de levantamentos merece atenção. O dado mais importante talvez não seja a diferença específica entre Lula e Flávio Bolsonaro em um único levantamento, mas a direção assumida pela curva nas últimas pesquisas. Enquanto Lula registra recuperação gradual de aprovação e melhora eleitoral, Flávio deixa de crescer e passa a perder espaço.

Ainda é cedo para afirmar que essa tendência será definitiva. A história eleitoral brasileira está repleta de mudanças bruscas ocorridas durante as campanhas. Debates, crises econômicas, fatos políticos inesperados ou acontecimentos internacionais podem alterar rapidamente o cenário.

IMPULSO – Mas também seria um erro minimizar o que os números revelam neste momento. A política costuma premiar quem consegue transformar estabilidade em impulso. Hoje, é exatamente isso que as pesquisas sugerem em relação ao presidente: além de recuperar aprovação, Lula voltou a converter essa melhora administrativa em vantagem eleitoral.

Para a oposição, o desafio deixou de ser apenas reduzir a distância para o presidente. Passa, antes, por reconstruir a unidade interna e convencer o eleitorado de que continua existindo um projeto capaz de disputar o poder em condições reais de vitória. Sem essa reorganização, a tendência observada pela Quaest poderá deixar de ser apenas uma fotografia do presente para tornar-se o roteiro dominante da campanha presidencial de 2026.

PT explora tarifaço para isolar Flávio e reforçar narrativa de traição nacional

PL monta caixa milionário para eleição, enquanto PT aposta no fundo eleitoral

Esforço absurdo de Lula pela reeleição não servirá para absolutamente nada

Iotti: santo de barro | GZH

Charge do Iotti (Gaúcha/Zero Hora)

Carlos Newton

No rumo de completar 81 anos, justamente a idade que fez Joe Biden desistir de disputar a reeleição nos Estados Unidos, Lula da Silva está dedicando o que lhe resta de vida a essa tentativa de ser eleito pela última vez. Se dependesse apenas dele, nem teria se metido na candidatura. Está mais cansado de guerra do que a Tereza Batista do escritor Jorge Amado, mas ainda não pode sair de cena para aproveitar seus últimos anos. É como se estivesse condenado ao sofrimento.

Lula está tentando resistir ao tempo, mas o corpo já não responde como antes, e a vida de presidente é um saco. Audiências, reuniões, cerimônias e viagens chatíssimas que o governante tem de aturar, no Brasil e no mundo, com aquele efeito deletério do jet lag, o desgaste biológico das viagens aéreas, que inclui fadiga diurna, insônia, dores de cabeça, alterações de humor, problemas digestivos e dificuldade de concentração. Não é à toa que Lula esteja tão mau humorado e dizendo tantas bobagens.

PRIMEIRO E ÚNICO – Mas a culpa é dele mesmo, que jamais permitiu que nenhum outro petista se destacasse no partido. Pelo contrário, cortou as asas de todos os que tentaram, como Hélio Bicudo, José Dirceu, Tarso Genro e Aloizio Mercadante.

Como aquele antecessor na França, o rei Louis XV, Lula também poderia dizer que “depois de mim, o dilúvio”, frase atribuída também à Marquesa de Pompadour — aliás, um papel que cairia como uma luva para Janja da Silva, a maior incentivadora da penosa candidatura de Lula.

Homem velho, com mulher mais nova, é sempre um problema. Lula tem de bancar o durão e mostrar que é mais jovem do que parece, mas a qualquer momento pode cair no banheiro ou fazer algum papel ridículo diante do respeitável público.

SEM SUCESSOR – Como seus filhos não se interessam por política e preferiram se dedicar ao enriquecimento ilícito, Lula ficou sem sucessor.

Depois dele, ao contrário do dilúvio de Pompadour, será uma seca total. E o partido vai morrer junto com seu criador, num cortejo fúnebre que vai se estender por todo o país.

O pior é que, ganhe ou perca a eleição, Lula será sempre o grande derrotado. Se perder, já era. Se ganhar, não terá condições físicas para tocar o barco, terá de acabar cedendo o leme a Geraldo Alckmin, o falso socialista que até já tentou ser presidente, mas foi repudiado pelo povo, pois teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, uma grande Piada do Ano.

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P.S. 1O detentor do poder será mesmo o picolé de chuchu Geraldo Alckmin, que só tem de semelhante com Lula o enriquecimento ilícito, incluindo até a merenda das criancinhas paulistas e a corrupção que resultou na inacreditável fortuna do executivo tucano Paulo Preto, aquele paulista que imitou Geddel Vieira Lima e tinha um apartamento com mais dinheiro do que o baiano. Paulo Preto pegou 145 anos de prisão, mas já está solto, como é costume no Brasil. 

P.S. 2 – Assim, a trajetória de Lula, o único presidente da República eleito no mundo sem jamais ter lido um só livro, será igual à cavalgada dos cavaleiros de Granada, celebrizados pelo quixotesco escritor Miguel de Cervantes, que saíam em louca disparada, para quê? Ora, para nada… (C.N.)

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Flávio e Tarcísio conseguiram se tornar evangélicos e judeus, ao mesmo tempo,

Flávio enfrenta resistência entre evangélicos e vê segmento insistir em  chapa Tarcísio-Michelle

Flávio tenta seduzir o eleitorado evangélicos, que o repele

Vicente Limongi Netto

O que Flávio Rachadinha foi durante toda sua vida como parlamentar? Além de ficar milionário. apoiou todos os projetos lesivos e foi contra todos os projetos a favor do povo e do país.

O que Tarcísio de Freitas entregou de bom para o povo de São Paulo? Privatizou o que pôde, em especial as empresas concessionárias lucrativas, fazendo com que os paulistas passassem a pagar mais caro pelos maus serviços prestados, e a segurança em São Paulo é uma das piores do Brasil.  E sua linha política é idêntica à de Jair Bolsonaro, em matéria  de subserviência aos EUA.

O maior voto de cabresto, são os votos dos fiéis das igrejas comandadas por pastores da direita que apoiaram as maluquices do presidiário. Sabendo disso, tanto Flávio como Tarcísio viraram evangélicos e judeus ao mesmo tempo. É comum em seus movimentos usarem a bandeira de Israel e do Brasil. Dupla de farsantes.

MESSI ILUMINADO– Craque sabe furar marcação dura. Leva marcadores com ele. Finge que cansou. Vai saindo pelas pontas. Joga de cabeça erguida. Grita e orienta companheiros. Levanta os braços. Quer a bola. Enxerga espaços. Sabe o perfume que a bola gosta. Mostra que tamanho não é documento.  Com a bola nos pés, costuma fazer fila entre adversários.

Antes da bola chegar, já sabe o destino que dará a ela. É Messi, por inteiro. Pelé, o maior de todos, aplaudiria feliz o discípulo argentino.

Espanha e Argentina certamente será final memorável da copa de 2026. Não atrevo arriscar previsões. Deuses do bom futebol presentes em campo. Cardápio da partida conta com alguns craques.

LlXÃO POLÍTICO – A lambança de Trump exigindo a anulação da suspensão do jogador dos Estados Unidos ao patético capacho Infantino ficará como o lixo político da competição. Que o infame cartola italiano levará para os anais da Fifa.

Disputa pelo espólio de Jair Bolsonaro está acelerando a fragmentação da direita

Gregório de Mattos (“Boca do Inferno”) satirizava quem tinha muito dinheiro

Ninguém vê, ninguém fala, nem... Gregório de Matos - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Gregório de Mattos Guerra (1636-1695), alcunhado de “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa”, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial. Há mais de 400 anos, Gregório já dizia que “neste mundo quem tem muito dinheiro é o que mais rouba” e “quem pode comprar tudo”.

AS COUSAS DO MUNDO
Gregório de Mattos

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Lula escreveu cartas e recebeu Haddad na prisão, sem as restrições impostas a Bolsonaro

Bolsonaro contradiz Flávio e afirma ao STF que não autorizou leitura de carta nas redes

Família Bolsonaro está obrigando o país a aturar mais quatro anos de Lula e PT

Reprodução do Correio Braziliense

Mário Sabino
Metrópoles

Flávio Bolsonaro é cabra marcado para perder; será preciso que ocorra uma hecatombe na campanha de Lula para que o filho do ex-mito reverta o jogo e consiga vencer a eleição presidencial.

A menos de três meses do primeiro turno, os números da pesquisa Genial/Quaest são inclementes para Flávio: o candidato bolsonarista está comendo ainda mais poeira atrás de Lula.

LULA DISPARA – No segundo turno, o chefão petista ampliou a sua vantagem em relação à pesquisa anterior e está 8 pontos percentuais à frente de Flávio (45% a 37% das intenções de voto).

Dado eloquente, na direita não bolsonarista, a intenção de voto no filho do ex-mito despencou de 82% para 74%.

Em condições normais, um candidato com taxa de 50% de rejeição, como Lula tem agora, jamais seria eleito. Mas 57% dos eleitores repudiam Flávio, um aumento de 5 pontos percentuais em relação a abril. No mesmo período, o chefão petista viu a sua rejeição encolher os mesmos 5 pontos.

MENOS REPULSIVO – A disputa é sobre quem é alvo de menos repulsa, outra conquista da pujante democracia brasileira.

Tarifas americanas, Dark Horse, Michelle: o filho do ex-mito vem sendo sucessivamente abalroado pelas suas imensas qualidades, bem como por aquelas da sua família.

Jacques Wagner: prejudica Lula, mas não a ponto de fazer diferença até o momento. Os brasileiros se resignaram à corrupção petista.

DESENROLA 2.0 – Como não poderia deixar de ser, em um país de gente endividada, o programa Desenrola 2.0 deu um empurrão em Lula. De acordo com pesquisa, para 35% dos entrevistados, ajudou a aumentar a renda.

Clássico nacional, ninguém parece se dar conta de que a causa do endividamento é, principalmente, o próprio governo com seus gastos pantagruélicos.

Lula usa e abusa do populismo e da máquina federal para ser reeleito. O dado impressionante é que o ex-mito, no poder, não tenha conseguido manter-se nele usando receita idêntica. É que uma saraivada de tiros foi disparada no próprio pé.

MEDO DA VOLTA – A estridência bolsonarista, a irresponsabilidade criminosa durante a pandemia, um monte de gente louca falando e fazendo enormidades: como mostra a Genial/Qaest, os eleitores têm mais medo da volta disso tudo do que da permanência de Lula e da sua alcateia no Planalto.

Ao apropriar-se indevidamente da direita brasileira, fazendo terra arrasada de boas opções e contando com a miopia do indistinto público para enxergar as ainda disponíveis, a família Bolsonaro nos condena a ter mais quatro anos de PT.

O desafio de Flávio Bolsonaro para conter o efeito das reações de Michelle

Charge do Cláudio (Folha)

Pedro do Coutto

A política costuma ensinar que adversários externos são mais fáceis de enfrentar do que divergências internas. Quando o conflito nasce dentro da própria família política, o custo tende a ser maior porque afeta aquilo que nenhuma campanha consegue fabricar rapidamente: a percepção de unidade.

É nesse contexto que se insere o esforço do senador Flávio Bolsonaro para reduzir os efeitos políticos do crescente protagonismo de Michelle Bolsonaro, tema abordado por Vera Magalhães em sua coluna publicada em O Globo. Segundo a jornalista, Flávio trabalha para reconstruir pontes com o eleitorado feminino e impedir que a ex-primeira-dama consolide um espaço político autônomo capaz de alterar os equilíbrios internos do bolsonarismo.

ESPÓLIO POLÍTICO – A movimentação não surpreende. Desde que Jair Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais e viu diminuir sua capacidade de liderar diretamente a oposição, a disputa pela condução do espólio político do ex-presidente deixou de ser uma hipótese para se tornar um processo em andamento. Embora o discurso oficial continue enfatizando união, os sinais emitidos pelas principais lideranças indicam que diferentes projetos convivem sob o mesmo guarda-chuva partidário.

Flávio Bolsonaro ocupa uma posição singular nessa arquitetura. Como filho mais velho politicamente ativo e senador da República, procura apresentar-se como o herdeiro natural do capital político do pai. Sua estratégia tradicionalmente privilegia a negociação institucional, o diálogo com dirigentes partidários e a construção de alianças que ampliem a margem de sobrevivência eleitoral do grupo. É um perfil mais pragmático do que ideológico, preocupado em preservar a influência da família no Congresso e nas articulações nacionais.

Michelle Bolsonaro, por outro lado, construiu uma trajetória distinta. Sua força deriva menos da ocupação de cargos públicos e mais da conexão emocional estabelecida com parcelas importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres evangélicas. Durante a passagem pelo Palácio do Planalto, consolidou uma imagem pública baseada na religiosidade, na assistência social e em pautas familiares, atributos que lhe conferem identidade própria, relativamente independente da atuação parlamentar dos filhos de Jair Bolsonaro.

DESCONFORTO – É justamente essa autonomia que produz desconforto. Enquanto Flávio opera dentro da lógica da política institucional, Michelle dialoga com um campo marcado pela identificação simbólica. Em campanhas eleitorais contemporâneas, esse tipo de vínculo costuma ser mais resistente às oscilações da conjuntura, porque depende menos de resultados concretos e mais da construção de identidade coletiva.

Nos últimos meses, entretanto, o senador passou a enfrentar um ambiente menos favorável. O noticiário político deixou de oferecer fatos capazes de reorganizar a narrativa da oposição, enquanto episódios sucessivos ampliaram o desgaste interno do campo bolsonarista. Sem acontecimentos suficientemente fortes para alterar a agenda pública, a disputa por espaço dentro da própria direita ganhou mais visibilidade.

Esse talvez seja o maior problema para Flávio. Em política, narrativas precisam ser alimentadas continuamente por fatos novos. Quando eles deixam de surgir, prevalecem interpretações produzidas pelos próprios atores políticos e pela imprensa. Nesse vazio informativo, qualquer sinal de divergência passa a adquirir dimensão muito maior do que teria em momentos de intensa polarização nacional.

DIÁLOGO DIRETO – A dificuldade também decorre de uma mudança estrutural da política brasileira. Durante muitos anos, partidos concentravam o poder de definir candidaturas e controlar a comunicação. Hoje, lideranças individuais dialogam diretamente com milhões de seguidores nas redes sociais, produzindo agendas próprias e reduzindo a capacidade de coordenação das estruturas partidárias. Michelle Bolsonaro tornou-se uma expressão desse fenômeno. Sua influência já não depende exclusivamente da família nem do PL; ela resulta de uma comunidade política que reconhece nela atributos específicos.

Há ainda um componente geracional. Parte do eleitorado conservador demonstra disposição para preservar o legado de Jair Bolsonaro, mas sem necessariamente reproduzir toda a configuração familiar construída ao longo da última década. Isso abre espaço para diferentes interpretações sobre quem deve representar esse patrimônio eleitoral. Para alguns, a continuidade passa pelos filhos; para outros, Michelle reúne melhores condições de ampliar a base social do movimento.

Flávio parece compreender esse risco. Sua tentativa de reforçar a interlocução com o público feminino não decorre apenas de uma preocupação eleitoral imediata. Trata-se de reconhecer que as mulheres passaram a ocupar papel decisivo na definição das disputas presidenciais brasileiras. Nenhuma candidatura competitiva consegue ignorar esse segmento, especialmente depois das mudanças observadas nas eleições recentes, quando questões relacionadas à economia doméstica, segurança, saúde e qualidade de vida passaram a pesar tanto quanto as grandes disputas ideológicas.

CREDIBILIDADE – O desafio, entretanto, é que comunicação política não se resume à elaboração de discursos. Ela depende de credibilidade acumulada ao longo do tempo. Michelle construiu essa relação durante anos de exposição pública em agendas sociais, religiosas e assistenciais. Flávio precisaria produzir uma identidade própria para esse eleitorado, e isso dificilmente ocorre apenas como resposta a uma conjuntura desfavorável.

Outro fator limita sua margem de ação. A oposição enfrenta dificuldades para estabelecer uma agenda positiva capaz de deslocar o debate nacional. Enquanto permanece concentrada na defesa de Jair Bolsonaro e na reação às decisões judiciais envolvendo o ex-presidente, sobra pouco espaço para apresentar propostas capazes de mobilizar novos segmentos sociais. Sem uma plataforma programática renovada, cresce a tendência de que as disputas internas ocupem o centro do debate.

Esse cenário torna a administração das diferenças ainda mais delicada. Qualquer movimento excessivamente agressivo contra Michelle poderia ser interpretado como disputa familiar e produzir desgaste adicional. Por outro lado, a ausência de reação reforçaria a percepção de que sua liderança cresce sem contrapontos relevantes. Trata-se de um equilíbrio difícil de administrar.

MODELO DE LIDERANÇA – No fundo, a questão ultrapassa a relação entre Flávio e Michelle. O que está em disputa é o modelo de liderança que prevalecerá na direita brasileira após Jair Bolsonaro. Permanecerá uma estrutura fortemente familiar, organizada em torno dos filhos, ou surgirá uma configuração mais ampla, capaz de incorporar novas lideranças com autonomia política?

Ainda é cedo para responder. Mas uma conclusão parece inevitável: quando os principais desafios de um grupo político deixam de vir dos adversários e passam a nascer dentro de casa, o problema dificilmente pode ser resolvido apenas com estratégias de comunicação.

Ele exige redefinição de liderança, reorganização de prioridades e capacidade de construir consensos. Até aqui, os fatos sugerem que Flávio Bolsonaro ainda procura encontrar esse ponto de equilíbrio, enquanto Michelle Bolsonaro continua ampliando um capital político cuja principal característica é justamente não depender exclusivamente do sobrenome que a projetou nacionalmente.

Janja fala demais e acaba sugerindo um forte argumento contra Lei da Misoginia

Atuação de Janja no governo é insignificante, aponta pesquisa

Janja da SIlva não sabe se comportar como primeira-dama

Fernando Schüler
Estadão

Em declaração à imprensa, a primeira-dama Janja Lula da Silva disse que as críticas que ela recebe pelos gastos excessivos com viagens internacionais se dão devido a misoginia.

Ao fazer isso, ela acaba, evidentemente sem querer, dando, na minha visão, o mais claro e duro argumento contra a legislação que está em curso sobre esse tema no Congresso Nacional. É preciso lembrar que é um direito do cidadão fazer a crítica a gastos de dirigentes, sejam eles homens ou mulheres.

NO CONGRESSO – O projeto de Lei da Misoginia está em debate no Congresso Nacional. A primeira-dama foi entrevistada nesta segunda-feira, dia 13, quando afirmou ser alvo de misoginia e que críticas sobre gastos em viagens são para atacar Lula

Sobre isso, o que cabe à primeira-dama responder? É óbvio que precisa dar um devido esclarecimento, fornecer as informações e possibilitar o debate contraditório, porque a contradição, com o ‘a favor’ e o ‘contra’, acontece normalmente na democracia. O que a primeira-dama faz com essa alegação é basicamente o seguinte: doravante, qualquer crítica a gastos excessivos, sejam viagens ou outras despesas indevidas feitas por governantes, poderá ser atribuída misoginia caso sejam dirigidas a mulheres, sejam elas prefeitas, governadoras, presidentes, ministras, secretárias ou primeiras-damas.

FICA PROIBIDO – Se parte de Judiciário pensar como a primeira-dama Janja Lula da Silva, pode concluir que é criminoso quem critica qualquer mulher que ocupe cargo público.

Assim, o cidadão não pode mais criticar. É perigoso criticar, porque a sua opinião pode ser criminalizada e logo punida. Mas isso não existe em nenhum país que exerça regime democrático.

Trump mantém tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e poupa setores estratégicos

Casa Branca aprofunda crise comercial com o Brasil

Isabella Menon
Folha

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acatou a recomendação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) para tarifar produtos brasileiros em 25%. A decisão foi divulgada na noite desta quarta-feira (15) e encerra a investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado.

Porém, como foi divulgado em junho, há uma lista de exceções com cerca de 2.100 itens que incluem carne, café, laranja e suco de laranja e partes para a fabricação de aviões, produtos importantes para a pauta exportadora brasileira.

LISTA AMPLIADA – Após analisar comentários de empresas e associações nas audiências da semana passada, o governo americano ainda ampliou a lista de produtos brasileiros que ficarão livres da tarifa. A justificativa é que esses itens são insumos importantes para a indústria americana, têm pouca oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países, de modo que a sobretaxa poderia provocar aumento de custos e desorganizar cadeias produtivas nos EUA.

Entre os produtos incorporados à lista de exceções estão ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, determinados frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos, além de antiguidades, obras de arte e roupas usadas.

Nem todos os pedidos de isenção, no entanto, foram aceitos. O governo americano rejeitou solicitações apresentadas por setores como máquinas agrícolas, máquinas industriais, vestuário, calçados, equipamentos elétricos, ferramentas de jardinagem, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados.

AUMENTO DE CUSTOS – Embora empresas tenham alegado aumento de custos e dificuldade para substituir fornecedores brasileiros, o USTR concluiu que esses bens podem ser obtidos em outros mercados ou que as consequências econômicas não justificam uma exceção à tarifa.

A agência ainda retirou da lista de isentos a celulose de alta pureza, após receber manifestações de que produtores brasileiros do insumo seriam beneficiados por práticas ligadas ao desmatamento ilegal.

O USTR investigou desde temas que são motivo de atrito com os EUA há anos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas mais novas, como o Pix –empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula (PT) nega.

NEGOCIAÇÃO – As tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho. Segundo uma autoridade americana, os canais ainda estão abertos para negociação. Porém há reclamações de que o governo americano tentou, durante um ano, negociar com o Brasil, mas não obteve sucesso.

Essa mesma autoridade afirma que entre os motivos que levaram os EUA a tarifar o Brasil estão o fato de que tribunais brasileiros emitiram ordens sigilosas determinando que empresas americanas de tecnologia removam determinados conteúdos políticos.

Além disso, diz que as empresas passaram a enfrentar multas diárias elevadas em caso de descumprimento dessas decisões e, em determinadas circunstâncias, podem até ser obrigadas a interromper suas operações no Brasil.

PIX – No caso dos serviços de pagamentos eletrônicos, a investigação concluiu que o Brasil prejudicou empresas americanas concorrentes ao favorecer seu sistema nacional de pagamentos, o Pix, operado pelo Banco Central. O alto funcionário reconhece que os países podem ter seus próprios sistemas de pagamento, mas alega que o Pix foi criado em um ambiente de concorrência desleal por meio do sistema estatal.

Os americanos também afirmam que o Brasil concede tratamento tarifário preferencial à Índia e ao México em diversas linhas tarifárias, mas não realiza o mesmo com produtores americanos. Por isso, na avaliação do governo Trump, isso violaria obrigações internacionais e prejudicaria trabalhadores e empresas dos EUA.

O governo brasileiro Lula disse na madrugada desta quinta-feira (16) que vai acionar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade. Em vigor desde o ano passado, a legislação estabelece os critérios que podem ser utilizados pelo Brasil para reagir com medidas retaliatórias contra sanções econômicas aplicadas por outro país.

RETALIAÇÃO – Segundo o alto funcionário americano, se o Brasil decidir retaliar os EUA, o governo americano vai rever as ações contra o Brasil. Além disso, houve reclamações sobre temas como a corrupção, que para o governo Trump o Brasil não combate de forma efetiva.

Além disso, o Brasil permanece na lista de observação dos relatórios Special 301 dos Estados Unidos, o que significa que continua apresentando deficiências na proteção da propriedade intelectual e no acesso justo ao mercado para detentores desses direitos.

A apuração do processo, que visa lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump, foi instaurada em julho de 2025 como uma das medidas anunciadas pelo republicano em reação ao que ele classificou como uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

TARIFAÇO – O representante de comércio da Casa Branca, Jamieson Greer, havia sinalizado para o governo que seria mantida a recomendação de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Esse é mais um capítulo de ruptura nas relações entre Brasil e EUA, que já vinham deterioradas desde a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.

Como a Folha mostrou, o governo brasileiro tinha a percepção de que não havia espaço para negociação e que os EUA não abririam mão de taxar o país. A baixa expectativa era compartilhada pelo setor privado, que esperava que mais setores fossem poupados, diante do que havia sido divulgado no início de junho.

O tarifaço ameaça parte importante das exportações brasileiras aos EUA, pondo em risco a produção e o emprego em setores com alto nível de dependência do mercado americano.

PREVISÃO – Na terça-feira (14), representantes de setores como ferro-gusa (matéria-prima do aço), madeira processada e calçados projetavam um cenário negativo no caso de aplicação das tarifas, com previsão de diminuição da produção e de corte de vagas.

Com a nova tarifa, o Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos EUA no planeta, atrás apenas da China, como mostrou uma reportagem da BBC News com base nos dados da iniciativa Global Trade Alert. Antes desta nova rodada do tarifaço, o Brasil era o 13º país do ranking.

O aumento do tarifaço pode obrigar o governo petista a manter programas de apoio ao setor produtivo, como o Brasil Soberano, criado no ano passado para apoiar exportadores afetados pelo tarifaço e depois expandido para atender empresas prejudicadas pelo fechamento do estreito de Hormuz.

PRAZO – O ministro Márcio Elias Rosa, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), já havia antecipado, em entrevista, que a expectativa de um acordo não existia tanto pelo prazo quanto pelos pontos levantados pelos EUA. “O Pix é um exemplo, [outro é o] etanol, sem que revejam as tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro. São pontos que nos separam hoje. Mas eles podem e deveriam ampliar a lista de exceções”, disse ele.

O Mdic calculou, no início de junho, que as novas tarifas podem afetar 21% das exportações nacionais para os americanos. O governo brasileiro promoveu ao menos cinco reuniões entre o ministro Rosa e o representante de comércio dos EUA —outros encontros também ocorreram entre as equipes técnicas dos dois países.

A última reunião aconteceu nesta terça-feira (14) e, em nota divulgada pelo site do Mdic, foi dito que a possibilidade de qualquer sobretaxa “se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado”.

GRUPO DE TRABALHO – Esses encontros passaram a ocorrer depois da reunião entre Trump e Lula, em maio, quando o petista propôs a formação de um grupo de trabalho bilateral para que as equipes se encontrassem ao longo de um mês e discutissem os temas sob apuração dos EUA.

No entanto, a conclusão da apuração foi divulgada antes do fim desse período, ainda no início de junho. Na semana passada, audiências sobre o tema foram realizadas em Washington —o governo brasileiro não esteve presente e argumentou que já mantinha reuniões regulares com os americanos sobre o assunto e que as audiências eram voltadas ao setor privado.

Nas audiências, setores do Brasil e dos EUA tentavam argumentar que as tarifas teriam um efeito negativo para a economia dos EUA. Entre eles, esteve presente Mark Bitting, da empresa Gehring Montgomery, que distribui cera de carnaúba do Brasil para diferentes setores dos EUA. Segundo o argumento dele, a nova tarifa se tornaria um novo imposto “sobre o consumidor americano” e explicou que o produto só era economicamente viável no Brasil.

FAVORECIMENTO – Diferente do governo brasileiro, que apenas enviou ouvintes, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro esteve presente em Washington, pediu que os EUA não punissem o Brasil e disse que as tarifas, se aplicadas, viriam no “pior momento” e poderiam favorecer o presidente Lula. De acordo com o governo dos EUA, além da audiência, o senador não se reuniu com autoridades do USTR, como o representante Jamieson Greer.

Em reação, a gestão petista emitiu uma nota de repúdio ao que chamou de interferência de Flávio nas negociações em curso. Flávio tem sofrido desgaste político com o tema diante da ofensiva de Lula em torno da bandeira da soberania nacional e tem procurado se posicionar publicamente contra a eventual taxação. Sob reserva, aliados do senador já admitiam que a possibilidade de reverter o tarifaço era baixa e tentavam chegar ao presidente Donald Trump a justificativa de que a nova sanção poderia ajudar o presidente Lula.

Em fevereiro, a Suprema Corte americana considerou ilegal o uso da IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para justificar tarifas abrangentes contra parceiros comerciais dos Estados Unidos. Como reação à determinação judicial, o republicano impôs uma tarifa global de 10%, que expira no final de julho.

TAXAÇÃO – Além da apuração aberta em 2025, o Brasil entrou na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano. Na conclusão preliminar, foi proposta uma nova tarifa de 12,5% —existe, assim, a possibilidade de as tarifas se somarem, elevando a taxação sobre o Brasil a 37,5%.

Esse processo avalia práticas em cerca de 60 nações e foi lançado poucas semanas após a decisão da Suprema Corte que derrubou o tarifaço. Segundo especialistas, o objetivo dos EUA é mirar o comércio de parceiros com a China. O plano do governo Trump é que esse segundo processo tenha tramitação acelerada, com conclusões do USTR publicadas em prazo mais curto do que o tradicional.