
Direita encara o custo de ter terceirizado sua identidade
Marcelo Copelli
Revista Fórum
A desagregação da direita brasileira no período posterior ao ciclo bolsonarista não pode ser compreendida como resultado de uma exaustão momentânea ou de uma derrota conjuntural. Trata-se de uma crise estrutural, que expõe a decomposição de um campo político que, por décadas, alternou pragmatismo liberal, conservadorismo tradicional e administração tecnicista, mas que acabou engolfado por uma experiência personalista que substituiu projeto por mobilização emocional, diagnóstico por antagonismo e estratégia por agitação permanente.
O fenômeno que deu sustentação ao líder que emergiu em 2018 serviu mais como um adesivo conjuntural do que como plataforma programática. Foi capaz de aproximar segmentos que jamais teriam dividido a mesma mesa: militares saudosos da tutela institucional, defensores radicais de austeridade, lideranças religiosas em expansão política, setores empresariais avessos à regulação, influenciadores digitais transformados em operadores informais de campanha e uma massa parlamentar movida por clientelismo e cálculo oportunista.
COLAPSO – O que alinhou essas forças não foi uma visão de país, mas a escolha de um inimigo, real ou imaginado, útil para cristalizar ressentimentos e converter frustrações em energia política. Enquanto o antagonismo funcionou como motor simbólico, o projeto se manteve de pé. Quando esse inimigo deixou de produzir o mesmo efeito mobilizador — em parte por ruir sob denúncias, investigações e responsabilizações jurídicas —, a coligação informal entrou em colapso.
Sem doutrina, sem programa e sem horizonte, o bolsonarismo deixou como herança apenas um método: confrontar, ferir, tensionar, transformar divergências políticas em batalhas morais e desacreditar qualquer estrutura intermediária entre líder e povo. Quando seu núcleo mergulhou no desgaste político, judicial e moral, emergiu a pergunta mais incômoda para esse universo: o que é uma direita que depende de um único personagem para existir? A resposta ainda não apareceu, e o vazio abriu espaço para uma disputa caótica em torno de liderança, linguagem e direção.
O campo conservador enfrenta hoje um duplo desafio. Primeiro, precisa reconstruir uma gramática política; depois, precisa oferecer um projeto minimamente organizado para um país socialmente complexo e marcado por desigualdades extremas.
SEM APELO – O vocabulário que sustentou o ciclo anterior esgotou-se: o discurso ultraliberal perdeu apelo em uma sociedade que enfrenta insegurança econômica crônica; o moralismo identitário perdeu força entre jovens e mulheres que rejeitam tutela comportamental; e a retórica autoritária de “restauração da ordem” se mostrou incapaz de lidar com um cenário de segurança pública que exige inteligência, coordenação federativa e políticas contínuas, não slogans de efeito.
Nesse ambiente, três movimentos tentam ocupar o vácuo. O primeiro é o dos “moderadores oportunistas”, que buscam maquiar o radicalismo recente como episódio acidental, tentando preservar o capital eleitoral do passado sem assumir seus custos institucionais.
O segundo grupo é o dos “gestores messiânicos”, que reciclam fórmulas econômicas do século passado e as apresentam como modernização, ignorando transformações tecnológicas, climáticas e sociais que exigem novas ferramentas.
CLÃ BOLSONARO – O terceiro bloco é formado pelos herdeiros diretos do bolsonarismo, que acreditam que ampliar a agressividade pode compensar a ausência de liderança carismática — confundem decibéis com direção, volume com visão e ataque com articulação. Nenhuma dessas frentes, porém, oferece uma resposta ao dilema central: sem uma ideia estruturante de Brasil, a direita continuará orbitando um passado que já não produz coesão nem entusiasmo.
Instituições que gravitaram em torno do bolsonarismo também buscam reconstrução. As Forças Armadas tentam recompor sua autoridade após a maior exposição política desde o fim da ditadura. Setores do empresariado correm para estabelecer distância da instabilidade que, de alguma forma, ajudaram a alimentar quando apostaram em atalhos institucionais. O ecossistema digital extremista perde relevância sem o personagem central que organizava narrativas e distribuía visibilidade. Lideranças religiosas reavaliam táticas para evitar desgaste e recuperar credibilidade. E a direita tradicional aguarda um novo fiador moral e político que restitua alguma coerência ao campo. Todas essas forças esbarram no mesmo obstáculo: o bolsonarismo devorou o idioma da direita, e nada foi construído para colocá-lo de pé novamente.
A implosão conservadora não significa fortalecimento automático das forças progressistas. Mas abre uma rara janela estratégica: a possibilidade de apresentar ao país uma narrativa de futuro que não dependa da subjugação do outro. Para isso, será necessário articular políticas econômicas inclusivas, um projeto ambiental que responda às urgências climáticas, instituições mais transparentes e participativas e uma comunicação capaz de disputar o imaginário social com densidade e responsabilidade. A oportunidade não está na fraqueza do adversário, mas na chance de construir um horizonte que supere a polarização regressiva que marcou os últimos anos.
DUAS ESTRADAS – Chegamos, assim, a um ponto decisivo. O Brasil tem diante de si duas estradas: a reconstrução de um pacto democrático contemporâneo, capaz de integrar inovação, justiça social, sustentabilidade e estabilidade institucional; ou a recaída no ciclo de aventureiros que oferecem simplificações perigosas para problemas complexos. A crise da direita revela o colapso de uma fantasia; a de que a política pode funcionar como espetáculo permanente, dispensando projeto, responsabilidade e compromisso com o bem comum.
Superar esse período exige maturidade institucional e imaginação política — dois elementos raros, porém indispensáveis. A democracia brasileira não precisa de salvadores nem de cruzadas morais: precisa de lideranças maduras, instituições sólidas e uma visão de país que organize expectativas, não medos. É essa escolha que definirá se caminharemos para uma democracia capaz de se renovar ou para um novo ciclo de rupturas alimentadas pelo vazio.
O futuro do país dependerá, mais do que nunca, da capacidade de converter a crise em reconstrução — e de trocar o instinto de devastação pela coragem de assumir, enfim, uma responsabilidade histórica digna de uma democracia que quer sobreviver ao próprio tempo.








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