Lula erra feio ao usar o bolsonarismo como “espantalho” para ganhar eleição

Charge do Clayton (Jornal do Commercio)

Diogo Schelp
Estadão

Em outros tempos, os planos de reeleição de Lula não deveriam suscitar tantas dúvidas e preocupações entre seus aliados e apoiadores. Seu terceiro mandato desfruta de estabilidade política, sem as tensões produzidas pelo Poder Executivo contra o Judiciário, o Legislativo e os governadores estaduais durante o governo de Jair Bolsonaro, e cumpriu a promessa de manter a ordem democrática no País, apesar das fragilidades que persistem.

Os indicadores econômicos não são dos piores — sem entrar, aqui, no mérito do custo fiscal disso no longo prazo, apenas na discussão sobre os efeitos eleitorais imediatos.

VOO DE GALINHA – O crescimento do PIB faz o seu tradicional voo de galinha, o índice de inflação em 2025 foi o mais baixo desde 2019 e a taxa de desemprego está em sua mínima desde o início da série histórica de 14 anos, apesar de embutir ainda um nível alto de informalidade.

Ou seja, o desempenho econômico não é brilhante, mas tampouco é desesperador. Para quem tem a caneta presidencial na mão, deveria ser o suficiente para obter a continuidade no poder com relativa facilidade.

O que se tem verificado, contudo, é uma avaliação negativa do governo Lula que supera a positiva e uma leve tendência de queda nas pesquisas de intenção de voto, com o principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pontuando até melhor, segundo alguns institutos. Há explicações de todos os gostos para esse fenômeno, e é provável que todas elas contribuam em alguma medida para o quadro geral.

EXISTEM ABISMOS – Há, por exemplo, problemas econômicos ou abismos entre renda média e percepção de renda individual que não são captados pelos indicadores oficiais.

Além disso, a segurança pública e a corrupção se consolidam como principais preocupações dos brasileiros, mas o governo do PT não conseguiu apresentar legitimidade e apetite para enfrentá-las.

Por fim, programas assistencialistas agora são considerados fatos da vida. A parcela da população que precisa deles assume que o governante não faz mais do que a obrigação em mantê-los e ampliá-los.

SEM SURPREENDER – Essas e outras razões para a falta de entusiasmo dos brasileiros com Lula podem ser resumidas no maior fracasso do seu terceiro mandato: a incapacidade de surpreender.

Lula não foi eleito em 2022 com grandes expectativas por parte dos eleitores. Menos da metade achava que ele faria um governo bom ou ótimo, segundo pesquisa Datafolha feita após a sua posse.

Seu maior mérito como candidato foi ser um anti-Bolsonaro. Não havia ideias nem promessas novas. Os primeiros atos de Lula consistiram no relançamento de programas já existentes ou descontinuados pelo governo anterior.

LINHA DO TEMPO – Lula se propôs, no seu retorno, a restaurar uma linha do tempo interrompida pelas gestões de Michel Temer e Bolsonaro — ignorando que, por muitos outros motivos, nem todos relacionados à política, o mundo e o Brasil mudaram.

Lula passou os últimos três anos desperdiçando a chance de mostrar que tem uma visão de futuro para o Brasil conectada aos anseios e aos medos do tempo atual.

Sem isso, só lhe restará recorrer, mais uma vez, ao espantalho do bolsonarismo para vencer as eleições.

4 thoughts on “Lula erra feio ao usar o bolsonarismo como “espantalho” para ganhar eleição

  1. Falta a Orbán uma dinastia como a dos Bolsonaros.

    Lula pensa que vai ganhar perante a péssima qualidade dos concorrentes.

    Mas Lula pode estar caminhando para PERDER POR W.O.

  2. Sem anistia. Sem dosimetria

    Votação do veto de Lula ao PL que reduz pena de Bolsonaro reacende debate sobre anistia, adocicada com o apelido de dosimetria

    É cedo para dizer se o veto do presidente Lula ao PL da dosimetria será ou não derrubado pelo Congresso no dia 30, data marcada pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP) para apreciação da matéria.

    O certo é que daqui até lá o perdão a golpistas, debate que emperrou o país no segundo semestre de 2025, volta à cena. Agora, acrescido pela métrica eleitoral.

    O time de Flávio está animado – se o veto cair, a pena de 27 anos e 3 meses do ex-mito pode ser reduzida para pouco mais de 2 anos. Mas a maioria dos brasileiros endossa o veto ao PL. A dosimetria é rejeitada por 63,3% da população, segundo pesquisa Atlas/Bloomberg.

    Dosimetria é anistia adocicada. Uma farsa para driblar o repúdio popular ao perdão aos condenados pela tentativa de golpe. A ideia foi costurada pelo deputado Paulinho da Força (SD-SP), a partir de aconselhamentos do ex-presidente Michel Temer.

    À época, o parlamentar apresentou o projeto como medida para a “pacificação do país”. Não conseguiu enganar ninguém.

    Hoje, Paulinho não tem escrúpulos em confirmar que o texto vetado por Lula é anistia na veia. “Estou convencido de que no dia 30 esse veto será derrubado e as pessoas que estão presas vão sair da cadeia. Todas elas. Não ficará nenhuma na cadeia”, disse em entrevista ao Poder e Mercado, canal do UOL, dias atrás.

    E completou: “As penas daqueles que foram considerados mandantes serão bastante reduzidas. Por exemplo, a pena do Bolsonaro ficaria em dois anos e quatro meses. Como ele já cumpriu uma parte, reduziria ainda mais”.

    A diminuição da pena para Bolsonaro e militares condenados se daria devido à unificação dos crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Só um dos delitos passaria a valer.

    Com isso, aplica-se a regra do concurso formal próprio, que impede o acúmulo de condenações.

    O PL cria outras distorções severas na estrutura penal. Dirigido exclusivamente aos condenados que atentaram contra a democracia e, de forma explícita, aos que participaram dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, a dosimetria agride o princípio constitucional de que a lei deve ser geral, abstrata e impessoal.

    Esse foi um dos argumentos elencados por Lula ao proceder o veto, que, caso seja derrubado, deve ancorar arguições de constitucionalidade junto ao STF.

    Para derrubar um veto é preciso maioria absoluta de votos, metade mais um da Câmara e do Senado. Isto é, 257 dos 513 deputados e 41 dos 81 senadores, quórum que exigirá intensa mobilização de ambos os lados.

    Mas o resultado da aprovação do PL, se repetido, imporia derrota a Lula. Na Câmara, a dosimetria recebeu 291 votos favoráveis e 158 contra. No Senado, o placar foi de 48 versus 25.

    Os governistas precisariam mudar o voto ou conseguir a abstenção de 35 deputados e 8 senadores para garantir o veto. Isso, um dia depois de lutar no Senado para tentar aprovar a indicação do atual Advogado-Geral da União, Jorge Messias, para o STF, com sabatina marcada para o dia 29.

    Será um teste de fôlego para Lula promovido pelo mui amigo Alcolumbre, que fez questão de marcar as duas datas coladinhas.

    Ainda que a condução do processo contra os golpistas não esteja em xeque, o desgaste do STF, em especial do ministro Alexandre de Moraes, tido como algoz do ex-mito, também pode ter algum peso na balança.

    No mínimo, vai alimentar as redes sociais bolsonaristas, na tentativa de desacreditar as decisões do ministro.

    Mas a oposição também não terá vida fácil. Em ano eleitoral, é mais custoso arregimentar deputados para votar uma matéria antipopular, que vai na contramão da opinião da maioria dos brasileiros.

    Mais: o debate pode reavivar reações contra a anistia renovando o discurso em defesa da democracia, portanto, pró-Lula.

    Como em toda batalha, é difícil prever resultados. Mas uma coisa é certa: dosimetria é anistia disfarçada. E perdão a golpistas não combina com democracia. Talvez seja preciso voltar às ruas.

    Fonte: Metrópoles, Política, Opinião, 12/04/2026 09:00 Por Mary Zaidan

    Texto relevante.

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