
Trump pretende controlar mercados e reconfigurar soberanias
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Nos primeiros dias deste ano, a Venezuela voltou a ocupar o centro do tabuleiro geopolítico internacional — não apenas como um país submetido a uma prolongada crise interna, mas como território-chave de uma estratégia norte-americana que articula poder militar, tutela econômica e projeção global de influência.
Após a operação conduzida pelos Estados Unidos, apresentada por Washington como decisiva para a remoção de Nicolás Maduro, a administração do presidente Donald Trump tornou público um plano que ultrapassa amplamente o discurso da “estabilização democrática” e adentra o terreno explícito da reorganização forçada de uma economia soberana.
EIXOS – O desenho estratégico se sustenta em três pilares centrais: a apropriação de uma parcela substancial da produção petrolífera venezuelana, a gestão direta de sua inserção nos mercados internacionais e a vinculação rigorosa das receitas obtidas à compra exclusiva de bens e serviços de origem norte-americana. Em conjunto, essas medidas configuram o que um número crescente de analistas internacionais identifica como uma forma contemporânea de neocolonialismo energético — uma prática que, embora adaptada aos instrumentos do século XXI, reproduz lógicas históricas de subordinação econômica, dependência estrutural e esvaziamento efetivo da soberania dos Estados detentores de recursos estratégicos.
De acordo com declarações oficiais da Casa Branca, o plano prevê a transferência de dezenas de milhões de barris de petróleo venezuelano para portos dos Estados Unidos, onde seriam comercializados sob supervisão direta das autoridades federais. As receitas dessas vendas não retornariam livremente a Caracas. Ficariam condicionadas à aquisição de produtos “exclusivamente americanos”, incluindo bens agrícolas, medicamentos, máquinas industriais e equipamentos destinados à reconstrução de infraestruturas consideradas críticas.
Donald Trump descreveu esse modelo como uma parceria “inteligente” e “mutuamente vantajosa”, ressaltando que os Estados Unidos passariam a ocupar o posto de principal parceiro econômico da Venezuela. Uma leitura geoeconômica mais rigorosa, contudo, revela que não se trata de um acordo comercial convencional.
DEPENDÊNCIA – Ao definir previamente o destino dos rendimentos gerados pelo principal recurso do país, Washington transforma o petróleo venezuelano em um instrumento ativo de política industrial externa, concebido para estimular a produção interna dos EUA, assegurar mercados cativos às suas empresas e fortalecer cadeias de valor domésticas. Na prática, a economia venezuelana é empurrada para uma órbita de dependência funcional, com margens severamente reduzidas para estabelecer relações econômicas autônomas com outros atores globais.
Esse tipo de arquitetura econômica está longe de ser uma novidade histórica. Remete, em diversos aspectos, aos acordos extrativos impostos por potências imperiais nos séculos XIX e XX, quando recursos naturais eram explorados em territórios periféricos e os lucros sistematicamente canalizados para os centros de poder. A diferença reside na forma, não na substância: em vez de administrações coloniais formais, o controle se exerce hoje por meio de sanções financeiras, restrições logísticas, supervisão institucional e enquadramentos jurídicos assimétricos.
As receitas resultantes da comercialização do petróleo ficariam sob custódia do Tesouro norte-americano, com a administração Trump assegurando que seriam utilizadas “em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. A formulação é reveladora da lógica subjacente: quem define esse benefício, em que termos e com quais prioridades? A resposta implícita é inequívoca — o poder decisório reside fora das fronteiras venezuelanas.
REAÇÕES – No plano diplomático, as reações têm sido marcadas por inquietação explícita. Em diversas capitais do Sul Global, assim como em fóruns multilaterais, multiplicaram-se manifestações que denunciam o retorno de práticas neocoloniais travestidas pela linguagem da “reconstrução” e da “ordem econômica”. Países africanos e latino-americanos alertaram para a normalização de um precedente perigoso: a apropriação indireta de recursos estratégicos de Estados soberanos com base na assimetria de poder político e militar.
Esse cenário é agravado pelo contexto das sanções internacionais que, nos últimos anos, reduziram drasticamente o leque de opções comerciais da Venezuela. Mercados tradicionais, como a China — durante décadas um dos principais destinos do petróleo venezuelano — foram progressivamente afastados por restrições financeiras e operacionais impostas por Washington. Esse estrangulamento prévio transforma a “parceria” oferecida pelos Estados Unidos menos em uma escolha soberana e mais em uma imposição decorrente da ausência de alternativas viáveis.
Representantes do governo venezuelano, incluindo a vice-presidente Delcy Rodríguez, têm buscado enquadrar as negociações como parte de relações comerciais reguladas e transparentes. Ainda assim, a assimetria estrutural é evidente: a tutela externa sobre as receitas, a manutenção seletiva de sanções e a presença direta de interesses norte-americanos no setor energético reduzem de forma significativa a autonomia decisória do Estado venezuelano.
OBSTÁCULOS – A viabilidade econômica do projeto enfrenta, além disso, obstáculos substanciais. A indústria petrolífera venezuelana encontra-se fragilizada por décadas de subinvestimento, deterioração técnica e bloqueios financeiros. Especialistas internacionais estimam que seriam necessários investimentos de dezenas de bilhões de dólares para recuperar níveis de produção comparáveis aos do passado. Grandes empresas energéticas permanecem cautelosas diante de um ambiente de instabilidade política e tutela externa, no qual as regras do jogo podem ser alteradas de forma unilateral.
Para além da dimensão econômica, a estratégia delineada por Trump possui uma leitura geopolítica inequívoca. O reforço do controle sobre o petróleo venezuelano também busca conter a influência de potências rivais, como China e Rússia, em uma região historicamente sensível para os interesses de Washington. Moscou e Pequim já classificaram as medidas como violações do direito internacional, alertando para o risco de institucionalizar a captura indireta de recursos naturais sob pretextos políticos.
No debate interno norte-americano, os defensores da administração Trump apresentam o plano como uma oportunidade para revitalizar a indústria energética e manufatureira dos EUA, gerar empregos e reduzir dependências externas. Essa narrativa de “ganhos mútuos”, contudo, esbarra em uma realidade incontornável: enquanto empresas americanas consolidam mercados e ampliam lucros, os benefícios concretos para a população venezuelana permanecem incertos, sobretudo quando as receitas fundamentais do país são rigidamente condicionadas e administradas fora de seu território.
DOMINAÇÃO ECONÔMICA – O caso venezuelano ilustra, assim, uma tendência mais ampla das relações internacionais contemporâneas: o retorno de formas sofisticadas de dominação econômica, nas quais o controle de recursos estratégicos substitui a ocupação territorial clássica. O petróleo deixa de ser apenas uma mercadoria e se afirma como vetor de poder, capaz de redesenhar soberanias, alinhar economias e reconfigurar equilíbrios regionais.
O que está em jogo não é apenas o futuro da Venezuela, mas um precedente com implicações globais. Se o controle indireto dos recursos naturais de um Estado soberano passa a ser aceitável sob a retórica da estabilidade ou da reconstrução, abre-se caminho para uma ordem internacional em que a força econômica e militar volta a se sobrepor ao direito e à autodeterminação.
O neocolonialismo, longe de ser um resíduo do passado, reaparece plenamente adaptado ao presente — com novas ferramentas, nova linguagem e a mesma lógica implacável. Já não se impõem símbolos de poder, impõem-se contratos; já não se ocupam territórios, capturam-se fluxos econômicos. No fim, a equação permanece intacta: quem domina a energia molda o poder — e quem molda o poder arroga-se o direito de decidir o destino das nações.
O “comandante” confidenciou a Aaron Russo os passos internacionais que foram e que seriam dados internacionalmente através de seus para tanto locupletos e alçados servos mundiais e a Venezuela seria, como está sendo, uma dessas etapas, então constatemos as previsões, em:
https://youtu.be/N3NA17CCboA?si=cxDadpNKLGykFVWB
Deveria ser suficiente para vestirem a desavergonhada carapuça e conforme divinamente vaticinado: “Sairem dessa babilonia politico/relgiosa, para não incorrerem e pagarem por seus pecados e crimes!”
Sr. Newton
A grande diferença entre Advogados e adEvogados….
Alguns adEvogados são Amigos dos Amigos do Meu Pai, Irmão, Tio, Primos, Pelegos & cia Ltda…
Lá no Páis do Xing Ling Pinga já tinham resolvido o problema com um paredón e a bala paga pela famíglia….
Resort que uniu fundo ligado a Vorcaro e parentes de Toffoli hoje pertence a advogado da JBS
OUTRO LADO: Vorcaro nega irregularidades; JBS diz que não tem qualquer relação com as empresas citadas ou qualquer outro negócio do advogado
Depois da saída dos irmãos de ministro, primo de Toffoli permaneceu por cinco meses como sócio de empreendimentos
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/01/resort-que-uniu-fundo-ligado-a-vorcaro-e-parentes-de-toffoli-hoje-pertence-a-advogado-da-jbs.shtml
aquele abraço
Trump joga com os dois lados: elogia Dercy, encontra-se com Corina.
Utiliza a mesma estrutura de poder criada por Chavez e utilizada por Maduro.
Porque é mais eficaz e barato.
A tática não é nova.
Carrega pelo menos cinco séculos neste continente.
Segundo notícia divulgada, 1/3 dos portos africanos já estão nas mãos dos chineses
Segundo notícia do Poder360, tem um navio chinês aqui no Brasil, que pode obter informações estratégicas sobre os portos do Brasil
https://www.poder360.com.br/poder-internacional/falta-de-clareza-e-tensao-marcam-missao-de-navio-chines-ao-brasil/