Venezuela e o novo neocolonialismo com base no petróleo

A irrefreável ascensão da inteligência artificial como força geopolítica

A democracia na era dos algoritmos: quem decide quando já não somos nós?

Trump, petróleo e poder: a Venezuela e a erosão da ordem internacional

Orçamento capturado: o poder invisível do Congresso

Preso ao próprio reflexo, o bolsonarismo se aprisiona na sucessão familiar

Movimento sequer consegue unificar a própria direita

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A decisão de Jair Bolsonaro de avalizar a pré-candidatura presidencial do filho, o senador Flávio Bolsonaro, não se limita a um gesto de continuidade política. Ela revela um erro estratégico profundo: a crença de que o bolsonarismo se confunde com o país — e de que seus votos são automaticamente transferíveis para além do próprio núcleo ideológico. Não são.

O movimento ocorre em um contexto de retração evidente. Bolsonaro está juridicamente impedido, politicamente fragilizado e institucionalmente isolado. Diante disso, sua reação não é ampliar alianças ou reconstruir pontes, mas fechar o jogo e concentrar poder. Ao optar pela sucessão familiar, transforma capital político em patrimônio privado, como se liderança fosse bem transmissível. A política, no entanto, não opera segundo a lógica do testamento — sobretudo quando identidade é confundida com maioria eleitoral.

CIRCUSTANCIAL – Desde 2018, o bolsonarismo consolidou uma base fiel, ruidosa e altamente mobilizada. Mas essa base nunca correspondeu à totalidade da direita brasileira, tampouco funcionou como bloco homogêneo. Parte relevante dos votos que levaram Bolsonaro ao Planalto resultou de circunstâncias específicas: rejeição ao sistema, antipetismo conjuntural e ausência de alternativas viáveis naquele momento. Eram votos voláteis — e a volatilidade não se transfere por sobrenome.

Ao ungir Flávio Bolsonaro como sucessor, Bolsonaro parece acreditar que o nome da família basta para manter unido um campo que sempre foi plural, competitivo e atravessado por disputas internas. A decisão ignora um dado central do tabuleiro político: o bolsonarismo possui votos próprios, mas a direita brasileira abriga projetos distintos, ambições concorrentes e lideranças que aguardavam a abertura da corrida presidencial. Ao fechar essa possibilidade, Bolsonaro não agrega — fragmenta.

A imposição de um herdeiro não organiza a direita; tensiona-a. Ao substituir o debate por lealdade e a competição por obediência, o bolsonarismo converte aliados potenciais em dissidências silenciosas. O resultado tende a ser menos convergência e mais dispersão: candidaturas paralelas, projetos regionais autônomos e um campo conservador dividido entre fidelidade pessoal e viabilidade eleitoral.

CONTROLE – A escolha do filho tampouco se ancora em densidade programática ou trajetória nacional consolidada. Fundamenta-se na confiança absoluta e no controle. Em um movimento moldado pela desconfiança permanente das instituições, da imprensa e da política profissional, a família surge como último espaço de previsibilidade. O problema é que previsibilidade interna não gera, por si só, competitividade externa — especialmente em um país complexo, desigual e exausto de confrontos permanentes.

O gesto também evidencia o esgotamento de um projeto de expansão. Em vez de disputar hegemonia dentro da própria direita, o bolsonarismo prefere preservar-se como identidade fechada. Em vez de dialogar com correntes conservadoras não radicalizadas, opta por submetê-las ou descartá-las. Em vez de formular respostas para desafios estruturais do país, reafirma a fidelidade como critério central de pertencimento político. O efeito não é fortalecimento, mas redução do campo.

Do ponto de vista eleitoral, trata-se de uma escolha defensiva. Bolsonaro sabe que carrega rejeições profundas, acumuladas por uma gestão marcada pelo conflito institucional, pelo desprezo às políticas públicas e pela retórica autoritária. Transferir o protagonismo ao filho é uma tentativa de manter mobilizado o núcleo mais fiel, ainda que isso implique perder capacidade de articulação com outros setores da direita.

ESPÓLIO –  Flávio Bolsonaro recebe o espólio do bolsonarismo, mas não o conjunto do campo conservador. Parte com uma base leal, porém limitada. Ganha visibilidade, mas também carrega passivos políticos e simbólicos: investigações, controvérsias e a associação direta a um projeto que fracassou em produzir consensos mínimos e respostas duradouras às crises do país. O peso do legado acompanha o nome.

Ao antecipar a sucessão, Bolsonaro tenta ainda interditar o debate sobre o esgotamento do bolsonarismo como projeto nacional. Em vez de refletir sobre as perdas de apoio, o isolamento internacional e a incapacidade de converter retórica em políticas públicas estruturantes, o movimento escolhe reafirmar a obediência como valor político supremo.

MEDO DA DISPERSÃO – O gesto não expressa força, mas receio. Medo da dispersão, do esquecimento e da irrelevância. Medo, sobretudo, de que o bolsonarismo seja lembrado não como um projeto político consistente, mas como um surto de mobilização sustentado por uma figura mítica — mais ruidosa do que dirigente, incapaz de organizar maiorias duradouras.

Quando um movimento político passa a confundir sua base com o país — e sua família com o futuro — deixa de disputar consensos e passa apenas a administrar limites. Projetos que abdicam de convencer para se dedicar a controlar não constroem legado: sobrevivem por inércia, até que o mito se desgaste, a base se reduza e reste apenas o registro de um poder que falou alto, mas nunca soube governar o tempo.

 

A ofensiva conservadora pela impunidade

A silenciosa ofensiva da extrema-direita contra a democracia europeia

O dilema centrale travar a ameaça enquanto ainda é possível

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Há momentos na história em que o perigo não se anuncia por explosões de violência, mas por rupturas discretas: votos que desestabilizam equilíbrios duradouros, discursos que corroem instituições e uma normalização gradual da intolerância.
A Europa vive hoje exatamente esse momento. A ascensão da extrema-direita — antes vista como um fenômeno periférico — tornou-se força estrutural, capaz de influenciar governos, reescrever agendas e mexer profundamente com o imaginário democrático.

O que está em jogo já não é apenas o crescimento eleitoral de partidos radicais, mas a transformação silenciosa da ordem democrática em algo mais vulnerável, permeável a um autoritarismo difuso e à política do medo. A linguagem que estigmatiza minorias, desumaniza imigrantes, desacredita o jornalismo e tenta subjugar magistrados tornou-se, em muitos países, parte do cotidiano político. O extremismo não avança com rupturas bruscas; infiltra-se aos poucos, como uma rachadura que se estende silenciosamente até comprometer toda a estrutura.

ABANDONO  – A origem dessa crise não está apenas no mal-estar social acumulado. Está, sobretudo, no abandono prolongado de setores que se sentiram deixados para trás por modelos econômicos desiguais, promessas governamentais descumpridas e lideranças políticas que perderam contato com a vida real das populações. É nesse vazio que a extrema-direita floresce, oferecendo respostas aparentemente simples para problemas complexos e apontando inimigos convenientes para canalizar frustrações.

Mas há um fenômeno ainda mais preocupante: a erosão moral e política do centro democrático. Por décadas, governos sucessivos evitaram enfrentar contradições estruturais de suas sociedades — a precariedade laboral, o abandono de regiões periféricas, o envelhecimento populacional, os custos da transição energética. Ao não responderem a essas tensões, deixaram vagas áreas essenciais do debate político, prontamente ocupadas por atores que transformam ressentimento em arma e conflito identitário em estratégia eleitoral. A extrema-direita prospera porque ocupou territórios que o centro abandonou.

À medida que acumula influência, essa nova direita radical segue uma lógica consistente: primeiro, ataca a independência da imprensa, acusando-a de parcialidade; depois, questiona a legitimidade do Judiciário; por fim, tenta redesenhar regras eleitorais, restringir direitos fundamentais e ocupar instituições de controle democrático.
A democracia não desmorona de uma vez; degrada-se por meio de pequenas mudanças estratégicas, sempre justificadas como medidas “necessárias”, “urgentes” ou “em nome do povo”. Assim é que o autoritarismo se normaliza.

SINAIS – A Europa enfrenta esses sinais em várias frentes. Em diversos países, há tentativas discretas de influenciar nomeações de juízes, limitar a atuação de órgãos de fiscalização, pressionar veículos de comunicação críticos ou reescrever regras eleitorais sob o pretexto de garantir “estabilidade governamental”. Ao mesmo tempo, pressões migratórias, desigualdades territoriais, insegurança econômica e os efeitos persistentes da guerra criam um ambiente em que discursos radicais ganham terreno com facilidade.

A crise climática — com seus custos elevados e impactos desiguais — intensifica percepções de injustiça. Paralelamente, a proliferação de desinformação digital e o aumento da polarização reduzem a capacidade coletiva de diálogo, compromisso e moderação.

O maior perigo, no entanto, não está apenas no sucesso eleitoral da extrema-direita. O risco real surge quando partidos democráticos passam a adotar parte de sua retórica — normalizando ideias antes inaceitáveis e empurrando todo o espectro político para posições mais duras. Quando o discurso do medo se torna parâmetro de governança, até a política tradicional se contamina. O extremismo vence não apenas quando chega ao poder, mas quando redefine os limites do possível.

INSTABLIDADE – Portugal — como qualquer país europeu — não está imune a essas forças. A instabilidade do continente influencia o ambiente interno, molda expectativas e pressiona instituições. A crise da habitação, a desigualdade econômica, a fragmentação partidária e a crescente polarização tornam o país vulnerável às mesmas dinâmicas que já remodelam democracias vizinhas. Proteger a democracia exigirá, portanto, muito mais do que declarações formais: é preciso reformas profundas, vigilância cívica e capacidade de antecipação política.

A resposta necessária deve ser firme e estrutural. Passa pelo fortalecimento das instituições públicas, pelo combate efetivo à corrupção, por políticas sociais que reduzam desigualdades e por um compromisso inequívoco com o pluralismo democrático. Inclui também a revalorização do espaço público como ambiente de debate racional e informado — algo impossível sem imprensa forte, educação cívica robusta e transparência governamental.

A democracia não está perdida — mas está fragilizada. E é na fragilidade que os autoritarismos prosperam. Evitar uma regressão democrática passa por reconstruir a confiança dos cidadãos, devolvendo-lhes segurança econômica, expectativas realistas e a convicção de que o sistema democrático ainda é capaz de entregar justiça.

CONSEQUÊNCIA POLÍTICA – A ascensão da extrema-direita não é destino inevitável; é consequência política. E tudo aquilo que é consequência pode ser transformado. A questão essencial já não é “como chegamos aqui?”, mas “quais escolhas faremos agora?”.

O futuro da democracia europeia não depende apenas das urnas, mas da determinação coletiva em proteger seus alicerces — antes que o silêncio da resignação se torne o som final de uma era que acreditávamos ter superado.

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Nova York em disputa: Zohran Mamdani e a reconfiguração do poder urbano

Eleição de Mamdani reabre o futuro político dos EUA

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

Enquanto o trumpismo transforma o imigrante em ameaça, Nova York se afirma como obra coletiva das diásporas. A eleição de Zohran Mamdani reabre o futuro político dos Estados Unidos a partir do território concreto da vida urbana.

Nova York não enviou apenas um recado — lançou um aviso. A vitória de Mamdani marca uma virada histórica: não se trata de administrar a cidade tal como ela existe, mas de disputar o que ela pode vir a ser. A capital simbólica do capitalismo global transforma-se, agora, no laboratório da sua própria contestação. O resultado expressa o esgotamento do consenso neoliberal e recoloca no centro a pergunta que o establishment tentou enterrar: quem tem direito à cidade?

COMANDO POLÍTICO – Pela primeira vez, um socialista declarado — negro, filho de imigrantes ugandeses de origem indiana, formado na luta contra despejos e defensor de políticas universais — assume o comando político da cidade que, durante décadas, sintetizou desigualdade, especulação imobiliária e finanças desreguladas. Não se trata de uma simples alternância de poder: é uma ruptura na gramática política dos Estados Unidos.

Durante quase meio século, Nova York funcionou como vitrine do dogma que equiparou desenvolvimento urbano à acumulação privada. Mamdani desfaz essa naturalização. Recoloca a habitação, o transporte, o espaço público e o controle democrático do solo urbano como fundamentos — e não como concessões marginais. Desestabiliza a lógica que transformou o território em ativo financeiro e a vida urbana em sobrevivência permanente.

Contra o pragmatismo defensivo que se tornou reflexo do Partido Democrata, emerge a possibilidade de uma cidade orientada para a vida comum — e não para a rentabilidade de poucos. Não é apenas um programa de gestão: é uma reconfiguração da própria ideia de cidadania urbana.

ROSTO E RUA – A genealogia desse momento tem rosto e tem rua. A virada municipalista foi construída por movimentos de base — sindicatos de inquilinos, campanhas contra despejos, organizações de trabalhadores essenciais — mas também por figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, que legitimaram a justiça econômica não como horizonte moral, mas como proposta governável. Mamdani não surge como exceção: ele é produto de um ciclo consistente de educação política e mobilização social.

A batalha decisiva, porém, será travada onde o poder real se concentra: fora dos parlamentos. Em Nova York, grande parte da governança urbana opera na sombra — fundos imobiliários, fundos de pensões, incorporadoras e consultorias de zoning moldam o cotidiano por mecanismos extraeleitorais. O desafio é transformar programa em norma, norma em política, política em estrutura — resistindo à litigância estratégica, à sabotagem regulatória e às manipulações de mercado.

PRECEDENTES – Há precedentes internacionais. Barcelona, Berlim, Viena e, em menor escala, Lisboa, experimentaram regulamentações antiespeculativas, expansão da habitação pública e mobilização cívica. Os resultados mostram o essencial: reverter a financeirização é possível, mas a contraofensiva econômica é persistente e tecnicamente sofisticada. A transformação exige política — mas também paciência, perícia jurídica e astúcia institucional.

No plano nacional, o impacto é explosivo. Em um país onde Donald Trump consolidou poder transformando o imigrante em ameaça, Mamdani afirma a cidade como obra coletiva das comunidades que a constroem. Para o trumpismo, a presença estrangeira é risco; para Nova York, é fonte de vitalidade. Não é apenas divergência ideológica — é disputa sobre quem pertence à América do século XXI.

DISPUTA MATERIAL – Nada, porém, está garantido. Fora das metrópoles, a retórica anti-imigração continua ancorada na desindustrialização, na precariedade e no ressentimento. Mamdani representa uma alternativa — não uma hegemonia. A disputa será material: no aluguel, no transporte que funciona ou falha, no salário que permite ou não viver. É na economia do cotidiano que o futuro político dos Estados Unidos será decidido.

Dentro do Partido Democrata, o desconforto é evidente. Uma geração jovem, multirracial e urbana exige redistribuição e direitos sociais; a elite partidária teme que a palavra “socialismo” feche portas nos subúrbios e no Meio-Oeste. Mamdani pode inaugurar um novo realinhamento — ou ser isolado como excentricidade municipal. A chave será enfrentar o lobby imobiliário — o verdadeiro governo invisível da cidade.

O laboratório está aberto. E, se der certo, a velha ordem não voltará intacta.

A verdadeira segurança se constrói com investimento social e presença do Estado

Gaza: a trégua que nunca chega e o cessar-fogo que não acontece

Bombardeios prosseguem em várias zonas de Gaza

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A tão anunciada interrupção da guerra no território palestino revelou-se, mais uma vez, uma ilusão diplomática. Apesar dos comunicados triunfais e das fotografias cuidadosamente encenadas nas capitais ocidentais, o som das explosões continua a ecoar sobre as ruínas de um território exausto, onde a população civil tenta sobreviver entre promessas de cessar-fogo e a brutalidade quotidiana das operações militares. A retórica da paz transformou-se, neste conflito, num instrumento político — não numa realidade no terreno.

Nas últimas semanas, governos e organismos internacionais celebraram o que chamaram de “pausa humanitária”, fruto de negociações entre Israel, mediadores regionais e a Organização das Nações Unidas. Contudo, como sublinhou António Guterres, Secretário-Geral da ONU, o que se observa em Gaza está longe de constituir uma trégua autêntica: os bombardeamentos prosseguem em várias zonas, os corredores humanitários funcionam de forma intermitente e a ajuda que entra permanece manifestamente insuficiente perante a catástrofe em curso.

SEM GARANTIAS – A dimensão prática dessa limitação é devastadora. Agências humanitárias e organismos das Nações Unidas relatam que o fluxo de alimentos, água, combustível e medicamentos está muito aquém do necessário. Muitos caminhões ficam horas retidos nos controlos fronteiriços ou são desviados, e o acesso a Gaza City e às áreas do Norte continua severamente restringido. Sem corredores seguros e sem garantias de distribuição, o auxílio transforma-se em imagens e estatísticas — não em socorro real às famílias encurraladas.

Politicamente, o suposto compasso de alívio está refém de interesses contraditórios. A intervenção diplomática de Washington, fortemente influenciada por Donald Trump, construiu uma narrativa ambígua: por um lado, exalta-se a negociação que permitiu a libertação de reféns e a abertura limitada de rotas de ajuda; por outro, declarações sobre a Cisjordânia — incluindo o anúncio do presidente norte-americano de que não permitirá uma anexação formal — misturam-se a gestos que alimentam desconfianças regionais. Essa ambivalência mina qualquer consolidação de confiança: a diplomacia que proclama paz, enquanto impõe condições territoriais, inviabiliza um acordo duradouro.

No interior de Israel, a dinâmica política agrava o impasse. O governo de Benjamin Netanyahu equilibra pressões internas — vindas da direita mais dura e das suas coligações — com advertências externas quanto aos riscos humanitários e diplomáticos.

RECONSTRUÇÃO – A narrativa oficial de “eliminar a ameaça” do Hamas serve de justificativa para operações de larga escala; o resultado é a destruição de infraestruturas civis e um êxodo interno que as agências internacionais descrevem como cataclísmico. As necessidades de reconstrução já atingem proporções que apenas a ONU e as organizações humanitárias conseguem dimensionar, enquanto as promessas de apoio revelam-se incapazes de restaurar os serviços básicos.

A ONU é taxativa: é imprescindível uma cessação duradoura das hostilidades e mecanismos verificáveis que protejam civis e assegurem a assistência. As palavras de Guterres — elogiando os avanços diplomáticos, mas exigindo cumprimento e escala da ajuda — revelam uma contradição estrutural do sistema internacional: há vontade declarada, mas faltam instrumentos de garantia e pressão efectiva sobre os actores que controlam fronteiras e rotas de abastecimento.

MEDIDAS URGENTES – Que medidas urgem para que este interregno não se reduza a propaganda? Em primeiro lugar, a criação de corredores humanitários realmente seguros, supervisionados por observadores independentes e com acesso incondicional das agências.

Em segundo, um compromisso público e verificável para multiplicar as entregas diárias — para além das promessas — e assegurar que combustível e insumos médicos cheguem sem entraves.

Em terceiro, uma acção diplomática coordenada — europeia e multilateral — que vá além das declarações: sanções direccionadas, condicionamento de apoios militares e vetos operacionais devem ser considerados instrumentos legítimos de protecção de civis.

ENFRENTAMENTO – Por fim, é indispensável iniciar um processo político que enfrente as causas estruturais do conflito: a ocupação, os bloqueios e a ausência de um quadro credível para a paz. Sem isso, qualquer pausa humanitária será apenas um prelúdio para nova escalada.

Em Gaza, as pessoas não vivem — resistem. A promessa de um alívio temporário converteu-se num instrumento de propaganda útil a governos que necessitam demonstrar sensibilidade enquanto preservam intactos os alicerces da guerra. E, enquanto se negoceia cada transporte de farinha, cada litro de combustível, cada evacuação médica, a trégua continua a ser apenas uma palavra — uma miragem num deserto de cinzas.

ENCENAÇÃO – Falar de Gaza impõe uma questão ética inescapável: trata-se de um conflito a ser observado à distância ou de uma realidade que exige acção efectiva da comunidade internacional? A resposta requer determinação política — para condenar violações do direito internacional, exigir responsabilização e orientar as políticas externas segundo a defesa da vida humana. Sem essa coragem, qualquer cessar-fogo não passará de uma encenação momentânea de esperança, enquanto a tragédia prossegue no silêncio devastador das cidades em ruínas.

O conflito no território palestiniano é hoje o espelho de um mundo onde a moral se mede pela conveniência política. Israel insiste em que luta pela sua segurança; os Estados Unidos afirmam que procuram estabilidade; a ONU pede o impossível; e a Europa observa, dividida, o colapso de mais uma promessa de paz. O resultado é uma tragédia em câmara lenta, onde o cessar-fogo nunca cessa e a paz é sempre adiada.

O teatro do Conselho de Ética e a absolvição de Eduardo Bolsonaro

A implosão da direita: anatomia do efeito Eduardo Bolsonaro