“O brasileiro convive bem com o escândalo moral”, dizia o poeta Thiago de Mello

Tribuna da Internet | Thiago de Mello, um poeta que não aprendeu a lição de  que é melhor ser acomodadoPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta amazonense Thiago de Mello (1926-2022), sempre atento à realidade de seu país, analisou em versos as agruras da política nacional, ao compor “Diário de um Brasileiro”, um poema que mostra a realidade de nosso dia a dia.

DIÁRIO DE UM BRASILEIRO
Thiago de Mello

O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.

O Presidente diz pela televisão
que “é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos”.
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.

O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.

Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.

O povo, um dia…
Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.

3 thoughts on ““O brasileiro convive bem com o escândalo moral”, dizia o poeta Thiago de Mello

  1. Em assuntos que tais, sou mais o Zé Guilherme Merquior: “Thiago de Mello é um mau poeta, com uma vantagem: entre os maus é o pior”.

  2. Enfim venci
    =========

    Quando pequeno era pobre
    Carne de boi era coisa de nobre
    E era o feijão que me mantinha de pé

    Ao fim do dia, a Deus agradecia
    Com duas ou mais ave-marias
    E terminava com um padre-nosso
    Mas sempre duvidei da minha fé

    Hoje, experimentado e curtido
    Me dou por feliz e bem vivido
    E troquei minhas idas à igreja
    Pela praça, tira-gostos e cerveja

  3. Prefiro o soneto de Bocage em seu epitáfio.

    Lá quando em mim perder a humanidade
    Mais um d′aquelles, que não fazem falta,
    Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
    Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

    Não quero funeral communidade,
    Que engrole sub-venites em voz alta;
    Pingados gatarrões, gente de malta,
    Eu tambem vos dispenso a caridade:

    Mas quando ferrugenta enchada idosa
    Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
    Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

    «Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
    Passou vida folgada, e milagrosa;
    «Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

    Notas

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